22 a 26 de março de 2010

Comércio Exterior

Resultados
China planeja importação menor de minério de ferro

Investimentos

Carteiras de emergentes recebem US$ 2,5 bilhões
Empresas do País investem US$ 4 bi no exterior
BM&F e CME tentam criar mercado de etanol

Agronegócio

Butamax vai exportar biobutanol do Brasil
Monsanto estuda importar glifosato dos EUA
Governo quer criar estatal para regular setor de fertilizantes
Tombo do açúcar expõe especulação

Mercosul

Mercosul e países da Ásia alavancam venda externa no 1º bimestre
Mercosul amplia oferta de abertura para bens europeus

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Países traçam cenários para salvar Doha
Indústria dos EUA quer tréplica contra o Brasil
OMC condena subsídio à Airbus

Plano Internacional

Balança chinesa tem déficit de US$ 8 bi



Comércio Exterior

a) Resultados

As vendas externas de produtos brasileiros somaram US$ 10,218 bilhões nos 15 dias úteis de março contados até sexta-feira. A média diária do período foi de US$ 681,2 milhões. Esse desempenho representa crescimento de 26,9% em relação à média das exportações de março do ano passado e expansão de 0,5% na comparação com fevereiro deste ano.

De acordo com os números divulgados ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), no entanto, as compras brasileiras de produtos estrangeiros tiveram desempenho percentual superior, com crescimento de 41,3% nas três primeiras semanas de março em relação ao mesmo período de 2009. Houve, porém, decréscimo de 1,5% na comparação com a média das importações do mês anterior.

O aumento das exportações neste mês foi motivado por vendas expressivas nas três categorias de produtos. Na comparação com março de 2009, a Secretaria de Comércio Exterior registrou altas de 40,3% nas vendas de semimanufaturados (celulose, couros e peles, açúcar em bruto, ferro-liga, alumínio e outros), de 38,9% em produtos básicos (petróleo em bruto, carnes, café e soja em grão) e de 14,2% nas vendas de manufaturados (óleos combustíveis, veículos de carga, automóveis, açúcar refinado, autopeças e laminados planos, entre outros).

As importações somaram neste mês US$ 9,684 bilhões, com média diária de US$ 645,6 bilhões, motivada, principalmente, pelo aumento de 362,3% na aquisição de adubos e fertilizantes, comparado a março do ano passado. Houve altas expressivas também na compra de cobre (116,8%), borracha (94,5%), produtos farmacêuticos (66%), combustíveis e lubrificantes (63,1%), automóveis e partes (51,5%).

O desempenho mais forte das importações é responsável pelo pequeno saldo comercial de US$ 534 milhões no mês, até agora, com média diária de US$ 35,6 milhões. Mesmo sob o impacto da crise financeira internacional e a consequente queda nos níveis de comércio, o superávit (saldo positivo entre exportações e importações), contabilizado em março de 2009, atingiu US$ 1,756 bilhão, com uma média diária de US$ 79,8 milhões - mais que o dobro da média atual.

O desempenho é semelhante também no acumulado do ano. Desde janeiro, as exportações somam US$ 33,720 bilhões, com aumento de 25,6% sobre as vendas registradas em igual período do ano passado. Já as importações, que foram menores em valor total (US$ 32,959 bilhões), tiveram expansão maior, de 33,9% na mesma comparação.

O saldo comercial brasileiro no ano está em US$ 761 milhões, valor que representa uma queda de 65,9% na comparação entre os saldos de 2009 e 2010 até a terceira semana de março de cada ano.

b) China planeja importação menor de minério de ferro

A China poderá importar mais aços especiais e produtos manufaturados, para reduzir a importação direta de minério de ferro e combater o monopólio da Vale, Rio Tinto e BHP no mercado mundial. Foi o que avisou o representante chinês Hu Jiangyun, do Centro de Pesquisa do Conselho de Estado da China, num fórum global sobre commodities.

Ele apresentou um quadro estimando que os chineses foram submetidos a cobrança excessiva de US$ 100 bilhões (700 bilhões de yuan) no preço de minério de ferro nos últimos seis anos. E argumentou que Pequim poderá importar mais manufaturados e aço originários da União Europeia, Rússia e Ucrânia, que se encaixaria numa estratégia mais ampla da China.

Ninguém fica contente com essa fatura do minério de ferro. E se importarmos mais manufaturados, podemos reduzir também nosso superávit com parceiros que estão reclamando, disse ao Valor. Um problema que vê é que os EUA e a União Européia restringem a exportação para a China de vários produtos com valor agregado.

A Vale, Rio Tinto e BHP controlam cerca de dois terços do mercado de minério de ferro, que tem valor de US$ 200 bilhões por ano, de acordo com o Credit Suisse. A China é uma das maiores importadoras. No fórum organizado pela Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), as avaliações foram de que os produtores da commodity tem futuro brilhante, desde que consigam estabelecer seus preços em limites razoáveis.

Existe potencial de conflito entre comprador e vendedor nesse mercado, disse Ericsson Magnus, diretor da Raw Materials Group, da Suécia. A concentração das (três empresas) é excessivamente alta, e mais ainda se a joint venture entre BHP e Rio Tinto for aceita. Ericsson e um representante do Ministério de Recursos Minerais da África do Sul, Sandile Nogxina, se juntaram ao chinês Jiangyun, por um mecanismo de vigilância dos preços dos minério de ferro, commodity principal do aço.

O argumento do representante chinês é de que o controle dos três grandes distorce o mercado, força com seus preços o produtor chinês aumentar o custo de automóveis, infraestrutura etc, mas evitou mencionar nomes das empresas. A fatura de 700 bilhões de yuan já foi usada pelas autoridades chinesas para acusar a australiana Rio Tinto no processo contra alguns de seus funcionários, envolvidos na venda de minério de ferro, que teriam subornado funcionários chineses para obter informações industriais secretas.

Um jornal chinês publicou que as autoridades investigam o estoque de minério de ferro importado em portos como Tianjin, Qingdao e Rizhao. Suspeita que produto de baixa qualidade entrou no mercado ao mesmo tempo em que os preços cresciam, custando mais para as empresas e piorando os problemas ambientais. Magnus, da RMG, também considera que a demanda chinesa continuará a alimentar os grandes negócios do setor de mineração. Sua expectativa é de que globalmente a demanda crescerá 3,3% em média até 2020, comparado a 6% de 1998-2008 - e grande parte vem da China.

O especialista estima que a tendência dos preços continuará sendo de alta. De um lado, a exploração foi duramente afetada, numa situação perigosa para o futuro. A produção da mineração em geral este ano voltará apenas aos níveis de 2007. O valor do setor não deve passar dos US$ 400 bilhões, comparado a US$ 463 bilhões em 2008.

De outro lado, a demanda de minério de ferro poderá superar os 2 bilhões de toneladas em 2013/14. Certos analistas estimam que o consumo de aço na China deve dobrar até 2020 em relação a 2008 em razão da continua urbanização, com mais projetos de infraestrutura etc.

Em 2009, a China foi responsável por 47% da produção mundial de aço bruto no ano passado. Mas o cenário mais provável é de fechamento gradual de mais siderurgias velhas chinesas.
Investimentos

a) Carteiras de emergentes recebem US$ 2,5 bilhões

Depois de algumas semanas fora do radar dos investidores, o que resultou em modestas captações, os fundos de ações de mercados emergentes voltaram a atrair o apetite dos aplicadores.

Segundo a consultoria EPFR Global, na semana encerrada dia 17 de março, essas carteiras levantaram cerca de US$ 2,5 bilhões. Os fundos de ações da América Latina não ficaram de fora e receberam aproximadamente US$ 200 milhões, melhor resultado em oito semanas.

O destaque dentro desse grupo, no entanto, não ficou com o Brasil. Foi o México quem mais atraiu recursos conforme melhoram as perspectivas de recuperação da economia americana.

Ainda entre as grandes categorias emergentes, os fundos da Ásia (exceto Japão) lideraram a captação, ganhando US$ 730 milhões. Mas não foi a China que concentrou o recebimento de recursos. Hong Kong, Coreia e Índia é que estão nas graças dos investidores.

Os emergentes ganharam dinheiro não apenas via mercado de ações. Os fundos de bônus desses países receberam aportes de US$ 587 milhões na semana, elevando para cima dos US$ 5,5 bilhões o total captado no ano.

Mostrando que os agentes mantêm elevado apetite por risco, ou apenas buscam maiores rendimentos em função de juros próximos a zero nas maiores economias do mundo, o money market funds - de baixo risco e retorno - perderam outros US$ 61 bilhões na semana. Com isso, o saque acumulado no ano soma US$ 250 bilhões.

Na semana do dia 13, todos os fundos de ações acompanhados pela EPFR Global levantaram US$ 5,7 bilhões, enquanto todos os fundos de bônus ganharam mais de US$ 6 bilhões. Entre os países desenvolvidos, Estados Unidos e Japão seguem atraindo dinheiro, enquanto a Europa perde recursos, em função dos problemas fiscais de alguns de seus países, notadamente a Grécia.

Em relação aos fundos de ação da Europa, a consultoria nota que, além da preocupação com a Grécia, o fraco crescimento da região também desestimula os aportes. Na semana do dia 13, os saques somaram US$ 1,06 bilhão, maior retirada desde meados de maio de 2009. Já os fundos de ações dos EUA ganharam dinheiro pela quinta semana consecutiva.

No Japão, o fortalecimento do setor exportador e a sinalização de a política monetária seguirá expansiva garantiram a 12ª semana seguida de captação. No ano, o saldo já passa de US$ 2,2 bilhões.

b) Empresas do País investem US$ 4 bi no exterior

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, informou ontem que o Investimento Brasileiro Direto (IBD), aquele realizado por companhias nacionais em outros países, somou US$ 4,18 bilhões em fevereiro, recorde para o mês. No bimestre, a cifra atingiu US$ 5,42 bilhões, outra marca histórica.

O forte resultado coincide com a finalização da compra da americana Pilgrims Pride pela brasileira JBS. Em fato relevante, o frigorífico afirma que o negócio envolveu US$ 800 milhões em dinheiro para a aquisição do controle acionário e o pagamento de US$ 2 bilhões em dívidas para retirar a empresa estrangeira da concordata.

Com o bom desempenho recente do IBD, que reflete a volta do processo de internacionalização das empresas brasileiras interrompido pela crise internacional, o BC triplicou a previsão de investimento brasileiro no exterior em 2010, de US$ 5 bilhões para US$ 15 bilhões.

Ao mesmo tempo em que o País avança neste processo de internacionalização, a China deixou de ser apenas um fornecedor de mercadorias para começar a ser um investidor no mercado brasileiro. Em fevereiro, o gigante asiático foi a terceira maior fonte de investimento produtivo no Brasil, com US$ 354 milhões.

Segundo relatório do BC, essa foi a primeira vez que o capital chinês surgiu como fonte relevante de Investimento Estrangeiro Direto (IED). Até janeiro passado, o país nem sequer aparecia nesse ranking.

O ingresso dos dólares chineses reflete o fechamento do negócio entre a MMX, braço de mineração do grupo do empresário Eike Batista, e a siderúrgica Wuhan Iron & Steel (Wisco). Pelo negócio concluído em 26 de fevereiro, 21,5% das ações da companhia brasileira foram vendidas para os chineses.

Mais que uma mera compra de parte do capital de uma empresa do Brasil, os chineses, ao celebrarem um contrato de 20 anos para compra de minério, dão mais um passo em sua estratégia de garantir suprimentos de matéria-prima para sua indústria exportadora.

No acordo com a MMX, foi acertado que pelo menos metade da produção da unidade Serra Azul, no chamado Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais, será exportada para a Wisco. Há, ainda, previsão de aumento de até 50% na venda para a China da matéria-prima extraída da unidade Bom Sucesso, também no interior mineiro.

Os dados do BC mostram também que a indústria voltou a liderar o investimento produtivo no Brasil, desbancando o setor de serviços. Em fevereiro, o segmento respondeu por US$ 937 milhões em IED, cerca de 32,9% do total que ingressou no País.

Em relatório, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) observa que 75,8% do dinheiro destinado ao setor foi usado em um único segmento, o de combustíveis. Assim, o crescimento mais generalizado do investimento industrial, num contexto de aceleração do crescimento, ainda não deslanchou, reconhece o Iedi.

Para 2010, o BC manteve a previsão de ingresso de US$ 45 bilhões em investimento produtivo no País. O número, idêntico ao de dezembro, será insuficiente para cobrir o rombo da conta- corrente - que registra as transações de bens e serviços do Brasil com o exterior -, previsto para chegar a US$ 49 bilhões.

A projeção anterior para o déficit em conta corrente era de US$ 40 bilhões. A piora reflete uma expectativa bem mais fraca de saldo positivo na balança comercial e um déficit maior na conta de serviços, determinado por gastos maiores com juros, remessas de lucros e também viagens internacionais.

A diferença de US$ 4 bilhões entre o IED terá de ser compensada pelos dólares que ingressarem no Brasil por meio de outras fontes, como os investimentos em ações e títulos de renda fixa e também créditos às empresas.

De fato, essas fontes de recursos vão mais que compensar o buraco de US$ 4 bilhões deixado pelo IED. Somente em investimentos em renda fixa e ações, o BC já espera US$ 35 bilhões (ante US$ 25 bilhões na projeção anterior), refletindo a expectativa de crescimento e aumento do juro em breve.

c) BM&F e CME tentam criar mercado de etanol

As Bolsas de Valores de Chicago (CME) e de São Paulo (BM&F Bovespa) vão tentar unir forças para criar o primeiro mercado unificado de biocombustíveis, em mais um passo para a internacionalização do etanol. A informação é do diretor-gerente da CME, Robert Ray, que viajará ao Brasil no início de abril para negociar o acordo.

As duas instituições fecharam uma parceria em fevereiro e já fecharam mais de 21 milhões de contratos. A CME é a maior e mais diversificada bolsa do mundo. O grupo foi formado em 2007, com a fusão da Chicago Mercantile Exchange (CME) e a Chicago Board of Trade (CBoT).

A CME já mantém uma cotação para o etanol de milho, usado nos Estados Unidos. Já a BM&F mantém sua cotação para o etanol de cana. O que queremos debater agora é um passo a mais e estabelecer uma cotação única para biocombustíveis, explicou Ray, ao Estado.

Em fevereiro, as duas bolsas assinaram um acordo de parceria estratégica para permitir investimentos em bolsas internacionais e o desenvolvimento de uma plataforma eletrônica de negociação de derivativos e ações.

A BM&F ainda indicará um representante para participar do conselho de administração da CME. A participação societária da bolsa paulista na CME ainda foi elevada para 5%, equivalente a cerca de US$ 1 bilhão.

Nessa parceria, uma das primeiras oportunidades de operação será no setor de etanol. Vou ao Brasil nas próximas semanas para negociar exatamente isso, disse Ray. Mas ele esclarece que a parceira com São Paulo vai além do etanol.

Um dos principais objetivos do governo brasileiro é instituir o mercado mundial de etanol, até como forma de consolidar o biocombustível como uma alternativa real.

Além do mercado financeiro, a principal batalha do Brasil é conseguir que americanos e europeus reduzam suas tarifas de importação e permitam que o etanol nacional possa entrar nesses mercados com preços competitivos.

Em pouco mais de um mês, os contratos entre Chicago e a BM&F atingiram a marca de 21 milhões. Estamos dando um exemplo de como fazer parceria, disse Ray.

Ray aposta no Brasil e nos Estados Unidos como os grandes fornecedores de soja, milho e outros grãos para o mundo na próxima década. Os dois países vão alimentar o mundo nesse segmento, disse. O mundo emergente vai demandar cada vez mais e isso é uma grande oportunidade para o Brasil.

Além do etanol, as duas bolsas vão desenvolver um mercado de derivativos até 2011. Um dos pontos do acordo é que a bolsa paulista possa comercializar a plataforma eletrônica desenvolvida com Chicago para outros países. Para isso, a BM&F investirá US$ 175 milhões em dez anos.

Agronegócio

a) Butamax vai exportar biobutanol do Brasil

A Butamax, joint venture criada pela companhia petrolífera inglesa British Petroleum (BP) e a multinacional DuPont, pode transformar o Brasil em sua base de exportação de biobutanol. O biocombustível começará a ser produzido este ano em uma planta-piloto na Inglaterra e ganhará escala entre 2012 e 2014 no Brasil, Estados Unidos e Reino Unido.

Em entrevista, Tim Potter, CEO da companhia, explicou que os mercados da União Europeia e dos EUA têm grande potencial para o consumo de biobutanol. O biocombustível será produzido a partir da cana no Brasil, do milho, nos EUA, e do trigo, na Europa. A cana é a mais eficiente matéria-prima do mundo.

A diferença entre o biobutanol e o etanol é que o primeiro tem quatro moléculas de carbono, com mais energia armazenada, e o segundo, duas. O processo de fermentação do produto também difere do etanol.

Segundo Potter, o biocombustível será produzido no Brasil com foco para o mercado externo. A expectativa é a de que até 2020 sejam exportados cerca de 2 bilhões de galões (ou 7,5 bilhões de litros) a partir do país. O valor dos investimentos no desenvolvimento desse biocombustível não foi divulgado. O executivo observa que o transporte do biobutanol pode ser feito por meio de dutos por onde passam outros produtos, sem risco de contaminação, ao contrário do etanol.

As pesquisas em torno do biobutanol começaram a partir de 2003, mas ganharam força em 2005, quando as duas empresas - BP e DuPont - intensificaram esforços em torno do desenvolvimento do biocombustível. Atualmente, a Butamax detém cerca de 70 patentes de biobutanol.

No ano passado, a joint venture entre as duas companhias foi formalizada - cada uma com 50%. A primeira planta-piloto entra em operação até o fim do ano em Hull, na Inglaterra. A partir de junho, a Butamax coloca em operação o laboratório de tecnologia em Paulínia, em São Paulo. A empresa tem outro laboratório de pesquisas em Delaware (EUA).

Potter vê um enorme mercado para o biobutanol nos EUA e também na Europa. Os EUA devem utilizar 36 bilhões de galões de biocombustíveis até 2022, que tanto podem ser etanol como biobutanol, e a UE aprovou 10% de mistura de biocombustíveis nos combustíveis. Para o Brasil, o uso do etanol tradicional já está consolidado.

Consolidada a produção de biobutanol em larga escala, a Butamax pretende disponibilizar, por meio de acordos, o produto no mercado. Nos EUA e UE, a produção de etanol é limitada. Para o biobutanol, não há barreiras.

A BP trabalha em várias frentes para avançar em biocombustíveis no mercado internacional. Assim como a petrolífera Shell, que formou uma joint venture com a Cosan, para avançar na produção de biocombustíveis, a BP também considera esse mercado estratégico. Além do biobutanol, a petrolífera desenvolve pesquisas de biocombustíveis de segunda geração, por meio do processo de lignocelulose, a partir de energy grass (fontes vegetais). Também trabalha no desenvolvimento de diesel a partir da cana e na produção tradicional de etanol no Brasil, com uma participação de 50% na Tropical Bionergia, com uma usina instalada em Edeia (Goiás).

b) Monsanto estuda importar glifosato dos EUA

A multinacional Monsanto já traça um plano B caso a Câmara de Comércio Exterior (Camex) adote uma medida não favorável à empresa no que diz respeito à nova tarifa antidumping para o glifosato importado da China. A expectativa era de que a decisão fosse anunciada em Brasília pela Camex, mas a reunião que trataria do assunto foi adiada para o próximo dia 6 de abril.

A empresa não descarta a possibilidade de reduzir a produção de matéria-prima para o glifosato em sua fábrica Camaçari (BA) e também diminuir a composição do defensivo em sua unidade de São José dos Campos (SP). Em substituição, o produto seria importado da planta de Luling, no estado americano da Louisiana.

Não sabemos quanto do produto deixaria de ser produzido para ser importado. Precisaríamos reavaliar nossa produção local e não descartar a possibilidade de interromper por algum tempo a fabricação, afirma Ricardo Madureira, diretor geral da divisão de proteção de cultivos da Monsanto para América do Sul.

A justificativa para a medida é a entrada do glifosato chinês no Brasil a preços abaixo dos custos de produção. De acordo com Madureira, o governo da China concede um reembolso fiscal de 5% para o glifosato produzido e exportado a partir de solo chinês. Isso permite que o fabricante venda abaixo de seu custo, já que ela conta com esse reembolso, afirma Madureira.

Mais do que o benefício fiscal, o produto chinês passou a incomodar a Monsanto a partir do momento de sua queda de preço. Em meados de 2008, o quilo do glifosato da China chegava ao Brasil por US$ 13,00, valor que está atualmente a US$ 3,00 por quilo, segundo cálculos da própria Monsanto. Questionado sobre qual seria o custo de produção da empresa no Brasil, Madureira diz que essa é uma informação estratégica e que não pode fornecer.

Mesmo assim, o executivo lembra que se a Camex não colocar uma tarifa antidumping adequada, não faria mais sentido produzir o glifosato no Brasil. Dessa forma, mesmo com um investimento de US$ 350 milhões, a produção das matéria-primas em Camaçari poderia ser suspensa. Além disso, parte da unidade de São José dos Campos, que já recebeu investimentos de US$ 140 milhões e processa as matérias-primas para formulação do produto final também ficaria em xeque. Em se mantendo esse regime de preços vamos ter que parar de produzir para não ter que operar no vermelho, afirma Madureira.

Em princípio, a atual tarifa antidumping de 2,1% seria substituída por um preço mínimo de referência de US$ 3,60 por quilo. A proposta feita pela multinacional era de que esse valor fosse de US$ 4,60, mas o que está sendo proposto já agrada a empresa, desde que existam mecanismos que garantam sua aplicação.

c) Governo quer criar estatal para regular setor de fertilizantes

O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, informou que o governo federal pretende criar um órgão para gerenciar a produção de fertilizantes minerais no país, mas negou que a entidade vá exercer diretamente a atividade. Não é uma estatal voltada para exploração. Há várias opções de como ela poderá atuar, desde uma companhia até uma secretaria ou um departamento. Segundo o ministro, essa nova estrutura deverá ter, no máximo, 50 funcionários.

A idéia gerou críticas diretas da bancada ruralista na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, onde o ministro e o secretário de Geologia e Mineração do Ministério de Minas e Energia, Cláudio Scliar, estiveram ontem para apresentar o plano do governo para os fertilizantes. O setor de fertilizantes, que tem duas empresas que o dominam, não pode se regular, retrucou Stephanes.

Os ministérios de Minas e Energia e da Agricultura deverão enviar ao Congresso, ainda este mês, um projeto de lei com a regulamentação de todas as ações oficiais nessa área para o país atingir a autossuficiência de fertilizantes minerais - principalmente, nitrogenados, potássio e fósforo. A decisão de retirar esse projeto de lei do conjunto de propostas para a área mineral decorreu do fato de que, para os fertilizantes, o consenso já é maior. Acho que o código mineral levará mais anos em tramitação, disse Stephanes, no Senado.

A meta do governo federal é, principalmente, reduzir a dependência brasileira da importação de fertilizantes, que enfrentam escassez no mercado mundial e têm valor bastante volátil. Em 2009, o Brasil importou US$ 84 milhões em fósforo e mais de US$ 2 bilhões em potássio (acima de 90% do total consumido no país), segundo Claudio Scliar. O Brasil produz 1% do potássio do mundo, mas consome 13% do total no agronegócio.

Stephanes disse que a Petrobras poderá participar da produção de fertilizantes no país. A estatal controla a jazida de potássio de Nova Olinda, no Amazonas, e a mina de Taquari, em Sergipe, atualmente arrendada à Vale. Segundo Scliar, também existe um grande potencial de presença de potássio em águas rasas, na plataforma continental, ou seja, no sal da camada de pré-sal. A Petrobras já encontrou ocorrências do mineral do Recôncavo Baiano até o litoral do Espírito Santo.

Além do projeto de lei, Stephanes anunciou que há outros dois documentos em fase final de discussão no governo. O primeiro deles trata de decisões político-administrativos que, por exemplo, estimulariam Vale e Petrobras a explorar jazidas que já possuem. Por esse documento, seria possível atuar para estimular a mineração de potássio, por exemplo, na Floresta Nacional Iperó (antiga fazenda da Marquesa de Santos), em São Paulo, onde não há uma árvore sequer, segundo Stephanes, e estimular a exploração nas jazidas de Pernambuco e Paraíba, do governo federal. Não há explicação sobre porque não se explora.

O segundo documento, disse Stephanes, tratará de resíduos orgânicos, prevendo a construção de usinas para fazer adubo a partir de derivados de frangos e suínos em Rio Verde (GO), Uberlândia (MG), Chapecó (SC), Toledo (PR) e Lucas do Rio Verde (MT).

d) Tombo do açúcar expõe especulação

A brusca mudança de direção das cotações internacionais do açúcar, que em menos de dois meses já caíram quase 40%, reaqueceu as discussões em torno dos riscos inerentes ao forte aumento da carga especulativa nos mercados de commodities agrícolas a partir do fim de 2006.

Ao mesmo tempo em que ajudou a catapultar os preços do produto ao maior patamar em três décadas na bolsa de Nova York, uma bênção para exportadores mas um problema para consumidores, a redução das apostas de grandes fundos de investimentos nessa frente é agora apontada como protagonista de uma sangria que ainda poderá se tornar mais aguda no curto prazo - um alento contra a agro inflação, mas uma ameaça aos negócios.

Quando a mudança de direção dos preços é muito rápida, normalmente fica claro que o mercado em questão está sob forte ataque especulativo. É o caso do açúcar, que tem bastante liquidez. A verdade é que a especulação deixou de ser um fator de ajuste, como era no passado, e tornou-se um fim em si mesma, conferindo uma volatilidade brutal aos mercados, afirma o economista Fabio Silveira, da RC Consultores, para quem o café poderá ser uma das próximas vítimas desses movimentos.

O esvaziamento das apostas dos fundos no açúcar e em outras commodities - na bolsa de Chicago as posições líquidas dos fundos na soja também despencaram - está relacionado à necessidade dos fundos de cobrirem posições em outras aplicações, em parte por causa das turbulências europeias, num momento de elevação sazonal da oferta global graças à entrada no mercado da nova safra brasileira de cana.

É óbvio que ninguém duvidava que a elevação da oferta no Brasil exerceria pressão baixista sobre as cotações do açúcar, mas para muitos o fator estava precificado bem antes do nível atual de preços ser atingido, e qualquer tombo maior poderia ser evitado pela ainda escassa oferta da Índia, que passou de grande exportadora global a importadora de peso na última safra. Afinal, foi o fator Índia que alimentou apostas e investimentos no produto e abriu as portas para as máximas.

O açúcar alcançou o maior patamar em quase 30 anos em Nova York em 29 de janeiro. Houve papéis que superaram a barreira de 30 centavos de dólar por libra-peso, mas os contratos futuros de segunda posição de entrega, que normalmente têm maior liquidez, fecharam na ocasião a 28,60 centavos, acumulando uma impressionante valorização de 224,6% em relação ao pregão de 13 de junho de 2007, piso desde então. Mas também impressionante foi a vertiginosa baixa de 42,5% entre 29 de janeiro e a última terça-feira.

Recente análise de Arnaldo Luiz Corrêa, da Archer Consulting, sobre o que se passou após os picos do fim de janeiro ilumina a lógica que acelerou a liquidação especulativa que colaborou para o tombo.

Os especuladores compravam as calls opções de compra financiando a operação com a venda das puts opções de venda. Se o mercado continuasse a subir, os especuladores ganhariam com a valorização das calls compradas, enquanto as puts vendidas perderiam seu valor. Quando o mercado despencou, o especulador se viu com o risco de ser exercido na put vendida - isto é, ficar comprado num mercado em queda acelerada. Para estancar ou limitar esse prejuízo iminente ele vendeu futuros. Ao fazê-lo, empurrou as cotações mais para baixo, numa bola de neve.

O mergulho passou por cima da desvalorização do dólar diante de outras moedas, o que é um fator de sustentação para as commodities. Em relação ao euro, a moeda americana caiu 4% no intervalo, conforme o Valor Data, e a queda na comparação com o real foi de 4,5%. O exportador brasileiro, portanto, sofreu nas duas frentes: o preço da commodity recuou e o câmbio tornou-se menos atraente. Os preços desafiaram a valorização do dólar e subiram em Nova York, mas muito influenciados por realizações de lucros diante de tanta erosão.

Para Julio Maria Borges, da Job Economia e Planejamento, ameaças reais à rentabilidade da atividade para as usinas brasileiras só virão com novas quedas. Por enquanto, diz, o assunto é se o lucro será maior ou menor. Os níveis atuais de preço são satisfatórios. Não se fala em prejuízo, afirma. Tanto que importadores, inclusive da Índia, que chegaram a cancelar encomendas com as cotações nas alturas, ainda mantêm a cautela para comprar. E Borges estima que pelo menos 50% da produção de açúcar do país na safra 2010/11, estimada entre 35 milhões e 38 milhões de toneladas, já esteja fixada a preços superiores dos atuais. A maior parte das fixações está entre 20 e 28 centavos de dólar por libra-peso, afirma o analista.

Apesar de a maior parte das projeções indicarem que a correção ocorrida no açúcar foi exagerada e, levando-se em conta que o futuro da demanda internacional e do clima no Brasil certamente influenciaram o rumo das apostas especulativas, a forte instabilidade das cotações mostra que o mix de produção da próxima safra de cana do Brasil ainda não está definido. Mesmo o álcool, cujos preços também passaram por correção técnica, não está trazendo prejuízo às usinas. Como ele já está competitivo nas bombas, o consumo deve ser retomado, pondo fim à queda dos preços, diz Borges.

Mercosul

a) Mercosul e países da Ásia alavancam venda externa no 1º bimestre

A evolução das exportações brasileiras no primeiro bimestre de 2010 já reflete as perspectivas de recuperação estimadas para as vendas a alguns países e regiões. Nos primeiros dois meses do ano, o valor de todas as exportações brasileiras cresceu 21,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Para alguns países, porém, o aumento foi maior. Na América Latina, mercado importante para os manufaturados brasileiros, as vendas foram puxadas pelos sócios do Mercosul - 59,8% mais para a Argentina e 51,6% para o Paraguai. Para a Ásia, os embarques (em valor) aumentaram 29%, com destaque para os básicos (33% de alta) e manufaturados (36% mais).

Um dos maiores aumentos foi registrado nas vendas à Índia, que cresceram 206%, enquanto os embarques para a China aumentaram 39,4%. No Oriente Médio, a Arábia Saudita importou 45,9% mais do Brasil, e o Irã, 76%. São diversos os fatores que levaram à recuperação das exportações para esses países.

O desempenho nas vendas para essas regiões está muito acima dos embarques para a Europa e os Estados Unidos. No primeiro bimestre de 2010, a União Europeia comprou 16,62% a mais que no mesmo período do ano passado, enquanto os embarques do Brasil aos Estados Unidos cresceram 17,31% - em ambos os casos, abaixo do desempenho geral do período.

O economista Fábio Silveira, da RC Consultores, observa que o aumento das exportações à Argentina está relacionado à perspectiva de recuperação do Produto Interno Bruto (PIB), que, após cair no ano passado, deve crescer em torno de 3,5% em 2010.

As exportações no primeiro bimestre refletem o ritmo de recuperação econômica dos diversos países. Em alguns locais, mais lento. Em outros, um ritmo mais acentuado, diz Thaís Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados. Ela lembra, porém, que a elevação em relação à Argentina deve-se também à base de comparação baixa, já que as compras do país vizinho de produtos brasileiros caíram mais no início do ano passado em relação aos demais países. No primeiro bimestre de 2009, as exportações do Brasil à Argentina tiveram queda de 48,9%. As vendas totais ao exterior de mercadorias brasileiras caíram 25,7%.

Silveira acredita que, apesar da base baixa, a elevação das exportações para a Argentina é um indicativo de um início de recuperação que deve se espalhar para os demais países da América do Sul, muitos deles com estimativas favoráveis de crescimento do PIB, como Paraguai, Peru e Colômbia. Esse bloco deverá fazer a grande diferença em relação ao ano passado, levando em conta os motores do setor externo.

A América Latina, lembra Silveira, é um mercado para os manufaturados brasileiros e uma oportunidade de recuperar um pouco a venda de bens com maior valor agregado. Entre os itens que puxaram as vendas brasileiras aos argentinos estão os automóveis, cujos embarques saltaram de US$ 176,2 milhões no primeiro bimestre do ano passado, para US$ 376,9 milhões nos dois primeiros meses deste ano. Os carros representaram 14,2% dos valores exportados à Argentina no período.

Para André Sacconato, economista da Tendências Consultoria, a Argentina promete ser um mercado mais interessante neste ano, no curto prazo, do que no longo prazo. O país tem tomado uma série de medidas fiscais que deverão afetar seu desempenho.

De forma geral, a situação dos países da América Latina teoricamente melhorou este ano com o aumento de preços de metais, como níquel, cobre e prata, além do petróleo, diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de comércio exterior do Brasil (AEB). A questão é a concorrência dos países asiáticos, embora as perspectivas sejam boas, a menos que aconteça algum imprevisto.

No campo dos imprevistos, o Chile é o exemplo dos economistas. As estimativas para a economia do Chile iam bem, mas o terremoto deve afetar um pouco, embora o país tenha uma capacidade surpreendente de ajuste, diz Sacconato. O impacto, diz, deve se estender para as compras de produtos brasileiros. No primeiro bimestre, as vendas para o país aumentaram 28%.

Para os economistas, um horizonte mais claro fica por conta da China e da Índia, cujas economias devem crescer pelo menos 10% e 8%, respectivamente, segundo estimativas da Tendências. As commodities dominam a pauta de exportação brasileira para os dois países.

No primeiro bimestre, o petróleo fez a diferença nos embarques para a China. As vendas brasileiras do óleo nos dois primeiros meses de 2010 alcançaram US$ 639,9 milhões. No mesmo período do ano passado foram US$ 90,6 milhões.

Nas vendas para a Índia pesou o açúcar, com exportações que passaram de US$ 109,9 milhões para US$ 256,2 milhões. Para Castro, da AEB, porém, o desempenho do valor de vendas de açúcar não deve se manter. Os preços estão caindo e o açúcar não deverá mais ser a sensação das exportações brasileiras, como se previa.

Beneficiados pelo aumento dos preços do petróleo, os países do Oriente Médio também chamam atenção no desempenho das exportações brasileiras. Levando em conta todos os países integrantes, o bloco comprou 52% a mais no primeiro bimestre de 2010, na comparação com o mesmo período de 2009. O crescimento fez o bloco ultrapassar o valor de produtos brasileiros adquiridos pela África, excluindo os países do Oriente Médio. Tanto no primeiro bimestre de 2009 quanto no fechamento do ano passado, as exportações brasileiras para a África foram maiores que as vendas ao Oriente Médio.

Trata-se de uma região muito rica, mas, em termos de manufaturados, há uma grande concorrência da China e do Japão, diz Castro. O bloco, porém, tem sido grande comprador de commodities agrícolas brasileiras.

Dentro do Oriente Médio, destacam-se países árabes, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O item predominante na pauta são as carnes, tanto a bovina quanto o frango, diz Wladimir Freua, vice-presidente de comércio exterior da Câmara Árabe. Levando em conta todos os países árabes, informa, a exportação de carne bovina e frango pelo Brasil atingiu US$ 401 milhões no primeiro bimestre de 2010. Em relação ao mesmo período do ano passado, o aumento foi de 42% em itens que equivalem a 26% da pauta de exportação brasileira a esse grupo de países.

Alvo de debate no último mês, em função da proposta feita pelos Estados Unidos ao Brasil para aplicação de sanção, o Irã é outro país do Oriente Médio para o qual o Brasil exportou no primeiro bimestre mais do que a média geral. As vendas de produtos brasileiros ao Irã aumentaram 76% no período. O grande item na pauta foram as carnes.

b) Mercosul amplia oferta de abertura para bens europeus

O Mercosul ampliou a oferta de abertura de seu mercado para bens da União Europeia (UE), mas as tarifas de setores sensíveis devem permanecer até 2025. A oferta foi feita na esperança de se obter um acordo ainda este ano. Em maio, chefes de governo do Mercosul e da UE se reúnem em Madri para tentar fechar a primeira parte do acordo.

A nova proposta prevê que 90% das linhas tarifárias sejam liberadas. A proposta anterior, de 2004, contemplava 77% das linhas, mas os europeus se queixaram de que a maioria dos produtos de interesse ficou de fora.

No caso dos setores sensíveis, a proposta de 2004 estabelecia uma proteção por dez anos, a partir da entrada em vigor do acordo. Agora, pede 15 anos. Ou seja, se o acordo fosse fechado em 2010, os setores sensíveis só teriam redução tarifária em 2025.

Na lista de setores protegidos por 15 anos, o Mercosul incluiu automóveis e autopeças, têxteis, couro, calçados e alguns químicos. Só o setor automotivo representa quase um terço do comércio entre os dois blocos.

As negociações foram lançadas em 1999, mas em 2004 chegaram a um impasse. Europeus queriam maior acesso ao mercado sul-americano para seus bens industriais e o Mercosul queria maior acesso ao mercado agrícola europeu.

Agora, a presidência espanhola da União Europeia diz estar comprometida com o relançamento das negociações com o Mercosul. Este ano, já fechamos acordos com o Peru e a Colômbia. Estamos confiantes de que poderemos avançar com o Mercosul, disse, ao Estado, um diplomata de Madri.

Segundo Ernesto Stancanelli, negociador-chefe da Argentina, o Mercosul decidiu aprofundar sua oferta para dar um sinal de que está disposto a negociar.

O Mercosul também indicou que, sem avanços na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), a solução é mesmo buscar acordos regionais.

Organização Mundial do Comércio (OMC)

a) Países traçam cenários para salvar Doha

O Brasil e outros parceiros mostram crescente preocupação com atitudes protecionistas dos Estados Unidos e darão o sinal de alerta na avaliação sobre o estado da Rodada Doha, que será feita na Organização Mundial do Comércio (OMC) esta semana. Brasília vê nova contradição na atitude americana na área comercial, de estabelecer um plano de dobrar suas exportações em cinco anos ao mesmo tempo em que se recusa a desbloquear a negociação global para liberalizar o comércio.

Não é razoável imaginar que em um passe de mágica se possa dobrar a exportação sem aumentar mecanismos artificiais distorcivos para seus produtos, ou de esperar redução unilateral de barreiras dos outros países, afirmou o embaixador brasileiro junto a OMC, Roberto Azevedo.

O representante europeu de comércio, Karel de Gucht, em entrevista à imprensa belga, também considerou desconcertante inclusive o vocabulário usado pelo presidente americano Barack Obama na área comercial. Ele fala sobre exportações e não sobre comércio, disse de Gucht, estimando que a escolha não é por acaso. Comércio é rota de mão dupla, significa aceitar que as importações também dobrem, avisou.

Depois de passar por Washington, o ministro de Comércio da Índia, Anand Sharma, disse ter opinião similar com a dos europeus, segundo agências de notícias. Outros negociadores notam que, enquanto os EUA repetem ser a economia mais aberta do mundo, na prática é também a que mais distorce o comércio com dezenas de bilhões de dólares de subsídios para seus produtores, o que é uma das vias do protecionismo.

Brasil e EUA terão bilateral em Genebra para discutir Doha. Outra reunião será marcada fora de Genebra para discutir a compensação americana para o Brasil não retaliar produtos americanos no contencioso do algodão.

A política comercial dos EUA estará de novo sob os ataques dos países na OMC, quando os 153 países membros vão tentar definir o que fazer com a Rodada Doha, diante da recusa americana em negociar. O desafio é uma sinuca de bico: como criar um processo de negociação que permita a retomada de Doha, sabendo-se de antemão que vai levar a lugar nenhum. O Brasil e outros 150 países estão interessados em desbloquear Doha o mais rápido possível, mas é evidente a absoluta incapacidade americana de negociar um resultado capaz de ser vendido a seu Congresso, diz Azevedo.

Ilustrando a postura de Obama na área comercial, seu mandato está na metade e até hoje o presidente americano não conseguiu aprovar no Congresso o nome do embaixador junto à OMC.

O consenso em Genebra é de que não há condição alguma de se fazer algo no futuro previsível para reativar Doha. Assim, vários cenários estarão na mesa. Primeiro, seria congelar a negociação global, mas nenhum país vai se arriscar a propor isso formalmente e assumir o ônus político.

Segundo, China, Índia e países pobres defendem um pacote de colheita antecipada (do inglês early harvest) para o final do ano - ou seja, tentar garantir os primeiros resultados de Doha. O problema é definir quais temas. Um deles seria assegurar acesso livre para os produtos dos mais pobres nos mercados ricos e emergentes. Mas até nesta área os EUA se opõem, por causa de sua indústria têxtil.

Outra proposta inclui um acordo de eliminação antecipada dos subsídios à exportação agrícola. Mas aí é a União Europeia que recusa. O cenário de os países listarem os temas mais urgentes, para os lideres decidirem, levantado por Celso Amorim, ministro do Brasil, em Davos, tem a rejeição dos EUA. Washington não quer nem ouvir falar de discutir isso no G-20, reunindo as maiores economias. Também a ideia de um compromisso logo para facilitação de comércio (menos burocracia nas aduanas), tem pouco interesse para vários países.

Restariam dois cenários: primeiro, manter a situação atual sem nada em Doha. Isso só beneficia a inação dos EUA, que não têm condições de negociar nada, mas tampouco assumem essa situação e joga a culpa no Brasil, China e Índia.

Segundo, desmontar o pacote já negociado ao longo de oito anos, como Washington exige. Isso confunde tudo, as barganhas voltam quase a estaca zero. Esse cenário também resultará em nada no médio prazo porque os EUA continuam incapazes de reduzir seus subsídios agrícolas, diante do lobby protecionista que tende a endurecer com a proximidade das eleições legislativas de novembro.

b) Indústria dos EUA quer tréplica contra o Brasil

A primeira resposta dos Estados Unidos às retaliações divulgadas pelo Brasil no caso do algodão poderá ser uma menção no relatório feito anualmente pelo USTR, o escritório americano que cuida de negociações comerciais, sobre os países que violam os direitos de propriedade intelectual.

Alguns lobbies já estão se movimentando para que isso ocorra, como a Associação Nacional dos Fabricantes, a mais antiga e poderosa entidade de representação da indústria nos Estados Unidos.

Em audiência pública no começo do mês feita pelo USTR para colher subsídios para o relatório, o diretor de assuntos internacionais da entidade, Shaun Donnelly, disse que as retaliações brasileiras no caso do algodão são um um assunto que necessita atenção muito grande.

Estamos preocupados com a disposição do governo brasileiro em levar adiante retaliações cruzadas para violar direitos de propriedade intelectuais bastante antigos, disse Donnelly.

A audiência do USTR ocorreu no dia 3 de março, três semanas antes de o Brasil abrir para consulta pública a lista de retaliações à propriedade industrial de empresas americanas. Mas o governo já havia, àquela altura, publicado uma medida provisória (MP) que concedeu poderes para a Câmara de Comércio Exterior (Camex) fazer as retaliações.

A indústria brasileira, por outro lado, faz lobby no USTR para evitar que o relatório de violações à propriedade industrial cite o caso do algodão. No mês passado, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a seção brasileira da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos e a Coalizão das Indústrias Brasileiras (BIC, na sigla em inglês) enviaram um documento conjunto ao USTR que sustenta que o problema foi causado pelos Estados Unidos, que não seguiram as decisões favoráveis ao Brasil emitidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) na questão dos subsídios concedidos aos produtores americanos de algodão e que foram considerados ilegais pelo organismo multilateral de comércio após um longo processo de avaliações e julgamento.

A questão não é se o Brasil vai exercer os seus direitos (de retaliação à propriedade industrial), afirma a carta da indústria, encaminhada pelo representante da BIC nos Estados Unidos, Diego Bonomo. A questão é se os Estados Unidos vão obedecer às seguidas decisões da OMC, ponderou.

O USTR deverá divulgar sua versão final do relatório sobre propriedade intelectual em fins de abril. Na edição anterior, de 2009, o Brasil foi incluído na lista de países em observação, junto com outras 34 economias. Foram feitas menções à pirataria de produções culturais e softwares e à quebra de patentes de medicamentos. A situação do Brasil é melhor do que a de um grupo de 12 países, que inclui China e Rússia, relacionados na chamada lista prioritária.

A legislação americana obriga o USTR a elaborar anualmente o relatório e, no caso de violações mais sérias ao direito de propriedade, abrir uma investigação. O passo seguinte é a negociação para obter compensações e, quando elas falham, são aplicadas retaliações.

Ao longo dos últimos anos, o Brasil tem melhorado sua situação na lista da USTR, graças aos esforços do governo para combater a pirataria. Ao elaborar seu relatório, os americanos não levam muito em consideração a opinião de organismos multilaterais. O Brasil, por exemplo, é citado no relatório em virtude da política da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o licenciamento compulsório de medicamentos para aids, embora a iniciativa tenha o aval da OMC.

O Brasil ganhou o direito de impor US$ 830 milhões em retaliações a produtos americanos em uma disputa comercial na OMC sobre os subsídios à produção de algodão nos Estados Unidos. No começo do mês, a Camex divulgou uma lista de produtos americanos a serem sobretaxados, que incluem trigo, cosméticos e automóveis, entre outros. Na semana passada, foi anunciada a lista de setores que podem ter a patente quebrada, incluindo medicamentos. As primeiras retaliações brasileiras só entram em vigor em abril. O governo americano sinalizou que pretende negociar com o Brasil, embora não tenha ainda apresentado nenhuma proposta concreta.

Em consulta pública até 5 de abril, a lista prévia de retaliações na área de propriedade intelectual compreende medicamentos humanos e veterinários, produtos químicos e processos biotecnológicos agrícolas, cultivares, programas de computador, execuções musicais, além de obras literárias e audiovisuais.

c) OMC condena subsídio à Airbus

A Organização Mundial do Comércio (OMC) condenou a fabricante de aviões europeia Airbus por subsidiar de forma ilegal o lançamento de novas aeronaves, em uma disputa que pode colocar um limite às pretensões de fabricantes na China, Brasil e outros países na utilização de recursos estatais para a fabricação de novos modelos.

O caso - conhecido como o maior da história da OMC - havia sido aberto pela concorrente americana Boeing e o relatório final continua sendo mantido em sigilo. A Airbus afirmou, em um comunicado de imprensa, que venceu 70% da disputa, não se dando, portanto, por derrotada. A empresa europeia ainda alegou que a OMC rejeitou a denúncia da Boeing de que a companhia americana teria sofrido prejuízos diante dos subsídios europeus.

A versão da Airbus é de que a Boeing não conseguiu provar que a ajuda estatal em alguns modelos teria gerado perda de contratos para a empresa americana. Isso representaria uma vitória importante para os europeus, já que poderia evitar retaliações no futuro.

A Airbus, que é uma unidade da European Aeronautic Defence & Space (EADS), também afirmou que possíveis futuros financiamentos para o projeto do jato A350 não serão afetados pelo relatório da Organização.

A OMC, entretanto, condenou a Airbus em alguns dos pontos principais da disputa aberta pela Boeing. Empréstimos, pacotes de apoio para financiar pesquisas e apoio de infraestrutura foram condenados. O ponto-chave, porém, é a condenação dos programas que financiam novos lançamentos de modelos de aviões, sem que a empresa tenha de pagar a dívida de forma integral depois que os jatos estão no mercado. A decisão se refere basicamente ao superjumbo A380.

A Boeing classificou a decisão da OMC como uma boa notícia para a indústria aeronáutica americana. Segundo a empresa, a decisão valida a posição americana em todos os temas principais.

Novos limites. Seja qual for a avaliação final do processo, a constatação de observadores é de que a disputa entre Boeing e Airbus está estabelecendo os novos limites do que poderá ser possível ou não em termos de subsídios. O foco, nesse caso, é usar os tribunais para criar, na prática, regras que impeçam no futuro que novas empresas e países emergentes ameacem a posição dos gigantes por meio de subsídios a seus projetos nacionais.

Nos últimos anos, a grande novidade no setor aéreo é o surgimento do interesse de países emergentes no cada vez mais concorrido mercado mundial de jatos.

Analistas do setor indicam que, em 20 anos, o mercado de jatos deve movimentar cerca de US$ 3 trilhões no mundo. Nos últimos anos, a brasileira Embraer foi a primeira empresa de um país emergente a surgir como uma competidora real no mercado de jatos. Mas manteve sua atuação principalmente no mercado de aviões regionais.

Agora, a China começa a desenvolver novas tecnologias para tentar quebrar o controle de décadas das duas gigantes do setor aeronáutico. Mas o temor das duas empresas dos países ricos é de que o governo chinês use a máquina estatal para financiar os projetos e apresentar modelos mais competitivos.

Além do caso da Boeing contra a Airbus, a empresa americana será julgada até junho sobre os subsídios que recebeu nos últimos anos do governo americano. Uma condenação colocará as duas empresas em pé de igualdade para voltar à mesa e negociar um novo armistício.

No início da década, tanto a Boeing como a Airbus foram condenadas já por dar subsídios ilegais. A Embraer e a canadense Bombardier também já foram condenadas por dar subsídios ilegais.

Plano Internacional

a) Balança chinesa tem déficit de US$ 8 bi

O superávit comercial da China tem caído nos últimos meses, levando a balança comercial para um déficit de cerca de US$ 8 bilhões no início de março, disse o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao. O déficit, que seria o primeiro resultado negativo mensal desde abril de 2004, pode enfraquecer os argumentos em defesa da valorização do yuan, em um momento em que a pressão internacional pela alta da moeda tem crescido.

O crescimento econômico chinês no ano passado foi atingido basicamente por causa da demanda doméstica, afirmou Wen. Desde então, o superávit chinês tem diminuído e, no primeiro terço de março, a China registrou um déficit comercial de cerca de US$ 8 bilhões. Para ser honesto, estou muito feliz com isso, acrescentou o premiê chinês.

Os comentários seguem-se a declarações feitas no domingo pelo ministro do Comércio da China, Chen Deming, alertando para o fato de que a China registrará déficit comercial em março. Os números finais não devem ser divulgados antes de 11 de abril, mas as revelações das autoridades chinesas demonstram aumento na defesa pelo governo de uma política que arranca fortes críticas de seus parceiros comerciais.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos deve, em seu relatório semestral sobre políticas de câmbio de 15 de abril, decidir se classificará formalmente a China como país manipulador de moeda.

As declarações de Wen não devem, no entanto, diminuir a pressão do legislativo norte-americano para que a administração Obama tome uma ação contra a China por manter sua moeda valorizada.

O governo chinês diz que sua política cambial ajuda a estabilizar a economia mundial, mas há críticas no exterior de que os exportadores chineses são beneficiados em relação aos seus concorrentes pela manutenção da moeda subvalorizada.

A China mantém o yuan praticamente inalterado em relação ao dólar desde julho de 2008, encerrando uma valorização gradual iniciada em julho de 2005.

Alguns economistas dizem ainda que a apreciação do yuan pode ajudar a China a conter os riscos inflacionários, ao reduzir o custo das matérias-primas importadas e diminuir o ritmo da demanda de fábricas exportadoras. Pequim diz que a moeda não está subvalorizada.

Enquanto enfrenta pressão da indústria doméstica para não permitir a valorização do yuan, o governo chinês diz que a recuperação econômica, embora melhor que na maioria das economias, precisa ser consolidada.

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