29 a 03 de outubro de 2008

Comércio Exterior

Resultados
Importadores da Europa e Ásia já cancelam pedidos
Múltis asiáticas assumem controle dos negócios no País
Governo estuda socorro ao exportador
Crédito externo de exportação cai 19%
País quer limitar têxteis chineses

Agronegócio

Exportação avícola à Europa muda amanhã

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Mandelson sai e esfria retomada de Rodada Doha

Plano Internacional

Mandelson volta para socorrer Brown



Comércio Exterior

a) Resultados

A crise financeira mundial levou o Brasil a perder, entre os dias 1º e 26 passados, US$ 3,507 bilhões pelo fluxo financeiro, que contabiliza os movimentos de câmbio com investimentos em ações, títulos, remessas de lucros e dividendos, entre outros. De acordo com o Banco Central (BC), o dia 15 foi o mais complicado, com saídas líquidas de US$ 1,299 bilhão, justamente no período em que a turbulência foi bem maior, com a quebra do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos.

Dos dias analisados no mês passado, apenas seis não apresentaram fluxo negativo. As compras no período somaram US$ 27,442 bilhões e as vendas, US$ 30,949 bilhões. Apesar de toda a tensão, setembro deve fechar com perdas financeiras menores do que as vistas em junho e julho, com pouco mais de US$ 5 bilhões cada. “Devemos ver saídas um pouco menores, porque os investidores parecem que já refizeram boa parte de seus prejuízos no exterior. Mas, caso a crise piore muito, tudo pode mudar, afirmou o gerente de câmbio da corretora Souza Barros, Vanderlei Arruda, referindo-se sobretudo às vendas de ações e títulos no Brasil pelos investidores de fora para neutralizar perdas em seus países de origem.

Mesmo com as saídas financeiras, o fluxo cambial do país (entrada e saída de moeda estrangeira) estava positivo no mês em US$ 2,749 bilhões, impulsionado pelo fluxo comercial, que apresentava saldo positivo de US$ 6,256 bilhões. O valor era o melhor, considerando meses fechados, desde abril, quando ficou em US$ 8,427 bilhões. No acumulado do ano, o fluxo cambial total está positivo em US$ 17,134 bilhões, enquanto a conta financeira somava saldo negativo de US$ 25,403 bilhões. A conta comercial, por sua vez, era superavitária em US$ 42,537 bilhões.

A crise financeira que abala a economia global ainda não afetou o comércio exterior brasileiro. A balança comercial divulgada ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e comércio exterior apresentou superávit de US$ 2,7 bilhões em setembro. Nos nove meses deste ano, as exportações somaram US$ 150,868 bilhões, valor recorde e 28,7% superior, pela média diária, a igual período de 2007.

As importações totalizaram US$ 131,2 bilhões, 52% acima das de igual intervalo do ano passado. O superávit comercial acumulado no ano caiu para US$ 19,6 bilhões contra US$ 30,9 bilhões verificados em 2007. Segundo o secretário de comércio exterior, Welber Barral, os números apontam para a meta de US$ 202 bilhões estabelecida para as vendas do Brasil.

b) Importadores da Europa e Ásia já cancelam pedidos

O crédito para exportação, que estava escasso na semana passada, secou de vez para as empresas, após a rejeição, pelo Congresso americano, do pacote de ajuda de US$ 700 bilhões às instituições financeiras em crise. Para contornar a restrição de financiamentos, as companhias - e não apenas as exportadoras - já estudam alternativas de emergência para obter recursos financeiros.

"O mercado parou", afirmou Sérgio Amoroso, presidente do Grupo Orsa, um dos maiores grupos do setor de embalagem de papelão e celulose do País, que fatura US$ 800 milhões, dos quais US$ 300 milhões são provenientes de exportações. "Não sei o que vamos fazer", disse. Segundo ele, uma das alternativas é o desconto de duplicatas. "Mas estamos estudando."

Além da restrição do crédito à exportação, Amoroso conta que muitos importadores da China e da Europa decidiram cancelar parte dos pedidos, temendo a desaceleração da demanda em seus países. "O momento é preocupante", resumiu o executivo, que optou por segurar os R$ 30 milhões restantes que investiria no aumento da capacidade de produção das fábricas, programado para até dezembro deste ano.

Além do setor exportador, Ricardo Hingel, diretor do Banrisul, lembrou que outros começam a sentir o impacto da crise de oferta de crédito no dia-a-dia. Nesse rol, ele aponta as lojas de varejo, que têm boa parte das vendas financiadas. "A taxa de juros já subiu e a tendência é encurtamento de prazos de pagamento. Estamos avaliando as políticas de redução", disse.

Também as construtoras, que recentemente abriram o capital e compraram inúmeros terrenos na expectativa de conseguirem facilmente recursos de crédito imobiliário dos bancos para erguer os empreendimentos, começam a recorrer novamente ao mercado para se capitalizarem. Na sexta-feira, por exemplo, a Rossi Residencial distribuiu um comunicado informando que seu conselho de administração tinha aprovado a emissão de debêntures no valor de R$ 40 milhões, com garantia do Banco Votorantim. Segundo o comunicado, a decisão foi tomada para "incrementar a posição positiva de caixa, assegurando maior conforto durante um eventual cenário de contração de crédito".

A construtora Even decidiu no dia 18 aumentar em R$ 150 milhões o seu capital social, por meio de emissão de ações. "As medidas contribuem para a manutenção da sua robustez financeira", disse nota da empresa.

c) Múltis asiáticas assumem controle dos negócios no País

Mais três grandes multinacionais, todas de origem asiática, planejam construir fábricas no Brasil nos próximos dois anos. O trio adotou estratégias semelhantes para a entrada no mercado, iniciando atividades com importações e, depois, partindo para a produção local. Hyundai Heavy Industries, Kawasaki e Suzuki querem um pedaço de três setores que crescem acima da média do País.

A indústria automobilística, setor de atuação da Suzuki, deve crescer 24% em vendas este ano. O segmento de motocicletas, que abrigará a Kawasaki, projeta crescimento de 20%. Já a área de máquinas e equipamentos, puxada pela construção civil, atraiu a Hyundai com faturamento 25% superior ao de 2007 no primeiro semestre. O PIB brasileiro deve crescer por volta de 5%.

A divisão do grupo coreano Hyundai que produz máquinas e equipamentos assumirá a importação oficial de produtos da matriz e, até 2012, vai instalar uma fábrica local. Os planos da empresa serão anunciados na próxima semana.

Há dois anos, os produtos da Hyundai entraram no País por meio de importação feita pela Brasil Máquinas de Construção (BMC), do grupo Comexport e hoje, segundo fontes do setor, detém 22% do mercado de escavadeiras, atrás apenas da Caterpillar, líder com 34% das vendas do equipamento.

A empresa está de olho no aquecido mercado da construção, cuja demanda por equipamentos tem gerado fila de espera para produtos nacionais.

O gerente de produto da Sotreq, maior revendedora Caterpillar no País, José Ricardo Leite, confirma que alguns equipamentos como retroescavadeira, carregadeiras de pequeno e médio porte e compactadores levam de 60 a 120 dias para serem entregues.

"Há uma demanda forte na área de infra-estrutura, com a construção de estradas, por exemplo, e de construção civil, na área de moradias", explica Leite. A Sotreq decidiu ampliar importações para complementar a linha nacional e também oferecer diversificação de produtos. Das vendas atuais do grupo, 40% das máquinas vêm de fora do País, ante 10% há cerca de três anos. A Hyundai Heavy Industries, que deve manter parceria com a BMC, espera vender este ano 2 mil equipamentos no País, contra 800 no ano passado e 270 em 2006.

Há duas semanas, a divisão de automóveis do grupo, a Hyundai Motor, também anunciou uma fábrica no País, em Piracicaba (SP) para produzir um automóvel compacto. A marca já tinha representação no País, o grupo Caoa, que continuará como importador oficial de produtos sem produção local, além de ter permissão para fazer o minicaminhão HR e o utilitário-esportivo Tucson.

Inicialmente, a Hyundai deve investir US$ 600 milhões para uma produção anual de 100 mil veículos a partir de 2011.

A Kawasaki, fabricante japonesa de motocicletas, também anuncia na próxima semana a instalação de uma fábrica em Manaus (AM). A empresa assumirá 100% das operações no País, começando com as importações, hoje feitas por grupos independentes que tinham contrato de representação. A Ava, pertencente a um empresário espanhol, chegou a montar algumas unidades de motos Kawasaki em Manaus, com licença da marca japonesa, mas o negócio foi paralisado.

Outra companhia japonesa que volta ao País como importadora, mas com projeto de ter uma fábrica local é a Suzuki. A marca esteve presente no mercado brasileiro entre 1991 e 2003, período em que vendeu 24,8 mil veículos. Neste mês, apresentou o Grand Vitara, o primeiro modelo que será importado nessa fase de retorno ao Brasil.

Em dois anos, a Suzuki pretende confirmar a construção de uma fábrica em Goiás, Estado que já abriga a Mitsubishi, um investimento do empresário Eduardo Souza Ramos, que também é sócio Suzuki Veículos Brasil (SVB Automotores), criada para comandar as operações da marca no País.

Ao contrário da Hyundai e a Kawasaki, que vão operar diretamente os negócios no País, a Suzuki assinou uma carta de intenção com a SVB garantindo a opção futura para fabricar veículos da marca no País. A participação da matriz japonesa como sócio, porém, não está descartada.

Entre as asiáticas, a japonesa Toyota também anunciou uma segunda fábrica no País, em Sorocaba (SP). Com início de operações previsto para 2011 e cerca de US$ 750 milhões em investimentos terá capacidade para 150 mil veículos/ano.

d) Governo estuda socorro ao exportador

O governo está analisando a adoção de novas "medidas de emergência" para socorrer empresas do setor exportador que estejam encontrando dificuldades para captar recursos no mercado externo. A situação dos exportadores foi apresentada ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que liberou a equipe econômica para apresentar alternativas capazes de neutralizar a forte restrição nas linhas de crédito externas desde o agravamento da crise financeira nos Estados Unidos, há duas semanas.

Os ministros identificaram que o bloqueio do crédito é o que está afetando a economia real do País neste momento. Por isso, o Banco Central (BC) agiu pontualmente e decidiu oferecer dólares ao mercado para desobstruir as operações, por meio da venda associada à compra futura da moeda americana. A medida é importante, mas seu alcance é relativo quando a intenção é garantir crédito para os exportadores.

Como definiu o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, trata-se de uma medida transitória e temporária para restabelecer a liquidez do mercado. Mais: o BC não pode substituir as instituições privadas de crédito e tampouco se converter em um banco de fomento.

O raciocínio que prevaleceu na reunião com o presidente Lula e os ministros da Fazenda, Guido Mantega, do Desenvolvimento, Indústria e comércio exterior, Miguel Jorge, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi na direção de se montar uma "engenharia financeira" para garantir os recursos aos exportadores até que a situação nos mercados mundiais volte à normalidade. "É preciso construir uma ponte para esse momento de transição", disse uma fonte.

Os ministros deixaram o gabinete de Lula com a tarefa de identificar quais os canais disponíveis para que o setor possa captar recursos, mesmo que a um custo um pouco mais elevado do que estavam pagando pelas linhas externas.

A preocupação do governo é com o caixa das empresas, embora a orientação seja de se fazer distinção da situação das empresas, separando, por exemplo, casos como o da Sadia e da Aracruz, que se envolveram em operações no mercado de derivativos e amargaram sérios prejuízos com a valorização do dólar.

Até quinta-feira, a moeda norte-americana se valorizou 20,45%. Os técnicos consideram a possibilidade de que muitas empresas estavam se beneficiando do dinheiro obtido com os contratos de Antecipação de Contrato de Câmbio (ACC), geralmente utilizado como capital de giro, para especular no mercado financeiro.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), endossando as preocupações do setor, apresentou ao governo a proposta de utilização de cerca de US$ 20 bilhões das reservas cambiais para nutrir as linhas de crédito comercial.

"É preciso ver de que ACC se está faltando", disse uma fonte do Ministério da Fazenda, se referindo aos casos em que a linha foi utilizada para a especulação financeira. No entanto, há o reconhecimento de que o governo "não pode deixar o mercado parar". O diretor de Política Econômica do Banco Central, Mário Mesquita, evitou comentar a proposta da Fiesp. "O BC não comenta nem antecipa medidas", disse.

Os ministros estudam a viabilidade da medida e alternativas, incluindo recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para assegurar crédito aos exportadores. Maior financiador do comércio exterior, o Banco do Brasil (BB) também sofre com as restrições de linhas externas.

Ao longo dos últimas semanas, o banco teve de reduzir o valor dos lotes de financiamento para as empresas. Dessa forma, com o mesmo volume de recursos disponíveis, o BB consegue atender a um número maior de empresas, mas com taxas mais caras e prazos mais curtos.

e) Crédito externo de exportação cai 19%

A crise financeira internacional está secando a fonte do crédito para os exportadores brasileiros. Dados do Banco Central (BC) mostram que os empréstimos estão mais difíceis, com juros maiores e prazos menores. Em agosto, o volume de empréstimos para empresas que precisam financiar a exportação diminuiu 6,6% ante julho. Em 12 meses, o tombo é de 19,6%.

Segundo o BC, os exportadores tomaram US$ 6,7 bilhões para financiar as vendas externas. O valor é 32,5% menor que no auge recente da concessão dessa linha de crédito, em abril de 2007. Nesse mês, pouco antes de estourar a crise imobiliária nos Estados Unidos, foram tomados US$ 10,058 bilhões. Não existem dados consolidados de setembro, mas as informações do mercado são de que a situação piorou com o agravamento da crise.

Todos esses dados se referem ao Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC). Essa linha de crédito é usada para financiar a produção de muitos exportadores. Quando uma empresa fecha a exportação, toma empréstimo no banco para comprar a matéria-prima e pagar a produção. O financiamento é quitado quando a empresa recebe o pagamento do cliente estrangeiro e repassa o dinheiro à instituição financeira.

Os contratos são vinculados à cotação do dólar e boa parte dos recursos dessas linhas são obtidos pelos bancos brasileiros em instituições estrangeiras. Com a crise, que disseminou a desconfiança pelo sistema financeiro mundial, essas linhas externas se reduziram drasticamente: os recursos que eram emprestados aos bancos brasileiros migram para opções consideradas mais seguras, como os papéis do governo dos Estados Unidos.

Além de reduzir o volume de novos empréstimos, a crise também encareceu as operações. Segundo o BC, o juro médio desses contratos subiu de 17,1% ao ano em julho para 17,4% no mês passado. A taxa em agosto é 6,3 pontos porcentuais maior que a de 12 meses atrás, de 11,1%.

Para o ex-secretário de Política Econômica e diretor executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Gomes de Almeida, a situação obriga o exportador a buscar alternativas. "O quadro aumentará o custo dos empréstimos. Isso deverá ser repassado às exportações ou pode deixar algumas empresas sem crédito. No limite, prejudicará a competitividade das nossas exportações."

f) Crédito externo de exportação cai 19%

Sofrendo um déficit comercial de US$ 1 bilhão no setor têxtil, o Brasil volta a negociar um acordo limitando as exportações chinesas ao País a partir de 2009. Há três anos, o governo fechou um entendimento com a China, estabelecendo limites para a expansão das vendas de Pequim no mercado brasileiro.

No entanto, o acordo chegará ao fim em dezembro deste ano e o governo já enviou uma primeira missão ao país asiático para alertar que Brasília vai buscar um novo acordo. Diplomatas que participaram da viagem, há poucos dias, revelaram que somente os chineses estão dispostos a dialogar. Mas que caberá ao Brasil apresentar nas próximas semanas um novo plano.

Apenas entre janeiro e agosto deste ano, o setor têxtil brasileiro somou um saldo negativo de US$ 1,11 bilhão. No total, foram importados durante o período US$ 2,57 bilhões em produtos, contra US$ 1,46 bilhão exportados. O resultado é o pior do setor desde 1990.

Para a China, as exportações ao mundo continuam crescendo, ainda que em um ritmo menor. No primeiro semestre deste ano, as vendas aumentaram em 7,9%, atingindo US$ 63,56 bilhões. A taxa de expansão é menor do que a registrada em 2007, quando o setor cresceu em 16%. A queda ocorre diante da desaceleração das economias da Europa e Estados Unidos.

Mas, no caso do Brasil, o mercado continua sendo atraente, principalmente diante das taxas de crescimento do consumo doméstico. No País, as importações de têxteis de todo o mundo aumentaram em 35% de janeiro a agosto deste ano, segundo dados da Associação Brasileira de Indústria Têxtil (Abit). Só no setor de tecidos a alta foi de 53%, contra 49% nas confecções.

Nesta semana, o governo brasileiro ainda negocia maior acesso aos mercados europeus para carne bovina, frango e açúcar. A negociação é parte da ampliação da União Européia para incluir a Bulgária e Romênia.

Com a entrada desses dois países, o Brasil passou a sofrer novas barreiras para seus produtos nesses mercados. Bulgária e Romênia tinham tarifas mais baixas para o açúcar e as carnes e tiveram de aumentá-las para harmonizar com o resto da Europa.

O Brasil agora pede compensações. Quer uma cota de 700 mil toneladas de açúcar para a Europa e 75 mil toneladas para carne bovina. Os europeus oferecem cerca de 100 mil toneladas de cota para o açúcar e apenas 1 mil toneladas para a carne.

Agronegócio

a) Exportação avícola à Europa muda amanhã

Começa a valer o sistema brasileiro de distribuição de certificados de origem para alguns produtos avícolas, o que promete acirrar a disputa entre Exportadores brasileiros e atravessadores da UE (União Européia).

Segundo a Abef (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos), o sistema adotado pelo governo, a pedido do setor privado, tem o objetivo de evitar a perda de cerca de US$ 500 milhões no último ano comercial (julho de 2007 a junho deste ano) por causa de uma distorção no mecanismo de cotas com tarifas mais baixas da UE, que fez surgir um mercado paralelo de licenças de importação.

"Queremos transferir a diferença que ficava no bolso do importador (europeu) para as empresas brasileiras. Queremos deixar de ser colônia", disse o diretor-executivo da Abef, Christian Lohbauer. Como o importador europeu acaba tendo de comprar uma licença de atravessadores que obtêm o papel apenas para negociá-lo no mercado paralelo, ele exige do exportador um desconto na importação do produto que chega, em alguns casos, a cerca de 600 por tonelada -esse é o valor pago pelo documento.

Lohbauer diz que importadores tradicionais não conseguem licenças para todo o volume que operam e acabam recorrendo aos atravessadores.

Segundo a Abef, as exportações avícolas brasileiras somaram US$ 5 bilhões em 2007 e devem chegar a US$ 7 bilhões neste ano.

Lohbauer diz que essa situação ocorreu porque a UE não teve critérios baseados na performance dos importadores para a distribuição das licenças no primeiro ano de validade das cotas, estabelecidas pelos europeus em 2007, após disputa na OMC que culminou com a vitória do Brasil contra uma taxação maior ao frango salgado.

O novo sistema de certificado de origem que será distribuído pelo governo brasileiro às empresas com base na performance do exportador, valerá para as vendas externas do peito de frango salgado, do frango cozido e do peru temperado, produtos para os quais foi estabelecida uma tarifa menor (de 8% a 15,4%) para vendas dentro do limite das cotas. Importações feitas pela UE fora da cota pagam tarifa extra de 1.024 a 1.300 por tonelada. Segundo Lohbauer, com certificados de origem com os mesmos limites de cotas da UE - 170,8 mil toneladas para o frango salgado, 92,3 mil toneladas para o peru temperado e 79 mil toneladas para o frango cozido-, as empresas brasileiras terão maior poder de barganha com importadores europeus.

A UE também reagiu ao novo esquema brasileiro, parando de emitir licenças de importação -isso não significa interrupção do comércio porque ainda há muito papel para ser usado nas mãos dos importadores.

Embora o principal destino da exportação brasileira seja o Oriente Médio, a Europa tem importância na formação do preço internacional, pois é o mercado que melhor paga pelo produto.

Organização Mundial do Comércio (OMC)

a) Mandelson sai e esfria retomada de Rodada Doha

O Comissário de Comércio europeu, Peter Mandelson, deixou ontem o cargo para compor o novo gabinete do premiê britânico Gordon Brown, praticamente acabando com as esperanças de uma retomada da Rodada Doha neste ano.

Entra no lugar a baronesa Ashton, líder trabalhista na Câmara dos Lordes. Aliado de Tony Blair e inimigo político de Brown, Mandelson é uma jogada arriscada do premiê para reunir o Partido Trabalhista e garantir que seu governo chegue ao final do mandato.

Ashton vai chefiar a Comissão de Comércio da UE até meados de 2009, quando acaba o mandato britânico. Líder trabalhista na Câmara dos Lordes, Ashton ocupou cargos de destaque em comissões do Parlamento.

A troca de guarda gerou críticas, sobretudo nos EUA. Um alto funcionário americano, que não quis se identificar, disse que "remover o comissário europeu a esta altura diminui drasticamente qualquer esperança para a retomada da Rodada Doha neste ano".

Por ocupar a comissão transitoriamente, Ashton não deve ter força política para retomar as negociações, que acabaram sem sucesso em julho. Em comunicado, o chanceler Celso Amorim apenas lembrou a luta dos dois pelo sucesso de Doha. O Itamaraty não fez menção a um possível azeitamento da articulação para que as conversas sejam retomadas.

Agora secretário de Negócios do governo britânico, Mandelson foi um dos principais negociadores de Doha. O comissário teve de se desdobrar para unificar a posição européia, dividida entre países mais protecionistas, como França e Itália, e outros mais liberais, caso do norte europeu. Foi criticado por ambos os lados, por ir muito longe e por caminhar pouco.

Também colecionou desafeto, como o ex-representante americano, Robert Zoellick, e a atual, Susan Schwab. Um de seus principais feitos foi a tentativa de reforma dos "instrumentos de defesa comercial".

Mandelson é peça-chave na frágil arquitetura do novo gabinete de Gordon Brown. Nos anos 90, os dois ajudaram a formular o "Novo Trabalhismo", que garantiu a vitória de Tony Blair em 1997. Depois de 11 anos no comando, o partido vive uma forte cisão interna, que levou à queda de Blair e que pode custar a cabeça de Brown.

O atual premiê está tentando reunir o partido para evitar que eleições antecipadas entreguem o governo aos Conservadores. Brown, que foi ministro da Economia e a sombra do governo Blair, amarga baixos índice de popularidade.

Plano Internacional

a) Mandelson volta para socorrer Brown

O polêmico Peter Mandelson abandona o posto de comissário de Comércio da Europa e volta ao governo britânico para ajudar o ex-inimigo Gordon Brown a salvar seu mandato e, acima de tudo, a economia do Reino Unido do desastre da crise financeira. A Comissão Européia confirmou a saída de Mandelson que tinha, entre várias funções, a liderança das negociações da Rodada Doha.

Para diplomatas brasileiros, a mudança no negociador chefe da UE marca o fim de qualquer chance de um acordo na Organização Mundial do Comércio (OMC) neste ano. Mandelson é conhecido como um dos principais "spin doctors" da Europa.

Foi um dos recriadores do Partido Trabalhista no Reino Unido nos anos 90 e, nas negociações da OMC, usou em diversas oportunidades a imprensa para confundir e até surpreender os demais ministros, entre eles o chanceler Celso Amorim.

Mandelson percebeu que teria de apostar todas suas fichas no então jovem Tony Blair como candidato nas eleições de 1994 e reverter anos de domínio dos conservadores no poder. Gordon Brown tomou a atitude como uma traição e, desde então, a relação entre os dois só deteriorou. Mas, agora, com o Partido em dificuldades e prestes a perder o poder, Mandelson retorna à Londres.

Essa será a terceira vez que Mandelson fará parte do gabinete de um primeiro-ministro inglês. A primeira vez foi secretário de Comércio, mas retirado do cargo depois que se descobriu que ele tomou emprestado dinheiro de um outro ministro investigado por corrupção em 1998. Na segunda, atuou como ministro para a Irlanda do Norte, em 2001. Agora, como encarregado da pasta de negócios, caberá a ele uma estratégia para enfrentar a crise internacional.

O novo ministro garantiu que vai começar a trabalhar imediatamente diante da crise. "Nossa economia, como outras, está enfrentando um desafio duro diante da crise global", admitiu.

Com 54 anos, Mandelson descreveu a atual crise como a pior já vista por ele. "Meu papel será o de proteger a nossa economia." Para Brown, "não há ninguém melhor preparado que Mandelson para liderar a economia nesse momento".

Se com Brown a relação hoje é boa, o mesmo não pode se dizer de seu relacionamento com o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Ambos vêm se enfrentando com frequência sobre o comércio - Mandelson critica abertamente o protecionismo de Paris. Sarkozy, porém, preside a UE até o final do ano e hoje reúne em Paris chefes de governo para montar uma estratégia para lidar com a crise.

No lugar de Mandelson, como comissário de Comércio da UE, estará a baronesa Ashton de Upholland, líder da Câmara dos Lordes. Ela tratará de uma eventual retomada das negociações entre Europa e Mercosul. Mas para observadores no Itamaraty, a saída de Mandelson pode colocar de uma vez por todas um freio de alguns meses nas negociações comerciais internacionais. Isso porque a baronesa permanecerá no posto apenas até o final do ano, quando um substituto permanente deve ser anunciado. Além disso, com as eleições nos Estados Unidos e a crise tomando toda a energia dos políticos em Washington, poucos acreditam que haveria espaço para um acordo na OMC neste ano.

Em seus anos como negociador chefe, alguns fatos ficarão marcados. Um deles foi o ataque histérico que teve ao final da conferência da OMC em Hong Kong, em 2005. Na época, o Estado teve acesso à uma gravação feita por um embaixador na reunião. Aos berros, Mandelson acusou o diretor da OMC, Pascal Lamy, de ter feito uma aliança com Brasil e EUA para colocar a UE na parede. A conferência ministerial acabou depois dos gritos de Mandelson e a OMC entrou em um período de marcha lenta por meses.

Alguns meses antes, na elegante embaixada do Brasil em Roma, foi surpreendido por uma questão de um jornalista britânico se o fim de seu relacionamento com um ex-namorado, o brasileiro Reinaldo da Silva, representaria um problema nas negociações comerciais com Amorim. O chanceler deu por terminada a entrevista.

Mais recentemente, usou uma negociação da OMC para anunciar que estava propondo novo corte de tarifas para as importações agrícolas dos países emergentes. Na realidade, a proposta não existia: tratava-se da mesma oferta de liberalização, mas com números manipulados. Até que diplomatas e a imprensa se dessem conta disso, já havia saído em meio mundo como alguém que estava disposto a fechar um acordo.
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