29 de março a 01 de abril de 2010

Comércio Exterior

Nortox pede fim de antidumping sobre glifosato chinês
Franca exporta mais calçados no bimestre
Incentivo fiscal para a exportação é regulamentado pela Receita Federal

Investimentos

Mercado aguarda contrato do etanol hidratado na BM&F

Agronegócio

Rússia vai comprar menos açúcar
Em ano de safrinha recorde, exportação de milho patina
Oferta ampla pressiona cotações de grãos
Unica prevê mercado equilibrado em 2010

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Demandas dos EUA inviabilizam negociação de Doha
Delegação dos EUA tenta evitar retaliação



Comércio Exterior

a) Nortox pede fim de antidumping sobre glifosato chinês

A paranaense Nortox S.A protocolou no Ministério do Desenvolvimento, na sexta-feira, um pedido de extinção da sobretaxa de 2,1% aplicada nas importações de glifosato originário da China. O produto, cujas vendas superam R$ 1,2 bilhão anuais, serve como matéria-prima para herbicidas usados na maioria das lavouras brasileiras.

Maior produtora nacional de agrotóxicos, a Nortox argumenta que o fim do antidumping, revalidado em fevereiro de 2009, elevará a oferta de glifosato no país, reduzindo os preços finais aos produtores rurais, e ajudará no aumento da atividade industrial local com a formulação do glifosato, além de diminuir a concentração da produção, hoje nas mãos da Monsanto. Temos que oferecer preços competitivos e o produtor não pode perder espaços lá fora, diz o coordenador de Assuntos Corporativos da Nortox, João Bello Neto.

A briga entre os importadores da matéria-prima barata da China e a Monsanto se arrasta desde 2003, quando a tarifa foi fixada em 35,8%. Em 2008, a sobretaxa foi reduzida para 11,7%. Depois, caiu a 2,9% e chegou aos atuais 2,1% em fevereiro de 2009. A tarifa é a diferença entre o preço do produto no porto brasileiro e o preço posto na fábrica da Monsanto. Se a Camex tivesse optado por aplicar o antidumping calculado à época, a tarifa ficaria acima de 40%, o que seria difícil de defender por causa da disparada nos preços internacionais do glifosato.

Diante da redução nos preços internacionais do glifosato, a Monsanto tem insistido com o governo em substituir a sobretaxa por um preço mínimo de referência de US$ 4,60 por quilo ou litro. Alega prejuízos a sua fábrica em Camaçari (BA) causados pela competição com o produto chinês. A Nortox alega que os preços voltaram à média histórica de US$ 3,70 registrada na última década, já que o glifosato tornou-se uma commodity em razão da disseminação das sementes transgênicas.

Em fevereiro, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu, em reunião informal dos sete ministros, aplicar um preço de referência de US$ 3,60 por quilo ou litro. Mas não publicou portaria. Nos bastidores, também ficou acertado que a Camex controlaria as importações por meio de licenças não-automáticas.

Pelas regras de defesa comercial, o pedido da Nortox deve suspender novas decisões da Camex sobre o tema. A solicitação abrirá espaço a um novo processo de avaliação dos prejuízos causados pela importação do glifosato chinês. Agora, todos os dados e cálculos devem ser revistos pelo Decom. Qualquer decisão sobre tarifas ou preços mínimos devem aguardar nova análise, defende Bello Neto. A Monsanto informou não ter pedido revisão formal da atual tarifa nem ter conhecimento sobre a ação da concorrente Nortox.

Semana passada, a bancada ruralista entrou na briga para defender sua base política, a maior consumidora de agrotóxicos. A Comissão de Agricultura da Câmara aprovou convite aos ministros da Camex para explicar o antidumping. A Monsanto, segundo o deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), detém 70% da produção doméstica porque importa de suas fábricas na Argentina e EUA o mesmo glifosato chinês que tenta impedir de entrar no Brasil. O mercado interno consome 280 milhões de litros anuais de glifosato e a Monsanto produz menos de 100 milhões, diz.

b) Franca exporta mais calçados no bimestre

EUA e Europa aumentam suas compras, mas focos de interesse da indústria são o mercado interno e os outros importadores.

Sinal de recuperação nas exportações de calçados das indústrias de Franca. No primeiro bimestre deste ano, o setor exportou 456.099 pares, uma alta de 10,5% em relação ao mesmo período de 2009.

Apesar da base de comparação não ser favorável -2009 foi um ano para esquecer, segundo o presidente do Sindifranca (Sindicato das Indústrias de Calçado de Franca), José Carlos Brigagão do Couto-, os produtores comemoram a retomada de mercados tradicionais, como Estados Unidos e Europa, e a expansão do produto francano para novas fronteiras, como Emirados Árabes, Arábia Saudita e Sérvia.

A Espanha, segunda maior consumidora da indústria calçadista de Franca no primeiro bimestre, adquiriu US$ 1,31 milhão em sapatos neste ano, ante US$ 639 mil no mesmo período em 2009. Maior cliente, os Estados Unidos tiveram desempenho mais tímido: passaram de US$ 4,82 milhões para 5,02 milhões, alta de 4%.

Estamos sentindo que está melhor, mas a recuperação é lenta, sem euforia, diz o empresário José Rosa Jacomete, da Anatomic Gel.

No mercado europeu, segundo ele, o impacto da crise econômica foi menor -ao menos no bolso dos compradores de sapatos- e o crescimento das exportações reflete a retomada da demanda.

Já para os Estados Unidos, as vendas continuam pouco aquecidas. Mas com esse país eu não estou muito preocupado, disse Jacomete.

Os focos da preocupação do empresário, agora, são o mercado interno e outros importadores que têm ganhado mais importância nos últimos anos. É o caso da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

A cada semestre, a cada feira que participamos, aumentam os negócios com esses compradores, disse Jacomete.

País rico em petróleo e de maioria muçulmana, a Arábia Saudita, do ramo mais conservador da religião, tem como característica, segundo Jacomete, pagar em dia e comprar, principalmente, sapatos pretos e sem cadarço.

Essas preferências, disse o empresário, são explicadas pelo fator religioso. Como tiram os sapatos para orar várias vezes ao dia, eles preferem um calçados mais prático.

Para Brigagão, a retomada das exportações no bimestre mostra o empenho dos empresários em colocar seus produtos no mercado internacional, mesmo diante do efeitos da crise econômica, e com o câmbio e o sistema tributário brasileiro dificultando essa tarefa.

A presença de grandes redes europeias na Couromoda -maior feira do setor na América Latina- deste ano está contribuindo para impulsionar os embarques de sapatos, disse o presidente do Sindifranca.

Junto com o aquecimento do mercado interno, as exportações estão ajudando a indústria de Franca a aumentar as contratações. Em 2010, o setor abriu 4.045 postos de trabalho, ante 2.381 no primeiro bimestre de 2009.

c) Incentivo fiscal para a exportação é regulamentado pela Receita Federal

Quase um ano depois da criação do chamado drawback integrado, a Receita Federal do Brasil publicou a regulamentação desse regime especial aduaneiro. Em vigor desde maio do ano passado, o mecanismo - que faz parte do chamado pacote de exportação do governo - permite que empresas brasileiras importem ou comprem insumos no mercado interno sem a incidência de impostos para produzir bens destinados à exportação. Com a tão esperada regulamentação, por meio da Portaria da Receita Federal e da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) nº 467, de 25 de março, essas companhias poderão obter a suspensão do pagamento do PIS, Cofins, IPI, Imposto de Importação e PIS e Cofins-Importação a partir de 28 de abril.

O drawback integrado reúne os mecanismos de suspensão do recolhimento de impostos previstos nos regimes de drawback verde-amarelo e drawback aduaneiro-suspensão. Isso porque ele permite o uso do incentivo fiscal quando o insumo é importado e não apenas nacional. Além disso, fornecedores das exportadoras também se beneficiarão da suspensão de impostos, que vale por um ano, prorrogável por mais um. No caso de mercadoria destinada à produção de bem de longo ciclo de fabricação, esse prazo poderá chegar a cinco anos.

De acordo com dados da Secex, hoje há cerca de 60 mil concessões de drawback. O secretário da Receita, Otacílio Dantas Cartaxo, informou que o novo mecanismo não afetará a arrecadação federal. O impacto é que a integração dos drawback verde-amarelo e aduaneiro-suspensão desburocratizará a vida das empresas exportadoras e facilitará o controle do Fisco, explica o secretário.

Sem o drawback, as exportadoras acumulam créditos dos impostos federais que pagam na compra dos insumos. Porém, não podem utilizar esses créditos na operação seguinte por serem isentos na exportação.

A regulamentação permite a aplicação do drawback integrado com segurança jurídica, segundo o tributarista Yun Ki Lee, do escritório Dantas, Lee, Brock & Camargo Advogados. Para Lee, agora está claro que no drawback integrado a compra de um produto como a solda, por exemplo, que é consumida no processo de industrialização, também é contemplada pela suspensão fiscal. Aplica-se também à aquisição de mercadorias para reparo, criação, cultivo ou atividade extrativista de produto a ser exportado. Antes, havia muitas dúvidas sobre a integração por conta desses detalhes, diz o advogado.

Outra benesse é que a empresa habilitada no drawback integrado não precisa ser preponderantemente exportadora, como acontecia no drawback verde-amarelo. Basta exportar, diz Douglas Rogério Campanini, da ASPR Auditoria e Consultoria.

A habilitação deverá ser solicitada por requerimento disponível no site www.desenvolvimento.gov.br. Nele, a empresa descreverá o valor, quantidade, insumos que serão adquiridos e bens a serem exportados. Segundo o secretário da Receita, se a empresa não tiver pendências com órgãos públicos, como o Ministério da Agricultura, por exemplo, a habilitação será automática.

Investimentos

a) Mercado aguarda contrato do etanol hidratado na BM&F

O mercado de etanol começa a ganhar contornos mais organizados. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e a BMF&Bovespa lançaram um indicador diário para o etanol hidratado, que será usado na liquidação de um contrato desse produto que será lançado pela bolsa paulista. A data de estreia desse instrumento ainda não está definida, mas o objetivo será apoiar a comercialização do produto no mercado interno, segundo Fabiana Perobelli, gerente de produtos do Agronegócio da BM&FBovespa.

O indicador será diário e terá formação de preço em Paulínia (SP), por ser referência em distribuição de combustíveis no Brasil. Ele será calculado a partir de informações de preços fornecidas por produtores de etanol, distribuidoras de combustíveis e corretores.

A BMF&Bovespa lançou em maio de 2007 o contrato futuro de álcool anidro. Naquele ano, foram negociados 18.614 contratos, número que recuou para 16.608 no ano seguinte, segundo dados da bolsa. Segundo Fabiana, esse contrato foi criado com foco no mercado de exportação. Enquanto tivemos oportunidades de preço na exportação, o contrato teve liquidez, que foi perdida com os desencadeamentos da crise mundial, explica a especialista.

Além de ter como foco o mercado interno, o contrato de etanol hidratado que será lançado pela bolsa paulista terá como principal diferença para o de anidro a liquidação, que será financeira, o que tende a elevar sua procura.

Também está em andamento uma negociação entre a Bolsa de Chicago e a BM&F Bovespa para cooperação em biocombustíveis para usar as plataformas das duas bolsas em contratos de etanol.

Agronegócio

a) Rússia vai comprar menos açúcar

Em 2010, a Rússia deve importar 2,2 milhões de toneladas de açúcar, menos do que comprou apenas do Brasil em 2009 - 2,6 milhões de toneladas, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A projeção, apresentada na última semana pela trading Sucden, em evento realizado pela F.O.Licht, em São Paulo, é reflexo da estratégia russa de expandir sua produção interna. A previsão da Sucden é de que importação de açúcar pela Rússia vá se reduzir para 1 milhão de toneladas até 2015.

Karim Salamon, chefe de estatística e pesquisa da Sucden, prevê que a produção russa de açúcar - à base de beterraba - deve subir dos atuais 3,2 milhões de toneladas para 4,4 milhões de toneladas em cinco anos. Esse avanço, segundo ele, se dará com ganhos de produtividade no cultivo da beterraba e também com maior eficiência industrial. Com um hectare de beterraba, as usinas conseguem produzir entre 4 e 4,5 toneladas de açúcar, desempenho que é de 13 a 14 toneladas na França, compara Salamon.

Atualmente em 35 toneladas de beterraba por hectare, o rendimento agrícola dessa cultura na Rússia, segundo ele, também tem grande espaço para avançar. Na França, esse indicador é de 80 a 85 toneladas por hectare.

Há 10 anos, 50% do açúcar importado pela Rússia era proveniente do Brasil; hoje essa fatia já alcança entre 80% e 90%.

Nesse processo de ampliar a produção interna - e com um consumo per capita estável em 40 quilos -, a Rússia vem reduzindo seu volume de importação do Brasil. Em 2007 e em 2008, por exemplo, as compras foram da ordem de 4 milhões de toneladas anuais, volume que em 2009, recuou para 2,6 milhões de toneladas, segundo dados da Secex. Em 2009, a Rússia importou menos também por causa dos preços altos e da crise mundial, que limitou o crédito aos importadores, diz Salamon.

Para 2010, espera-se que a Rússia produza 3,8 milhões de toneladas de açúcar, segundo a Sucden, crescimento potencializado pelos preços altos da commodity e pelos incentivos governamentais, tanto na produção agrícola, como na industrial.

A perspectiva para 2015 é de que a capacidade de processamento russa, hoje em 270 mil toneladas por dia, seja ampliada para 290 mil toneladas, ainda abaixo do nível necessário para atingir autossuficiência, que é de 350 mil toneladas, estima Salamon.

b) Em ano de safrinha recorde, exportação de milho patina

Uma safrinha de milho recorde no horizonte, graças sobretudo ao Mato Grosso, está gerando incertezas entre os produtores e dúvidas quanto à capacidade do país de manter o volume de exportações do grão visto nos últimos anos.

Já é praticamente consenso no mercado que, sem ajuda do governo, será impossível repetir em 2010 as exportações de milho registradas no ano passado, acreditam analistas. Em 2009, foram embarcadas 7,765 milhões de toneladas, 21,9% acima das 6,370 milhões de toneladas do ano anterior, segundo o Ministério da Agricultura.

Boa parte desse desempenho foi possível graças aos leilões de PEP (prêmio para escoamento da produção), um instrumento que embute subsídio ao frete, criado para viabilizar a comercialização de áreas com logística mais difícil como o Centro-Oeste. Este ano, o governo deve ajudar novamente e já estima um apoio de R$ 800 milhões para escoar o milho.

O atual cenário de preços baixos para o cereal por causa da oferta elevada - principalmente com a expectativa de safrinha recorde no ciclo 2009/10 se o clima se mantiver favorável -, estoques altos nos EUA, recuperação da safra argentina e dólar fraco têm feito as exportações patinarem. No primeiro bimestre do ano, os embarques somaram 1,429 milhão de toneladas, 31,2% abaixo das 2,076 milhões dos dois primeiros meses de 2009.

Nos cálculos de Paulo Molinari, da Safras&Mercado, há entre sete e oito milhões de toneladas de milho que precisam ser escoadas por meio da exportação, já que o mercado interno não absorve. Da safra total de 52 milhões de toneladas (safra de verão mais safrinha), 45 milhões devem ser destinados ao consumo doméstico, estima a Safras.

Mas escoar essa diferença, sem apoio oficial, é hoje um desafio. Atualmente, o preço de venda na exportação está abaixo da cotação no mercado interno, o que acaba desestimulado a venda ao exterior. De acordo com Molinari, a saca no porto de Paranaguá está entre R$ 16,50 e R$ 17,00. Descontado o frete de R$ 4,00 entre o porto e a região oeste do Estado, por exemplo, a saca sairia entre R$ 12,50 e R$ 13,00. Ocorre que o mercado disponível paga mais do que isso hoje, entre R$ 15 e R$ 16 por saca.

A razão para esse cenário são os preços deprimidos no mercado internacional por conta da oferta elevada. Há ainda a concorrência da Argentina, que tem 14 milhões de toneladas de milho para exportar e consegue vender a preços mais competitivos que o Brasil porque tem custos menores e peso desvalorizado em relação ao dólar.

Assim, enquanto o milho brasileiro era ofertado no começo da semana por US$ 175 a tonelada, o argentino saía por US$ 155, de acordo com a Safras.

Para abril, não há novos negócios, nem programação de embarques, afirma Molinari, referindo-se ao quadro desfavorável para a exportação de milho. No ano passado, o dólar estava na casa dos R$ 2,30 nesta época e o preço em Chicago, em US$ 4 por bushel, acrescenta.

Boa parte do que vai sobrar de milho no mercado está no Centro-Oeste do Brasil, especialmente no Mato Grosso, onde a área de safrinha está estimada em 1,811 milhão de hectares (8% mais do que em 2008/09), segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A expectativa de analistas, porém, é de que os números sejam revistos para cima, o que pode levar a uma produção de 9 milhões de toneladas no Estado ante 8,5 milhões na safra passada.

Este ano não parou de chover em Mato Grosso e enquanto chove o produtor vai plantando, diz Seneri Paludo, superintendente do Imea. Ele acrescenta que neste ciclo o plantio de milho safrinha no Estado começou antes por causa do cultivo de soja precoce - a safrinha é semeada nas áreas onde se plantou soja no verão.

O governo precisa fazer algo para escoar o milho de Mato Grosso, afirma Paludo. Além da oferta elevada, o Estado tem desvantagem logística, pois fica distante dos principais portos exportadores. Com isso, o preço do frete quase sempre supera o do próprio produto. Segundo Leonardo Sologuren, da Céleres, o preço médio em Mato Grosso está em R$ 9,50 por saca enquanto o frete sai a R$ 10,20 por saca.

Na safra passada, com o apoio do governo, o Mato Grosso conseguiu exportar 5 milhões de toneladas, informa Seneri Paludo. O volume corresponde a quase 65% de tudo o que o Brasil exportou.

A oferta do cereal da safrinha também deve ser maior em Goiás, onde, pela primeira vez na história a área de segunda safra será superior à cultivada com milho no verão. Segundo a Conab, o Estado vai plantar 401,1 mil hectares, a maior área desde 1976. No verão, foram 357,1 mi hectares, queda de 34% em comparação ao ciclo anterior.

Pedro Arantes, assessor econômico da Federação de Agricultura de Goiás (Faeg), diz que os baixos preços do milho no plantio fizeram os agricultores goianos plantar mais soja no verão. A safrinha cresceu, mas foi em um ritmo inferior à retração da safra de verão. Isso vai representar um milhão de toneladas a menos na oferta total de Goiás neste ano, afirma Arantes. A expectativa é de que a produção das duas safras seja um pouco superior a 4 milhões de toneladas.

Também se estima produção maior na safrinha do Paraná, apesar da queda da área plantada, de 1,524 milhão de hectares para 1,363 milhão. De acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), a produção deve crescer 32%, para 5,920 milhões de toneladas, Flávio Turra, da área econômica da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), lembra que em 2008/09, a safrinha do Estado sofreu com seca no desenvolvimento e chuva na colheita. Na atual temporada, o clima tem ajudado até agora por isso a produtividade deve se recuperar.

O governo, que já tem 6 milhões de milho em seus estoques por causa dos contratos de opção feitos na safra passada, vai abrir os cofres de novo na atual temporada. Sílvio Farnese, coordenador-geral da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, estima que será necessário exportar entre 8 milhões e 10 milhões de toneladas de milho diante da safrinha recorde. Só se não houver demanda, não conseguimos exportar, diz.

Segundo ele, o governo deve apoiar a comercialização de 15 milhões de toneladas de milho, com operações de PEP e Pepro (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor). Em 2009, retirou do mercado, 10 milhões de toneladas com operações de PEP, opções e aquisições (AGFs).

c) Oferta ampla pressiona cotações de grãos

Dois relatórios divulgados na quarta-feira pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) amplificaram a pressão sobre as cotações internacionais de milho, trigo e soja, as commodities agrícolas de maior liquidez que têm na bolsa de Chicago sua principal referência global.

Publicados simultaneamente, os trabalhos apontaram estoques americanos em 1º de março em geral mais gordos do que o esperado e projeções para a área plantada no país na safra 2010/11 que, se o clima não atrapalhar, tendem a resultar em ofertas confortáveis também no segundo semestre.

oi o relatório de estoques o principal responsável pelo tombo de quarta-feira das cotações do trio em Chicago. Para a milho, o USDA apontou reservas em 1º de março nos EUA 10% superiores às do mesmo dia de 2009. No trigo, o aumento foi de 30%, enquanto para a soja houve queda de 2%, menor do que a prevista e para um nível considerado ainda elevado.

Sobretudo para milho e soja, os estoques apontados surpreenderam e deixaram claro que o USDA subestimou a produção americana na safra passada 2009/10. Daí o ajuste nos preços, afirmou Vinícius Ito, analista da Newedge em Nova York.

Em Chicago, os contratos de segunda posição de entrega do milho caíram 9,50 centavos de dólar e fecharam a US$ 3,5650 por bushel. A segunda posição da soja fechou a US$ 9,50 por bushel, baixa de 30,75 centavos, e a do trigo encerrou a sessão a US$ 4,64 por bushel, queda de 21,25 cents.

Ainda que os estoques tenham prevalecido, o relatório do USDA sobre as intenções de plantio também foi considerado baixista, mesmo que essas primeiras projeções sejam pouco mais do que uma sinalização e que o levantamento completo de campo só vá ser divulgado em três meses.

Os sinais, já esperados pelos analistas, apontaram crescimento de 3% da área plantada de milho nos EUA em 2010/11 e elevação pouco inferior a 1% na área de soja. Para o trigo, é verdade, a previsão foi altista, já que sinalizou redução de 9% no balanço total.

Essas estimativas serão digeridas nos próximos meses, mas tudo ainda pode mudar. E teremos também o tradicional weather market até a definição do tamanho das safras, disse Ito.

Durante o weather market, as previsões e efeitos do clima sobre o desenvolvimento das lavouras são acompanhados de perto e motivam especulações antes mesmo da comprovação de benefícios ou prejuízos. O plantio nos EUA ganhará fôlego em maio.

Na América do Sul, o clima beneficiou a safra 2009/10 e a colheita que está sendo comercializada agora tornou-se, pelo lado dos fundamentos de oferta e demanda, um dos principais fatores para a perda de sustentação dos preços no primeiro trimestre.

Tão importante quanto isso foram os ajustes de posições dos grandes fundos de investimentos especulativos nesses mercados, o que conteve um pouco a volatilidade, segurou as cotações e esvaziou os temores sobre uma nova onda de agroinflação global.

Sinal de que as commodities foram deixadas uma pouco de lado foram as altas do Índice Dow Jones, que mede o comportamento das ações de empresas negociadas na bolsa de Nova York. Em março, o termômetro subiu mais de 5%.

Nesse ambiente, março foi chocho em Chicago para a commodity que o Brasil mais exporta (soja), para a que o país tenta ampliar os embarques (milho) e para a que mais pesa nas importações (trigo).

Cálculos do Valor Data baseados nas médias mensais dos futuros de segunda posição mostram que, em março, houve uma leve alta de 1,01% para a soja em relação a fevereiro, uma tênue valorização para o milho (0,07%) e uma queda também modesta para o trigo (2,26%).

Em relação às médias de dezembro de 2009, há retrações de preços dos três produtos, e na comparação com março de 2009 só a soja apresenta valorização.

Para o algodão, negociado na bolsa de Nova York, a projeção de aumento de 15% da área plantada nos EUA em 2010/11 foi ignorada pelos traders na sessão de ontem e os preços subiram em função da desvalorização do dólar. Em 12 meses, o salto se aproxima de 90%.

Na comparação das médias nova-iorquinas, o açúcar confirmou as expectativas após uma liquidação especulativa e tombou 28,08% em março em relação a fevereiro, o cacau caiu 6,16% e houve altas para café (0,45%) e suco de laranja (4,32%).

d) Unica prevê mercado equilibrado em 2010

Apesar de 20 usinas já terem iniciado a moagem da safra 2010/11 e outras 35 sequer terem parado de moer desde o ano passado, oficialmente a nova safra no Centro-Sul começa nesta quinta-feira, dia 1º de abril. Espera-se chuva um pouco acima da média entre abril e maio. Em contrapartida, tempo seco entre junho e setembro, quando normalmente mais de 40% da cana é processada.

Nesse cenário, a União da Indústria de cana-de-açúcar (Unica) espera que a cana adicional para moagem neste ciclo venha do que sobrou em pé no ciclo passado. A expectativa é de que as usinas do Centro-Sul processem 595,891 milhões de toneladas (+10%) e produzam um mix muito parecido com o da safra passada (43,29% de açúcar e 56,71% de álcool).

Dessa forma, a Unica prevê produção de 34 milhões de toneladas de açúcar (+19%) e de 27,39 bilhões de litros de etanol (entre anidro e hidratado), alta de 15,6%.

A demanda crescente pelos dois produtos deve trazer equilíbrio ao mercado, diz Antônio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da entidade. Do lado do açúcar, persistem previsões de déficits mundiais - que variam de 4,7 milhões de toneladas a 14,8 milhões de toneladas. Da produção adicional esperada de 5,46 milhões de toneladas, em torno de 3,3 milhões serão absorvidos pelas exportações, sendo que 2 milhões de toneladas se referem a negócios de exportação feitos na safra passada, mas que foram renegociados para entrega em 2010.

Além disso, segundo Pádua, o mercado brasileiro de açúcar está em expansão. O consumo do setor industrial (60% da demanda brasileira) cresceu 10% em 2009, por causa da elevação da renda no país. Em 2010, esse crescimento deve persistir, afirma Pádua.

Para o álcool, a previsão é de exportações menores, nos níveis da safra 2003/04. O câmbio não oferece remuneração para exportação aos EUA e a produção maior de cana da Índia deve elevar a oferta interna e inibir importações em 2010.

Assim, é do mercado interno que virá o equilíbrio. A Unica prevê que em março de 2011 a frota de veículos flex representará 50% da frota nacional (hoje é de 41%) e que o consumo médio de etanol será 16% maior.

Organização Mundial do Comércio (OMC)

a) Demandas dos EUA inviabilizam negociação de Doha

Depois de encontro bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos, em Genebra, na semana passada, o sentimento que ficou entre negociadores foi de que não dá para fechar a Rodada Doha nem em 2012, 2013 ou mesmo 2020.

É que Washington cobra abertura tão indiscriminada e profunda de setores sensíveis da economia brasileira, como químicos e eletrônicos, que implicaria um choque de liberalização da noite para o dia, segundo negociadores.

Os EUA querem abertura indiscriminada, que ignora uma oferta de liberalização seletiva de subsetores. E profunda, que significa um corte logo de tarifa de importação em nível que eles levaram décadas para fazer.

Se não houver um mínimo de razoabilidade nas discussões, e se não for respeitado o grau de ambição acertado antes, não vemos perspectivas de negociar Doha em nenhum futuro previsível, afirmou o embaixador brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevedo.

As posições maximalistas dos EUA não são em todos os setores sensíveis. No automotivo nem é tanto, porque os fabricantes estão bem instalados no país e uma liberalização maior traria competição dos chineses, por exemplo.

A semana de avaliação da Rodada Doha, entre os 153 países membros, inventou um mecanismo que visa forçar os EUA a voltar à mesa de negociações com disposição de fazer barganhas e não apenas bloquear o processo. Mas o máximo que pode acontecer nos próximos meses na OMC é os países decidirem entre dois cenários: desmontar tudo o que foi negociado em oito anos e retomar tudo de novo, ou suspender Doha formalmente.

Por seu lado, a União Europeia (UE), que quer completar Doha, negocia nas bases acertadas. Já na negociação com o Mercosul para um acordo de livre comércio birregional, a situação tampouco parece favorável. O Mercosul se preparou para negociar, na última reunião de Buenos Aires, há duas semanas, mas seus negociadores saíram frustrados.

A UE não apresentou nada de concreto e agiu como se estivesse submetendo um exame ao Mercosul, no sentimento de certos negociadores. Os europeus só indagavam o que vocês vão fazer nessa área, naquela área, sempre reclamando, contou um deles.

A industria europeia insiste que o Mercosul é de seu maior interesse, ainda mais no estado combalido da economia europeia, mas é também o setor que motiva posições maximalistas.

A nova reunião entre os dois blocos, em abril, em Bruxelas, é vista como a última oportunidade de desbloquear a negociação do acordo de livre comércio. A outra opção é deixá-la em paralisia por mais um bom tempo, o que não é do interesse de boa parte do empresariado.

De um lado, os europeus precisam desesperadamente exportar mais. A Alemanha perdeu o posto de maior exportador mundial, o comércio dentro do bloco continuará baixo. Já os países em desenvolvimento continuam elevando suas importações, impulsionadas pela expansão econômica.

b) Delegação dos EUA tenta evitar retaliação

Uma delegação do governo dos Estados Unidos, chefiada pela representante comercial adjunta, embaixadora Miriam Sapiro, estará em Brasília para tentar evitar a retaliação de US$ 850 milhões que o Brasil planeja impor sobre produtos americanos. A chegada da delegação americana, a quatro dias da data definida para a entrada em vigor das sanções, alimenta no setor privado a expectativa de que enfim a administração Barack Obama aparecerá com algum tipo de compensação para o Brasil, mas o ceticismo persiste em áreas do governo.

Dois congressistas americanos, Jeff Flake (republicano do Arizona) e Ron Kind (democrata de Wisconsin) enviaram uma carta a membros influentes do Congresso, pedindo apoio para reforma imediata nos programas de subsídios agrícolas americanos a fim de evitar a retaliação brasileira contra exportações americanas por causa do não cumprimento, por Washington, de decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC) para acabar com as subvenções ilegais.

Por causa da incapacidade do Congresso de resolver as questões, diante do intenso lobby da indústria do Algodão e de outros grupos agrícolas, uma grande variedade de negócios americanos enfrentará altas sanções num momento em que eles não podem suportar isso, dizem os dois deputados. Um exemplo é o trigo americano, que será submetido a tarifa três vezes maior, de 10% para 30%, se a sanção for aplicada.

Miriam Sapiro, a número dois no USTR, agência de representação comercial americana, tem sido a pessoa da administração Obama que mais tem se ocupado do contencioso do Algodão com o Brasil. Ela está consciente de que chegar no Brasil a quatro dias do prazo para a retaliação exige algo concreto na mesa de negociação.

As discussões no setor privado têm apontado para a possibilidade de um fundo com recursos americanos para o Algodão, Embrapa e Agricultura. Mas ninguém tem idéia precisa do formato do fundo, se é que será criado. Ao contrário do setor privado, funcionários americanos nunca falaram abertamente sobre a possibilidade com os negociadores do Itamaraty.

O governo brasileiro acenou também com a idéia de receber compensação através da redução de barreiras sanitárias, menor taxa sobre o etanol, entre outras alternativas. Mas o ceticismo persiste em boa parte dos que acompanham o contencioso do Algodão. Duvidam que Washington tenha bala na agulha, ou seja, concessão importante a fazer amanhã.. E que pode ocorrer o pior cenário, de os americanos fazerem algum movimento, modesto, para aparecer bem na foto, e o Brasil ter que recusá-lo por ser insuficiente.

A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) tem insistido que um acordo bilateral, para evitar a sanção, precisa incluir um compromisso da Casa Branca de quando os subsídios ilegais serão retirados.

O setor privado americano fez uma articulação em Washington para mostrar que o problema está na Agricultura e algo precisa ser resolvido por aí. Nesse cenário, Miriam traz na delegação técnicos do Ministério da Agricultura, sinalizando que a discussão envolverá também como Washington pretende implementar a decisão da OMC para pôr fim aos subsídios ilegais aos cotonicultores.

Um dos membros da delegação é James Miller, especialista de programas que já foram condenados na briga com o Brasil na OMC. O embaixador brasileiro na OMC, Roberto Azevedo, também estará em Brasília participando da negociação.

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