22 a 26 de fevereiro de 2010

Comércio Exterior

Resultados
Exportações para o Iraque dobram em 2009
Exportação cai, mas fica mais sofisticada
Europa quer retomar pauta comercial com Brasil em maio

Agronegócio

Café brasileiro ganha mais espaço
Demanda por açúcar resiste, mas preço alto já é obstáculo
Commodities Agrícolas

Mercosul

Argentina vai destravar entrada de máquinas
Marcas brasileiras investem e ganham espaço na Argentina
UE e Mercosul voltam a discutir acordo comercial em março

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Sob pressão de americanos, Doha perde ainda mais força
Empresários pedem compensações para evitar retaliação aos EUA

Plano Internacional

China retoma voracidade na importação de commodities
Indústria dos EUA pressiona Washington por uma proposta que evite retaliação



Comércio Exterior

a) Resultados

O bom desempenho das transações comerciais brasileiras, no período entre 8 e 21 de fevereiro, foi suficiente para inverter o resultado da balança comercial no ano.

Com um superávit de US$ 691 milhões na segunda semana do mês e de US$ 216 milhões na terceira semana, o saldo da balança comercial no ano saiu de um déficit de US$ 338 milhões (registrado até a primeira semana de fevereiro) para um superávit de US$ 569 milhões.

O resultado, porém, ainda é 31,4% inferior ao que foi o registrado no mesmo período do ano passado, US$ 830 milhões.

Apesar do desempenho ainda modesto no ano, a corrente de comércio (soma das exportações e importações) atingiu US$ 39,577 bilhões, um aumento de 13,5% em comparação com o mesmo período do ano passado.

As exportações somam, no ano, US$ 20,073 bilhões, com média diária de US$ 608,3 milhões, desempenho 22,7% superior ao verificado em igual período de 2009 (US$ 495,6 milhões).

Já as importações somam US$ 19,504 bilhões, com média diária de US$ 591 milhões, incremento de 25,1% na mesma base de comparação.

Os números da balança comercial no acumulado do mês de fevereiro mostram um superávit de US$ 735 milhões até o dia 21, com exportações de US$ 8,768 bilhões e importações de US$ 8,033 bilhões.

Se avaliado o desempenho pela média diária, as exportações em fevereiro (média de US$ 674,5 milhões) estão 26,6% maiores que as registradas em fevereiro de 2009 (US$ 532,6 milhões) e 19,3% superiores às de janeiro deste ano (US$ 565,3 milhões).

As importações, no entanto, continuam apresentando uma expansão maior em relação às exportações. No mês, a média diária importada é de US$ 617,9 milhões, um incremento de 42,1% ante fevereiro de 2009 (US$ 434,7 milhões) e de 7,7% em relação a janeiro último (US$ 573,6 milhões).

No período, cresceram as importações de adubos e fertilizantes (+236,5%), produtos de cobre (+225,5%), siderúrgicos (+125,4%) e combustíveis e lubrificantes (+88,8%), entre outros.

b) Exportações para o Iraque dobram em 2009

As exportações diretas e indiretas para o Iraque atingiram US$ 717,8 milhões em 2009. A cifra ainda é pequena em relação aos embarques totais do país, mas o valor é quase o dobro dos US$ 377,02 milhões vendidos ao Iraque no ano anterior, direta e indiretamente, segundo cálculos da Câmara de Comércio Brasil-Iraque. Mesmo no ano passado, quando aconteceu queda generalizada nas exportações, o Brasil manteve a tendência de alta nas vendas ao Iraque desde o início da reconstrução do país árabe.

A reconstrução do país, ainda em guerra, abriu oportunidades para novos produtos aumentarem o peso na pauta de exportação. Os embarques ao Iraque de veículos para preparação de terreno e uso agrícola, como tratores e niveladores, subiram de US$ 2,9 milhões para US$ 23,65 milhões. Nesse critério, a participação dos veículos no total exportado ao país cresceu de 1,54% para 9,45%. Os números levam em conta apenas vendas diretas aos iraquianos. Cerca de 50% das exportações ao Iraque são triangulares e chegam lá por outros países, mecanismo muito usado em função da falta de infraestrutura logística do país.

Com a elevação de participação desses veículos pesados, os fabricantes do setor aumentaram os valores exportados diretamente ao Iraque. A Caterpillar não chegava a vender US$ 1 milhão ao país árabe em 2008. No ano passado, os embarques da empresa rumo ao Iraque subiram para a faixa entre US$ 10 milhões e US$ 50 milhões. A Agco também entrou nessa faixa de valor no ano passado. Em 2008, só duas empresas exportaram acima de US$ 10 milhões ao Iraque. No ano passado, foram oito companhias.

Duílio De La Corte, diretor de vendas e exportação da Agco América do Sul, conta que foi em 2009 que o Iraque surgiu no mapa de exportações de tratores produzidos pela empresa no Brasil. As exportações ao país árabe representaram 4% do total embarcado pelas fábricas da companhia no Brasil. As vendas aos iraquianos corresponderam a 49% do total de produtos fornecidos pela empresa ao Oriente Médio.

O desempenho foi interessante num ano em que os embarques caíram para 27% da produção da empresa no Brasil. Em 2008, a participação das vendas ao exterior havia sido de 37%. O dado chama ainda mais atenção porque em 2008 praticamente não existiram exportações da empresa ao Iraque. Segundo o diretor, o principal item comprado pelos iraquianos em 2009 foram tratores para aplicação agrícola, da marca Massey Ferguson.

O número total de empresas que exportam aos iraquianos também aumentou. No ano passado, foram 117 empresas, enquanto em 2008 eram 87.

A ampliação na quantidade de empresas com vendas destinadas ao Iraque foi propiciada, em parte, por produtos que começaram a entrar de forma modesta na pauta a partir do ano passado.

Entre eles, portas de madeira e caixilhos. A Rohden, fabricante catarinense desses produtos, conta que no ano passado suas vendas ao exterior caíram 40% em relação a 2008. A empresa tentou diversificar mercados, mas a venda concreta para novos destinos ficou por conta do Iraque. A empresa exportou ao país árabe pela primeira vez no ano passado. As vendas foram pequenas, de US$ 160 mil. Mas foi interessante para a empresa, porque percebemos que há um grande potencial de mercado, diz Rafael Rohden, gerente de exportação da indústria catarinense. As portas e caixilhos destinaram-se a um hotel, conta.

A expectativa da empresa é continuar fornecendo ao novo destino. Rohden espera que até maio a empresa assine outro contrato de exportação aos iraquianos. Desta vez, para fornecer US$ 500 mil em mercadorias para novos empreendimentos.

A evolução das exportações ao Iraque não ajudou apenas produtos novos na pauta. Itens tradicionais, como a carne de frango e seus derivados, que representam cerca de 80% das vendas àquele país, também tiveram crescimento de exportação.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), as exportações diretas de frango e seus derivados ao Iraque aumentaram em valor em 40,4% em 2009, na comparação com o ano anterior. Levando em conta as exportações triangulares, as exportações de frango, segundo dados da Câmara Brasil-Iraque, cresceram 147% no ano.

Em 2008, apenas Perdigão e Doux Frangosul venderam entre US$ 10 milhões e US$ 50 milhões em frango e derivados para os iraquianos. No ano passado, outras quatro empresas do setor entraram nessa faixa.

Uma delas foi a paranaense Diplomata Industrial e Comercial. A empresa informa que em 2009 as vendas ao Iraque superaram as expectativas. Enquanto o Brasil registrou um aumento de 153% no volume exportado para o Iraque, a Diplomata obteve um aumento de mais de 500%. As vendas ao exterior da empresa saltaram de 1,7 mil toneladas, em 2008, para 11,6 mil toneladas no ano passado.

A empresa destaca a melhora do mix embarcado: em 2008, a pauta de produtos exportados ao Iraque havia se concentrado em 82% no frango inteiro. Em 2009, essa concentração ficou em 65%, enquanto o Brasil manteve uma concentração média de 75% neste item. A empresa acredita que em 2010 não haverá elevação tão expressiva quanto a de 2009, porque, com a recuperação dos mercados internacionais, a tendência será uma maior diversificação dos países compradores. A Diplomata acredita, porém, que o Iraque deve manter-se como o quarto principal cliente da empresa no Oriente Médio.

As exportações de frango para o Iraque também tiveram alta expressiva em janeiro. Num mês em que as exportações totais do produto recuaram 15% (para 233,3 mil toneladas), as vendas ao país subiram em volume 34,5% sobre janeiro de 2009, para 9,9 mil toneladas. Em receita, a alta foi ainda mais significativa, de 98,36%, saindo de US$ 7,9 milhões para US$ 15,8 milhões, segundo a Associação Brasileira dos Produtores e exportadores de frango (Abef).

O frango importado para o Iraque é abatido no método Halal, que segue os preceitos muçulmanos. Esta semana, os exportadores brasileiros participam da feira GulFood, em Dubai, onde esperam ampliar o volume de negócios com países muçulmanos, segundo o presidente da Abef, Francisco Turra. Ele afirma que o fato de o Brasil ter tradição nesse tipo de abate garante as vendas para esses mercados.

Para o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Iraque, Jalal Chaya, as exportações brasileiras não devem estacionar nos valores de 2009. As vendas do país ao Iraque podem dobrar novamente em 2010, estima.

Para Chaya, o país ainda pode expandir as vendas de outros produtos alimentícios, além de equipamentos agrícolas, instrumentos hospitalares, caminhões, tratores e veículos leves. Ele destaca o papel do governo iraquiano como comprador de equipamentos de transporte. Segundo ele, a licitação de novos campos de petróleo, que prometem triplicar em três anos a produção diária do óleo no Iraque, deve ajudar também a elevar a demanda por produtos no mercado internacional, dando oportunidade às exportações brasileiras.

c) Exportação cai, mas fica mais sofisticada

Para enfrentar contêineres lotados de roupas importadas da Ásia, principalmente da China, que invadiram os portos do país e do mundo a partir da década de 90, a indústria da moda nacional teve que se reinventar e valorizar seu produto. No início do século, o setor se reorganizou, investiu em qualidade e design. O resultado foi positivo e o preço médio por quilo de roupa exportada pelo Brasil subiu de US$ 16,70 em 2004, para US$ 34,80, em 2009, uma valorização de 108%.

No conjunto, a balança comercial do país tem piorado. No ano passado, as exportações recuaram 20%, acima da queda nas importações, que foi de 9%, o que provocou um déficit comercial de US$ 1,6 bilhão no segmento têxtil e de confecções.

Segundo a Federação da Indústria do Rio de Janeiro (Firjan), o setor têxtil fluminense foi mais o beneficiado pela valorização da exportação em decorrência da moda. Enquanto Santa Catarina, o maior exportador do país, teve uma valorização de US$ 14,90 para US$ 26, e São Paulo, o segundo maior, de US$ 17,90 para US$ 40, o quilo do Rio, subiu de US$ 35 para US$ 67,20 entre 2004 e 2009. Percentualmente, São Paulo teve a maior alta, 123%. No entanto, a moda brasileira mais bem avaliada no mercado internacional é a do Rio, diz João Paulo Alcântara, gerente do Centro Internacional de Negócios da Firjan.

Segundo Alcântara, isto também se reflete no crescimento do volume de exportações dos três maiores produtores do país. Enquanto entre 2001 e 2009 (até novembro), as vendas externas da indústria têxtil de Santa Catarina caíram de US$ 111 milhões para US$ 46 milhões e as de São Paulo, de US$ 75,9 milhões para US$ 51 milhões, as do Rio cresceram de US$ 10,4 milhões para US$ 17,3 milhões. Para Alcântara isto é resultado da decisão da indústria do Rio de investir em moda e não vestuário em geral já na década de 90. Naquela época houve uma reorganização setorial e um investimento na capacitação do profissional

Todo este crescimento gera um ciclo virtuoso para a indústria que recebe mais e ganha maior capacidade de investimento. Só em 2009, a indústria fluminense contratou duas mil pessoas, conta Alcântara. Hoje ela é responsável por 90 mil trabalhadores e é a terceira maior do Estado, atrás da indústria petroleira e de alimentação.

A expectativa do setor é que este volume de contratações aumente em 2010. Em janeiro, ocorreram duas feiras de negócios do setor: o Rio-à-Porter e o Fashion Business. Organizadas na mesma semana, os dois eventos totalizaram quase R$ 1 bilhão em vendas, enquanto, os negócios fechados no mesmo período do ano passado (em uma única feira) somaram R$ 376 milhões. Alcântara pondera que mais empresas participaram dos dois eventos, logo, o número de contratações não será proporcional ao crescimento dos negócios. Mas ele deve aumentar, afirma.

d) Europa quer retomar pauta comercial com Brasil em maio

O presidente da Comissão Europeia disse esperar que as negociações comerciais entre Mercosul e União Europeia (UE) sejam retomadas na cúpula de Madri, de maio, e o presidente do governo espanhol reconheceu as dificuldades para se chegar a um acordo a respeito.

O presidente da Comissão, José Manuel Durão Barroso, mencionou em uma entrevista coletiva à imprensa, a “grande prioridade” atribuída pela UE e pela Espanha à cúpula da União com a América Latina e o Caribe.

– Espero que nessa cúpula possamos concluir os acordos com a América Central e com a Comunidade Andina, e espero também que possamos lançar as negociações de um acordo com o Mercosul – declarou Barroso.

Trata-se dos acordos de livre comércio (TLC) que os europeus negociam atualmente com a América Central, os países andinos e o Mercosul. A UE já tem Tratados de Livre Comércio com México e Chile.

O acordo de liberalização comercial entre a UE e o Mercosul começou a ser negociado em 2000, mas as discussões estão estagnadas desde 2004 e ambas as partes querem retomá-las durante este semestre para tentar chegar a sua conclusão.

O presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, também falou da “grande prioridade” que a UE atribui aos “acordos com a América Latina na cúpula que será realizada em Madri”.

São “acordos econômicos com a América Central, com a Comunidade Andina e com o Mercosul: este último é o que vai exigir maior esforço”, reconheceu.

A Presidência da UE, que está com a Espanha durante este semestre, havia indicado que seu objetivo era concluir o acordo durante a cúpula de Madri, mas depois reduziu as expectativas e indicou que o objetivo é retomá-las.

A UE tem Tratados de Livre Comércio com México e Chile e negocia com América Latina

Agronegócio

a) Café brasileiro ganha mais espaço

A menor disponibilidade do café colombiano no mercado internacional está fazendo com que os importadores venham ao Brasil buscar os cafés finos nacionais. Esse aumento da demanda fez com que o produto brasileiro passasse a receber um bônus sobre as cotações praticadas na bolsa de Nova York, além de ter ajudado a elevar a fatia das vendas totais do país nas exportações mundiais de café para 32%.

Enquanto o café tradicional tipo exportação ainda tem um deságio sobre o preço da bolsa, o café fino (cereja descascado) brasileiro tem recebido de 8 a 10 centavos de dólar a mais sobre o valor de referência da bolsa americana. Tradicionalmente, mesmo o café fino exportado pelo Brasil tem um deságio de até 10 centavos em relação aos preços da bolsa.

A indústria está procurando café de qualidade e existe demanda pelo produto brasileiro em substituição ao colombiano, afirma Rodrigo Costa, analista da Newedge.

E quando a demanda não é atendida com um aumento rápido na oferta, o resultado são preços mais altos. Com um projeto idealizado para produção de cafés finos, a Ipanema Coffees produziu junto com seus parceiros 145 mil sacas desse tipo de produto no ano passado. Para 2010, a expectativa é de que essa produção tenha um aumento marginal de apenas 5 mil sacas, o que elevaria a oferta de uma das principais fazendas produtoras de cafés especiais do país para 150 mil sacas.

Sentimos que nosso café está sendo melhor remunerado pelos importadores. Essa é a primeira vez na história que um importante fornecedor tem problemas no abastecimento e o Brasil pode se beneficiar por não ter nenhum tipo de controle por parte do governo, afirma o diretor presidente da Ipanema, Washington Rodrigues. Não podemos perder essa oportunidade, diz ele.

Durante a vigência do antigo Instituto Brasileiro do café (IBC), entre 1952 e 1989, os investimentos em qualidade deixaram de existir, já que não havia nenhum tipo de bonificação para os cafés especiais. Os primeiros cafés cereja surgiram em 1990, que ganharam promoção com as compras que a Illy passou a fazer do produto brasileiro para produzir seus expressos mais encorpados, explicada Eduardo Carvalhaes, diretor do Escritório Carvalhaes, em Santos.

Com o aumento do consumo de expresso nas últimas duas décadas, a procura pelo café fino brasileiro cresceu em um ritmo superior ao do café fino colombiano (lavados suaves). Aliado a esse fator, a capacidade de abastecimento do Brasil é superior à colombiana devido ao tamanho de sua produção. Essa reversão ficou mais evidente em 2009 quando houve o primeiro problema de fornecimento da Colômbia e se confirmou com uma repetição neste ano, diz Rodrigues, da Ipanema.

Em 2007, os colombianos colheram 12,5 milhões de sacas, se mantendo na média dos quatro anos anteriores. A partir de 2008, no entanto, uma série de fatores como clima, renovação do parque cafeeiro e baixa remuneração dos produtores derrubaram a produção para 8,66 milhões de sacas. No ano passado, a oferta cresceu 9,5% para 9,5 milhões de sacas, mas ainda assim muito abaixo da média superior a 12 milhões que vinham sendo produzidas de 2004 a 2007.

Sem oferta, as exportações colombianas foram bastante prejudicadas. No ano passado, foram embarcadas apenas 7,9 milhões de sacas, uma queda de quase 30% em comparação a 2008. Essa situação fez com que a participação colombiana no mercado internacional recuasse para apenas 8,3%, uma das baixas da sua história.

Com o aumento da demanda, as exportações brasileiras ocuparam o espaço deixado pela Colômbia. Dados da Organização Internacional do café (OIC), mostram que a participação de 32% do café brasileiro no mercado internacional é a maior em pelo menos 30 anos, com embarque de 30,3 milhões de sacas.

b) Demanda por açúcar resiste, mas preço alto já é obstáculo

Depois de atingir os níveis mais elevados em 30 anos, as cotações do açúcar vêm provocando resistência por parte dos compradores da commodity, mas ainda sem sinais de que vão arrefecer. O cancelamento de compras ontem pelo Egito e pelo Paquistão pressionaram os preços futuros, mas segundo projeções do mercado, o déficit deve persistir até o final de 2011.

O contrato com vencimento em maio na bolsa de Nova York encerrou o pregão a 24,12 centavos de dólar por libra-peso, queda de 184 pontos. Os elevados preços da commodity motivaram a suspensão de compra pelo Egito, de 50 mil toneladas, e do Paquistão, de 200 mil toneladas. Apesar de indicar uma desaceleração no curto prazo, ainda não há sinais de que os preços da commodity vão arrefecer.

A consultoria e trading Czarnikow divulgou suas projeções segundo as quais o déficit de açúcar deve persistir até 2011. O déficit não vai acabar, disse Jonathan Williams, diretor da Czarnikow. A Czarnikow estimou neste mês um déficit em 2009/10 de 14,8 milhões de toneladas, aproximando-se do recorde estimado de 15,6 milhões de toneladas em 2008/09.

O mercado continua com uma oferta baixa em 2010, e ainda parece extremamente apertado em 2011 e parece se mover para um excedente somente em 2012, acrescentou Williams. A Índia deve continuar sendo um importador, afirmou ele. O Brasil, que respondeu no ano passado por cerca de 50% do mercado total de açúcar do mundo, ou 75% do mercado de açúcar bruto, parece estar expandindo a produção, mas enfrenta uma competição do etanol e riscos climáticos que podem afetar a oferta, segundo ele. A concentração da oferta significa que o mundo está cada vez mais vulnerável a um choque da oferta, disse.

Mesmo diante da escassez do produto, a União Europeia negou o pedido feito por Portugal de suspensão temporária da tarifa sobre importação de açúcar bruto de cana (€ 98, ou US$ 133,5 por tonelada). O pedido foi feito para aliviar a escassez nas refinarias portuguesas, que estariam pagando alto pelo açúcar do Brasil.

c) Commodities Agrícolas

A valorização do dólar no mercado internacional deflagrou um movimento de vendas de fundos de investimentos e determinou a queda das cotações do café na quinta-feira na bolsa de Nova York. Conforme relato da agência Dow Jones Newswires, os contratos com vencimento em março encerraram o pregão negociados a US$ 1,2770 por libra-peso, queda de 275 pontos, ao passo que os papéis para entrega em maio recuaram 305 pontos, para US$ 1,2980. Mas os baixos estoques globais do produto seguem a oferecer sustentação às cotações do ponto de vista dos fundamentos de oferta e demanda. No mercado interno, o indicador Cepea/Esalq para a saca de 60 quilos do café arábica caiu 1,83%, para R$ 273,96. No mês, a queda acumulada chega a 2,39%.

O mercado futuro de algodão fechou em alta na quinta-feira na bolsa de Nova York sustentado pela oferta apertada num quadro de demanda contínua, segundo analistas ouvidos pela Dow Jones Newswires. O contrato para maio subiu 201 pontos a 81,17 centavos de dólar por libra-peso. De acordo com a Bloomberg, a alta nas exportações dos EUA, que indica maior demanda, também contribuíram para a valorização. Os embarques do país nas quatro semanas encerradas em 18 de fevereiro subiram 23% em relação ao mesmo período um ano antes. Enquanto a demanda cresce, a produção de algodão da China caiu 15% em 2009, para 6,4 milhões de toneladas, segundo o Escritório de Estatísticas Nacionais. No mercado interno, o indicador Cepea/Esalq para a libra-peso do algodão em pluma subiu 0,03%, para R$ 1,4258.

Os movimentos dos fundos de investimentos preocupados com a crise europeia derrubaram as cotações da soja na quinta-feira na bolsa de Chicago. Os contratos para entrega em março fecharam a US$ 9,4150 por bushel, baixa de 14 centavos de dólar, ao passo que os futuros para maio caíram 13 centavos de dólar, para US$ 9,63. Segundo a Dow Jones Newswires, é o mais baixo patamar de negociações em uma semana. Traders mostraram-se decepcionados com estatísticas que apontaram demanda fraca por soja dos Estados Unidos, tanto para exportação quanto para esmagamento no país. Em Rondonópolis (MT), a saca de 60 quilos do grão saiu entre R$ 29 (oferta de compra) e R$ 31 (venda), conforme o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

Os preços do trigo foram alvo das mesmas influências financeiras observadas nos mercados de soja e milho e também encerraram a quinta-feira em queda na bolsa de Chicago. Os contratos com vencimento em maio fecharam a US$ 5,0375 por bushel, queda de 10 centavos de dólar. Na bolsa de Kansas, referência importante para as importações brasileiras, o mesmo vencimento recuou 8,50 centavos, para US$ 5,0750. Na equação dos fundamentos de oferta e demanda do mercado, os elevados estoques globais ainda exercem pressão sobre o direcionamento das cotações, segundo a Dow Jones Newswires. No Paraná, a saca de 60 quilos do cereal permaneceu em R$ 24,05, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura.

Mercosul

a) Argentina vai destravar entrada de máquinas

Uma medida argentina que já dura quase nove anos e tira a competitividade dos bens de capital brasileiros no mercado vizinho deverá finalmente perder a validade em agosto. A medida em questão foi adotada em março de 2001, na gestão do ex-ministro Domingo Cavallo, às vésperas do auge da crise econômica na Argentina. Por decreto, o governo reduziu para zero a alíquota de importação de máquinas e equipamentos produzidos fora do Mercosul, em exceção à Tarifa Externa Comum, que é normalmente de 14%.

Para não prejudicar os fabricantes locais, o governo também instituiu um benefício tributário para a indústria argentina: a devolução de 14% da receita das vendas na forma de um bônus usado no abatimento de impostos. Com tudo isso, os bens de capital argentinos mantiveram uma espécie de proteção contra os concorrentes estrangeiros, mas o Brasil perdeu a vantagem tarifária garantida, teoricamente, pelo Mercosul.

A novidade é que, depois de seguidas renovações anuais do benefício tributário e do waiver (liberação) da Tarifa Externa Comum, o governo da Argentina resolveu prorrogar a medida por apenas seis meses, em 19 de fevereiro. E acenou, a vários funcionários brasileiros, que acabará com o mecanismo em agosto, quando acabar a última renovação do decreto. Foi a primeira vez em que falaram concretamente na extinção do benefício e do waiver, constata um negociador brasileiro que há nove anos acompanha o assunto pelo Itamaraty.

Uma fonte do Ministério da Produção da Argentina na semana passada, que em princípio não haverá mais renovações do decreto. O secretário de Indústria, Eduardo Bianchi, foi mais evasivo, mas agregou: O certo é que, uma vez acabando o benefício tributário, o waiver também terminaria.

O governo brasileiro saiu de uma série de reuniões em Buenos Aires com a expectativa de que uma boa notícia ao setor de bens de capital deverá ser dada em agosto. Se o fim do regime diferenciado da Argentina for confirmado, a medida seria importante para valorizar a produção regional no Mercosul e permitir maior integração produtiva, segundo afirmou o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral.

Procurada, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) - entidade que representa o setor - não deu entrevista. Informou, no entanto, que o Brasil exportou US$ 918 milhões em máquinas e equipamentos à Argentina, em 2009. O país vizinho foi o segundo maior mercado para os fabricantes brasileiros, apenas atrás dos Estados Unidos.

Para o governo argentino, ao mesmo tempo em que o waiver à Tarifa Externa Comum barateia os investimentos em expansão da capacidade industrial, o incentivo tributário aos fabricantes do país favorece mais de 3 mil empresas, que geram 280 mil empregos.

Os sinais da Argentina de que a medida está no fim ajudam a distender o ambiente comercial após a aplicação mútua de licenças não automáticas de importação, no ano passado. Na quinta e sexta-feira da semana passada, representantes dos dois lados definiram uma agenda comum para intensificar políticas de integração produtiva na região.

Os dois governos vão tratar dois grupos de setores de formas separadas: os estratégicos (petróleo e gás, autopeças, aeronáutico e de máquinas agrícolas) e os sensíveis (madeira e móveis, linha branca, vinhos e lácteos).

Participaram técnicos da Secretaria de Comércio Exterior do Brasil, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Banco do Brasil. Pelo lado argentino, sob a liderança da Secretaria de Indústria, havia representantes do Banco de la Nación e do Banco de Investimentos e Comércio Exterior (Bice). Também participaram as chancelarias dos dois lados. Uma nova reunião foi agendada para meados de março.

Avisado previamente, o governo brasileiro não reclamou publicamente da abertura de uma investigação antidumping da Argentina - a pedido de três empresas - contra fios de polipropileno do Brasil. Os argentinos já haviam comunicado informalmente sobre a investigação durante a visita a Buenos Aires, no início do mês, dos ministros Celso Amorim (Relações Exteriores), Guido Mantega (Fazenda) e Miguel Jorge (Desenvolvimento).

Em 2009, o Brasil teve superávit comercial de US$ 738 milhões com a Argentina - o sexto resultado positivo anual consecutivo. Em janeiro, o comércio bilateral começou a reagir. Tanto as exportações quanto as importações aumentaram em torno de 50%. A expectativa do governo brasileiro é que, com o crescimento do comércio, haja um clima maior de entendimento para remover as licenças não automáticas de importação.

b) Marcas brasileiras investem e ganham espaço na Argentina

Em rápido crescimento, as marcas brasileiras de calçados esportivos e sandálias caíram no gosto dos argentinos, numa estratégia de negócios bem-sucedida que superou até mesmo a imposição de barreiras protecionistas pelo governo. Com ações agressivas de marketing e uma aposta recente na produção local, adotada em parte dos casos como resposta às licenças não automáticas, que tornaram mais difíceis as importações provenientes do Brasil, marcas como Penalty, Olympikus, Havaianas e Ipanema se popularizaram na Argentina. Antes meras exportadoras, suas fabricantes aceleraram o processo de internacionalização e estão expandindo os investimentos no país vizinho.

Desde o ano passado, quando o governo da presidente Cristina Kirchner freou a liberação das licenças para importar calçados, quem já estava na Argentina resolveu aumentar a produção. No período mais problemático, em meados de 2009, as licenças chegaram a demorar até 270 dias para serem liberadas - o prazo fixado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) é de 60 dias. Segundo relato de empresários brasileiros, o governo deixou claro que liberaria mais rapidamente as importações de quem também expandisse a sua produção local. Foi o que aconteceu, mas as calçadistas brasileiras aproveitaram a circunstância para reforçar suas marcas próprias no mercado argentino, que produziu 95 milhões de pares de calçados em 2009 - o Brasil fabrica, por ano, quase oito vezes mais.

Um exemplo é o da Penalty, que praticamente quadruplicou seu faturamento na Argentina, saindo de 13 milhões de pesos em 2003 para 48 milhões de pesos no ano passado - um real vale aproximadamente dois pesos. A meta para este ano é dar um novo salto e alcançar 70 milhões de pesos, produzindo 900 mil pares de calçados esportivos, 70% mais que em 2009.

E pelo menos metade das vendas na Argentina será atendida com a produção local, principalmente de chuteiras para futebol society e futsal, o ponto forte da companhia. Há pouco mais de um ano, 90% dos calçados vendidos eram importados do Brasil. As licenças não automáticas de importação reconfiguraram o mercado argentino de calçados, diz o diretor internacional da Penalty, Alexandre Estéfano.

Para o executivo, trata-se de dançar conforme a música. A Penalty não abriu fábrica própria na Argentina e optou por fazer uma associação estratégica com uma indústria local, mas é responsável por todos os investimentos na linha de produção. Por mais que estejamos aqui há 12 anos, operando de forma direta, é melhor ter um parceiro local que saiba bem como tudo funciona, argumenta.

Conhecendo bem a eficácia dos patrocínios esportivos, a empresa fechou um contrato de US$ 2 milhões, por três anos, para estampar sua marca na camisa do Vélez Sarsfield. Em pleno centenário, o clube tentará conquistar novamente o título mais importante do continente e tem - deixando a rivalidade de lado - a torcida da fabricante brasileira. No Brasil, patrocinamos nove times e não colocamos nenhum na Libertadores da América, lamenta.

Tradicional patrocinadora das seleções masculina e feminina de vôlei, a Olympikus entrou também na camisa de dois times de futebol na Argentina: a do Racing (um dos mais populares do país e cujo torcedor mais ilustre é o ex-presidente Néstor Kirchner) e a do Lanús (que disputa a Libertadores).

A marca é xodó da Vulcabrás, que comprou em 2007 a fábrica da calçadista Indular em Coronel Suárez, na Província de Buenos Aires. De menos de 500 empregados na época, a indústria emprega hoje 4 mil funcionários e produz 15 mil pares por dia. O caminho natural da empresa é a internacionalização e a Argentina foi o nosso primeiro passo, diz o presidente da Vulcabrás, Milton Cardoso.

Além da Olympikus, a Vulcabrás fabrica calçados da Reebok, sob licenciamento. A empresa atua desde 2002 no país vizinho, vendendo seus produtos, e resolveu instalar-se diretamente por causa do bom desempenho das vendas. Em outubro, completou a terceira fase de ampliação de sua planta argentina, após investimento de US$ 8,3 milhões. Queremos estar perto dos nossos principais mercados, afirma Milton Cardoso. É a melhor forma de melhorar o abastecimento e acompanhar a preferência dos consumidores.

Neste ano, a meta da Vulcabrás é fabricar em Coronel Suárez 70% dos calçados que vende na Argentina. Em 2008, primeiro ano completo de produção local, a unidade era responsável por apenas 30% das vendas. O restante provinha de importações. Essa relação praticamente se inverteu. Com linhas para uso casual, futebol, vôlei e corrida, a Olympikus tem ganhado cada vez mais espaço no país vizinho, segundo Cardoso.

As sandálias Ipanema, da Grendene, também tem sido produzidas na unidade argentina da Vulcabrás. Neste verão, a Ipanema, que tem a modelo Gisele Bundchen como garota-propaganda, inclusive na Argentina, chegou pela primeira vez às lojas do país por meio de produção local. Na Argentina, há uma concentração da demanda no verão, afirma o diretor de relações com investidores da Grendene, Francisco Schmitt.

A Ipanema disputa a preferência do consumidor argentino com a Havaianas, da Alpargatas, com presença farta nas lojas de Buenos Aires - do comércio popular aos shoppings mais badalados. A Alpargatas Argentina é a maior empresa de têxteis e calçados do país e abriu a filial brasileira em 1907. As duas empresas se separaram em 1983. Em 2007, a São Paulo Alpargatas, controlada pela Camargo Corrêa, adquiriu 60% da calçadista argentina e agora busca fechar o capital da companhia na Bolsa de Buenos Aires, com uma oferta pública de compra de ações válida até 12 de março e que deverá exigir investimentos de US$ 25 milhões.

Queremos investir mais, continuar crescendo e gostaríamos de ter controle total da administração, diz o presidente da Alpargatas, Márcio Utsch. Com a marca Topper - originalmente da Argentina, mas que ganhou vida própria e agora tem sido revitalizada no país de origem -, a Alpargatas diz ter 32% do mercado local de calçados esportivos. No Brasil, sua fatia nas vendas é bem mais modesta e ronda os 10%. A Havaianas, apesar da liderança no segmento, enfrenta na Argentina um desafio curioso: ao contrário do que ocorre no Brasil, ela ainda não é sinônimo de sandálias de dedo, conhecidas no país como ojotas. Mas a história já começa a mudar, garante Utsch, graças ao avanço de 30% a 40% das vendas nos últimos quatro anos. Em lugares como Palermo ou Recoleta o nome Havaianas está pegando, diz, referindo-se aos bairros mais nobres de Buenos Aires.

c) UE e Mercosul voltam a discutir acordo comercial em março

O Mercosul e a União Europeia vão se reunir discretamente na segunda quinzena de março em Buenos Aires, em nova tentativa de aplainar o terreno para um anúncio, em maio, da retomada formal da negociação do acordo de livre comércio birregional. A ideia é de que a retomada significará que o acordo será fechado rapidamente.

Com a economia europeia mostrando mais fragilidade que o previsto para se recuperar, a União Europeia tenta acelerar aberturas de mercados. Esta semana, Bruxelas espera concluir negociações de acordo com Colômbia e Peru, que poderá ter algum impacto sobre exportações brasileiras. Os colombianos esperam exportar mais jeans e outros tecidos para o mercado europeu com tarifa reduzida. O Peru tem esperanças de exportar pescado livre de tarifas. A Europa alertou ao Peru que só estarão isentos os pescados de empresas com 100% de capital peruano ou até 50% de um país da União Europeia.

Mas para a Business Europe, espécie de Fiesp europeia, um acordo com o Mercosul é mais importante, pelo peso do Brasil, colocado na lista de prioridade das companhias europeias depois dos Estados Unidos, China, Rússia, Índia e Japão.

Em 2009, as exportações europeias para o Brasil caíram 22% e as importações declinaram 29%. Foi bem mais do que a média do comércio mundial. O diretor-geral da Organização Geral do Comércio (OMC), Pascal Lamy, anunciou ontem que o comércio global em volume degringolou 12%, na maior queda desde a segunda guerra mundial.

Para este ano, a Business Europa projeta crescimento do comércio mundial de 4,3% e de 6,2% em 2011. Com a recuperação europeia fragilizada e na falta de um um empurrão no consumo, o desemprego na Europa poderá passar de 8,9% em 2009 para 10,1% em 2010. E uma das maneiras de atenuar essa bomba social é expandir o comércio.

A União Europeia está negociando com dezenas de países. A negociação entre os europeus e o Mercosul foi interrompida em 2006, em meio a enormes divergências envolvendo demandas nas áreas agrícolas, industrial e de serviços. Desde meados do ano passado, os negociadores voltaram a se encontrar informalmente, testando o que cada um pode oferecer para acelerar o acordo birregional.

A Espanha e a Argentina, nas presidências respectivas da União Europeia e do Mercosul neste semestre, apostam na retomada formal da negociação em maio, na cúpula que será realizada entre os europeus e os latino-americanos em Madri, o que é visto favoravelmente pelo setor industrial europeu.

O Brasil é mercado-chave para a Europa, não apenas pelo seu crescimento estável nos últimos anos, mas também por seu papel como local para muitos investimentos por companhias europeias, diz documento estratégico da Business Europa. O principal método para avançar a relação seria a conclusão de um acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia. No entanto, muito progresso pode ser feito na relação bilateral, em questões como barreiras técnicas ao comércio, acordos de bitributação e infraestrutura.

Já na área agrícola, os europeus mostram-se na verdade cada vez mais protecionistas. Além disso, concluir negociação é uma coisa, mas aprová-la será cada mais difícil. O Parlamento Europeu tem mais poder desde o começo do ano, com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, e pode agora recusar um acordo comercial, a exemplo do Congresso dos Estados Unidos. É o que é possível ocorrer com o entendimento fechado por Bruxelas com a Coreia do Sul. Fabricantes europeus de automóveis consideram as exportações coreanas mais baratas perigosas para sua própria produção.

Em Buenos Aires, Mercosul e União Europeia vão testar o que pode ser um acordo possível, insistem negociadores. Para os europeus, a questão também é garantir acesso preferencial antes dos chineses. Companhias europeias enfrentam uma situação crescentemente difícil nas exportações e investimentos. A concorrência se intensifica na medida em que a recuperação do mundo em desenvolvimento é lenta e mantém baixa a demanda global.

Nesse cenário, a Europa está perdendo fatias de mercado para emergentes. A perda é calculada em 11% para a Índia e 9% para a Rússia. Ao mesmo tempo, a competitividade da China aumenta e assusta os europeus.

Organização Mundial do Comércio (OMC)

a) Sob pressão de americanos, Doha perde ainda mais força

A Organização Mundial do Comércio (OMC) cancelou sua reunião ministerial marcada para março e governos já admitem que a conclusão da Rodada Doha ficará para 2011.

Depois de nove anos de negociações e centenas de reuniões, governos não sabem o que fazer com o processo, que prometida gerar bilhões de dólares em abertura de mercados e redução da pobreza. A China e alguns países africanos, já sugerem uma mudança no formato das negociações.

Ainda no auge da crise econômica, o G-20 decidiu colocar a Rodada Doha como um dos pilares da retomada e da reforma do sistema multilateral. Parte da inclusão ocorreu por insistência do governo brasileiro e a meta era concluir a negociação até o fim de 2010.

Os negociadores estariam comprometidos em superar suas diferenças. Estados Unidos e Europa fariam concessões no setor agrícola e os países emergentes considerariam a abertura de seus mercados para bens industriais.

Mas uma reunião na OMC deixou claro que o projeto não tem apoio político. Estamos encalhados e as diferenças entre os governos são maiores hoje que no passado, disse Fernando de Mateu, embaixador do México na OMC. Não há uma negociação real há quase dois anos e estamos à beira do abismo, afirmou um delegado do Egito, em nome de todos os países árabes.

Para muitos, a culpa pelo fracasso é do governo americano. Washington pressiona Brasil, China e Índia por aberturas significativas de seus mercados, mas não diz o que está disposto a oferecer em troca. Diante do impasse, o acordo era de que, em março, ministros se reuniriam para determinar o que fazer com a rodada. Agora, a opção foi cancelar a viagem dos ministros. Apenas embaixadores tentarão um acordo.

Fontes confirmaram ao Estado que o cancelamento da participação dos ministros foi exigência do governo Barack Obama. Será muito difícil fechar alguma coisa em 2010, disse Ujal Bhatia, embaixador da Índia em Genebra. Até o sempre otimista Pascal Lamy, diretor da OMC, mudou de tom. Para ele, a decisão de concluir o processo em 2010 pertence a ministros. Neste momento, não temos clareza do tamanho das diferenças, disse. Isso, segundo diplomatas, depois de nove anos de reuniões diárias.

No edifício esvaziado da OMC, as negociações têm sido marcadas por frustração e confusão com o processo. Politicamente, ninguém poderia matar o projeto. Mas, ao mesmo tempo, a manutenção de uma negociação por quase dez anos sem resultados está minando a credibilidade do sistema multilateral. Não há uma clareza de qual deve ser o caminho a partir de agora, disse um diplomata europeu.

Uma das propostas que começa a ganhar força é que a rodada seja desmembrada e se feche acordo com as questões de consenso.

Essa é a ideia da China e países africanos, que querem ver algum resultado ainda neste ano.

Para os países mais pobres, a meta é conseguir abrir o mercado dos ricos para seus produtos.

b) Empresários pedem compensações para evitar retaliação aos EUA

Os empresários brasileiros estão dispostos a adiar a retaliação e a esperar mais dois anos pela retirada dos subsídios americanos ao algodão se houver compensações. Esse é o teor de uma sugestão feita pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, ao embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon.

Em reunião em São Paulo, Skaf disse que o setor privado concordaria em esperar até 2012, quando a Farm Bill (lei agrícola americana) deve ser renovada, informam fontes que participaram do encontro.

As contrapartidas seriam uma declaração do Executivo americano de que vai se empenhar em convencer o Congresso a retirar os subsídios e compensações ao Brasil enquanto isso. Entre as compensações estariam um fundo de apoio ao algodão para o combate de pragas, investimento em tecnologia e mais importações de carne, suco de laranja ou etanol. Não foi discutido o valor do fundo ou como ocorreria a abertura do mercado americano.

Podemos entender que as revisões da Farm Bill vão acontecer em 2012. Talvez haja uma limitação do governo americano de fazer algo, mesmo que queira, disse Skaf à imprensa, após o encontro. Temos que encontrar caminhos que possam evitar retaliações. Ele citou, então, o fundo para o algodão e a retirada das barreiras para alguns produtos.

A disputa do algodão se arrasta desde 2001. O Brasil venceu disputa na Organização Mundial do Comércio (OMC), que condenou os subsídios aos produtores de algodão, mas os EUA não retiraram o apoio. A OMC autorizou a retaliação.

Skaf frisou que essa não é uma posição governamental, mas da diplomacia empresarial. Segundo fontes ligadas ao assunto, a iniciativa pode enfraquecer o governo brasileiro, já que até o setor privado local seria contra a retaliação.

A administração Lula não esconde a disposição para um acordo, desde que seja substancioso, mas até agora os EUA não colocaram uma proposta na mesa. Os técnicos do governo vão divulgar na próxima segunda-feira a lista de produtos- alvo de retaliação, mas a aplicação das sobretaxas ainda demoraria algumas semanas. Procurados, o Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento não deram entrevista.

Segundo fontes próximas ao assunto, a Fiesp está preocupada com alguns setores: as farmacêuticas que temem a quebra de patentes; indústrias que não querem seus produtos incluídos na lista de retaliação; e setores beneficiados pelo Sistema Geral de Preferências, que temem ser punidos. Outra preocupação é que o Brasil seja rebaixado na lista americana dos países que não respeitam a propriedade intelectual.

Shannon não deu uma resposta imediata aos brasileiros e disse que enviaria a sugestão ao seu governo. Na coletiva de imprensa, o embaixador baixou o tom da disputa. É importante saber que existe boa vontade nos EUA para encontrar uma solução, disse. Não posso entrar em detalhes, porque a situação é complicada, mas acho que há boas possibilidades de uma resolução.

No início de fevereiro, Shannon disse que uma retaliação do Brasil poderia gerar uma contrarretaliação. O governo brasileiro enviou, logo depois, ao Congresso uma medida provisória que autoriza a retaliação em propriedade intelectual.

A movimentação para um acordo não é apenas da Fiesp, mas também do Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos e da Câmara Americana de Comércio. Eles têm o apoio dos agricultores. Para o presidente da Associação Brasileira de Produtores de algodão (Abrapa), Haroldo Cunha, a retaliação não favorece diretamente o setor. Nós sofremos com os subsídios e gastamos US$ 3 milhões com o processo.

Cunha confirmou que aceita esperar mais, desde que os EUA acenem com a retirada dos subsídios em 2012 e criem o fundo. Ele admite, porém, que uma promessa política agora tem pouco valor, já que o assunto será resolvido no Congresso. Cunha descarta a opção do governo brasileiro de fazer o fundo com os recursos do Imposto de Importação arrecadado na retaliação. Do ponto de vista tributário, isso é muito difícil de ser concretizado.

O assunto, no entanto, não é consenso entre os empresários. Mentor do painel do algodão, Pedro de Camargo Neto é contra. Um acordo consistente seria bom, mas os EUA não sinalizaram nada. Um fundo para o algodão é esmola, disse.

Plano Internacional

a) China retoma voracidade na importação de commodities

As importações de algodão pela China alcançaram em janeiro seu mais alto volume mensal desde dezembro de 2007, refletindo a voracidade de Pequim nos mercados agrícolas, ao mesmo tempo em que o comércio global continua fragilizado.

A importância da China é cada vez maior nos mercado de soja, milho, óleos e algodão, constata o banco britânico Barclays Capital. O exemplo maior é a retomada forte de suas importações de algodão, visto como um fator para a retomada da demanda global do produto.

Em 2009, as importações chinesas de algodão caíram 28%, com a industria têxtil sofrendo com a recessão global que derrubou a demanda dos produtos baratos de Pequim. Mas em janeiro a importação cresceu 286% em relação ao mesmo mês do ano passado, alcançando 301 mil toneladas.

As importações chinesas de soja alcançaram 4,1 milhoes de toneladas em janeiro, abaixo do recorde de 4,8 milhoes de toneladas de dezembro. As importações de trigo também continuaram altas, mesmo sendo apenas a metade das compras de dezembro.

Por sua vez, a China elevou as exportações de milho, mas a expectativa é de que essa tendência pareça insustentável, na medida em que a demanda doméstica exigirá inclusive mais importações.

b) Indústria dos EUA pressiona Washington por uma proposta que evite retaliação

A movimentação do setor privado dos Estados Unidos gera a expectativa que Washington faça proposta de acordo ao Brasil, nos próximos dias, para evitar retaliação de mais de US$ 800 milhões na briga do Algodão, a partir da semana que vem. Pelo cronograma da Câmara de Comércio Exterior (Camex), a lista definitiva para sanção deve estar pronta na segunda-feira. Com isso, a retaliação com imposição adicional de tarifas sobre produtos americanos pode começar a ser aplicada, além de poder incluir também a quebra de patentes farmacêuticas.

Com o prazo se aproximando, setores da indústria americana aceleraram os contatos com Washington, com propostas que a Casa Branca poderia apresentar ao governo Lula. A principal é a criação de um fundo de desenvolvimento para o setor de Algodão no Brasil, com dinheiro americano para pesquisa, desenvolvimento, logística etc. Seria uma maneira de compensar o setor pelos prejuízos causados pelos subsídios bilionários ilegais que os Estados Unidos mantêm a seus produtores.

De fato, os EUA já deram esse tipo de compensação em 2003 para evitar retaliação por parte da União Europeia, por causa da difusão de música em bares, transmitida por rádios e televisões. Pelo acordo, Washington pagou US$ 1,4 milhão anual, por três anos, para um fundo especial usado para apoiar e promover músicos europeus.

A compensação foi equivalente ao montante da retaliação que a Organização Mundial do Comércio (OMC) tinha autorizado a UE a impor contra produtos americanos. A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) pretende acordo semelhante. Se houver acordo, a compensação tem de ser equivalente aos subsídios condenados e com o compromisso de os EUA mais tarde retirarem essas subvenções, disse Haroldo Cunha, presidente da Abrapa.

Um acordo que passa por um fundo de desenvolvimento é uma boa ideia, concorda o presidente da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisas (Interfarma), Antonio Brito, em contatos com companhias americanas nas articulações para evitar retaliação e alcançar acordo.

Pelas discussões entre setores da indústria americana com a Fiesp, um acordo deveria incluir também acesso para etanol, carnes e suco de laranja, onde o Brasil tem maior vantagem competitiva. Chegou-se a falar em têxteis, mas uma baixa de tarifa nesse caso beneficiaria basicamente a China.

O Itamaraty reconhece que os os setores privados estão conversando, em busca de uma solução negociada, mas o governo Obama até agora não apresentou proposta. E nem Brasília, porque acha que a iniciativa deve vir dos americanos.

O governo não vai recuar diante só de promessa americana, acredita Cunha, com base no que ouviu das autoridades. Outras fontes do setor privado acham, porém, que o governo vai empurrar a decisão para mais tarde, pelo menos até a visita da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, no dia 4.

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