02 a 06 de novembro de 2009

Comércio Exterior

Empresas importam mais e estudam produzir na Ásia
Melhora a exportação de manufaturados
Importação atinge o maior patamar do ano e reduz saldo

Agronegócio

Exportações de etanol vão cair
2 mi de toneladas de trigo vão virar ração
Perspectivas pessimistas para a safra de algodão
Embarque de milho ganha força com PEP
Preços das exportações de carnes do Brasil continuam deprimidos

Mercosul

Brasil de olho na produção argentina de trigo
Brasil coloca a Venezuela mais perto do Mercosul
Lula e Cristina Kirchner vão discutir questão comercial
Criação de Manaus argentina ameaça produtos brasileiros
Fracassa tentativa de relançar negociações entre Mercosul e UE

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Cenário para 2010 sinaliza acordos comerciais restritos

Plano Internacional

Brasil negocia pacto de não-agressão



Comércio Exterior

a) Empresas importam mais e estudam produzir na Ásia

A valorização do real e a política agressiva de preços dos fabricantes da China reforçaram a compra de insumos ou bens finais provenientes daquele país e levaram indústrias brasileiras a considerar uma segunda reação. Mais perigosa para o futuro da produção brasileira, ela envolve a instalação de fábricas na China com a consequente redução da atividade local.

Duas empresas de Santa Catarina miram produzir na China. A Riffel, produtora de peças para motocicletas e roupas para motociclistas, sediada em Blumenau, decidiu ampliar a gama de produtos que fabrica em sua unidade na China, inaugurada há três anos, conta o diretor-comercial, Amarildo Aguiar. Em 2008, 50% do portfólio da empresa já era produzido na China, percentual que vai chegar a 60% este ano e a 70% em 2010.

Segundo ele, principalmente o aço, matéria-prima essencial para a empresa, é mais caro no Brasil do que na China, tirando a competitividade na unidade brasileira. Nas contas de Aguiar, a produção na Ásia sai, pelo menos, 20% mais barata do que no Brasil, considerando peças para motos de baixa cilindrada e de grande circulação, como um kit de relação-transmissão.

A indústria de porcas e parafusos Ciser, de Joinville (SC) ainda não tem uma unidade na Ásia, mas voltou a realizar estudos para instalar uma fábrica por lá. O vice-presidente da empresa, Carlos Rodolfo Schneider, entende que essa pode ser a saída mais eficaz para melhorar a competitividade da indústria diante do real valorizado ante o dólar. Estamos avaliando uma instalação fora e também a ampliação dos itens que importamos, diz. Há quatro anos, a Ciser iniciou a importação de linhas complementares à sua fabricação, mas hoje já entende que é preciso ampliar esse volume.

A Ciser tem encontrado dificuldades de concorrer com os asiáticos tanto no mercado interno quanto em operações no exterior, como em outros países da América do Sul, onde os chineses estão cada vez mais fortes. Nas suas contas, os chineses conseguem custos 70% mais baixos nas matérias-primas como o aço, o que os coloca muito à frente em termos de competitividade em preços. Para Schneider, importar apenas insumos de forma a diminuir custos de fabricação nas suas fábricas no Brasil não resolveria o problema de competitividade. Atualmente, é preciso importar produtos acabados.
Tradicional empresa exportadora do setor têxtil, a Linifício Leslie, tem usado cada vez mais matéria-prima (fios têxteis) chinesa na sua fábrica de Jacarepaguá (zona oeste do Rio) na produção de tecidos de linho para uso em vestuário ou em decoração. Cláudia Leslie, diretora-comercial da empresa, disse que as importações começaram em 2004 e hoje elas já representam 40% dos fios de linho utilizados. O restante é produção própria, a partir de fibra importada da Bélgica.

A área de informática foi outra que viu aumentar as importações da China. Na paranaense Aldo Componentes Eletrônicos, uma das maiores distribuidoras do país, 90% das compras do exterior são feitas lá. O dono da empresa, Aldo Pereira Teixeira, conta que 40% das receitas foram obtidas com produtos importados em 2008. O alvo para 2009 era chegar a 60%, mas o número foi revisto para 75%. Segundo ele, além da queda do dólar, a importação ganhou força porque o aeroporto de Maringá, sede da empresa, voltou a ter voos internacionais.

De acordo com Aldo, importar um netbook da marca Asus fica 15% mais barato que comprar o mesmo produto montado no Brasil pela Visum, parceira da Asus, empresa de Taiwan. Por isso, há quatro meses o empresário deixou de comprar localmente e passou a importar mais. Marcel Campos, gerente de marketing da Asus Brasil, admite que atualmente está mais barato importar da China. Mas fica difícil colocar todas as fichas numa só estratégia. É preciso dividir, opina. Segundo ele, a diferença de preço depende não só do dólar, mas também da logística e dos custos da distribuidora.

Campos explica que, há um ano, quando começou a produção local, o equipamento brasileiro ficava um pouco mais barato. No momento, 10 mil partes de uma nova linha equipamentos da empresa estão no mar para chegar às prateleiras em dezembro.

Está uma maravilha para importar. O problema é que exportamos também, comenta Cesar Tavares, diretor da Vilma Alimentos, empresa mineira que deve faturar R$ 550 milhões este ano com a venda de macarrão, mistura para bolos, temperos e refresco em pó. A Vilma este ano começou a importar o acidulante ácido cítrico da China, como forma de baixar o custo em um momento de consumo retraído e insumos em alta.
Açúcar e embalagem representam a maior parte do custo de fabricação de um refresco em pó. O problema é que o açúcar este ano explodiu de preço, passou de R$ 30 para R$ 57 a saca. É impossível repassar esta alta para o consumidor e não há como mudar a fórmula e nem trazer açúcar do exterior. O acidulante representa 3% do custo, mas aí pudemos ter um ganho expressivo, disse Tavares.

No início do ano, a Vilma negociou a compra de contêineres na China a um preço 20% menor do que a concorrência nacional. Meses depois, a diferença já havia crescido para 25%. Fomos procurados por fornecedores nacionais, que deram o mesmo preço do importado. Estamos começando a fazer novas encomendas de fornecedores nacionais, afirma.

Segundo o diretor de suprimentos da Agrale, Edson Martins, os preços dos componentes importados da China e de outros países asiáticos como Taiwan e Índia estão estáveis em dólar desde o fim de 2008, depois de uma leve redução verificada logo após o estouro da crise mundial. De acordo com ele, a empresa mantém contratos de longo prazo com os fornecedores internacionais e não leva em conta apenas a variação cambial para fechar os contratos.

Preço competitivo é um critério, mas não o único, diz o diretor da fabricante de caminhões leves, utilitários, tratores e chassis para ônibus com sede em Caxias do Sul (RS). Qualidade, pontualidade nas entregas e agilidade no desenvolvimento de novos produtos também são essenciais, afirma. A Agrale começou a importar componentes da Ásia há três anos e hoje tem 15 fornecedores na região, que produzem itens mais básicos como tanques auxiliares de combustível, velocímetros, tacógrafos e mangueiras, entre outros. Esses produtos representam menos de 10% das compras da companhia.

Everton Muffato, diretor-comercial da rede de supermercados que leva seu sobrenome, disse que a China respondia por 50% de suas importações e o volume deve crescer 5% este ano. Ele explicou que os varejistas costumam fazer compras naquele país em abril e em outubro. Em abril, a rede fez encomendas para o fim de ano. Na época, o dólar estava em R$ 2,30, mas os preços dos produtos eram 15% a 20% menores que um ano antes. Foi compensador. Muito mais agora, quando as encomendas estão chegando com o dólar perto de R$ 1,80. Entre outros itens, ele comprou 20 contêineres com malas, cinco a mais que em 2008.

O grupo varejista pernambucano Jurandir Pires, especialista em artigos para o lar, aproveitou o real valorizado para aumentar em cerca de 15% as compras de produtos chineses, como têxteis, cerâmicas, artigos de decoração, móveis, vidros e carrinhos de bebê, entre outros. Falando por telefone da Indonésia, onde negociava com fornecedores após visita à China, o diretor do grupo, Fernando Pires, revelou ter reduzido as importações durante os primeiros meses deste ano, porém garantiu que o cenário está bem melhor e que as compras no exterior já se encontram no patamar pré-crise.

b) Melhora a exportação de manufaturados

Os números de outubro da balança comercial mostraram alguma reação das exportações em geral, mas as vendas externas de produtos industrializados ainda não se recuperaram.

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, essa categoria, que une manufaturados e semimanufaturados, teve aumento de 4% em outubro na comparação com setembro. Mas se for confrontado com outubro de 2008, o resultado mostra queda de 18,5%. De janeiro a outubro, os embarques de bens industrializados foram 29,7% inferiores aos do mesmo período do ano passado. Isolando os produtos manufaturados, as exportaçõesde outubro ficaram 1% acima das de setembro, mas caíram 18,3% sobre outubro de 2008. De janeiro a outubro, recuaram 29,9%.

No lado das importações, foi registrado, em outubro, aumento da entrada de intermediários e bens de consumo, o que indica recuperação econômica e a preparação para as vendas do fim do ano.

Segundo análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), as exportações de manufaturados estão com um quadro menos ruim, o que deve ter relação com a recuperação da atividade econômica nos Estados Unidos e nos países latino-americanos, principais compradores desses bens. As vendas externas de manufaturados cresceram 5,1% sobre setembro, de acordo com uma comparação que desprezou fatos típicos do período. Segundo o Iedi, há evolução porque os crescimentos anteriores foram de 4,1% (agosto) e 2,1% (setembro).

A comparação das exportações de manufaturados com outubro de 2008, também indica desempenho menos desfavorável para o Iedi. Além de registrarem a menor queda de 2009 (18,3%), pela primeira vez no ano sua variação negativa foi inferior à registrada nas vendas externas das demais classes de produtos: 19,2% dos semimanufaturados e 20,4% dos básicos.

De janeiro a outubro, as exportações recuaram 24,6% com relação a igual período de 2008, segundo as médias diárias. Nesse critério, as importações caíram 29,4%. Apesar dessas reduções que deprimiram a corrente de comércio, o saldo cresceu 9,1%. Nesse período, as exportações chegaram a US$ 125,88 bilhões e as importações foram de US$ 103,28 bilhões, com saldo de US$ 22,59 bilhões.

O secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, disse acreditar que, neste ano, as exportações devem ficar entre US$ 155 bilhões e US$ 160 bilhões, mas o governo ainda não calculou uma meta para 2010. As exportações foram de US$ 14,08 bilhões em outubro, mas sua expectativa para os próximos meses é de níveis semelhantes aos dos mesmos meses de 2008. No ano passado, as vendas externas foram de US$ 14,75 bilhões em novembro e US$ 13,81 bilhões em dezembro. Ele disse que o Brasil tem de diversificar mais seus embarques para a China e admitiu que o país tem de investir mais no aumento da participação no mercado americano.
Ao comentar o impacto do câmbio nas exportações, Barral elogiou a tributação na entrada de capital, mas disse que parte do governo apoia medidas ortodoxas contra um problema - o controle cambial exercido pela China - que é totalmente heterodoxo.

c) Importação atinge o maior patamar do ano e reduz saldo

Indústria aproveita real forte para importar mais insumos para a produção. Importações reduzem ganho com recuperação de exportações para EUA e AL, que adquirem mais bens industrializados do país.

Com o dólar barato e a economia ganhando fôlego, as importações bateram o recorde mensal do ano em outubro, somando US$ 12,754 bilhões. Esse desempenho contribuiu para que o saldo comercial registrasse no mês passado o menor resultado mensal em 2009.
Nesse cenário de recuperação, a indústria, que sofre para exportar com o real valorizado, aproveitou o câmbio para elevar as importações de insumos para atender à demanda maior.

O aumento das importações reduziu o impacto do crescimento das exportações para EUA e América Latina.

Assim, o saldo de US$ 1,328 bilhão na balança comercial no mês passado só foi melhor que o resultado de janeiro, que registrou deficit de US$ 524 milhões em plena crise global.
De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, apesar de o superavit comercial acumulado até outubro superar o obtido no mesmo período de 2008, a corrente de comércio do Brasil com exterior ainda é 26,8% menor que a de 2008.

O resultado já era esperado, uma vez que o real apreciado e a recuperação da economia doméstica estimulam as importações, disse Felipe Salto, economista da Tendências, que projeta um saldo comercial de US$ 26,6 bilhões para 2009.

Segundo o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, o crescimento dos desembarques no país ocorre de forma significativa desde agosto. Não se trata de um surto, mas é um aumento contínuo devido ao efeito de fim de ano, além do incentivo cambial, afirmou.

Normalmente, as importações tendem a se acelerar nos primeiros meses do segundo semestre, devido à formação dos estoques para o Natal e o aumento de produção da indústria nacional, que usa insumos importados. Como praticamente metade da pauta brasileira de importações é formada por matérias-primas e bens intermediários para a indústria, disse Barral, esse aumento tem grande peso na balança.

Para Barral, o crescimento deve arrefecer nos últimos meses do ano, com uma estabilização do volume de entrada de produtos. A tendência é de equilíbrio, com queda normal nas importações de bens de consumo, ao mesmo tempo em que o dólar favorável faz aumentar as compras de insumos, avaliou.

Aumento que, alerta Salto, deve prejudicar os segmentos da indústria brasileira que fornecem materiais usados na cadeia de produção de outras mercadorias. O câmbio e o ímpeto dos empresários em produzir mais podem resultar até na substituição de insumos produzidos nacionalmente por similares importados.

Se o aumento da produção industrial brasileira está diretamente ligado à dinâmica do mercado interno, a recuperação dos EUA e de parte da América Latina tendem a estimular ainda mais a demanda das fábricas por esses bens, como produtos químicos, peças e acessórios. Em outubro, o Brasil registrou aumentos significativos nas vendas para essas regiões, que consomem mais industrializados, ao contrário da China, que compra mais commodities. O Brasil está voltando a exportar bens de maior valor agregado, mas o mercado mundial está mais competitivo, resultando na queda dos preços de alguns produtos, como calçados, ressalta Barral. E, com mais competição, a apreciação do real encarece produtos brasileiros.

Dá para ficar otimista com a recuperação americana, mas é preciso cautela, porque todo mundo vai entrar no barco, acirrando a concorrência, completou Salto.

Agronegócio

a) Exportações de etanol vão cair

As exportações de etanol do Brasil devem cair abaixo de 3 bilhões de litros em 2009/10 (abril-março), contra quase 4,5 bilhões em 2008/09, disse Mark Lyra, diretor comercial do grupo Cosan, maior exportador de etanol do mundo.

Falando durante o intervalo da Conferência Mundial de etanol da F.O Licht, ele disse à Reuters ontem que as intensas chuvas e a preferência das usinas em produzir açúcar, por conta dos elevados preços da commodity, estão entre os motivos por trás da queda das exportações.

As fortes chuvas que temos visto no Brasil não são normal para esta época do ano, e estão deixando muita cana no campo, disse à Reuters Henrique Amorim, presidente da Fermentec, empresa de consultoria baseada no Brasil . As usinas preferem produzir açúcar em vez de etanol, acrescentou Amorim.

Os preços futuros do açúcar mais do que duplicaram este ano, porque a Índia, o maior consumidor do mundo, transformou-se de exportador em importador depois de uma má colheita, e se tornou um grande comprador de açúcar do Brasil. 

Amorim disse que é provável que os motoristas brasileiros neste momento passem a usar a gasolina no lugar do etanol, cujo preço também sobe no País, já que muitos veículos podem usar os dois combustíveis.

b) 2 mi de toneladas de trigo vão virar ração

País terá de importar cerca de 6 mi de toneladas; como a Argentina também tem tido problemas, maior parte deve vir de fora do Mercosul.

Os produtores de trigo responderam aos incentivos do governo e a safra nacional deste ano voltou a ser boa, superando 5 milhões de toneladas. Um bom volume, mas que não irá todo à mesa dos brasileiros porque o excesso de chuva na reta final da colheita depreciou a qualidade do trigo.
Na avaliação do mercado, pelo menos 2 milhões de toneladas não têm padrão suficiente para o consumo humano e deverão ir para ração.

Para o gerente comercial da ADM no Brasil, Carsten Wegener, cerca de 800 mil toneladas do trigo de baixa qualidade ainda podem ser exportadas, uma vez que tradicionalmente há demanda pelo produto por países do norte da África.

Um dos participantes do leilão de trigo do governo na semana passada já vendeu o cereal arrematado para Bangladesh e para países da África.

A má qualidade do trigo brasileiro e os atuais problemas vividos pela Argentina, tradicional fornecedora brasileira, vai forçar o país a buscar mais trigo fora do Mercosul.
Luiz Martins, da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do trigo), diz que pelo menos 40% do trigo do Paraná foi prejudicado pela brusone -doença provocada por um fungo que reduz o rendimento e a qualidade do trigo.

Neste cenário, o país teria pouco mais de 3 milhões de toneladas resultantes da safra 2009/10. O volume, acrescido dos estoques governamentais, elevaria a oferta total de trigo para 4 milhões. Ainda faltam 6 milhões para completar a demanda interna, diz Martins.

As importações da Argentina ainda são uma incógnita. O presidente da Câmara Arbitral da Bolsa de Cereais de Buenos Aires, Javier Bujan, disse sexta-feira, em seminário da Abitrigo, que as perguntas são muitas sobre o setor na Argentina, mas ainda não há respostas.

A Argentina, que produziu 16,8 milhões de toneladas há duas safras, deve obter apenas 8 milhões neste ano. Bujan acredita que a oferta exportável possa chegar a 3 milhões.

Mas os problemas na Argentina -tanto seca como retenções do governo- estão incentivando outros países do Mercosul a plantar trigo.

Uma das principais áreas de crescimento ocorre no Uruguai. Gonzalo Souto, do Escritório de Programação e Política Agropecuária do Ministério de Agricultura do Uruguai, disse que o país deverá produzir 1,8 milhão de toneladas neste ano, tendo saldo exportável de 1,3 milhão -80% desse volume deverá vir para o Brasil.

A produção cresce também no Paraguai, mas parte do trigo teve os mesmos problemas do produto brasileiro. Apesar disso, Marcos Villalba, do Ministério de Agricultura do Paraguai, diz que o país tem pelo menos 500 mil toneladas que podem ser exportadas para o Brasil.

Diante desses números, o Brasil terá de importar de 2,5 milhões a 3 milhões de toneladas de fora do Mercosul, segundo o mercado. Os números de José Maria dos Anjos, do Ministério da Agricultura, ficam entre 1,5 milhão e 2 milhões.

c) Perspectivas pessimistas para a safra de algodão

Os produtores brasileiros de algodão deverão diminuir o plantio pelo terceiro ano consecutivo, num momento em que a desvalorização do dólar reduz os lucros gerados pelas exportações, confirmou levantamento divulgado pela Céleres. Segundo a consultoria, a área plantada no país deverá ocupar 820 mil hectares nesta safra 2009/10, que começa a ser semeada este mês, ante 857 mil hectares no ciclo passado, informou Anderson Galvão, analista da Céleres. Se confirmadas as estimativas, será um recuo de área de 4%. O plantio se estende de novembro a janeiro no Brasil.

Apesar da redução da área plantada, a produção deve aumentar em 2010 devido à alta da produtividade da lavoura, conforme a Céleres. A produção deverá crescer 17%, para 1,4 milhão de toneladas. Apesar do câmbio pouco animador, as exportações, deverão crescer para entre 500 mil a 600 mil toneladas, em relação às 450 mil toneladas do último ciclo.

O real registrou valorização de 31% na comparação com o dólar americano este ano, o melhor desempenho entre as 16 moedas mais negociadas do mundo monitoradas pela Bloomberg. A força do real está corroendo os lucros das vendas, denominadas em dólares, o que neutraliza as vantagens da alta da cotação do algodão este ano. O real valorizado não está encorajando o plantio, disse Galvão. Os produtores não estão tirando vantagem dos aumentos de preço deste ano.

Na bolsa de Nova York, os contratos do algodão com vencimento em março encerraram a sessão a 70,82 centavos de dólar por libra-peso, queda de 27 pontos em relação à véspera.

Como destacou André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult, em evento realizado na Fiesp, a barreira cambial prejudica a produção brasileira em um momento de reação global do setor têxtil, que já verifica uma recuperação da demanda após os estragos provocados pela desaceleração econômica derivada da crise financeira mundial.

A recuperação está sendo puxada por produtos sintéticos, mas a fibra também voltou a ser mais procurada, afirmou Pessôa. A China é a grande responsável pela retomada. Em geral, teremos no ano que vem uma discreta recuperação do consumo global, sem aumento da produção. Isso deverá levar à queda dos estoques mundiais e à reação dos preços. Mas no Brasil a situação é difícil. As vendas antecipadas, liderada por tradings exportadoras, caíram muito, limitando negócios e tirando gente do mercado.

d) Embarque de milho ganha força com PEP

O volume das exportações brasileiras de milho cresceu 27% de janeiro a outubro deste ano em relação ao mesmo período de 2008 e alcançou 5,44 milhões de toneladas, de acordo com dados da Secex, e esse incremento se deve principalmente a um programa governamental que subvenciona o transporte do produto, conhecido como PEP. Com o auxílio da ferramenta, a expectativa é que os embarques, que atingiram 817 mil toneladas em outubro, mantenham esse nível mensal até o fim do ano.

Até dezembro, pelo menos, tem mais 1,5 milhão de toneladas que terão que ser exportadas, que já estão contratadas, afirmou um trader de uma multinacional que atua no país. Segundo ele, os embarques poderiam ser ainda maiores se o governo realizasse mais leilões de PEP, pois o país tem estoques abundantes. Os line-ups programação nos portos de milho estão bem altos, tem 600 mil a 700 mil toneladas para carregar ainda em novembro, e tem muito barco para chegar ainda, afirmou.

O Ministério da Agricultura, que garante que o PEP não é um subsídio considerado ilegal, estima as exportações de milho do Brasil chegarão a quase 7 milhões de toneladas em todo o ano de 2009, ante 6,4 milhões em 2008.

e) Preços das exportações de carnes do Brasil continuam deprimidos

Ainda que algumas empresas tenham conseguido renegociar preços de contratos de exportação e pelo menos amenizar a contínua desvalorização do dólar diante do real, em geral os frigoríficos brasileiros exportadores continuam com dificuldades para obter uma remuneração melhor pelos embarques efetuados.

Estatísticas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, em outubro, os preços médios em dólar das carnes in natura bovina, suína e de frango exportadas pelo país ficaram novamente abaixo do mesmo mês de 2008. Em relação a setembro deste ano, os preços em dólar da carne suína apresentaram reação, mas as carnes bovina e de frango voltaram a retroceder.

Destaque positivo de outubro, as vendas de carne suína do país no exterior somaram 56 mil toneladas e renderam US$ 120,5 milhões. Em relação a setembro, houve altas de 8,4% e 14,6%, respectivamente, e o preço médio dos embarques foi 5,7% maior. Na comparação com outubro do ano passado, o volume subiu 47,2%, mas o valor dos embarques caiu 2,3%, já que o preço médio foi 33,7% mais baixo.

Os volumes exportados de carnes bovina e de frango cresceram em outubro em relação a setembro - 6,5% e 15,5%, respectivamente - e garantiram receitas mais elevadas (3,5% e 13,5%), mas nos dois casos os preços médios diminuíram (2,8% e 1,9%). Na comparação com outubro de 2008, os preços médios das vendas de ambas diminuíram (21,4% e 18,7%), o que derrubou as respectivas receitas apesar do salto de 11,2% do volume de carne de frango in natura exportado.
Em evento na terça-feira na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Alexandre Mendonça de Barros, analista dos braços agrícolas da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da MB Associados, mostrou preocupação com o desempenho das exportações de carnes. Os volumes exportados não estão ruins, mas no padrão carne barata para países pobres, disse ele, como informou.

É um problema que não prejudica apenas as carnes. Os dados da Secex mostram que, de uma seleção de 15 produtos agropecuários importantes na pauta exportadora nacional, dez registraram aumento dos preços médios dos embarques em relação a setembro (café em grão, farelo de soja, óleo de soja, suco de laranja, açúcar bruto e refinado, carne suína in natura, couro, fumo em folhas e etanol), mas cinco amargaram quedas - além das carnes bovina e de frango, houve perdas nos casos de soja em grão, algodão e milho.

Nesta série, o grande destaque positivo foi o suco de laranja, cujo preço médio dos embarques aumentou 24,3%, maior incremento da lista. O açúcar, tanto bruto quanto o refinado, e o fumo em folhas, também registraram valorizações significativas.

A mesma seleção de 15 produtos apresenta saldo negativo na comparação de preços de outubro deste ano e outubro de 2008. Neste caso, dez itens aparecem com queda (café em grão, soja em grão, óleo de soja, suco de laranja, as três carnes já citadas, couro, milho e etanol) e cinco em alta (farelo de soja, açúcar bruto e refinado, fumo em folhas e algodão).

Mercosul

a) Brasil de olho na produção argentina de trigo

O volume de Trigo argentino disponível para exportação nesta temporada 2009/10 deverá ficar em torno de 3 milhões de toneladas, levando-se em consideração uma produção total de 8 milhões de toneladas e uma reserva para estoques da ordem de 1,5 milhão. Os cálculos foram realizados por especialistas e fontes do segmento em seminário internacional realizado no fim da semana passada, na capital paulista.

Se não houver problemas de clima geadas e chuvas durante a colheita, vamos ter uma safra de 8 milhões a 8,2 milhões de toneladas, afirmou o presidente da Câmara Arbitral da Bolsa de Cereais de Buenos Aires, Javier Bujan, durante sua palestra. Bujan, cuja estimativa é superior à da própria bolsa - que oficialmente projeta 7,75 milhões de toneladas para 2009/10, ante 9,2 milhões em 2008/09 -, disse, ainda, que a Argentina tem uma sobra da temporada passada de cerca de 1,5 milhão de toneladas.

Os estoques de 2008/09, mais as outras 1,5 milhão de toneladas que não deverão ser consumidas na Argentina no ciclo 2009/10, resultariam nas 3 milhões de toneladas disponíveis para as vendas externas, observou Bujan. Mas não sei quanto Trigo virá ao Brasil ou quanto Trigo a Argentina vai exportar, destacou. Bujan lembrou, também, que a Argentina tem sua própria política pecualiar para emitir licenças de exportação.

Uma fonte da trading Toepfer presente ao evento concorda que a Argentina terá um estoque de passagem de 1,5 milhão de toneladas de Trigo da safra 2008/09. A trading estima uma produção entre 7,8 milhões e 8 milhões de toneladas em 2009/10. Isso também resultaria em uma oferta exportável de Trigo de até 3 milhões de toneladas, considerando-se que o Argentina quer reter para consumo interno aproximadamente 6,5 milhões de toneladas do cereal.

A pergunta é qual vai ser a cota, a licença que vai ser autorizada para exportação, afirmou a fonte da Toepfer. Creio que o governo vai liberar licenças devagar. O volume a ser exportado pela Argentina é vital para o Brasil, um dos maiores importadores de Trigo do mundo e que tem no país vizinho, tradicionalmente, seu principal fornecedor no exterior. E o montante crescerá em 2009/10, levando-se em conta que cerca de 2 milhões de toneladas do cereal da safra brasileira - de um total de 5 milhões de toneladas -, deverão ser destinadas à produção de ração, por causa da queda de qualidade em decorrência das chuvas.

Assim, o volume a ser exportado pela Argentina definirá quanto o Brasil precisará buscar fora do Mercosul. Para representantes da indústria nacional, o país terá que importar cerca de 3 milhões de toneladas de fora do Mercosul. Que a gente consiga importar 2 milhões de toneladas da Argentina. Mais 5 milhões de toneladas da produção no Brasil, são 7 milhões. Teremos que comprar 3 milhões em outro lugar, afirmou Luiz Martins, presidente do conselho deliberativo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).

b) Brasil coloca a Venezuela mais perto do Mercosul

O ingresso da Venezuela no Mercosul (Mercado Comum do Sul) superou mais uma barreira. A proposta foi aprovada na Comissão de Relações Exteriores do Senado e agora segue para votação aberta no plenário da Casa em data a ser definida. 

O tema acirrou os ânimos no Senado e provocou um embate tenso entre congressistas da base do governo e da oposição. Os governistas, representados pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), argumentavam que as recentes atitudes do presidente Hugo Chávez -como o fechamento da Radio Caracas Televisión em maio de 2007 e a ostensiva perseguição aos partidos de oposição no país- representam uma ameaça à democracia e à estabilidade do Mercosul. 

Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo, contra-argumentava que o Brasil está votando o ingresso da Venezuela, e não a aprovação ao governo de Chávez. 

O projeto de integração regional remonta a 1985, quando os então presidentes de Brasil e Argentina -José Sarney e Raúl Alfonsín- assinaram um acordo bilateral que ficou conhecido como Declaração de Iguaçu. Em 1991, com a assinatura do Tratado de Assunção por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, nasce o Mercosul. 

Nesses 18 anos de vigência do Mercado Comum do Sul, a Venezuela foi o primeiro país a solicitar o ingresso. O protocolo de adesão foi assinado em 2006 e precisa agora ser ratificado pelo parlamento dos países membros. Argentina e Uruguai já aprovaram a entrada do país, mas, além do Brasil, também falta a decisão do Paraguai. 

Membro da Opep (Organização dos Países exportadores de Petróleo), a Venezuela está entre os cinco maiores exportadores de petróleo do planeta, respondendo por cerca de 15% do petróleo consumido nos EUA. Sua adesão acrescentaria ao Mercosul mais 30 milhões de consumidores e um PIB que ultrapassa a casa dos US$ 300 bilhões de dólares. 

A parceria comercial entre Brasília e Caracas, segundo dados oficiais, contribuiu com um superavit comercial ao Brasil superior a US$ 5 bilhões de dólares em 2008. 

Na última década esse comércio cresceu mais de 850%, o que faz da Venezuela o país que mais colaborou para o crescimento da balança comercial brasileira. 


Venceu o pragmatismo político, que, associado aos interesses econômicos, deve trazer polpudos dividendos comerciais ao Brasil nas próximas décadas. E mais, é inegável que a incorporação da Venezuela abre um canal de pressão sobre o regime de Caracas. Pior seria conviver com Chávez isolado e excluído da comunidade internacional.

c) Lula e Cristina Kirchner vão discutir questão comercial

Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner, da Argentina, têm reunião marcada para 18 de novembro, provavelmente em Brasília, para tentar resolver os problemas comerciais que estão sem perspectiva no plano técnico das negociações. A informação foi dada ontem pelo secretário de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral. Ele também revelou que o ministro Miguel Jorge informou à ministra argentina da Produção, Debora Giorgi, que o assunto é presidencial. Ela queria uma reunião o mais rápido possível.

O governo brasileiro flexibilizou as regras, liberando mercadorias perecíveis e outras que estavam a caminho do Brasil antes de 14 de outubro. Naquele dia, deixaram de ser automáticas diversas licenças de importação de produtos argentinos como, por exemplo, vinhos, farinha e pré-mistura de trigo, pescados, frutas secas, geleias, alho, pneus etc.

De acordo com o diretor da consultoria em comércio exterior Center Group, Gustavo Segre, a atitude brasileira pode ser interpretada como sinal de boa vontade ou, talvez, resposta a algum aceno de maior acesso aos produtos brasileiros pelas autoridades argentinas. Ele informou que já obteve a liberação de todas as mercadorias de clientes que estavam em trânsito quando as licenças deixaram de ser automáticas.

O Brasil endureceu o jogo com seu principal parceiro do Mercosul porque as medidas protecionistas - licenças não automáticas - adotadas pela Argentina, no ano passado, acabaram dando mais acesso a mercadorias chinesas, em vez de estimular a produção local.

Fábio Ciocca, diretor da International Star, empresa de logística, também informou que a situação melhorou na fronteira terrestre, mas ainda não pode ser chamada de normal. Ainda temos muitas licenças de importação sem avaliação, disse. Ele confirmou a liberação de perecíveis e mercadorias que estavam em trânsito quando as normas ficaram mais rígidas.

Outro problema, segundo Ciocca, é a estratégia de defesa adotada por algumas empresas. Elas elevaram bastante seus pedidos de licenças de importação, mas vão embarcar apenas as mercadorias que estiverem disponíveis. O artifício, na opinião dele, está congestionando o sistema.

d) Criação de Manaus argentina ameaça produtos brasileiros

O Congresso argentino aprovou ontem lei que revê a carga fiscal sobre produtos eletrônicos, entre eles aparelhos de celular, câmeras digitais e monitores de LCD.

Quando entrar em vigor, a lei deverá acarretar perda de competitividade do produto brasileiro no mercado vizinho. O objetivo da lei, segundo o governo Cristina Kirchner, autor do projeto, é fazer da Terra do Fogo (sul do país) a Manaus argentina.
O texto determina o aumento de 10,5% para 21% do IVA incidente sobre esses produtos, além de anular as atuais isenções de outros impostos. As regras valem para os eletrônicos produzidos ou montados em toda a Argentina, exceto os originados da Terra do Fogo.

Estimativas do setor privado apontam que o produto brasileiro ficará 35% mais caro, após o impacto da nova carga fiscal. No primeiro semestre deste ano, 56% dos aparelhos celulares comercializados na Argentina eram de origem brasileira.

O secretário de Indústria e Comércio da Argentina, Eduardo Bianchi, insinuou nesta semana que a adoção pelo Brasil do sistema de licenciamento não automático para parcela da pauta exportadora do país vizinho, no mês passado, foi uma forma de retaliação ao novo imposto sobre eletrônicos.

Com essa iniciativa, que, na prática, significa restrição ao produto brasileiro, o governo da Argentina oficializa mais uma exceção nas regras de comércio entre os sócios do Mercosul.

De acordo com o jornal Clarín, Cristina Kirchner negociou com senadores da Terra do Fogo apoio ao seu polêmico projeto de Lei de Serviços Audiovisuais, aprovado no mês passado, em troca de acelerar a proposta de criação da Manaus argentina.

e) Fracassa tentativa de relançar negociações entre Mercosul e UE

Fracassou o esforço de relançar as negociações entre o Mercosul e a União Europeia para firmar um acordo de livre comércio. Depois de três dias de reunião em Lisboa, funcionários dos dois blocos não conseguiram aproximar suas posições o suficiente.

Nós verificamos que ainda tem questões que devem ser esclarecidas antes de retomar as negociações, explicou o diretor do departamento de negociações internacionais do Itamaraty, Evandro Didonet, ao Estado, após a reunião na capital portuguesa.

A mensagem da Europa é exatamente a mesma. Em comunicado divulgado em Bruxelas, o bloco informa que o encontro foi útil, porque permitiu identificar pontos que devem ser elucidados pelos países antes do relançamento.

As negociações entre Mercosul e UE estão travadas há cinco anos. Em 2004, os dois blocos quase chegaram a um acordo, mas divergências sobre o tamanho das cotas de importação de produtos agrícolas oferecidas pela Europa e a resistência da Argentina em abrir seu mercado automotivo impediram o processo de avançar.
Segundo o embaixador brasileiro, os negociadores devem se reunir nos próximos meses, mas não foi estabelecida nenhuma data. Com esse fracasso, Mercosul e UE perdem um momento político importante para impulsionar o processo.

No início de outubro, Brasil e União Europeia realizaram uma cúpula em Estocolmo, na Suécia. Na época, o encontro foi considerado um impulso político para que a negociação avançasse, com a bênção do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

O Itamaraty também demonstrou disposição para fechar o acordo, agora que a Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC) está paralisada. O revés na negociação com a UE é ruim para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fica mais próximo de terminar o segundo mandato sem novos acordos comerciais importantes.

Dessa vez, a Rodada Doha não foi o bode na sala entre os dois blocos. Os europeus resistiam a abrir seu mercado agrícola antes da negociação multilateral, para evitar pagar duas vezes, mas mudaram de ideia. Doha é importante, mas as dificuldades para avançar são muitas, reconheceu o representante da UE no Brasil, embaixador João Pacheco.

A indústria brasileira ficou decepcionada com a notícia de que os entendimentos fracassaram, embora não seja uma surpresa. A notícia não é boa, mas estávamos céticos em relação a essa negociação. É uma oportunidade perdida, porque o clima político era bom, disse o diretor de negociações internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mário Marconini.

Ele acredita que, embora os governos demonstrem vontade política, a negociação trava quando chega no nível técnico. Para o representante da indústria, a barganha entre os países europeus está muito complicada. Como alguns membros tem muita reticência em abrir seu mercado agrícola, as ambições da UE na indústria e nos serviços são pesadas demais.

Do lado do Mercosul, também não é fácil avançar. Os empresários brasileiros pressionam o governo por uma discussão em etapas: 70% das tarifas serão negociadas em separado por cada país e 30% em bloco. Seria mais um golpe na combalida Tarifa Externa Comum (TEC), mas já foi feito em negociações com outros países, como o México.

Os europeus, que no início estavam preocupados com esse tipo de abordagem, parecem concordar. Se alguns países do Mercosul tem receio em abrir seu mercado, uma modulação é uma boa ideia, disse Pacheco. 
O Itamaraty, no entanto, ainda não aceitou oficialmente essa alternativa, que gera protestos nos sócios do Mercosul. Segundo Didonet, a proposta não entrou nas discussões e o Mercosul segue negociando como uma união aduaneira.

O diretor da consultoria Abeceb.com e ex-ministro da Indústria da Argentina, Dante Sica, avalia que, se uma negociação em etapas com a União Europeia for aprovada, os argentinos perdem poder de barganha. Seria um sinal importante da perda de importância do Mercosul para o Brasil, disse.

Segundo ele, uma estratégia da Argentina é trocar maior flexibilidade nas negociações internacionais, que interessam à indústria brasileira, por concessões do Brasil, como, por exemplo, o fim de barreiras técnicas que impedem a entrada de produtos argentinos.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO (OMC)

a) Cenário para 2010 sinaliza acordos comerciais restritos

As perspectivas para o Brasil fechar acordos comerciais em 2010 são modestas, mas não nulas. O país pode esperar avanços num acordo Sul-Sul entre 22 paises emergentes e também em negociações bilaterais, mais do que na combalida Rodada Doha de liberalização global.

Em todo caso, é preciso levar em conta duas questões. Primeiro, 2010 é ano de eleição presidencial no país e a capacidade de se engajar em barganhas finais diminui. Comércio internacional raramente ajuda eleitoralmente. Em contrapartida, pode tirar votos, se a abertura de mercado for associada a perda de empregos.

A segunda questão é mais permanente: o Brasil tem grandes dificuldades para obter negociações equilibradas, já que os parceiros sempre querem tirar a abertura agrícola das barganhas. Essa situação causada pela enorme competitividade da agricultura brasileira aparece em todas as negociações. O país Brasil provoca pavor na area agrícola, da mesma forma que a China na área industrial.

De toda maneira, onde há mais clareza de avanço é no acordo Sul-Sul para cortar entre 20% e 30% as tarifas entre os participantes, que estão entre as economias que mais crescem.

A negociação, lançada em 2006 em São Paulo, ocorre através do Sistema Global de Preferências Comerciais (SGPC), mecanismo da Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), que prevê troca de concessões tarifárias entre países em desenvolvimento.

Participam 22 países, incluindo grandes mercados em expansão como a Índia, Coreia do Sul, Indonésia, Filipinas, África do Sul, Argentina. A China está fora, para alívio dos que temem a concorrência de seus produtos industriais baratos.

O tamanho do corte tarifário em negociação é bem inferior aos 50% defendidos inicialmente pelo Mercosul, que teve de baixar sua ambição para tentar um entendimento. Mas é suficiente para garantir vantagem competitiva em mercados em expansão.

Assim, se um produto dos EUA ou da UE entrar na Índia com tarifa normal de 10%, o mesmo produto exportado pelo Brasil pagará alíquota menor, de 7% ou 8%.

A negociação poderá fechar com os paises sendo capaz de excluir 30% de suas tarifas de qualquer corte, por pressão da Índia e da Coreia do Sul que temem serem inundados de produtos agrícolas originários do Brasil. Mas uma cobertura de 70% do universo tarifário não é desprezível.

A Unctad avalia que uma redução de 20% nas alíquotas dos países participantes resultará em comércio adicional de US$ 7,7 bilhões por ano. Como os americanos costumam repetir, 50% do crescimento mundial virá de paises como China, Índia, Brasil, África do Sul e do do sudeste asiático, mercados que podem ser mais explorados e não dá para ignorar.

Os paises pararam um pouco (na negociação Sul-Sul) porque colocavam gás na Rodada Doha, mas visto a situação atual (na OMC) tendem a retomar com força aquela negociação, diz o embaixador brasileiro junto a Organização Mundial do Comércio, Roberto Azevedo.

O Brasil jogou a maior parte de suas fichas na Rodada Doha, a negociação global de liberalização agrícola, industrial e de serviços entre os 153 países da OMC. Mas a rodada já dura oito anos. Um esboço de acordo que está na mesa de negociações resultaria em um corte de 50% nas tarifas industriais, redução de 70% a 80% nos subsídios agrícolas dos países ricos e baixa de até 70% nas tarifas agrícolas, segundo o diretor da OMC, Pascal Lamy.

Os líderes do G-20, reunindo as principais economias desenvolvidas e emergentes, concordaram em concluir Doha em 2010. Mas isso vai depender muito dos EUA, que está bloqueando tudo, exigindo demais na area industrial e recuando nas concessões agrícolas, irritando boa parte dos parceiros.
Certos negociadores acham que até março ou abril de 2010, se a questão do plano de saúde for resolvida, Washington vai poder atuar na área comercial. Mas esta é uma grande interrogação. A administração Obama pode também esperar as eleições legislativas do fim de 2010 e empurrar tudo para 2011.

Eleição tem sempre impacto em negociação comercial. O exemplo maior é a India, que até as eleições gerais deste ano não negociava nada e após o pleito ficou mais liberal do que os EUA.
O sentimento em Genebra é de que os EUA só voltarão à mesa de negociações com muita pressão global. Porém, um peso pesado como a China, também não está negociando nada.

Crescem as incógnitas para o Brasil, mesmo se o impasse em Doha for quebrado. Exemplo: a abertura para o etanol brasileiro é um assunto que está evoluindo. O que era possivel e politicamente vendável no ano passado talvez agora não seja mais para os parceiros. Na União Europeia, existe o questionamento sobre se o etanol brasileiro é bom, ajuda o meio-ambiente ou não. O que era apresentado no ano passado como uma vantagem, agora fica mais complicado com o debate sobre segurança alimentar, emissões de carbono, desmatamento da floresta, uso indireto da terra.

Também uma barganha entre Brasil e EUA está praticamente desfeita. A ideia era que Washington considerasse o produto brasileiro como etanol de segunda geração, e portanto bom para o meio ambiente. O produto teria cota e escaparia de uma sobretaxa. Mas agora os EUA consideram o etanol brasileiro equivalente ao de milho, tão poluente e ruim quanto o etanol americano. Um acordo viável em Doha no ano passado ficou mais complexo, e a negociação de acordo do clima em Copenhague em dezembro embola ainda mais o jogo na rodada comercial.

Os mercados que mais interessam ao setor privado são os Estados Unidos e a União Europeia. O incentivo para os dois elefantes do comércio mundial fazerem acordo com o Brasil sempre foi, além do ganho de mercado, o fato de um não perder a preferência para o outro. Ou seja, o acordo de um com o Mercosul incentiva o outro a fazer o mesmo. Os europeus procuraram acelerar bastante a negociação com o Mercosul quando a negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) parecia que ia avançar. No momento em que a Alca desapareceu, os europeus tiraram o pé do acelerador. Com o fiasco na Rodada Doha, eles se desestimularam duplamente, porque tinham de fazer concessões agrícolas duas vezes, uma na rodada global e outra na negociação birregional.

Agora, a UE tomou a iniciativa de chamar o Mercosul para voltar à mesa de negociação, esta semana em Lisboa, após cinco anos de impasse. Vão examinar até que ponto seria possivel um acordo de livre comércio em 2010. Mas poucos creem em avanços.
O fato é que o comércio agrícola da UE com o Brasil está deixando de ser comércio administrado. Bruxelas não consegue mais controlar as exportações brasileiras com cotas tarifárias (limitando a quantidade). No setor de carne bovina, até dois anos atrás o Brasil estava exportando inclusive fora da cota, pagando tarifa que em tese era para ser proibitiva. Só com o problema sanitário é que houve uma freada. Depois da Rodada Doha e eventualmente de um acordo birregional, o comércio ficará imprevisível.

A saída de Bruxelas tem sido impor um regulamento atrás de outro para frear os produtos brasileiros. No caso de frango salgado, como o país cumpriu todos os regulamentos, a UE agora planeja aumentar a tarifa, mesmo tendo de pagar compensação com uma cota (com alíquota menor).

Com relação aos EUA, o Itamaraty vê espaço no futuro para negociação bilateral que não seja tão abrangente como a Alca (que incluía propriedade intelectual, serviços, etc), e mais focada em comércio. Mas negociadores notam que na Alca o Brasil propôs até a liberalização de 100% do universo tarifário, portanto sem exclusão de qualquer produto. Os EUA recusaram porque queriam manter barreiras para a entrada de suco de laranja, açúcar, siderúrgicos, calçados, embora as tarifas deles sejam baixas.

Em negociações bilaterais, Brasília vê chances de acordo com o México em 2010. Esse país tem acordo - quadro de comércio com o Mercosul, e é somente com ele que os sócios do bloco podem negociar individualmente pactos para eliminação total de tarifas de importação. O México foi definido como prioridade comercial pelas associações de exportadores brasileiros, que o julgam um dos mercados mais promissores e querem ampliar os acordos existentes, de redução tarifária, restritos ao setor automotivo e mais 800 produtos.

O México é o sexto maior importador de alimentos do mundo e o governo brasileiro constatou interesse dos produtores de suínos e lácteos em entrar nesse mercado. Só que os mexicanos já avisaram ao Brasil que não querem liberalizar seu mercado agricola.

Outro trilho comercial são as negociações do Mercosul. Em 2010, um objetivo do Brasil é ampliar o número de produtos cobertos no acordo com a South African Customs Union (SACU), união aduaneira formada pela África do Sul, Namíbia, Botsuana, Lesoto e Suazilândia. Atualmente, são cobertos mil produtos, excluindo totalmente o setor automotivo por causa da defensiva da SACU.
No acordo Mercosul-Índia, o objetivo é tambem ampliar a cobertura, atualmente limitada a 450 linhas tarifárias, excluindo muitos produtos agrícolas de interesse brasileiro.

Além disso, o Mercosul continuará a negociar com Marrocos, Egito, Jordânia e Turquia. O acordo com Israel ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos.

Plano Internacional

a) Brasil negocia pacto de não-agressão

O Itamaraty começou a negociar um tratado de não-agressão na América do Sul, como meio de contornar os conflitos provocados pelo acordo militar entre a Colômbia e os EUA, assinado sexta-feira. O tratado terá o objetivo garantir aos signatários que não serão alvos de ataques de vizinhos que venham a atuar em cooperação militar com países de outras regiões. O Itamaraty espera convencer o Equador, país que preside este ano a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), a encampar a ideia e levá-la à consulta das chancelarias dos outros membros do bloco. 

A seus assessores, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que essa saída multilateral será uma forma de lidar com a polêmica causada pela decisão da Colômbia de fechar um acordo que permitirá aos EUA manter militares em sete bases no país. Segundo o ministro, o tratado reforçaria garantias fundamentais que venham a ser escritas sem ênfase nos acordos bilaterais e permitiria a tão ambicionada construção de confiança entre os países da América Sul. Seria, por fim, um meio de dissipar temores - os reais e os infundados. 

O tratado de não-agressão serviria como um princípio básico de garantia jurídica a ser respeitado em todos os compromissos na área de defesa dos países da Unasul, sem exclusões. Assim, apaziguaria Bogotá, ao contemplar sua insistente preocupação de que todos os acordos de defesa fechados pelos parceiros sul-americanos com países de fora da região deveriam ser postos sobre a mesa e incluir garantias. Essa exigência tem como fundamento a ausência de garantias de não-agressão nos acordos celebrados pela Venezuela com Irã e Rússia.

Para que o tratado alcance o objetivo imaginado por Amorim, o Conselho Sul-Americano de Defesa deverá debater pelo menos duas questões básicas. Primeiro, se o novo acordo seguirá a receita do Tratado de Tlatelolco, de 1967, pelo qual nações militarmente mais desenvolvidas se comprometem a não minar o status da América Latina e Caribe como região livre de armas nucleares. Uma resposta positiva significaria a negociação para que EUA, Rússia, Irã e França, entre outros, forneçam garantias de que não alimentarão nem participarão de conflitos na América do Sul. 
A segunda questão diz respeito ao registro dos acordos no Conselho de Defesa, ou seja, a quebra da confidencialidade do documento.

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