26 a 30 de abril de 2010

Comércio Exterior

Resultados
Superávit ultrapassa US$ 1 bi no 1º trimestre
Pacote pró-exportações sai em maio
Congresso atua para regular a Lei Kandir
Pacote para exportador vai encolher Eximbank

Mercosul

França trava acordo entre UE e Mercosul
Para argentinos, europeus estão dificultando a retomada das negociações
Crise ameaça o acordo do Mercosul com União Européia

Plano Internacional

Grécia não deve afetar Brasil, dizem analistas



Comércio Exterior

a) Resultados

As exportações brasileiras somaram US$ 11,025 bilhões nos primeiros 15 dias úteis deste mês, com média diária de US$ 735 milhões, o que equivale a crescimento de 19,3% em relação ao desempenho médio diário de abril do ano passado. As importações, no entanto, aumentaram ainda mais (58,4%), o que explica o baixo superávit de US$ 775 milhões na balança comercial do mês, segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

As exportações de abril cresceram nas três categorias de produtos, com destaque para os semimanufaturados, que aumentaram 36,7%. Os manufaturados tiveram expansão de 19,5%, por conta principalmente de açúcar refinado, óleos combustíveis, autopeças, automóveis, motores e geradores, aparelhos para terraplenagem e laminados planos. Os produtos básicos venderam 15% mais.

O destaque no aumento das importações ficou por conta de combustíveis e lubrificantes (173,3%), adubos e fertilizantes (171,9%), siderúrgicos (102,9%), produtos de borracha (100,8%), automóveis e partes (60,5%) e instrumentos de ótica e precisão (53,9%).

No acumulado dos 76 dias úteis do ano, as exportações somaram US$ 50,254 bilhões, com média diária de US$ 661,2 milhões e evolução de 25,2% sobre igual período do ano passado. Embora menores, no valor de US$ 48,587 bilhões, as importações cresceram bem mais, com expansão de 40,1% na mesma base de referência, o que explica o saldo comercial de US$ 1,667 bilhão no ano, com retração de 69,5% em relação ao saldo do mesmo período de 2009.


b) Superávit ultrapassa US$ 1 bi no 1º trimestre

Influenciadas por melhora no volume de vendas e alta acentuada nos preços em dólar, as exportações brasileiras de celulose totalizaram US$ 1,13 bilhão no primeiro trimestre, o equivalente a expansão de 48,8% ante o registrado no mesmo intervalo de 2009. Somados os embarques de papel, a indústria brasileira exportou 41,4% mais no trimestre, com US$ 1,62 bilhão. Assim, o saldo comercial do setor ficou positivo em US$ 1,219 bilhão nos três primeiros meses do ano, acima do superávit de US$ 967 milhões registrado no mesmo trimestre de 2008, antes da crise econômica.

Segundo dados da Bracelpa, entidade que representa a indústria nacional de celulose e papel, foram embarcadas entre janeiro e março 2,2 milhões de toneladas da matéria-prima, uma alta de 19,1%. No mesmo período, as cotações de referência na Europa, Estados Unidos e Ásia foram reajustadas em US$ 90 por tonelada (três altas mensais de US$ 30), atingindo US$ 790 a tonelada no mercado europeu em março - desde então, mais dois aumentos de preço, de US$ 50 por tonelada cada, já foram anunciados.

As importações de celulose de fibra longa - o país é especialista em fibra curta - também cresceram no trimestre. Segundo a entidade, foram importadas 99 mil toneladas da matéria-prima, com expansão de 41,4% na comparação anual. A produção trimestral cresceu 13,1%, para 3,51 milhões de toneladas.

No segmento de papel, que tem maior exposição à economia doméstica, as vendas internas de papel-cartão foram destaque do trimestre, com avanço de 40,8%, para 138 mil toneladas. Utilizado em embalagens, o produto é importante sinalizador da atividade econômica, aponta a Bracelpa.

De janeiro a março, a produção nacional de papéis avançou 8,9%, para 2,43 milhões de toneladas, e o consumo aparente mostrou incremento de 10,4%, para 2,21 milhões de toneladas. As importações do produto subiram 55,5% no mesmo período e as exportações, 24,7%.

c) Pacote pró-exportações sai em maio

As discussões sobre o pacote pró-exportações que o governo federal pretende lançar em maio devem avançar bem esta semana. Na sextafeira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reúne com os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, para discutir incentivos fiscais e de crédito em vários setores da economia.

Inicialmente, a expectativa era que o pacote fosse anunciado em março. A nova previsão é que a divulgação ocorra em maio. Uma das medidas esperadas é a criação de uma instituição destinada exclusivamente ao financiamento das exportações que será submetida ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Também está em estudo a criação de um fundo de crédito para exportação. Outra expectativa é sobre a possibilidade de reduzir tributos que reflitam diretamente no produto nacional a ser exportado.

Miguel Jorge se reuniu com o ministro da Economia e Tecnologia da Alemanha, Rainer Bruderle, e uma comitiva empresarial alemã, no Palácio Itamaraty, em Brasília, para discutir parcerias para investimentos na Copa do Mundo de 2014, e das Olimpíadas de 2016.

As negociações para um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE) estão em “compasso de espera”, segundo o ministro Miguel Jorge. De acordo com ele, os países membros do bloco sul-americano apresentaram propostas de abertura no setor industrial e aguardam que os europeus indiquem compensações na área agrícola.

No entanto, o ministro afirmou que um acordo final “dificilmente” será fechado este ano.

– Uma negociação como essa não é fácil. Não esperamos um acordo no curto prazo.

Não há essa possibilidade. São negociações sempre muito difíceis – disse Miguel Jorge, após a reunião com o ministro da Economia da Alemanha.

Nova chance Em junho, representantes de países da América Latina e da União Europeia se reunirão em Madri, na Espanha. Segundo Miguel Jorge, a previsão é de que o assunto domine os debates.

Em 2004, em Viena, na Áustria, as negociações entre Mercosul e União Europeia foram interrompidas por falta de acordo. Os dois blocos reivindicam abertura em setores específicos. Os europeus, na área industrial. Os sul-americanos, no setor agrícola.


d) Congresso atua para regular a Lei Kandir

Senadores e deputados se movimentam no Congresso Nacional para apresentar propostas de revisão da Lei Kandir, criada em 1996 para estimular as exportações. O resultado pode prejudicar os exportadores ou os governos estaduais que estão em conflito quanto à aplicação dos benefícios da legislação.

Depois da audiência pública que tratou do tema na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, o deputado Pepe Vargas (PT-RS) propôs a criação de um grupo de parlamentares para estudar modificações na legislação de forma a impedir que estados regulamentem a Lei Kandir com prejuízo aos exportadores, principalmente os produtores rurais.

No Senado, o senador Hélio Costa (PMDB-MG) solicitou à Consultoria Legislativa da Casa a elaboração de um projeto de lei de revisão da Lei Kandir. A ideia dele é que não há mais motivos que justifiquem a isenção da cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), referindo-se a exportações de minério de ferro, liderada no mundo pela Vale.

Como pano de fundo está o fato de que o governo federal retarda todo ano a liberação de recursos para compensar as perdas tributárias enfrentadas pelos estados por causa da isenção do ICMS para bens primários e semiacabados, prevista pela Lei Kandir.

Na audiência pública, o presidente da Comissão de Direito Tributário da seção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), Antônio Carlos Rodrigues do Amaral, afirmou que a criação de restrições a exportações é inconstitucional e ilegal. Ele citou o caso do Estado do Mato Grosso do Sul, que, por meio do Decreto Estadual 11.803/05, estabelece que, para cada tonelada exportada isenta de ICMS, os produtores locais precisam comercializar a mesma quantidade no mercado interno, operação essa tributada pelo mesmo imposto.

Para o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), presente na audiência pública, a ausência de compensação pela União das perdas de arrecadação dos estados não é justificativa para a oneração das exportações. “Essa medida não tem base jurídica, econômica ou política. É inadmissível punir nossos produtores.”

Hauly questionou a apatia do governo federal em implementar a Lei Kandir. “Há 15 anos acompanho a lei do ICMS, a Constituição e novamente vemos extrapolações que prejudicam a economia brasileira e forçam o produtor rural a recorrer ao Judiciário.”

Na avaliação de Hauly, a reação dos estados — seja ao vincularem a devolução de créditos acumulados de ICMS a investimentos no estado, ou ao taxarem produtos ou simplesmente ao deixarem de pagar — é resultado da omissão da União que deixa de compensar as perdas conforme a Lei Kandir estabelece.

Os representantes do setor produtivo defenderam a aplicação da Lei Kandir em sua integralidade. Para eles, seria uma alternativa para que o setor do agronegócio mantenha sua capacidade competitiva. E alertaram de que o Brasil não precisa de subsídios para ser competitivo. “Se pararem de perseguir sistematicamente os produtores, seremos altamente competitivos”, disse o presidente da Associação das Empresas Cerealistas do Brasil (Acebra), Luiz Antônio Fayet.

Hélio Costa vai na contramão. Em 1996, lembrou, o Brasil exportava apenas US$ 47 bilhões, mas em 2010, conforme previsões do governo, o País deverá exportar US$ 160 bilhões. “Então, o Brasil venceu essa crise, esse momento de falta de recursos, da necessidade de se exportar mais e, para isso, sacrificar principalmente Minas Gerais e o Pará, que são os dois grandes exportadores de minério”, disse. As isenções de ICMS sobre essas exportações são as que mais prejudicam Minas, destacou Costa. Segundo ele, o estado somente recebe da exploração de minério de ferro royalties no valor de R$ 140 milhões por ano. “Um município do Rio de Janeiro recebe R$ 1 bilhão dos royalties do petróleo no mesmo período”, comparou.


e) Pacote para exportador vai encolher Eximbank

O governo conseguiu resolver as principais divergências internas que emperravam o anúncio do pacote de medidas de estímulo ao setor exportador. E, por causa de divergências entre os Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria e comércio exterior, o Eximbank brasileiro, um banco que será criado para financiar exportações, ficou menor do que originalmente se pretendia.

Os técnicos trabalham agora no fechamento dos detalhes finais para que as medidas sejam divulgadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na próxima semana. Está programada para hoje uma reunião no Ministério da Fazenda para discutir as últimas pendências do pacote.

Em relação ao Eximbank, ficou acertado que o banco será constituído basicamente com recursos das linhas de financiamento de comércio exteriores já existentes no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de quem será uma subsidiária.

Ficaram também fora do Eximbank as linhas de financiamento operadas por outras instituições, como o Banco do Brasil. A avaliação do Ministério da Fazenda é que o BNDES não tem capilaridade para atender às micro e pequenas empresas exportadoras.

O novo banco tampouco vai operar a seguradora pública, que ainda será criada. O Ministério do Desenvolvimento e o BNDES queriam que ela ficasse no Eximbank, mas a Fazenda foi contra, sob o argumento de que a instituição fornecedora do financiamento não deveria avaliar o risco do crédito.

Achou-se uma solução intermediária: o seguro de crédito fica no Eximbank provisoriamente, na forma de um fundo garantidor. Quando a nova seguradora, subordinada ao Ministério da Fazenda, sair do papel, os recursos irão para lá.

O pacote também vai incluir, como antecipou a Agência Estado, uma mudança na sistemática de devolução dos créditos de PIS e Cofins às empresas exportadoras. A idéia é dar agilidade e evitar novos acúmulos.

Isso será feito por meio de um mecanismo ainda em elaboração pela Receita Federal. Essa é a principal reivindicação das empresas que sofrem com o acirramento da competição no mercado internacional.

As empresas têm direito à devolução dos tributos pagos sobre os insumos usados na produção de bens exportados, mas a Receita demora até cinco anos para devolver os recursos. No entanto, para não afetar o fluxo de caixa, o governo não resolverá o problema do estoque antigo de crédito retido na Receita.

As medidas também permitirão que micro e pequenas empresas não incluam no faturamento o resultado com as vendas externas. Dessa forma, elas poderão permanecer no Simples (sistema de tributação simplificado).

No pacote, ainda está uma mudança na definição de empresa preponderantemente exportadora - status que dá direito a benefícios tributários. Hoje, é preciso que 60% das suas vendas sejam para o exterior.

Esse porcentual será reduzido para 40%. Está em estudo também a redução de tributos que tenham impacto direto no custo do produto brasileiro destinado ao mercado externo.

Embora não seja uma medida para o setor exportador, o governo deve estabelecer que as compras governamentais priorizem os produtos nacionais para ajudar no processo de recuperação da indústria brasileira.


Mercosul

a) França trava acordo entre UE e Mercosul

A França coloca entraves ao avanço de um acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, ameaçando, na prática, as perspectivas da cúpula dos líderes das duas regiões em maio, em Madri. A forte pressão dos produtores franceses de carnes levou a indústria europeia a se mobilizar com urgência na semana passada para insistir na importância do acordo. No entanto, ao mesmo tempo a indústria aumenta as exigências e agora cobra do Mercosul abertura de 100% de seu mercado, e não apenas de 90%, como até então.

É nesse cenário que ocorrerá a reunião técnica entre os dois blocos, em Bruxelas, marcada para indicar até que ponto haverá espaço para o relançamento da negociação em Madri. Nem os franceses, nem ninguém na Europa têm como aceitar um acordo que dê mais acesso ao Brasil no mercado europeu, principalmente para carnes, afirmou o irlandês Padraig Walshe, presidente da poderosa central Copa.

Duras campanhas do setor agrícola europeu contra um acordo envolvendo o Brasil e a Argentina não são novidade. Dessa vez, porém, a posição da França, por seu peso na cena europeia, pode empurrar, na prática, as discussões para um novo fiasco. Apesar de belos discursos sobre a parceria estratégica com o Brasil, o presidente Nicolas Sarkozy não parece ter intenções de ir contra o lobby agrícola, tal sua fragilidade política no momento.

Percebendo o perigo, associações industriais da Europa entraram em campo já um pouco tarde, se mobilizaram junto ao presidente da Comissão Europeia, José Durão Barroso, ao comissário de comércio, Karel de Gucht, e ao líder rotativo da UE e primeiro-ministro espanhol José Luiz Zapatero, insistindo na enorme importância do acordo birregional. Argumentam que será o mais ambicioso acordo birregional do mundo, envolverá 700 milhões de pessoas e será o primeiro entre duas uniões aduaneiras. Além dos benefícios comerciais, a indústria europeia destaca que um acordo ajudará a proteger os atuais investimentos europeus no Mercosul e a instalar mais companhias na região. Outro argumento é de que o acordo fortalecerá a presença ocidental e reduzirá espaço para outros grandes parceiros comerciais globais no Mercosul - ou seja, contra os chineses.

Ao mesmo tempo, porém, novas exigências da indústria europeia tendem a agravar o impasse na negociação, que está paralisada formalmente desde 2004. Na última reunião dos dois blocos, no mês passado em Buenos Aires, o Mercosul atendeu a demanda europeia e voltou a ampliar a cobertura de 74% para 90% do comércio, incluindo a liberalização também do setor automotivo. Mas agora a BusinessEuropa, a grande central das indústrias europeias, diz que a situação mudou desde o acordo da UE com a Coreia do Sul, no ano passado, e quer que a cobertura seja de 100% do comércio. Esse acordo elevou nossas expectativas, diz Eoin OMalley. Negociadores da UE argumentam que, no recente acordo com o Peru e a Colômbia, esse percentual também foi incluído.

Também o setor de serviços faz novas demandas de abertura do Mercosul para serviços de distribuição, ambientais e também de serviços para a indústria de petróleo, de olho no pré-sal. Nosso interesse sobre compras governamentais é agora muito maior, disse o chefe da Coalização das Indústrias de Serviços, Pascal Kerneis.

Mas, se cobram mais, os europeus recusam-se a fazer novas concessões. Refletindo a posição francesa, dizem que a UE não pode dar abertura para a entrada de carnes de frango e bovina e prometem que alguns produtos incluídos como cota na oferta de 2004 poderiam migrar para a desgravação, provavelmente suínos e arroz. E só acenaram com melhorias para o etanol, com uma cota que poderá ser bem superior à de um milhão de toneladas discutida em anos anteriores. O caso dos suínos é emblemático. O produto brasileiro continua bloqueado não por causa de tarifas, mas sim por barreiras sanitárias que a UE reluta em levantar há anos.

Negociadores do Mercosul apontam uma dose de irrealismo enorme do lado europeu ao esperar que o bloco se comprometa com a abertura total de setores sensíveis da economia sem levar em conta a assimetria entre as economias das duas regiões. O governo de Cristina Kirchner, na Argentina, pela primeira vez nos últimos tempos mostrou flexibilidade para liberalizar, mas avisa que isso também tem limites. Além disso, crescem as indagações sobre até que ponto Bruxelas é séria na negociação. Se está fazendo teatro ou se exige mais para dificultar um acordo que sabe que é contestado por países membros, como França, Irlanda e outros produtores agrícolas do Leste Europeu.

Pelo cenário atual, é provável que os lideres da UE e do Mercosul anunciem o relançamento da negociação birregional, mas sem conteúdo concreto. Sobretudo, sem a expectativa de conclusão acelerada, como era o plano original. Isso é negociação para nossos netos, comentou, com ironia e frustração, um diplomata de um país interessado no acordo com o Mercosul.


b) Para argentinos, europeus estão dificultando a retomada das negociações

As discussões entre a União Europeia (UE) e o Mercosul continuavam no impasse, em Bruxelas, ameaçando o plano de relançar em maio a negociação do acordo de livre comércio que seria o maior do mundo, com 700 milhões de consumidores. É a parte europeia que está tendo dificuldade para relançar a negociação, afirmou o secretário de Comércio Internacional da Argentina, Alfredo Chiaradia, que preside a delegação do Mercosul nas discussões em Bruxelas.

É um problema europeu, porque o Mercosul não tem problema, acrescentou Chiaradia, no fim do primeiro dia de discussão com os europeus. O Mercosul fez um grande esforço, produzimos mensagens que indicam que estamos em condições de negociar seriamente, e são eles que têm de colocar coisas sobre a mesa, cobrou o representante argentino.

A União Europeia estava sofrendo dificuldades também para fechar um acordo modesto com a América Central (Costa Rica, Panamá, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e Honduras), com o gigante do comércio mundial barganhando ainda algumas toneladas de arroz e de outros produtos para produtores pobres.

Um dos deputados mais influentes do Parlamento Europeu na área externa, José Ignacio Salafranca, da Espanha, entrou em ação, reclamando que a UE, maior investidor na América Latina, está retrocedendo em suas posições no subcontinente em favor de outros atores mundiais, como a China e os Estados Unidos. É preciso fechar o acordo com a América Central e retomar a negociação com o Mercosul, conclamou o deputado, insistindo na importância de avanços concretos na cúpula das duas regiões, em maio.

Para Alfredo Chiaradia, o culpado da situação é um só. Fizemos nosso dever. Se essa negociação não avançar, será porque a Europa não está em condições de acompanhar os avanços do Mercosul, afirmou.

Na recente reunião de Buenos Aires, o Mercosul retomou sua proposta de 2006 e ampliou para 90% a cobertura da liberalização do acordo, incluindo abertura do setor automotivo no prazo de 15 anos.

A expectativa era de Bruxelas colocar alguma oferta agrícola na mesa, o que aparentemente não foi feito diante da pressão de produtores de carnes bovina e de frango, especialmente da França, que não querem nem ouvir falar de retomada da negociação birregional.

Por sua vez, a indústria européia quer o acordo, mas aumentou as exigências. O setor de serviços também se mostra mais ambicioso, com demandas novas para o Mercosul. E os três setores concordam que, em contrapartida, não dá para pagar mais ao Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Já pagamos muito, e a Europa está em crise econômica, reagiu um diplomata de país europeu. A bola está do lado do Mercosul, afirmou.

Mas Alfredo Chiaradia respondeu com tranquilidade e firmeza sobre a nova exigência da indústria europeia, de o acordo birregional cobrir 100% do comércio, o que significa praticamente não excluir setores sensíveis da liberalização.

Eu quero tantas coisas e não posso obter. Sonhar não custa nada, retrucou. Temos de trabalhar com base na realidade e cada acordo é um caso particular. O mercado do Mercosul é muito valioso, os países do Mercosul estão fazendo um grande esforço negociador, e a Europa tem que fazer também. Temos que conciliar (posições) para acomodar as respectivas sensibilidades e demandas.

A UE tem um novo modelo de acordo comercial, que aplicou com a Coreia do Sul, com o Peru e Colômbia e agora tenta com a Índia, que implica também mais dureza nas concessões sobre propriedade intelectual, por exemplo. Mas o representante argentino deixou claro que o mandato de negociação com o Mercosul é outro. O Mercosul não trabalha com esse modelo único de contrato.


c) Crise ameaça o acordo do Mercosul com União Européia

As negociações para um acordo de cooperação comercial entre o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e os países da União Européia não devem sair nas próximas reuniões, bem como o acordo de bitributação entre a Alemanha e o Brasil. A afirmação é do presidente da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha, Weber Porto. As relações entre Brasil e os países da União Europeia, principalmente com o governo alemão, aparentemente têm aumentado, em virtude do posicionamento favorável do País após a crise financeira e das organizações para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016 que acontecerão no Brasil.

“Os governos estão discutindo meios de elevar os investimentos nos dois países, em diversos setores, mas prioritariamente em infraestrutura para os eventos esportivos. Com relação aos acordos, mesmo com os diversos encontros oficiais entre o Brasil e países da Europa, como este entre o ministro do Desenvolvimento Miguel Jorge e o ministro alemão de economia Rainer Bruderle, as negociações estão avançando, mas não podemos esperar nada concreto pelos próximos meses, incluindo a reunião que acontecerá em junho, na Espanha”, argumentou Porto.

“Uma negociação como essa não é fácil. Não esperamos um acordo no curto prazo, estamos em compasso de espera”, pontuou Miguel Jorge. De acordo com ele, os países membros do bloco sul-americano apresentaram propostas de abertura no setor industrial e aguardam que os europeus indiquem compensações na área agrícola. No entanto, o ministro afirmou que um acordo final “dificilmente” será fechado este ano.

Para o professor da ESPM, Mario Sacchi os acordos não irão sair pois de uma lado, Grécia e Portugal não conseguirão sair do “buraco” tão cedo. “Fala-se em US$ 120 bilhões para a Grécia nos próximos três anos. Portugal não está muito longe desta realidade. Do outro lado falta de acordo na questão do protecionismo.”

Sacchi lembra que, este ano, acontece reunião entre os blocos, na Espanha. “Nosso presidente quer um acordo com o G-20 para fomentar o comércio e galgar um assento no conselho de segurança da ONU. Não devemos ter reunião amena”.

O professor ressalta que a vocação do bloco latino é o de exportação de agrobussiness e commodities e a da Europa, as manufaturas. “O melhor para o Mercosul seria a migração do dinheiro para cá. Algo similar ao que faz a China em relação à África.”

Para Sacchi, nem todos países europeus aceitam a soberania do Euro. “Na Itália, após a entrada da moeda, houve inflação de preços e estacionamento de salários. A Inglaterra não aceita a moeda. O único país com saúde financeira razoável é a Alemanha.”

O ministro da Alemanha disse ainda que seu país não considera que a solução para os problemas econômicos da Grécia consista em dar recursos dos contribuintes alemães. “Não podemos dar dinheiro para quem gasta mais do que ganha. Temos que ponderar todos os pontos, para isto é necessário ter calma.”

Para o ministro é preciso que a Grécia apresente uma proposta concreta de medidas a serem adotadas em 2011 e 2012 para receber ajuda da União Européia.

Bruderle, disse que o volume do pacote de ajudas à Grécia da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) pode chegar a 135 bilhões de euros até 2012. Ele destacou que a Alemanha mantém seu compromisso de fornecer 8,4 bilhões de euros anuais ao pacote de ajudas à Grécia, mas só o fará após a decisão da Comissão Europeia, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, que ainda necessitam de um consenso para aprovar a medida.

“A UE assumirá uma ajuda anual de 30 bilhões de euros e o FMI de 15 bilhões de euros. Não posso descartar que no final o número seja ainda maior”, disse Bruderle, em declarações a jornalistas alemães.

Ele destacou que as ajudas à Grécia serão tramitadas por meio de avais do estatal Banco para a Reconstrução e que o tema será abordado durante o conselho de ministros que acontecerá na segunda-feira em Berlim.

Para o ministro alemão, a situação de Portugal e Espanha é menos grave. Segundo ele, uma decisão errada em relação à Grécia poderia desencadear uma crise na região. “Não queremos desencadear uma espiral de deflação”, afirmou Bruderle.

O ministro disse que o problema na Grécia não pode ser resolvido de forma rápida, mas é preciso transmitir a mensagem de que a Europa é séria no que diz respeito à estabilidade do euro.


Plano Internacional

a) Grécia não deve afetar Brasil, dizem analistas

O impacto da crise grega sobre o Brasil tende a ser limitado, na opinião dos especialistas.

Primeiro porque a relação comercial entre as duas nações é bem pequena: em 2010, até o primeiro trimestre, importações e exportações recíprocas somaram apenas US$ 48,819 milhões, o que representa menos de 0,6% do total negociado pelo Brasil com o mundo.

Depois, pelo fato de o país ter conquistado a confiança dos grandes investidores internacionais após passar sem muitos arranhões pelas turbulências de 2008 e 2009. Aquele grande teste mostrou que a economia brasileira está diferente. Não quer dizer que não será afetada, porém que possui condições de absorver melhor os choques externos e de se recuperar rapidamente depois, afirma Flávio Serrano, economista sênior do BES Investimento no Brasil.

Consequências maiores haveria se a Grécia contaminasse o restante da União Europeia ou algumas nações, como Portugal, Espanha e Irlanda. Nesse caso, os principais efeitos seriam notados sobre a taxa de câmbio e a Bolsa de Valores. Uma parte dos investidores poderia abandonar as suas aplicações em ativos brasileiros para buscar refúgio em outros considerados mais seguros, como os títulos do Tesouro americano. Mesmo assim, dificilmente haveria pânico, até porque o Brasil possui US$ 250 bilhões em reservas, as quais garantem que o dinheiro colocado no país pode ser recuperado sem dificuldades quando desejado. Esse não seria um movimento estrutural, mas de circunstância. Posteriormente, esses investidores retornariam, a situação voltaria ao normal, afirma Serrano. Em 2009, o dólar comercial chegou a subir a até R$ 2,40 e a BM&FBovespa também sofreu várias quedas, para depois se recuperar até alcançar novos recordes.

Segundo Serrano, o crescimento do deficit em conta-corrente do Brasil não assusta, pois está sob controle.


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