22 a 26 de junho de 2009

Comércio Exterior

Resultados
Bird prevê queda de 1,1% no PIB do Brasil
Importador de máquina quer estímulo do BNDES
Máquinas chinesas ganham espaço no Brasil
Importação de insumos cresce em maio
Classe média iraniana atrai exportadores brasileiros

Agronegócio

Marfrig compra operação de peru da Doux Frangosul
Exportação de suínos às Filipinas ainda é incerta
Embarque de carne à Europa a passos lentos
Rússia anima exportador de suíno; Filipinas frustram
Isenção de PIS e Cofins sobre o trigo também será prorrogada

Mercosul

Argentina pode corrigir perdas de brasileiros, diz Chiaradia
Mercosul discutirá importação de pneus

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Acordo em Doha precisa sair até o fim do ano, diz Amorim
OMC debate barreiras à carne

Plano Internacional

Embrapa quer exportar alimento produzido na África
Brasil volta a ter superávit com a China
Exportações e importações do Japão caem mais de 40%



Comércio Exterior

a) Resultados

O déficit em conta corrente subiu para US$ 1,738 bilhão em maio, mais que o dobro em relação aos US$ 786 milhões registrados no mesmo mês de 2008, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central. Apesar do resultado negativo, as contas correntes seguem trajetória de ajuste e devem apresentar déficit de US$ 15 bilhões em 2009, segundo projeções do BC, ante US$ 28,192 bilhões em 2008.

Maio foi uma exceção, afirma o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Como regra, os déficits desse ano têm representado mais ou menos a metade dos valores observados no ano passado.

No período de janeiro a maio, afirma Lopes, o déficit em conta corrente somou US$ 6,612 bilhões, uma queda de 53% em relação a período semelhante do ano passado. O resultado acumulado em 12 meses foi de US$ 20,174 bilhões em maio, cifra que equivale a 1,51% do Produto Interno Bruto (PIB). Houve uma redução de 28,4 % em relação ao déficit de 2008, que equivale a 1,79% do PIB.

A tendência de ajuste se mantém para os próximos meses, afirma Lopes. Um sinal disso é que, para junho, a projeção oficial do BC é que as contas correntes fechem em equilíbrio, com receitas iguais a despesas. Caso o número se confirme, será uma redução expressiva em relação aos US$ 2,781 bilhões registrados em junho de 2008.

O BC também reviu suas projeções para o balanço de pagamentos, incluindo o resultado em conta corrente. O déficit em conta corrente agora é projetado em US$ 15 bilhões, ante US$ 16 bilhões da projeção anterior, divulgada pelo BC em março. O principal fator que contribui para o déficit menor é o recuo no volume de importações. Agora, o BC projeta um total de US$ 138 bilhões em importações em 2009, abaixo dos US$ 141 bilhões antes projetados.

Pesou na revisão o fato de, de janeiro a maio, o volume de importações ter ficado 27% menor que o mesmo período de 2008. As estimativas do BC tomam como premissa recuo de 20% nas importações este ano, em relação ao volume do ano passado. A projeção do BC para as exportações foi mantida em US$ 158 bilhões. Outro item de despesa que teve recuo importante foram os gastos com fretes internacionais, agora estimados em US$ 2,7 bilhões, ante US$ 4,5 bilhões da estimativa anterior. A baixa do volume de importações e o recuo nos preços dos fretes contribuem para queda nessa despesa.

Do lado negativo, o BC aumentou o déficit previsto em viagens internacionais, de US$ 2,5 bilhões para US$ 3 bilhões. De qualquer forma, haverá um recuo em relação aos US$ 5,177 bilhões ocorridos em 2008. Nos cinco primeiros meses deste ano, o déficit em viagens foi de US$ 1,303 bilhão, recuo de 35,3% em relação a período semelhante de 2008. As despesas com viagens estão caindo devido à desvalorização do real e ao menor crescimento da renda doméstica. O BC reviu a estimativa um pouco para cima porque, nos ultimos meses, a moeda nacional recuperou parte de seu valor ante o dólar.

O BC também elevou o déficit previsto para remessas de lucros e dividendos, agora estimado em US$ 17 bilhões, ante US$ 15 bilhões estimados em março. A revisão também se explica pelo fortalecimento do real. O valor ainda é bem menor do que os US$ 33,875 bilhões em 2008. Nos primeiros cinco meses deste ano, as remessas somam US$ 7,832 bilhões, queda de 49,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

b) Bird prevê queda de 1,1% no PIB do Brasil

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deve ter contração de 1,1% em 2009 e apresentar crescimento de 2,5% no próximo ano, prevê o Banco Mundial (Bird). Para a América Latina e Caribe, a expectativa é de retração de 2,2% das economias da região neste ano e expansão de 2% em 2010. Os números constam do relatório Desenvolvimento Financeiro Global 2009, e segundo o qual a economia mundial deve declinar 2,9% no atual calendário e verificar ampliação de 2% no exercício seguinte.

O Banco Mundial projeta recuo de 3% para a economia dos Estados Unidos neste exercício, baixa de 6,8% para o Japão e declínio de 4,5% para a zona do euro. A economia da China deve expandir-se 6,5% em 2009 e a Rússia deve ter contração de 7,5%. Para a economia da Índia, a estimativa é de que haja ampliação de 5,1%.

Apesar de um rápido declínio no PIB em países com alta renda durante o primeiro trimestre de 2009, uma série de indicadores apontam para o começo de uma recuperação econômica. Mercados acionários se estabilizando ou mesmo se recuperando, melhorias modestas nas exportações em alguns países, retomada da demanda do consumidor e efeitos ainda por vir na demanda devido as medidas de estímulo fiscal estão entre os fatores que indicam um início de recuperação, observou o Banco Mundial no documento.

Ao mesmo tempo, a instituição lembrou que ainda há elementos que sugerem fraqueza continuada, como o desemprego em elevação, a queda nos preços das moradias em muitos países e fracos balanços de bancos. Como consequência, o prazo e a força de uma eventual recuperação na economia global permanecem altamente incertos, ressalvou o Banco Mundial em seu relatório.

Em meio à recessão econômica global e à fragilidade do mercado financeiro, o fluxo de capital privado líquido para os países em desenvolvimento caiu para US$ 707 bilhões em 2008 depois de situar-se em US$ 1,2 trilhão um ano antes. E, segundo o estudo do Banco Mundial, o fluxo de capital internacional deve diminuir mais em 2009, para US$ 363 bilhões.

c) Importador de máquina quer estímulo do BNDES

Os importadores de máquinas e equipamentos também querem ser contemplados no pacote de estímulo do setor que está em discussão no governo. A Abimei (associação dos importadores de máquinas) solicitou ao BNDES que a reabertura de uma linha de financiamento para a importação do produto seja uma das medidas de incentivo do pacote.

Até agora, a Abimei não recebeu um retorno do BNDES sobre o pedido. Os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento estão discutindo o pacote com o BNDES e devem anunciar as medidas nesta semana.

Segundo o presidente da Abimei, Thomas Lee, a associação concorda com todos os pleitos da Abimaq, que representa os fabricantes nacionais. Além dos pedidos de desoneração tributária e crédito à vista do ICMS, os importadores querem o retorno da linha de crédito Finamin do BNDES.

Trata-se de uma modalidade antiga para financiamento de equipamentos importados, semelhante ao Finame. Com abertura esporádica e por tempo determinado, o Finamin registrou sua última operação há três anos, diz Lee.

Segundo ele, a reabilitação da linha de crédito vai aumentar em cerca de 30% a venda de máquinas importadas imediatamente. O setor foi fortemente debilitado pela crise econômica e opera hoje com um volume de vendas 70% abaixo do registrado em 2008, quando foi importado um volume de US$ 2 bilhões em máquinas.

Lee defende que o pacote do governo não seja apenas uma modalidade de estímulo aos fabricantes nacionais de máquinas e equipamentos. Não vamos restringir o auxílio a um setor menor, dos fabricantes de máquinas, mas sim a um maior, de toda a indústria consumidora de equipamentos, afirma Lee.

O presidente da Abimei admite que a recente desvalorização do dólar deve favorecer o setor, pois tornará os produtos mais baratos aos consumidores. Mais do que o câmbio valorizado, no entanto, Lee afirma que o setor precisa de um retorno da atividade econômica e de melhores condições de crédito para se recuperar.

d) Máquinas chinesas ganham espaço no Brasil

Começa a fazer parte do passado a identificação da importação de produtos chineses com bens de consumo, como roupas, guardachuvas e cadeados. Desde o ano 2000, a entrada de itens como rolos compressores, escavadeiras, motoniveladoras, empilhadeiras e pás carregadeiras cresce exponencialmente. Há nove anos, as máquinas e equipamentos chineses significavam 0,85% do total comprados no exterior pelo Brasil, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Em 2004, já atingiam 2,1%. Dois anos depois, a porcentagem chegou a 5,1%. Em 2008, bateu em 9,3%, proporcionalmente dez vezes mais do que o registrado oito anos antes.

A evolução é ainda mais impressionante quando se leva em conta que a importação brasileira de bens de capital como um todo multiplicou por apenas três vezes entre 2000 e 2008, passando de cerca de US$ 7 bilhões para US$ 22 bilhões. Em números absolutos, a fatia chinesa desse bolo passou de US$ 60 milhões há nove anos para US$ 2 bilhões no ano passado. Em 2009, porém, a participação chinesa sobre as importações de bens de capital diminuiu. Beneficiadas por um mercado interno aquecido, essas indústrias preferiram manter preços, perdendo participação no mercado brasileiro, que encolhe devido à crise. Diante desse cenário e da perspectiva de expansão das vendas no longo prazo, algumas indústrias começam a investir em estrutura própria no Brasil.

Ganhamos mercado competindo em preço comentou Zeng Guang an, vice-presidente da Liu Gong, uma empresa chinesa instalada em Guang Xi, a maior produtora de pás carregadeiras na China, com 38 mil unidades por ano. No Brasil, onde instalou no mês passado um escritório em Belo Horizonte, a BH Máquinas, o executivo chinês disse que a importação começa a ganhar escala suficiente para que a Liu Gong pense em produzir localmente. A primeira remessa de pás carregadeiras da Liu Gong em 2007 foi de apenas 20 máquinas. No ano passado, já foram vendidas 140 unidades. Este ano, a Liu Gong prevê fechar com 450 itens vendidos no Brasil. Somente no primeiro quadrimestre foram comercializadas 150 máquinas. Com mil vendas por ano, já podemos instalar uma unidade fabril, para atender ao Brasil e aos países vizinhos, disse o presidente da Liu Gong para a América Latina, o americano Jim Donaghue.

Em 2008, a Liu Gong montou uma fábrica na Índia, mercado onde conseguiu vender 500 unidades. Decidimos produzir localmente ali em razão do protecionismo indiano. Mas no Brasil os competidores locais são muito mais fortes do que lá e precisamos ganhar maior escala para pensar em produzir no país e permanecermos competitivos em preço, disse Zeng. A Liu Gong é uma empresa controlada pelo governo chinês, mas com 60% de seu capital negociado em bolsa. Faturou US$ 1,6 bilhão no ano passado e projeta este ano um crescimento de 10%, mesmo com a crise econômica global. O mercado chinês garante nosso crescimento, porque atendemos diretamente aos investimentos governamentais em infraestrutura.

O crescimento da Liu Gong no país em 2009 vai contra a tendência da importação de bens de capital chineses este ano. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento da Indústria e do Comércio, houve um desaquecimento das encomendas em 2009. As importações de bens de capital chineses entre janeiro e maio atingiram 160 mil toneladas de aço entre janeiro e maio, consumindo US$ 1, 6 bilhão. No mesmo período em 2008 foram trazidas 200 mil toneladas por US$ 2,6 bilhões.

De acordo como o diretor da área de comércio da Abimaq, Nelson Delduque Costa Júnior, salvo na área de óleo e gás, é difícil conceber a vinda das linhas de produção de exportadores como a Liu Gong. A China tem uma estrutura de custos inigualável, ao poder estabelecer a taxa de câmbio que considera mais conveniente para a exportação e lidar com uma mão de obra muito barata. Eles desenvolvem uma concorrência voltada unicamente para o barateamento do produto final, vendendo às vezes a mercadoria a preço de custo. São condições que se consegue produzindo lá, e não aqui.

Outra empresa chinesa a instalar rede de vendas no Brasil é a Shandong Lingong Construction Machinery (SDLG), fundada pelo governo em 1972 e privatizada nos anos 90. A empresa tem como principal sócio a Volvo Construction Equipment (Volvo CE) e está entre as quatro maiores produtoras de carregadeiras da China. No início do mês, a SDLG anunciou investimento de US$ 7 milhões no Brasil (US$ 10 milhões em toda América Latina) na instalação de uma rede de vendas da marca. No Brasil, serão instalados 36 pontos de vendas e na América Latina, 67 pontos de venda. Além do Brasil, já foram implantadas unidades na Argentina, no Uruguai e no Chile.

O mercado potencial de vendas de carregadeiras é de 5.800 unidades no Brasil e 9 mil unidades na América Latina por ano, observa o diretor de negócios da SDLG Latin America, Afrânio Chueire. O volume de vendas, disse, não é suficiente para exigir a instalação de fábrica no país. A empresa antes vendia máquinas para construção a Importadores brasileiros. Em 2007, foram enviadas 85 unidades ao Brasil; em 2008, o volume subiu para 127 unidades. A expectativa é atingir 230 unidades neste ano e 422 em 2010. A meta é alcançar 10% de participação do mercado da América Latina, ou 650 unidades já no próximo ano, afirmou Chueire. O cenário de crise, diz, não afetou os planos para o Brasil. O mercado está menor do que no ano passado, mas isso não afetou os planos de longo prazo.

O agravamento da crise internacional levou as indústrias brasileiras a adiar investimentos. Como resultado, as importações sofreram forte desaceleração. De janeiro a abril, o crescimento foi de 3,6%, muito inferior aos 48,5% acumulados de janeiro a agosto de 2008, mês de pico das importações. As compras da China, no quadrimestre, recuaram 12,8% e o país perdeu participação nas importações brasileiras, para 8,4%, ante 9,7% em igual intervalo de 2008.

A crise não afetou os investimentos na China como afetou aqui. O mercado interno de máquinas chinês continua aquecido e, por isso, as empresas exportadoras estão menos dispostas a baixar preços para manter o ritmo de vendas, diferentemente do que vêm fazendo exportadores de outros países, observa o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei), Thomas Lee. A dificuldade em renegociar preços também é apontada como uma das causas para a instalação de redes de distribuição direta pelas empresas chinesas.

Duas das maiores importadoras de máquinas e equipamentos corroboram essa teoria. O diretor presidente do Grupo Megga, Stefan Lee, afirma que os produtos chineses perderam competitividade durante a crise em termos de preço.

Tenho fornecedores que estão me dando descontos sem eu pedir, só para manter o nível de produção e reduzir o seu custo fixo. As empresas chinesas não precisam dar descontos porque estão com o mercado interno aquecido, afirma. Stefan Lee não informa o nível de queda nas vendas de máquinas-ferramentas, mas considera que a empresa levará de três a cinco anos para retomar o nível de vendas obtido em 2008. Haverá uma recuperação gradual, mas é um processo lento, diz. Segundo ele, as vendas de ferramentaria para produção de moldes para a indústria automotiva e sopros de plástico (para indústrias de alimentos) já retomaram as encomendas. Acredito que outros setores voltarão a investir em máquinas e ferramentas a partir do segundo semestre.

O Grupo Bener, importador de máquinas-ferramentas, relatou queda de 50% nas importações no primeiro semestre, em comparação com o mesmo período de 2008. O diretor-comercial, Paulo Lerner, afirma que a maioria das empresas brasileiras parou de comprar máquinas-ferramentas em função da crise externa - a China é um dos principais países fornecedores desse segmento - o que causou elevação dos estoques. O grupo chegou a importar 40 contêineres por mês em 2008. Hoje, se chegar a quatro por mês é muito, afirma. Bener diz ter reduzido drasticamente as importações nos meses anteriores, sobretudo da China. Agora, com a melhora do cenário macroeconômico brasileiro, ele vê retomada das encomendas das indústrias, e prevê a retomada gradativa das importações, podendo chegar a dez contêineres por mês até o fim do ano.

e) Importação de insumos cresce em maio

A importação de insumos pelas empresas brasileiras aumentou em maio, na esteira da recuperação da produção industrial e, em menor medida, da valorização do câmbio. No mês passado, o volume de compras externas de bens intermediários (como produtos químicos, aço, e borracha) cresceu 1,8% em relação a abril, feito o ajuste sazonal.

A alta, ainda que modesta, é a primeira a ocorrer nessa base de comparação desde agosto de 2008, segundo cálculos do BNP Paribas, com base nos números da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Na série sem ajuste sazonal, as quantidades importadas de bens intermediários subiram 7,5% sobre abril deste ano.

O economista-chefe da Funcex, Fernando Ribeiro, diz que as compras externas de insumos sempre acompanham muito de perto a produção industrial. Quando a indústria se recupera, as importações de bens intermediários são retomadas com uma defasagem pequena. Como a melhora da produção local neste ano é modesta, o aumento do volume importado também não é dos mais expressivos, avalia Ribeiro. Nos quatro primeiros meses do ano, a fabricação industrial cresceu 6,2% em relação ao nível de dezembro do ano passado. Na comparação com o mesmo período de 2008, porém, ela encolheu 14,7%.

O estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, diz que a elevação das importações de insumos ocorre num cenário em que grande parte da indústria já ajustou o nível de estoques. Livre do excesso de inventários, as empresas voltam a produzir mais, o que as leva a comprar um volume maior de bens intermediários.

Lintz destaca que, a despeito da crise, a demanda segue relativamente firme. A massa salarial continua a avançar a um ritmo razoável, garantindo que o consumo se mantenha em níveis elevados, o que um estímulo fundamental para a indústria retomar a produção, observa ele.

Para o economista Paulo Miguel, da Quest Investimentos, é natural que a importação de insumos se recupere, como resultado do crescimento da produção. Ele nota que há uma melhora na fabricação de bens finais, como automóveis, o que tende a se traduzir em mais compras de bens intermediários. Os bens finais reagem primeiro, e esse dinamismo é transferido para as outras etapas da cadeia, afirma Miguel.

Na série sem ajuste sazonal, o volume importado de produtos químicos em maio cresceu 17,9% em relação a abril, enquanto o de metalurgia básica (onde se encontram os produtos siderúrgicos) teve alta de 13,5%. As compras de artigos de borracha e plástico, contudo, caíram 2,3% no período.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, relativiza o aumento da importação de bens intermediários. O resultado de um mês é pouco para indicar que seja algo sustentável e que há uma retomada de fato. Para Vale, o desempenho das compras externas de insumos parece algo semelhante com o comportamento recente da indústria: há uma recuperação tímida, que se dá depois de uma queda gigantesca. De janeiro a maio, as importações de insumos ainda amargam perda de 31,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Segundo Vale, a queda do dólar nos últimos meses pode ajudar a explicar o aumento das compras externas de intermediários em maio. Com o câmbio real apreciado como está, fica muito favorável para as empresas tentarem diminuir seu custo de matéria-prima comprando no exterior, afirma ele. Ribeiro, por sua vez, vê pouca influência do câmbio valorizado na alta recente das importações de insumos. Para ele, é a retomada da produção que explica o aumento das compras externas desses produtos. A indústria no Brasil é estruturalmente dependente de insumos importados, diz Ribeiro. Segundo ele, as importações desses bens crescem no país mesmo quando o câmbio está mais desvalorizado, desde que a produção industrial esteja em alta.

Ribeiro diz que o câmbio valorizado tem mais impacto sobre a compra de bens de consumo duráveis (como automóveis e eletroeletrônicos) e bens de capital. As importações de bens duráveis, aliás, já mostram alguma reação desde março. Em maio, elas aumentaram 3,3% em relação a abril, na série ajustada sazonalmente pelo BNP Paribas. Já as compras de bens de capital continuam muito fracas, registrando queda de 12% nessa base de comparação. Com a elevada capacidade ociosa em grande parte dos setores da economia, muitas empresas adiaram ou cancelaram os seus projetos de investimentos, o que derrubou a demanda por máquinas e equipamentos.

f) Classe média iraniana atrai exportadores brasileiros

As exportações brasileiras para o Irã triplicaram entre 2000 e 2008 e devem ficar este ano acima do US$ 1 bilhão, marca ultrapassada pela primeira vez em 2004.

O comércio é baseado principalmente em itens alimentícios como soja, óleo de soja e carne. São produtos para os quais os países vizinhos ao Irã não são fornecedores muito competitivos se comparados com o Brasil.

Na avaliação do governo brasileiro, a classe média iraniana representa um importante atrativo comercial, com potencial para consumir produtos brasileiros de maior valor agregado.

Em 2008, o Brasil exportou US$ 1,13 bilhão para o Irã. Em 2007, as vendas atingiram o recorde de US$ 1,83 bilhão; e em 2006, US$ 1,56 bilhão. Entre janeiro e maio deste ano, as vendas somam US$ 411 milhões.

Em 2008, a empresa que liderou as vendas brasileiras para o Irã foi a Bunge, a única no ranking do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio a figurar na faixa das que exportaram mais de US$ 50 milhões entre janeiro e dezembro. Em seguida, com vendas entre US$ 10 milhões e US$ 50 milhões aparecem Scania, Vale, e os frigoríficos Marfrig e Bertin. A Scania informou que deixou de exportar este ano para o Irã a partir do Brasil.

As exportações brasileiras para os iranianos equivalem, em termos de receita, às vendas ao Uruguai. No ano passado, o Brasil exportou US$ 1,64 bilhão ao vizinho.

Para o secretário de Comércio Exterior do ministério, Welber Barral, as vendas para o Irã, assim como para muitos países da Ásia Central, têm muito potencial para crescer porque a presença de empresas brasileiras ainda é relativamente pequena e porque o Brasil sofre nesses países menos barreiras que nos mercados tradicionais.

O Irã tem uma grande população [70 milhões de habitantes] e uma classe média maior que a de outros países da região, o que para nós significa um potencial para ampliarmos as exportações de alguns produtos de valor agregado, de calçados e têxteis e também mais maquinário, diz Barral.

Até então, os itens que estão no topo da lista são milho em grão, bagaços e outros resíduos da extração do óleo de soja, carne bovina, açúcar, óleo de soja, soja em grão, chassis de automóveis, frango e semimanufaturados de aço.

A relação comercial Brasil-Irã é altamente favorável ao Brasil. Em 2008, as importações brasileiras foram de só US$ 14,7 milhões. Segundo o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Irã, Farrokh Chadan, um dos principais desafios do comércio com o Irã atualmente diz respeito à dificuldade que importadores iranianos têm para que cartas de crédito emitidas por bancos do país sejam aceitas por empresas exportadoras e por bancos no exterior. Muitos pedem a confirmação de bancos de primeira linha, o que é caro e trabalhoso.

Chadan conta que o Irã é grande comprador de commodities brasileiras por causa da competitividade do país. Mas que há também um fator político em jogo.

Entre os motivos de o Irã se voltar mais para o Brasil para a importação desse tipo de commodity estão os problemas que temos tido com a Argentina, disse ele, lembrando que empresas argentinas poderiam em tese ter maior presença como fornecedores de carne e grãos ao país. A Argentina mantém uma relação tensa com o Irã. No ano passado, votou na ONU a favor de sanções ao país por conta de seu programa nuclear e acusa Teerã de ter tido participação no ataque a instituições judaicas em Buenos Aires nos anos 90. E chegou a pedir a prisão de autoridades iranianas, incluindo o então presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani.

Agronegócio

a) Marfrig compra operação de peru da Doux Frangosul

A Marfrig Alimentos está prestes a anunciar a compra da operação de abate de peru da Doux Frangosul. Com o negócio, a empresa, que já atua em carnes bovina, de frango, de suíno e de cordeiro, estreia em peru para concorrer com Sadia e Perdigão, que juntas na recém-criada Brasil Foods terão mais de 80% da produção nacional. Procurada, a Marfrig não se pronunciou. O diretor-geral da Doux Frangosul, Aristides Vogt, confirmou a negociação, mas afirmou que ela ainda não está fechada.

A entrada da Marfrig em peru é mais um passo na estratégia de diversificação da companhia, que inicialmente atuava apenas em carne bovina. Investiu em cordeiros, com aquisições de empresas no Uruguai e Chile, antes de abrir o capital na bolsa de valores em 2007. No ano passado, a empresa ingressou em aves e suínos com a compra das operações da americana OSI no Brasil e na Europa. A operação de abate de perus que a Marfrig está adquirindo está localizada na cidade de Caxias do Sul (RS).

Com o investimento na produção de peru, a Marfrig busca sinergias com outros segmentos em que atua. Uma das opções que vislumbra é exportar a carne de peru e derivados para clientes que já adquirem as outras carnes que a companhia produz. A Europa, onde a Marfrig já processa carnes de frango e suína, é um cliente importante do peru produzido no Brasil.

No total, o abate nacional de peru atingiu 45,605 milhões de cabeças em 2008 (ou 456.055 toneladas). A maior parte (251.785 toneladas) ficou no mercado interno. As exportações de peru e derivados do Brasil somaram US$ 557,9 milhões no ano passado, conforme dados da União Brasileira de Avicultura (UBA).

O negócio com a Marfrig alivia um pouco o cenário para a Doux Frangosul, que enfrentou dificuldades financeiras e teve perdas com derivativos em 2008. Com a crise internacional, que reduziu a demanda, a empresa teve de dar férias coletivas para 2,5 mil funcionários, entre janeiro e abril deste ano. Além disso, seu lucro caiu 31% em 2008, para R$ 14,1 milhões.

A receita da empresa avançou 26,8%, para R$ 1,967 bilhão no ano passado, com uma produção de 572 mil toneladas de carnes de frango, peru e suínos e industrializados, sendo 80% dela destinada ao mercado externo.

Além do efeito da crise global, a Doux Frangosul sofre também os reflexos das dificuldades vividas pela matriz na França, que perde competitividade ano após ano, conforme fontes do setor.

Além de diversificar as operações, a Marfrig, que em 2008 faturou R$ 6,775 bilhões , também busca ganhar musculatura. Para isso, já admitiu que tem conversado com a concorrente Bertin, avaliando uma eventual união. Em comunicados recentes ao mercado, disse existirem tratativas entre a Marfrig e a Bertin S.A., mas que não existe, nesta data, qualquer acordo vinculante ou não vinculante firmado pelas partes em relação a tais tratativas.

Tanto Marfrig quanto Bertin, que têm o BNDESPar como acionista, ficaram alavancadas por causa das aquisições e da alta do dólar em 2008. Também foram afetadas pela falta de boi para abate por conta do ajuste no ciclo de produção. Assim, a eventual união seria uma saída para as empresas se fortalecerem. Mas o negócio interessa à Marfrig apenas se ela tiver o controle da nova empresa.

Com 57 plantas para produção de carnes bovina, suína, ovina e de aves na América do Sul, na América do Norte e na Europa, a Marfrig tem capacidade diária de abate de 20.950 cabeças de bovinos, 4.200 de suínos, 9.400 de ovinos e 1.726.000 frangos. Também é capaz de produzir 2.213 toneladas de industrializados e processados.

b) Exportação de suínos às Filipinas ainda é incerta

Exportadores de carne suína queixam-se de que as Filipinas estão discriminando o produto brasileiro. Em 2002, uma missão veterinária do país esteve no Brasil visitando estabelecimentos exportadores, mas só habilitou frigoríficos de carnes de frango e bovina. Uma nova missão esteve no Brasil em fevereiro deste ano e voltou a visitar estabelecimentos de carne suína, mas o ministro da Agricultura das Filipinas, Artur Yap, não homologou o trabalho dos veterinários, segundo Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne suína (Abipecs).

A decisão de Yap, que inicia visita ao Brasil esta semana junto com a presidente das Filipinas Gloria Arroyo, contraria informações obtidas pelos exportadores no Ministério da Agricultura. Segundo Camargo Neto, uma delegação do ministério foi às Filipinas e informou que três fábricas de Santa Catarina seriam habilitadas a exportar carne suina.

De acordo com o presidente da Abipecs, pressão de produtores de suínos das Filipinas teria contribuído para a decisão de Yap.

O mercado de carne suína das Filipinas é pequeno - cerca de 10.000 toneladas anuais - e hoje é atendido por União Europeia, Estados Unidos e Canadá. Mesmo assim é importante na estratégia dos exportadores e obter novos mercados para a carne suína brasileira, já que ainda são muito dependentes das vendas para a Rússia. A não habilitação do Brasil protege nossos concorrentes e não o produtor filipino, reclama o dirigente.

Apesar dos sinais negativos, a esperança dentro do governo é de que a presidente Gloria Arroyo anuncie a habilitação.

c) Embarque de carne à Europa a passos lentos

As exportações brasileiras de carne bovina para a União Europeia ensaiam recuperação, mas ainda estão aquém dos volumes mensais vistos em 2007, ano em que o bloco ainda não impunha restrição ao produto brasileiro.

Levantamento da Scot Consultoria, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, mostra que em maio, o Brasil exportou 21.320 toneladas (equivalente carcaça) ao bloco. Os volumes incluem carnes in natura, industrializada e miúdos. Sobre abril, a alta é de 0,22% e ante maio de 2008, de 5,04%.

Nesse intervalo de tempo, porém, os preços da carne subiram por causa da oferta mais restrita. Assim, em maio, as vendas totalizaram US$ 47,496 milhões, acima das US$ 36,346 milhões do mesmo mês de 2008, segundo a Scot.

As vendas estão melhorando, mas num ritmo lento, diz Maria Gabriela Tonini, analista da consultoria. As vendas ao bloco caíram a partir de janeiro de 2008, quando a UE passou a exigir que apenas um número restrito de fazendas - rastreadas e certificadas - fornecesse animais para exportação a seu mercado. Atualmente, cerca de 900 propriedades são autorizadas.

No ritmo atual, dificilmente, o Brasil conseguirá retomar os volumes que vendeu à UE em 2007 - 504 mil toneladas (equivalente-carcaça). Até maio, foram 100,9 mil toneladas, 25% a menos que em igual intervalo de 2008.

d) Rússia anima exportador de suíno; Filipinas frustram

A Rússia habilitou oficialmente dois frigoríficos de Santa Catarina - um da Cargill e outro do Pamplona - para exportação de suínos, após mais de três anos de embargo. A habilitação foi de um número pequeno de unidades, considerando que nove frigoríficos estavam na lista do Ministério da Agricultura enviada aos técnicos russos para avaliação.

A expectativa era maior porque sabemos que as demais plantas também têm condições de exportação, até porque já vendem para outros mercados e no passado também venderam aos russos, afirmou Ricardo Gouvêa, diretor do Sindicarnes-SC, que representa os frigoríficos no Estado.

A Rússia embargou o Estado em dezembro de 2005, após os registros de focos de aftosa no Paraná e em Mato Grosso do Sul. A trava foi retirada há alguns meses, mas ainda não havia sido oficializada a habilitação de plantas industriais, que permite os embarques na prática. Na última viagem à Rússia, no início do mês, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, negociou a habilitação das unidades.

As duas plantas aprovadas pelos russos são de empresas que não têm unidades no Rio Grande do Sul, por onde as demais companhias - Sadia, Perdigão e Coopercentral Aurora - passaram a exportar suínos aos russos desde o embargo. Os russos quiseram proteger sua produção própria e seus demais parceiros comerciais, evitando habilitar as unidades com maior volume de produção, afirmou uma fonte do setor.

A planta da Cargill habilitada está situada em Seara. A unidade do Pamplona está em Rio do Sul. Julio Franzoi, diretor comercial do Pamplona, disse que esperava pela habilitação mas que ainda não tem ideia de quanto poderá exportar aos russos. Devido às cotas, será bem menor do que o volume que fazíamos antes do embargo. A Cargill não se pronunciou.

Em nota, Inácio Kroetz, secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, afirmou que a reabertura do mercado de suínos de Santa Catarina para a Rússia reflete a relação de confiança entre os serviços veterinários dos dois países, tendo em vista que, pela primeira vez, a aprovação ocorre sem a inspeção de técnicos russos in loco. De acordo com Gouvêa, a expectativa é que as demais sete plantas não-habilitadas sejam aprovadas nos próximos dias. E para Wolmir de Souza, presidente da Associação Catarinense de Criadores de suínos (ACCS), a habilitação das duas primeiras já poderá elevar o preço ao produtor.

A Rússia já foi o principal parceiro comercial dos suínos produzidos em Santa Catarina. Em 2005, as exportações totais do setor somavam US$ 484,6 milhões, sendo US$ 386,2 milhões para os russos. Nos últimos anos, por conta do embargo, Ucrânia, Hong Kong e Cingapura foram os grandes clientes.

A visita ao país da presidente das Filipinas, Gloria Arroyo, frustrou os produtores e exportadores de suínos. O secretário filipino de Agricultura, Arthur Yap, foi contra a abertura do mercado do país asiático ao produto brasileiro. Ele destruiu as relações comerciais bilaterais, afirmou o presidente da Abipecs, Pedro de Camargo Neto. Tanto tempo de negociação e uma viagem da presidente não valeram de nada. O mercado filipino absorve 10 mil toneladas de suínos por ano, mas significaria um atestado de qualidade ao produto nacional na Ásia.

e) Isenção de PIS e Cofins sobre o trigo também será prorrogada

Entre as medidas medidas que serão anunciadas pelo governo na segunda-feira para estimular os investimentos e o crescimento da economia está a prorrogação por mais 18 meses da isenção de PIS e Cofins incidente sobre a venda de trigo, farinha de trigo e pão francês.

Na semana passada, os moinhos e panificadoras sofreram uma grande derrota. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) recusou o pedido da Associação Brasileira da Indústria do trigo (Abitrigo) para que houvesse a isenção do Imposto de importação (II) na compra do cereal de países fora do Mercosul, para compensar a quebra de safra na Argentina, principal fornecedor do produto para o Brasil.

Segundo uma fonte do governo, para evitar um aumento de preço do trigo e derivados, a isenção dos dois impostos será prorrogada até o fim de 2010. O benefício terminaria no dia 30 de junho, após um ano em vigor.

No ano passado, o governo adotou a medida para evitar impactos inflacionários. Em 2008, também houve a suspensão das exportações argentinas de trigo para o Brasil, mas a medida ainda veio acompanhada da redução do imposto de importação para 2 milhões de toneladas de trigo de países como Estados Unidos e Canadá.

A suspensão do pagamento de PIS-Cofins tem impacto maior para padarias, pequenas indústrias e pequenos varejistas, que estão no sistema de PIS-Cofins cumulativo e, portanto, não acumulam créditos pelo imposto pago. Alguns moinhos já recebem créditos pelo pagamento desses tributos.

Na semana passada, o presidente da Abitrigo, Sergio Amaral, previu que haveria aumento entre 15% e 18% no preço do pão e de 38% no da farinha de trigo, como resultado da volta da cobrança do PIS e Cofins e da manutenção da tarifa de importação do trigo.

Amaral afirmou que a perda fiscal do governo com a desoneração de PIS e Cofins para o trigo e derivados é relativamente pequena porque, na indústria de massas e biscoitos, a isenção de imposto só ocorre na origem (nos moinhos), mas os dois encargos são cobrados integralmente da indústria.

A parcela de trigo usada em massas e biscoitos, segundo o presidente da Abitrigo, é de 43%. Os outros 57% são destinados à panificação e ao consumo doméstico. Amaral disse que os cálculos do setor indicam uma renúncia fiscal, em relação ao pão, de R$ 35 milhões por mês.

Na segunda-feira, o governo anuncia também medidas de estímulo ao setor de bens de capital e a prorrogação da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis, material de construção e produtos da chamada linha branca.

Mercosul

a) Argentina pode corrigir perdas de brasileiros, diz Chiaradia

O Brasil tem reclamado que barreiras impostas pelos argentinos a seus produtos acabam na prática beneficiando os chineses, que aumentam suas exportações graças a preços imbatíveis.

Chiaradia disse não ter certeza de que os chineses estão tomando mercado do Brasil. E insistiu que as medidas para moderar o comércio adotadas por Buenos Aires definitivamente não são para prejudicar a ninguém e muito menos ao Brasil ou qualquer membro. E acrescentou: Se há algum caso pontual em que isso está ocorrendo, temos de examiná-lo e encontrar a maneira de minimizar a dificuldade que tem algum dos sócios do Mercosul. Mas preciso examinar com detalhes.

Negociadores brasileiros reagiram sem entusiasmo às declarações de Chiaradia, notando que as reclamações de perda de mercado para os chineses têm sido frequentes, as promessas de correção também, mas que nada se concretiza. Para ele, a essência da questão é que teremos tudo para ganhar se trabalhamos juntos. Chiaradia reiterou que Buenos Aires quer fazer todo o possível para dar novo ânimo ao Mercosul, mas que obviamente não temos capacidade de fazer isso sozinhos.

b) Mercosul discutirá importação de pneus

O governo já começa a discutir como aplicar a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), tomada na quarta-feira, que confirmou a proibição de importação de pneus usados, hoje garantida por meio de liminares judiciais, ou, no caso dos vizinhos do Mercosul, por resolução da Câmara de Comércio Exterior (Camex). A intenção do Ministério do Desenvolvimento, que aguarda apenas o parecer da Advocacia Geral da União sobre o assunto, é negar a concessão de licenças de importação de pneus usados provenientes da União Europeia a partir da publicação da decisão no Diário da Justiça.

O tema deve se tornar um dos principais assuntos dos sócios menores do Mercosul, na reunião do bloco, em 25 de julho, em Assunção, quando termina a presidência rotativa do Paraguai. A Camex começou, na reunião deste mês, a discutir o que fazer no caso do Uruguai e do Paraguai, que, por resolução de janeiro, prorrogada em abril, têm direito a uma cota de exportação de 166 mil pneus remoldados ao Brasil. A indústria de pneus brasileira acusa os uruguaios e paraguaios de remoldarem pneus usados comprados dos europeus, que subsidiam a venda do material, considerado perigoso para o meio ambiente.

A cota de pneus aceita pelo Brasil vence no dia 30 de junho. A partir dessa data, a importação do produto estaria proibida, se não houver nova resolução criando nova cota. O governo vem tentando negociar no Mercosul uma política comum para resíduos, e uma específica para os pneus, que poderia incluir a permissão de venda de pneus usados ou remoldados de um sócio para outro, sob estritas condições de fiscalização e normas de origem. Paraguai e Uruguai resistem à medida, e a Argentina se recusa a permitir a importação, mesmo obrigada pelo tribunal de solução de controvérsias do bloco.

A proibição de importação de pneus usados por parte do Brasil foi questionada pela União Europeia na Organização Mundial do Comércio, que, em 2007, decidiu que o Brasil poderia bloquear a compra desse produto alegando razões de saúde pública e defesa do meio ambiente. Mas a decisão do órgão de solução de Controvérsias da OMC condenou as exceções criadas no Brasil para a proibição - as liminares e a concessão aos sócios do Mercosul. Ou proibia a importação de pneus de todos ou teria de abrir o mercado, decidiu a OMC. Desde então, o governo tentava obter do Supremo uma decisão que tornaria sem efeito as liminares das instâncias inferiores, o que aconteceu nesta semana.

Apesar das constantes críticas ao Brasil pela proibição, na imprensa dos dois países, os sócios menores do Mercosul já haviam reduzido os volumes vendidos ao Brasil, e, por isso a cota de importação de pneus usados, que expiraria em abril, foi prorrogada até 30 de junho. Autorizados a vender 166 mil unidades, Paraguai e Uruguai venderam, até maio, apenas 35,9 mil, dos quais 21,6 mil provenientes do Paraguai.

A concessão aos sócios respondia a uma queixa dos governos, que diziam não haver sentido em barrar o pequeno volume de pneus vendidos por eles quando as liminares judiciais permitiam a entrada de milhões de unidades da União Europeia e de países asiáticos. O total de importações de pneus usados, em 2008, foi de 3,79 milhões, queda sensível em relação ao ano anterior, quando chegou a quase 7 milhões de unidades. Em 2008, as importações de usados somaram 2,5 milhões de unidades só da Europa. O Paraguai vendeu 455 mil e o Japão, 718 mil.

A decisão do STF surpreendeu o governo, que esperava ver o assunto resolvido após o recesso, no segundo semestre. Os diplomatas e o Ministério do Desenvolvimento alertaram os juízes de que o país estava ameaçado de sofrer represálias dos países europeus, que teriam autorização da OMC para criar barreiras a produtos brasileiros em represália pelo não-cumprimento, por parte do Brasil, das determinações do órgão de solução de controvérsias da organização.

Organização Mundial do Comércio (OMC)

a) Acordo em Doha precisa sair até o fim do ano, diz Amorim

Em 2010 será mais complicado para o Brasil fechar acordos comerciais, em pleno período eleitoral. Por isso, se houver avanços na Rodada Doha, tem que ser até o fim deste ano, para pavimentar a conclusão da negociação global de liberalização agrícola e industrial.

Essa foi a mensagem que o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, deixou durante conversa com o negociador comercial chefe dos Estados Unidos, Ron Kirk. No mesmo momento, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) previa contração de 16% no comércio mundial este ano, por causa da recessão maior que a projetada.

Para o ministro brasileiro, o pacote que está na mesa de negociações em Genebra já permitiria ganhos importantes, ainda mais na crise atual - e no caso do Brasil, quando o país vai entrar em período eleitoral e as concessões de abertura do mercado se tornam mais difíceis.

Amorim insistiu que o Brasil chegou ao limite nas concessões por um acordo na Rodada Doha. Mas deixou uma brecha aberta, dizendo que, se for possível alguma flexibilidade, terá antes que ver que tipo de compensação receberá, porque as aberturas para etanol e algodão não foram resolvidas até hoje.

O representante americano mostrou disponibilidade para continuar dialogando, conforme relatou Amorim. Mas continua sem clareza o que Washington quer exatamente e o que está disposto a pagar pelas duas demandas. Algo é certo: Amorim reiterou que há coisas impossíveis a serem atendidas, como maior abertura no setor químico, que os americanos sempre demandaram.

O debate sobre protecionismo e abertura comercial foi um dos temas ontem na conferência ministerial da OCDE. O secretário de Comércio Internacional da Argentina, Alfredo Chiaradia, foi incisivo, chamando atenção para as análises de que o comércio internacional estava aberto antes da crise.

Estava aberto para produtos industriais, que os ricos exportam, mas para produtos agrícolas estava cheio de distorções e barreiras, afirmou. Para o ministro argentino, é difícil imaginar um acordo global proximamente, se não conseguiu ser fechado no ano passado, antes do auge da recessão global.

O ministro de Comércio da Nova Zelândia, Tim Gross, advertiu que se a Rodada Doha não for concluída nos próximos 18 meses, o sistema multilateral implodirá - ou seja, a relevância das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) diminuirá, com os países procurando acordos fragmentados para aumentar exportações.

Haverá uma reunião miniministerial em Paris, com a participação de mais de 15 ministros. Mas o ministro Celso Amorim não espera avanços nem na reunião de cúpula do G-8 e G-5, em julho.

O novo ministro de Comércio da Índia, Anand Sharma, que chegou a fazer declarações otimistas de que seu país está ansioso para retomar as negociações, já começou a sentir o peso da realidade e parece mais prudente em suas declarações. A Índia e os EUA têm sido apontados como os grandes culpados do impasse na negociação global.

b) OMC debate barreiras à carne

O mal-estar diplomático por causa da gripe suína chegou à Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil, depois de recomendar que não se viaje à Argentina e ao Chile, agora exige que todos os países adotem barreiras apenas com base científica. Uma série de governos, entre eles o brasileiro, criticou duramente os países que adotaram barreiras contra a carne suína alegando prevenção de contágio humano pelo vírus H1N1.

Mesmo com todas as garantias de veterinários, 6 países ainda mantêm restrições à carne suína, entre eles a China. Pequim diz que vai retirar a barreira assim que tiver comprovação de que a carne não é vetor de transmissão da nova influenza.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já deu essa garantia.

Os países que adotaram as barreiras justificaram as medidas pela situação de emergência. No Comitê de Assuntos Sanitários da OMC, o tema dominou o debate. Para o governo chinês, a medida foi necessária para resguardar a população.

Um outro problema destacado por governos é que, três meses depois, alguns países nem sequer cumpririam a lei internacional que exige que toda nova barreira seja notificada à OMC.

Além da China, Gabão, Indonésia, Jordânia, Suriname e Armênia ainda mantêm restrições à importação de carne de porco.

A lista chegou a ter 20 países, mas a maioria já retirou as restrições à importação de carne suína.

Plano Internacional

a) Embrapa quer exportar alimento produzido na África

Mandioca, arroz e, em breve, até etanol. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) começa a colher os primeiros resultados de sua experiência na África e já prevê exportações para a Europa como resultado de suas iniciativas no continente.

A Organização das Nações Unidas para agricultura e Alimentação (FAO) e o Banco Mundial (Bird) publicaram novo estudo que revela que a savana africana tem o potencial de se transformar no novo Cerrado, modificando a geografia mundial da produção de commodities nos próximos anos.

O representante regional da Embrapa para África, Cláudio Bragantini, endossa a análise. A região tem um potencial enorme e conta com condições muito parecidas as do Cerrado em termos de suas terras, afirmou o chefe do escritório da instituição em Acra, capital de Gana. Na próxima semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será o convidado de honra da cúpula da União Africana, que ocorre na Líbia. O tema agrícola está na agenda.

Segundo a FAO, a savana africana cobre 25 países e teria capacidade de ser um novo centro de produção de grãos e alimentos no mundo mais produtivo que o Cerrado brasileiro. Hoje, apenas 10% da área de cerca de 400 milhões de hectares que vai do Senegal à África do Sul é utilizada.

Para FAO e Bird, os investimentos no Cerrado brasileiro nos anos 80 colocaram o País como um dos principais fornecedores de alimentos no mundo, ameaçando a posição americana em algumas áreas como soja. Na avaliação das entidades, há um interesse mundial cada vez maior pela região africana que poderá levar a savana a ter o mesmo destino do Cerrado.

Apesar dos desafios, a FAO estima que a África esteja em posição mais vantajosa hoje que o Brasil tinha nos anos 70 e 80 para receber investimentos. Uma série de governos árabes tem adquirido terras no Sudão, Uganda e outros países para investir na agricultura, embora a maioria dessas iniciativas tenha como objetivo apenas de exportação. A China também partiu em busca de terras na África para garantir seu próprio abastecimento.

Já a Embrapa garante que seus projetos não se concentram apenas na exportação. O que estamos fazendo é o trabalho de mediação entre o setor privado brasileiro e oportunidades na África, disse Bragantini. Estamos nos concentrando em projetos com alto impacto social.

Ele revela que acaba de fechar com o governo dos Estados Unidos um projeto piloto para a produção de arroz em Moçambique. A FAO e o Bird também sugerem que o caminho mais eficiente seja criar condições de trabalho e renda para os pequenos agricultores locais. A agricultura comercial na África pode e deve envolver pequenos fazendeiros para maximizar o crescimento e garantir que todos possam tirar proveito, disse Michael Morris, economista-chefe do Bird para temas agrícolas.

Segundo Bragantini, da Embrapa, a experiência tem sido incrementar a produção de pequenos agricultores. No Oeste Africano, empresas estão já fechando acordos com produtores locais no comércio da mandioca e até a produção de farinha e outros derivados.

O governo japonês é outro que quer usar a experiência do Centro-Oeste brasileiro na África. Nos anos 80, o Cerrado contou com um volumoso investimento japonês na produção de grãos. Agora, eles querem a nossa ajuda para levar esse mesmo projeto para a África, revelou Bragantino, que afirmou estar sendo contatado por agências governamentais em Tóquio para a elaboração de projetos.

Ele garante que o Brasil também ganha com esses projetos. Estamos vendendo nossa tecnologia e nossas máquinas. A ideia da cooperação também traz novos mercados para uma área importante da agricultura nacional, disse.

Bragantini aponta que também existem projetos de grande escala, como é o caso da construção de usinas de etanol. Os primeiros projetos já começam a se concretizar, disse. Parte do investimento feito por empresas privadas brasileiras está sendo financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

No ano passado, o BNDES fechou o financiamento para um projeto entre Brasil e Gana para a exportações do biocombustível para a Suécia, país europeu que mais consome etanol e está comprometido em expandir o uso até 2020.

O continente conta com terras e interesse estrangeiro. Mas, segundo a FAO, o perigo é de que novos projetos árabes e chineses acabem se transformando em uma nova onda de colonialismo.

b) Brasil volta a ter superávit com a China

A crise global inverteu a tendência do comércio entre Brasil e China e transformou o déficit em superávit. O Brasil acumulou um robusto saldo de US$ 2,8 bilhões com os chineses de janeiro até a segunda semana de junho. No primeiro semestre de 2008, o déficit do comércio bilateral estava em US$ 1,5 bilhão, conforme a Secretaria de comércio exterior (Secex).

Dois fatores explicam a reviravolta nas relações comerciais com o dragão asiático: a recomposição de estoques de commodities na China, que incentivou as vendas de minério de ferro e de soja, e a queda da produção industrial no Brasil, que derrubou as importações de componentes e máquinas chinesas.

Para o secretário de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, o Brasil vai obter um superávit importante com a China em 2009. Ele ressaltou que o impacto para a balança é significativo, pois o país asiático é responsável hoje por 22,5% do superávit do Brasil com o mundo.

Os economistas acreditam que o saldo atual é um ponto fora da curva e o Brasil deve retomar o padrão de déficits crescentes com a China a partir de 2010. No segundo semestre, a tendência é de superávits menos expressivos, à medida que a economia brasileira se recupera e a China termina de recompor os seus estoques.

Provavelmente estamos no ápice desse superávit, que deve se reduzir ao longo do ano, disse Rodrigo Maciel, secretário-executivo do Conselho Brasil-China, que reúne empresas nos dois países, como as brasileiras Vale e Embraer e as chinesas Baosteel e Huawei.

Apesar da crise, que reduziu o ritmo de crescimento da economia chinesa, as exportações brasileiras para a China sustentaram alta de 34,5% de janeiro até a segunda semana de junho. Graças ao bom desempenho das commodities, os chineses se tornaram o principal parceiro comercial do Brasil em 2009.

As vendas de minério de ferro, principal produto da pauta de exportação do Brasil para a China, aumentaram 97% de janeiro a maio. No caso da soja, o ganho foi de 27% no período. A receita obtida com a exportação de petróleo para a China caiu 41%, por causa dos menores preços, mas o volume embarcado cresceu 70%.

No fim de 2008, os chineses pararam de comprar commodities por causa da crise. No início deste ano, aproveitaram os preços mais baixos e recompuseram os estoques, disse Júlio Sérgio de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda.

As importações vindas da China foram em sentido contrário. Depois de crescer 59% em 2008, as compras de produtos chineses recuaram 23,5% de janeiro até a segunda semana de junho. Segundo Júlio Callegari, economista do banco JPMorgan, a queda é resultado da forte contração da economia brasileira após a crise. A produção industrial caiu 14,7% de janeiro a abril em relação a igual período de 2008, conforme o IBGE.

Cálculos do Conselho Brasil-China indicam que 65% das importações vindas da China são insumos e máquinas para a indústria. A indústria sofre a concorrência chinesa, mas também se beneficia com insumos e máquinas mais baratos. Depende do setor, disse Maurício Moreira Mesquita, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Por causa da queda da produção industrial, o Brasil importou, por exemplo, US$ 652 milhões a menos em aparelhos e componentes elétricos da China de janeiro a maio, o que significa um recuo de 27%. As importações de máquinas e aparelhos mecânicos chineses também caíram 23%.

Segundo Roberto Giannetti da Fonseca, diretor do departamento de comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), sem utilizar componente chinês, a indústria não consegue ser competitiva. Ele acredita que o Brasil deve voltar a ter déficit com a China em 2010, porque a complementaridade das duas economias favorece os chineses.

O saldo apurado no primeiro semestre deste ano supera o de 2003, quando o Brasil obteve seu melhor desempenho no comércio com a China, um superávit de US$ 2,4 bilhões. Esse resultado se deteriorou com o tempo e o Brasil teve déficit recorde de US$ 3,6 bilhões com os chineses no ano passado.

c) Exportações e importações do Japão caem mais de 40%

Um dos principais motores da economia japonesa, as exportações continuaram afundando no mês passado.

Em maio, o Japão vendeu 40,9% menos bens e serviços que no mesmo período do ano passado -a queda em abril foi de 39,1%. O resultado aumenta as dúvidas sobre se o pior já passou para a segunda maior economia do mundo, como sinalizou recentemente o BC japonês.

As importações tiveram queda de 42,4%, mostrando que empresas e consumidores japoneses continuam reticentes em gastar. Para o Brasil, as exportações caíram 36%, e as importações tiveram recuo de 20,5%.
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