16 a 20 de junho de 2008

Comércio Exterior

Resultados
País forma força-tarefa para triplicar vendas à China
Balança do petróleo registra déficit
Exportação de álcool supera expectativas
CNH faz de Sorocaba seu 1º pólo global de exportações

Agronegócio

Portos sem filas, mas com limitações
Exportações mineiras
Exportações devem superar US$ 70 bi

Mercosul

Governo perde apoio e Argentina afunda na crise política
Independência compra frigorífico no Paraguai
Superávit com vizinho cresceu 24% este ano

OMC

Mudanças nas vendas de frango à Europa

Plano Internacional

Ruralista irlandês cobra pelo "sim"
Eleições nos EUA podem atrasar Doha por três anos
Bolívia e Chile firmam acordo
Bird tacha Brasil de protecionista



Comércio Exterior

a) Resultados

A balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 771 milhões na segunda semana de junho, informou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O resultado é a diferença entre as exportações de US$ 4,095 bilhões e as importações de US$ 3,324 bilhões. No acumulado do mês, o saldo está em US$ 1,155 bilhão, (média diária de US$ 115,5 milhões), queda de 39,5% em relação a junho de 2007.

No mês, as exportações acumulam US$ 8,687 bilhões, com média diária de US$ 868,7 milhões. Na comparação com a média diária registrada em junho do ano passado (US$ 655,9 milhões), houve um aumento de 32,4% nas exportações. Já as importações somam US$ 7,532 bilhões, média diária de US$ 753,2 milhões, aumento de 62% sobre o mesmo período de 2007.

No ano, o superávit comercial soma US$ 9,810 bilhões, com média diária registrada de US$ 87,6 milhões, valor 46,4% menor que o registrado no mesmo período de 2007 (US$ 163,6 milhões). As exportações acumulam no ano US$ 80,741 bilhões, e as importações somam US$ 70,931 bilhões.

A previsão do governo é exportar US$ 180 bilhões neste ano - não há previsão para o saldo. Analistas consultados pelo Banco Central, no relatório Focus, estimam um superávit comercial de US$ 23,35 bilhões em 2008.

b) País forma força-tarefa para triplicar vendas à China

Empresários e governo se uniram para reduzir o déficit comercial do Brasil com a China. Uma força-tarefa com 35 pessoas elaborou um plano estratégico chamado "Agenda China", para elevar e diversificar as exportações para o gigante asiático. A meta geral é triplicar as vendas para a China até 2010, atingindo US$ 30 bilhões.

Participam do grupo funcionários dos ministérios do Desenvolvimento, Agricultura, Relações Exteriores e da Agência de Promoção de exportações (Apex). Pelos empresários, estão representantes do Conselho Empresarial Brasil - China e da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Os técnicos cruzaram as pautas de exportação do Brasil e importação da China e identificaram 619 produtos que os brasileiros poderiam vender aos chineses. Esses itens correspondem a 67% das compras totais da China no exterior. O grupo dividiu os produtos em oportunidades de curto, médio e longo prazo. No curto prazo, foram encontrados 147 itens.

Segundo o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, estão incluídos no grupo de expansão rápida produtores dos setores têxtil e de máquinas e equipamentos, que reclamam da concorrência chinesa. "Mesmo no têxtil, há nichos de mercado, ligados à moda, em que o país é competitivo".

Rodrigo Maciel, secretário-executivo do Conselho Brasil - China, explica que entre os critérios de escolha dos setores estão o dinamismo do mercado chinês, a competitividade do produto brasileiro, os preços médios praticados na China, a logística e os atuais fornecedores. "Temos que fortalecer a imagem do Brasil na China, que hoje praticamente não existe", afirmou.

O estudo também mapeia as barreiras tarifárias e não-tarifárias contra as exportações brasileiras, para guiar o governo nas negociações com os chineses. Outro tema é a oportunidade de joint-venture para atrair investimentos chineses ao Brasil, que até agora não chegaram na velocidade que o governo e a iniciativa privada esperavam.

Entre 2000 e 2001, as exportações para a China saltaram 970%, de US$ 1,1 bilhão para US$ 10,7 bilhões. As importações cresceram mais rápido: 1.050%, de US$ 1,2 bilhão para US$ 12,6 bilhões no período. A China ultrapassou a Argentina e se tornou o segundo maior fornecedor do Brasil. Dessa maneira, o saldo do Brasil com a China, que chegou a US$ 2,4 bilhões em 2003, se transformou em déficit de US$ 1,9 bilhão em 2007.

Apesar de números tão desfavoráveis, empresários e governo dizem que é possível cumprir a meta. "Podemos triplicar as exportações, porque o Brasil é competitivo", disse Barral. "A meta de exportação é factível", concordou Maciel. Ele argumentou que as exportações do Brasil para a China crescem cerca de 25% ao ano apenas por conta da demanda forte por commodities.

Os resultados detalhados do documento, intitulado "Agenda China: ações positivas para as relações econômicas e comerciais sino-brasileiras", serão apresentados em Brasília no dia 3 de julho. Na semana seguinte, acontecem seminários sobre o Brasil para importadores e investidores chineses em Pequim e em Macau. A força-tarefa vai funcionar até a Expo Xangai em 2010. Segundo Barral, a metodologia será utilizada para estudos com outros parceiros comerciais. O próximo será a Ucrânia.

c) Balança do petróleo registra déficit

O Brasil registrou um déficit na balança comercial de petróleo e derivados de US$ 2,75 bilhões no primeiro quadrimestre do ano, resultado da diferença entre importações de US$ 7,48 bilhões e exportações de US$ 4,72 bilhões, segundo dados da Agência Nacional do petróleo (ANP).

O saldo negativo do primeiro quadrimestre de 2008 representa um aumento de 627% sobre os US$ 378 milhões verificados em igual período do ano passado. O déficit também já supera o valor negativo verificado em todo o ano de 2007, quando a balança do setor fechou com um saldo de US$ 2,33 bilhões.

– No último 12 meses, entre abril de 2007 e abril de 2008, o déficit já ultrapassa os US$ 10 bilhões – afirma Adriano Pires, diretor da consultoria Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), que aponta um conjunto de fatores para explicar o rombo na balança do setor. – O primeiro deles é o forte crescimento econômico brasileiro, que vem alavancando o setor de transporte e, consequentemente, a demanda por diesel.

As refinarias do Brasil não têm capacidade suficiente para produzir todo o diesel consumido pela frota de caminhões em circulação, o que obriga o país a importar grande parte do combustível. Entre janeiro e abril, as importações brasileiras de derivados alcançaram US$ 3,2 bilhões, o dobro do valor entre janeiro e abril de 2007 (US$ 1,6 bilhão).

Outro motivo apontado pelo diretor do CBIE para o avanço do déficit da balança é o baixo aumento da produção brasileira de petróleo. Segundo dados do analista de energia Humberto Viana Guimarães, a produção nacional de petróleo cresceu somente 2,16% nos primeiros quatro meses do ano, em relação ao mesmo intervalo do ano passado. Com a baixa produção de petróleo, o Brasil reduziu em 59% suas exportações de petróleo no primeiro quadrimestre, para uma média diária de 179,7 mil barris, ante a média de 434,4 mil barris/dia verificada no ano passado.

– Tudo indica que o déficit da balança de petróleo e derivado passará dos US$ 8 bilhões até o fim de 2008 – prevê Guimarães A explosão do preço internacional do petróleo também está na lista dos responsáveis pelo resultado ruim. Até janeiro, o Brasil gastou US$ 4,3 bilhões com importações de petróleo bruto.

Segundo o consultor, a busca pelo petróleo no exterior é fruto da falta de tecnologia apropriada para processar o óleo pesado extraído dos poços brasileiros.

Teoricamente, as refinarias da Petrobras têm capacidade para processar 1,986 milhão de barris diários, para um consumo de 1,761 milhão barris/dia. Na prática, nem todo o óleo extraído do solo brasileiro pode ser transformado em derivados, já que o parque de refino do país, erguido a partir da década de 70, foi concebido para processar o petróleo leve importado do Oriente Médio.

A carência de tecnologia adequada para produzir todo o óleo nacional faz o Brasil ainda gastar bilhões de dólares com a compra de petróleo leve e derivados mesmo tendo alcançado a auto-suficiência produtiva. Por outro lado, a Petrobras é obrigada a despejar o excedente de óleo pesado no mercado externo a preços bem menores que o valor do produto importado.

d) Exportação de álcool supera expectativas

As exportações brasileiras de álcool deste ano superam as expectativas. Após ter colocado 3,48 bilhões de litros no mercado externo na safra passada, as previsões iniciais indicavam exportações de 4 bilhões nesta.

A demanda externa está aquecida e as contas tiveram de ser refeitas: agora serão 4,8 bilhões de litros, segundo as mais recentes estimativas de Plinio Nastari, da Datagro.

A maior demanda vem dos Estados Unidos. A alta do milho, que acelerou ainda mais com as enchentes no Meio-Oeste, deve elevar as importações norte-americanas.

Apesar dessa demanda externa maior, que será abastecida pelo Brasil, "a situação atual é muito esquisita", diz Nastari. Ao preço de US$ 140 por barril, o galão de petróleo custa US$ 3,30 e o de gasolina, US$ 3,50 no atacado. O álcool nos EUA está em US$ 2,70 por galão e, no Brasil, a apenas US$ 1,66 na porta das usinas.

"O setor continua sangrando", diz Nastari. O produtor recebe R$ 0,63 por litro para o hidratado, mesmo com demanda elevada e estoques baixos.

No início de maio de 2009, os estoques de passagem no Brasil devem ser de 467 milhões de litros, suficientes para apenas dez dias de consumo.

Isso ocorre devido a uma falha fundamental no sistema de comercialização brasileiro. As negociações ocorrem apenas no "spot" (à vista) e há falta de um sistema de hedge (garantia) no mercado futuro, diz Nastari. Não há formação de estoques, o que derruba os preços na safra e eleva-os no período de entressafra.

O mercado mudou de patamar e consome próximo de 1,8 bilhão de litros de álcool por mês. Com isso, o mercado futuro da BM&F deveria ser um sucesso, diz ele. Mas a liquidez é pequena e não há desenvolvimento do mercado.

Nastari divulgou os novos dados da safra 2008/9. A moagem de cana poderá atingir 557 milhões de toneladas no país, 66 milhões a mais do que em 2007/8. Desse volume, 495 milhões de toneladas serão moídas no centro-sul.

A safra será também mais alcooleira. A Datagro estima que 59,3% da cana a ser moída no centro-sul irá para a produção de álcool, que deve atingir 24,5 bilhões de litros. A produção nacional será de 26,7 bilhões.

O consumo nacional de álcool combustível, que saiu de 13 bilhões de litros em 2006/7 para 17,6 bilhões na safra 2007/8, pode subir para 21 bilhões em 2008/9, segundo a Datagro.

A produção nacional de açúcar vai a 32 milhões de toneladas na safra 2008/9, contra 30,6 milhões na anterior. O consumo nacional vai a 11,3 milhões de toneladas -10,9 milhões na anterior.

O setor sucroalcooleiro teve forte elevação de custos -mais 20% de fevereiro de 2007 a abril último. Como ocorre nos demais setores agropecuários, os fertilizantes lideraram, com alta de 124% no período.

e) CNH faz de Sorocaba seu 1º pólo global de exportações

A Case New Holland (CNH), do Grupo Fiat, vai transformar o município de Sorocaba (SP) em base global de exportações de peças, máquinas agrícolas e também maquinário voltado à construção civil. É a primeira unidade do grupo com esse perfil no mundo, segundo a empresa.

Para o novo status, a fábrica do grupo localizada no município, desativada desde 2001, voltará a produzir no próximo ano. Também será construído em Sorocaba um centro de distribuição de 60 mil metros quadrados. A nova central substituirá a que fica atualmente em Itu (SP).

A CNH apresentou os detalhes do projeto de reativação da unidade. A reativação consumirá investimento de R$ 987 milhões, montante que já inclui R$ 150 milhões para capital de giro. As obras civis receberão aporte de R$ 310 milhões. A reativação da fábrica estava na programação de investimentos do Grupo Fiat para o período 2007-2010.

A planta produzirá apenas máquinas da linha Case. A empresa não revelou que tipo de máquina será produzido em Sorocaba, mas afirmou que não serão feitas na cidade a linha de máquinas voltadas às plantações de cana-de-açúcar, concentradas na fábrica de Piracicaba (SP), e os tratores.

Não será uma simples reativação da unidade, segundo o presidente da Case New Holland para a América Latina e vice-presidente do Grupo Fiat, Valentino Rizzioli. A planta, que empregava 600 pessoas em 2001 e de onde saíam 500 máquinas por ano, passará a ter 1.200 empregados. Sua capacidade instalada será elevada para 8 mil unidades anuais.

"Aquele era um momento muito difícil no Brasil", disse Rizzioli sobre a situação do mercado de máquinas quando a unidade foi fechada. "Mas sabíamos que, de uma forma ou outra, o mercado ia se recuperar. Com a capacidade de sua economia, o Brasil não podia ficar nos níveis em que estava, que eram extremamente baixos". Em 2001, ano de fechamento da planta, foram produzidas 44,3 mil máquinas agrícolas no país. O volume é praticamente a metade das 85 mil unidades que o setor prevê produzir em 2008, segundo a projeção mais recente feita pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

A capacidade instalada da renascida unidade da CNH será de 8 mil máquinas, mas a previsão é de que serão fabricadas 4,5 mil unidades em 2010. Dois terços desse volume será de máquinas agrícolas, afirmou o diretor de relações externas da empresa, Milton Rego. O restante será de maquinário voltado à construção civil. Com a retomada da planta, a capacidade total das quatro unidades da CNH no Brasil, que é atualmente de 28 mil máquinas, crescerá quase 30%.

Como será também uma central de distribuição de peças para as outras unidades, a perspectiva é que as demais fábricas também elevarão sua produção, diz Rizzioli. A CNH tem plantas também em Curitiba e Contagem (MG).

Agronegócio

a) Portos sem filas, mas com limitações

A produção de grãos no Brasil encerrará esta safra 2007/08 com recordes de produção e exportações, que impulsionadas pela forte demanda internacional devem manter vigoroso avanço. Mesmo nesse cenário, Paranaguá e Santos, os dois principais portos por onde as cargas de grãos escoam para o mercado externo, não registraram, pelo menos até agora, as quilométricas filas de caminhões que se transformaram em um dos símbolos mais emblemáticos dos entraves logísticos que o país enfrenta.

A ausência das filas, historicamente mais marcantes em Paranaguá, é uma novidade que merece comemorações, dizem operadores portuários, produtores, governo e demais elos da cadeia exportadora. Não é um sinal de que, enfim, esse entrave está resolvido, mas pode ser interpretado como uma evidência de que pelo menos o acesso aos terminais melhorou.

Cláudio Adamucho, diretor-presidente do G10, grupo de transportadoras de Maringá (PR) que atua no escoamento dos grãos produzidos no Centro-Oeste, interpreta, à sua maneira, o fenômeno. "Não é que o problema logístico do país esteja resolvido. O posto de saúde não está sem fila porque contrataram mais médicos. É que se deixou de atender um grande número de pacientes", resume.

Ele se refere o porto paranaense, que viu o volume de soja produzida no Mato Grosso crescer progressivamente na última década. Depois da compra da Brasil Ferrovias pela ALL - a incorporação de uma empresa pela outra foi em 2007 -, as cargas de grãos das áreas mais ao norte de Mato Grosso passaram a seguir por ferrovia para Santos em vez de viajar por caminhão até o Sul do país.

De janeiro a maio deste ano, o porto paulista embarcou 4 milhões de toneladas de soja, volume 43% superior ao do mesmo período de 2007, conforme levantamento da Associação Nacional de exportadores de Cereais (Anec).

Cerca de 70% da soja escoada por Santos chega ao terminal por ferrovia, o que ajuda a reduzir os problemas das filas no porto. Entre os principais portos no embarque de grãos do país, o crescimento nas exportações de soja de Santos foi inferior apenas ao registrado em Santarém. O terminal paraense cresceu 44% nessa frente nos cinco primeiros meses do ano, mas o volume total, de 326 mil toneladas, é bastante inferior ao de Santos.

Mas houve melhorias em Paranaguá. Ali, foi essencial a regulação da chegada dos caminhões de acordo com a programação dos navios, segundo o superintendente do porto, Eduardo Requião. Os navios hoje só podem atracar com a chegada dos caminhões, o que evita as filas. Neste ano, o problema só ocorreu em abril, quando foram suspensos os embarques por conta da revogação das ordens de serviço e de uma greve dos trabalhadores portuários avulsos.

Em abril, por determinação da Capitania dos Portos do Paraná, o calado máximo dos navios usados nas exportações foi reduzido para 11,27 metros (37 pés) - até 2007, ela era de 12,49 metros (41 pés). Segundo exportadores, essa mudança é uma mostra de que, mesmo sem filas de caminhões, os problemas de logística persistem. "Isso significa 8.500 toneladas a menos por navio, ou US$ 765 mil que deixam de ser embarcados", diz Sérgio Mendes, diretor da Anec.

"Estão querendo politizar uma questão técnica", diz o superintendente Eduardo Requião. "Em 2007, de 2.446 navios que atracaram no porto, apenas três exigiam calado superior a 12 metros", afirma ele.

Se as filas de caminhões foram superadas nos principais portos pelo menos nesta safra, o acesso rodoviário aos terminais do país permanece como um problema grave. Pesquisa do Centro de Estudos em Logística do Instituto de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CEL/Coppead/UFRJ) divulgada no fim de 2007 mostrou que esse é o maior entrave para 53% dos exportadores consultados. Armazenagem insuficiente e saturação dos terminais, com 51%, estão logo atrás na fila de preocupações.

Com mais movimento, também crescem as despesas com o tempo de espera dos navios. Embarcações que trazem fertilizantes para o país, para não voltarem vazias, ficam ao largo à espera de soja. Como em muitos casos essa soja tem que ser negociada no mercado à vista, a espera se alonga. Levantamento da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) aponta que o custo do "demurrage" - estada adicional dos navios em portos - chegou a US$ 2 bilhões no ano passado, 60% mais que em 2004.

Falta também maior sincronia entre governo e iniciativa privada, avalia Hamilton Santos Júnior, gerente de logística da Grain Port, operador portuário que atua em Paranaguá, Santos e São Francisco do Sul (SC). "Tem que existir um projeto conjunto de crescimento. Muitas vezes, cada um faz do seu modo. Poderíamos exportar muito mais", diz.

b) Exportações mineiras

As exportações do agronegócio mineiro cresceram 12% entre janeiro e maio deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado. As vendas somaram US$ 2,1 bilhões. Os embarques de café somaram US$ 1,1 bilhão, crescendo 9% em relação a 2007. O produto é o de maior peso na balança comercial do agronegócio mineiro. No setor de carnes, destaque para as vendas de frango e de suínos. Com um crescimento de 54%, as exportações de produtos avícolas chegaram a US$ 80,5 milhões. Já com a carne suína, as vendas somaram US$ 23 milhões, um crescimento de 56%. Em relação à carne bovina, as restrições impostas pela União Européia causaram queda de 35% das exportações, que ficaram em US$ 93 milhões.

c) Exportações devem superar US$ 70 bi

O agronegócio brasileiro deve fechar 2008 com embarques totais acima de US$ 70 bilhões, estimou ontem a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). A previsão de bom desempenho deve-se à forte elevação dos preços internacionais das commodities agropecuárias. De janeiro a maio, as empresas nacionais venderam US$ 27,23 bilhões ao exterior, um resultado 25% superior ao mesmo período de 2007. O saldo da balança comercial atingiu US$ 22,5 bilhões (+22,6%).

O desempenho permitiu ao agronegócio recuperar o terreno perdido para a indústria. Os produtos do setor elevaram de 36,2% para 37,8% sua participação nas vendas globais do Brasil até maio. E, mesmo com importações maiores, o agronegócio reduziu de 7,7% para 7,4% sua fatia nas compras brasileiras no exterior.

Os produtos do agronegócio nacional registraram melhor remuneração no exterior nestes primeiros cinco meses do ano. Os preços médios da tonelada do complexo soja, por exemplo, ficaram 56% mais caros. No complexo carnes, o aumento dos preços atingiu 27,6%, com destaque para os 44% da carne bovina in natura.. "A demanda de importadores como China e União Européia continua em alta", diz o economista Matheus Zanella, especialista em comércio exterior da CNA.

Mesmo com resultados ruins até maio (-10%), as vendas do setor sucroalcooleiro devem melhorar em 2008, prevê a CNA. Em maio, os preços subiram 8,6% e os embarques cresceram quase 50%. Suécia e Japão passaram a comprar etanol brasileiro. "O setor deve fechar no azul", afirma Zanella.

Mercosul

a) Governo perde apoio e Argentina afunda na crise política

A disputa entre ruralistas e o governo está mergulhando a Argentina na pior crise política desde o fatídico dezembro de 2001, em que o país teve cinco presidentes em dez dias, antes de entrar numa histórica recessão. O que começou como uma resistência de um setor da economia (os agricultores) a um aumento de impostos se transformou em três meses numa disputa que parece interminável e que agora resvala para o confronto aberto. Já se falava com todas as letras em golpe de Estado.

O clima de tensão foi agravado com um panelaço em várias áreas de Buenos Aires, como forma de pressão para que o governo atenda a reivindicação dos ruralistas e recue do aumento de impostos sobre as exportações de grãos, decretados em 11 de março. Foi a segunda vez que os portenhos saíram às ruas em protesto contra o governo este ano. O mote é a "defesa do campo", muitos estão aproveitando a oportunidade para expressar insatisfação. "Estamos cansados da inflação, da corrupção, da arrogância deste governo", disse ao Valor Ana Maria Navarro, publicitária de 26 anos que batia numa panela em meio à multidão ontem à noite na esquina das Avenidas Santa Fé e Callao.

O partido do governo, o Justicialista (peronista), que acabou de sair de cinco anos de intervenção judicial, rachou em dois grupos, um dominado pelo ex-presidente Néstor Kirchner, e outro, pelo ex-presidente Eduardo Duhalde.

O jornal "La Nación" afirmou que Duhalde está organizando uma facção de peronistas não-alinhados ao governo, incluindo governadores, prefeitos e congressistas, que se chamará União Popular. Esse grupo já existia; a novidade é que está sendo engrossado por novos dissidentes, como os governadores das províncias de Córdoba, Santa Fé, San Luis e prefeitos das diversas cidades mais afetadas pela paralisação dos agricultores.

Estes políticos estavam com o governo até antes do locaute agropecuário, mas não concordam com a forma como a presidente Cristina Kirchner está lidando com o protesto e decidiram apoiar os ruralistas. Isso os afastou automaticamente da coalizão kirchnerista - o casal Kirchner não admite rebeldia, nem questionamentos públicos sobre suas decisões.

O advogado Eduardo Duhalde, 67, foi quem assumiu a Presidência em janeiro de 2002, em meio à crise, e conseguiu estabilizar a situação até poder passar o governo a Néstor Kirchner em 2003. Depois disso, saiu de cena e prometeu que nunca mais faria política. Agora, aparentemente, mudou de idéia.

A reação de Néstor Kirchner à reaparição de Duhalde foi imediata. Ele mandou seu mais combativo aliado, o dirigente social Luis D’Elia, acusar publicamente a Duhalde de estar preparando um golpe junto com as entidades dos ruralistas e o grupo de mídia "Clarín", dono do jornal mais lido do país. "Ele [Duhalde] organizou o golpe contra [o ex-presidente Fernando] De la Rúa e hoje está preparando o golpe contra Kirchner", afirmou D ? Elia. Duhalde divulgou uma nota dizendo que não iria responder a D’Elia para não estimular o clima de confronto.

"Tenho conversado com gente de toda a oposição e ninguém fala em golpe ou em tirar a presidenta do poder. Não há indício de golpe, é uma paranóia", afirma, perplexo, Sergio Berensztein, um dos mais respeitados analistas políticos do país. Ele explica o surgimento dessa divisão peronista como uma tentativa de capitalizar politicamente um descontentamento que já existia, antes mesmo das eleições presidenciais de outubro de 2007, com a alta da inflação e o estilo autoritário dos Kirchner.

Cristina representava uma esperança de manutenção do modelo econômico com uma correção do que não estava bem; por isso foi eleita com 45% dos votos e ampla vantagem sobre o segundo colocado, inclusive com apoio dos ruralistas. Ela chegou a conquistar mais de 60% dos votos nas províncias de mais forte atividade agropecuária. Mas essa esperança se frustrou nos primeiros meses da nova gestão, e a crise do campo agravou o sensação de frustração. A deterioração do clima político já prejudica a economia. Há vários indicadores de desaceleração, além de desabastecimento de combustíveis, alimentos e medicamentos por conta da paralisação de agricultores e caminhoneiros.

b) Independência compra frigorífico no Paraguai

O frigorífico Independência iniciou seu processo de internacionalização. A empresa acaba de assinar contrato de compra e venda com o frigorífico Guarani, um dos maiores do Paraguai, que prevê aquisição da unidade de abate de bovinos e da marca Guarani. O valor do negócio é US$ 14 milhões, segundo o diretor-financeiro do Independência, Tobias Bremer.

No momento, a operação paraguaia passa por due dilligence, e a previsão é de que o negócio seja concluído no próximo trimestre, disse o executivo. A transação inclui também uma operação de venda direta de carne bovina no mercado paraguaio.

A entrada do Independência no Paraguai, onde o Bertin também já tem unidade, é estratégica pois o país vizinho é hoje, segundo Bremer, o maior exportador de carne bovina para o Chile, mercado que está fechado para a carne brasileira - com exceção da do Rio Grande do Sul - desde o fim de 2005, por causa de casos de febre aftosa no Mato Grosso do Sul e Paraná.

A unidade do Guarani exporta principalmente para o Chile e também para a Rússia, segundo Bremer. A empresa paraguaia faturou US$ 60 milhões no ano passado, dos quais 60% foram provenientes da exportação.

Além do mercado chileno, o Independência também vê potencial de exportar para a União Européia a partir do Paraguai - o país com rebanho de 11 milhões de bovinos, e que é reconhecido internacionalmente como livre de aftosa com vacinação, negocia atualmente com o bloco as vendas de carne bovina. Atualmente, a UE impõe restrições à carne brasileira - apenas um lista restrita de fazendas pode fornecer animais para abate e exportação da carne ao bloco. O Independência é um dos poucos que tem conseguido exportar.

A fábrica do Guarani, localizada em Assunção, abate 500 animais por dia, o equivalente a 10% do abate diário de todo o Paraguai, de acordo com Tobias Bremer. No Brasil, em suas sete unidades de abate , o Independência tem capacidade de 9,5 mil animais por dia. Atualmente, opera com 80% da capacidade.

"A expansão internacional faz sentido no momento certo, com o preço certo", afirma o diretor-financeiro do Independência. Segundo ele, a compra no Paraguai é "o primeiro passo para fora", e a empresa seguirá "atenta a oportunidades". A internacionalização, diz, é um "passo natural".

A aquisição de ativos por frigoríficos brasileiros em outros países é um movimento recente e que ganha força. Nesse processo, a JBS, que controla o Friboi, fez aquisições na Argentina, Estados Unidos, Austrália e Itália. O Marfrig comprou empresas no Uruguai, Argentina e Chile. Já o Bertin adquiriu ativos no Uruguai e no Paraguai.

As empresas têm investido na internacionalização como forma de reduzir os riscos do negócio, como eventuais problemas sanitários que possam atrapalhar as exportações. Ao comprar unidades no exterior buscam também garantir acessos a mercados ainda fechados para o Brasil.

Com 19 unidades industriais no país (entre abate de bovinos, curtume e logística), o Independência fechou o primeiro trimestre deste ano com receita bruta de R$ 337 milhões.

c) Superávit com vizinho cresceu 24% este ano

O comércio bilateral entre Brasil e Argentina cresce expressivamente este ano e, até agora, não sofreu impacto da inflação alta e da crise política que abalam o país. O governo enfrenta protestos dos agricultores locais e não consegue debelar o aumento de preços. Ainda assim, a economia cresce entre 7% e 8% ao ano, o que garante boa demanda para os produtos vindos do Brasil.

De janeiro a maio ante igual período de 2007, o Brasil exportou quase US$ 7 bilhões para a Argentina e importou US$ 5,3 bilhões, o que significou superávit de US$ 1,7 bilhão para o Brasil, 24% acima dos primeiros cinco meses do ano anterior. O ritmo de alta das exportações e das importações é quase o mesmo: 35,7% e 36,9%, respectivamente.

De acordo com Maurício Claveri, economista da consultoria Abeceb.com, de Buenos Aires, as taxas de crescimento de exportações e importações tendem a convergir, graças à pujança dos mercados internos de ambos os países, que demandam mais importados. "Por isso, o superávit tem caráter estrutural. O Brasil tem mais a oferecer a Argentina do que o contrário."

No primeiro trimestre do ano, o superávit do Brasil com seu principal sócio no Mercosul recuou 27% em relação a janeiro a março de 2007. Segundo Claveri, foi um fenômeno momentâneo, ligado ao fornecimento de trigo. O governo liberou um pouco a venda do grão para os moinhos brasileiros, mas depois voltou a restringir os embarques na tentativa de controlar a inflação.

O Brasil aumentou significativamente as vendas de veículos, celulares e outros produtos manufaturados para a Argentina este ano. Em compensação, comprou trigo (o que foi permitido pelo governo argentino), nafta e automóveis de maior porte.

O setor automotivo é o mais importante do comércio bilateral e os dados revelam um equilíbrio relativo do comércio entre os dois países, apesar do superávit a favor do Brasil. De janeiro a abril, em relação ao mesmo intervalo de 2007, o saldo positivo no setor ultrapassou US$ 1 bilhão, conforme a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

As exportações do complexo automotivo (carros, caminhões, ônibus, partes e peças, máquinas agrícolas etc) para a Argentina cresceram 47% de janeiro a abril deste ano em relação a igual período do ano passado, para US$ 2,26 bilhões. Já as importações avançaram 51% na mesma comparação, para US$ 1,21 bilhão.

Organização Mundial do Comércio (OMC)

a) Mudanças nas vendas de frango à Europa

O governo começou a decidir os critérios para criar um regime de administração das cotas de exportação de frangos e perus à União Européia.

Em audiência com as empresas do segmento, o Ministério do Desenvolvimento informou que a distribuição das cotas entre as indústrias deverá ser feita com base no histórico das vendas externas dos últimos três anos. Outro critério será a adoção de uma reserva técnica entre 5% e 10% para novos exportadores. Cada um dos três produtos (frango salgado, cozido e peru temperado) terá um cálculo específico.

A adoção de critérios "não-discriminatórios" deve resguardar o segmento de uma retaliação da UE na Organização Mundial do Comércio (OMC), já que o bloco rejeita a administração da cota total de 342,6 mil toneladas de carne em benefício exclusivo de empresas já habilitadas a exportar.

O governo brasileiro aguarda resposta da UE a um comunicado com a proposta do novo regime de controle das exportações, complementar à emissão de um certificado de origem feito hoje pelo Banco do Brasil. "O governo pretende, quer e vai implementar isso em favor dos industriais brasileiros", afirmou o presidente da associação dos exportadores de frango (Abef), o ex-ministro Francisco Turra. A decisão final do governo, segundo ele, deve ser tomada em reunião de julho da Câmara de Comércio Exterior (Camex).

A proposta "salomônica" deve cessar as reclamações de empresas candidatas a exportar à UE. Das das 21 empresas habilitadas a vender ao bloco, 17 são filiadas à Abef. Treze delas, que respondem por 85% das vendas, aceitaram os termos propostos. Há quatro que ainda vêem com reserva porque, beneficiadas pelo primeiro ano de vigência da cota, expandiram a clientela no bloco.

O novo regime também deve desarmar os argumentos de importadores europeus, que se especializaram no comércio das licenças de compra da UE, de que a medida beneficiaria só grandes exportadores brasileiros via aumento de preços.

Na prática, a nova proposta significará preços mais elevados aos exportadores, que poderiam atingir US$ 4 mil a tonelada ante os atuais US$ 2,7 mil. Mas isso porque as empresas brasileiras deixariam de dar descontos de até 500 euros por tonelada de carne aos compradores europeus em função da escassez de licenças de importação emitidas pela UE.

Esse papel, aliás, não estaria previsto na decisão da OMC que puniu a UE por elevar as tarifas de importação do frango salgado. "Esses ? 500 euros da licença viraram desconto no preço da carne", diz o diretor-executivo da Abef, Christian Lobhauer. "Desde julho de 2007, quando entrou em vigor a cota, perdemos, por baixo, US$ 170 milhões vendendo frango salgado com os mesmos preços do extra-cota". No total, afirma ele, o prejuízo chegaria a US$ 500 milhões.

Os exportadores dizem não haver "preferência por grandes empresas nem cartel", mas uma "defesa de direito" do Brasil ganho em painel na OMC. "Lutamos cinco anos e não levamos", reclama Lobhauer. Brasil e Tailândia ganharam o direito de vender à UE sem tarifas após resultado final do painel da OMC, em julho de 2006. "Fizemos um acordo com a UE, mas ele tem que servir para os dois. Senão, temos que revê-lo".

Plano Internacional

a) Ruralista irlandês cobra pelo "sim"

Líderes da União Européia irão pressionar a Irlanda para encontrar uma maneira de superar a rejeição do país, em votação popular, ao tratado de reforma da UE. O primeiro ministro irlandês, Brian Cowen, entretanto, disse ontem que o bloco também deve contribuir para uma solução.

Os ministros de relações exteriores dos países da UE irão discutir opções para superar a rejeição em um encontro que ocorrerá hoje em Luxemburgo, mas as cartas serão colocadas na mesa de fato quando Cowen encontrar os líderes dos demais países em uma cúpula de emergência de dois dias, que começa na quinta-feira em Bruxelas.

O governo irlandês também tem problemas dentro do país. O setor agrícola da Irlanda, fortemente protecionista e um dos que mais combatem a produção bovina brasileira, negociou seu apoio no referendo sobre o Tratado de Lisboa, perdeu na votação, mas acha que saiu ganhando de todo jeito. E já cobra a fatura.

Padraig Walshe, o poderoso presidente da IFA, a associação dos agricultores, passou do "não" para o "sim" dez dias antes da votação, quando o governo irlandês, pressionado pelo crescimento do campo do "não", afinal aceitou fechar um compromisso com o setor e se comprometeu a vetar um acordo agrícola na Organização Mundial do Comércio (OMC) nas bases negociadas pelo comissário de comércio Peter Mandelson.

Apesar de a comunidade rural ter votado fortemente contra o referendo, contribuindo para a rejeição do Tratado, no fim de semana Padraig já cobrava a fatura pelo apoio. "Acordo é acordo, votamos pelo sim, e se houve derrota é porque o governo reagiu muito tarde, fez uma campanha ruim, explicou mal o que estava em jogo", disse ele ao Valor, por telefone, de sua fazenda. "O governo se comprometeu a vetar um acordo na OMC e é o que esperamos dele."

Padraig reclama que as propostas aceitas por Mandelson na Rodada Doha provocariam perda de 100 mil empregos no setor e prejuízo de US$ 6,2 bilhões à economia irlandesa. Para Padraig, o grande ganhador seria o Brasil, com o mercado aberto para exportar mais carne aos 27 países da UE.

Para o analista brasileiro Adriano Timossi, que acompanha a situação agrícola na Irlanda, a derrota pode vir a reduzir a influência dos agricultores irlandeses em Bruxelas. Para ele, os burocratas da Comissão Européia pagaram o preço por sua decisão do final de 2007, acima de tudo política, de embargar as exportações de carne brasileira. "Tudo indica que as medidas adotadas por Bruxelas fizeram parte de uma grande manobra política para evitar que os agricultores irlandeses se irritassem - o que colocaria em risco o futuro do Tratado, no único país a ter referendo. Os agricultores da Irlanda sempre ameaçaram retalhar o referendo, caso a carne do Brasil não fosse embargada", afirmou.

Sua expectativa é de que os agricultores irlandeses serão responsabilizados como um dos culpados pelo fiasco do Tratado. O fato, porém, é que além de terem tirado a carne brasileira do mercado europeu, os irlandeses conseguiram contaminar outros países com o compromisso do governo de bloquear um acordo da OMC. "Do jeito que está na Europa e na OMC, um acordo em Doha demora mais uns dois anos", aposta Padraig. ’’E até lá muita coisa pode mudar, nas posições dos países e no mercado agrícola mundial’’. Nesse período, a Irlanda quer ampliar a produção bovina, e reduzir a dependência européia de carne brasileira.

b) Eleições nos EUA podem atrasar Doha por três anos

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, acredita que a Rodada Doha, negociada na Organização Mundial de Comércio (OMC), pode sofrer um atraso de "dois ou três anos" caso as discussões não sejam encerradas antes do início do processo eleitoral nos Estados Unidos. Amorim admitiu que o prazo é curto, mas acredita ser possível se chegar a um bom termo nas negociações.

Amorim ponderou que, independentemente da vitória do candidato democrata, Barack Obama, ou do republicano, John McCain, há uma demora natural, após uma mudança de governo, para que as novas equipes dirigentes tomem conhecimento das discussões e apresentem pontos-de-vista que não faziam parte da administração anterior.

"Eu acho prudente fazer todo o possível para acabar agora [a Rodada Doha], mas, se não for possível, não se fará. É preciso que haja uma noção de que é necessário um resultado equilibrado", frisou Amorim.

O chanceler considerou natural a cobrança do presidente americano, George W. Bush, que exigiu ontem, em entrevista na Inglaterra, maiores concessões, por parte dos países emergentes - Bush citou Brasil, Índia e China - em relação à redução de tarifas nas áreas de indústria e serviços. Para Bush, os países desenvolvidos já deram sua cota de concessão na área agrícola e não teriam recebido contrapartida na indústria e serviços.

"É natural que ele faça isso. Eu ficaria preocupado se ele parasse de cobrar totalmente, porque mostraria que ele está desinteressado", ressaltou Amorim, para quem a cobrança de Bush faz parte da negociação. "Já viu alguém entrar numa mesa de negociação dizendo que não deu nada e que o outro deu muito? Ele fez a pressãozinha dele e nós vamos fazer a nossa", acrescentou.

Mesmo sem responder diretamente ao presidente americano, Amorim mostrou um pouco da pressão brasileira e voltou a atacar a política de subsídios dos países desenvolvidos para os produtos agrícolas. Segundo o ministro, reduzir tarifas faz parte da negociação, enquanto os subsídios representam uma distorção.

"Os subsídios são uma excrescência dentro do comércio mundial, tanto que na área de manufaturas isso acabou. A distorção principal está do lado deles (países desenvolvidos), então eles têm que dar o exemplo", afirmou.

O ministro também confirmou que a diplomacia brasileira está atenta à escalada dos preços do petróleo e lembrou que, na última reunião do Sistema para Integração Centro-Americana, em El Salvador, no fim do mês passado, foi aprovado o pedido para que seja convocada uma Assembléia-Geral Extraordinária da Organização das Nações Unidas (ONU) para discutir o assunto.

"Podemos não conseguir, porque há muitos países produtores de petróleo que podem não estar interessados, mas os preços [do petróleo] obviamente preocupam, sobretudo pelo efeito que têm no processo produtivo, na inflação e no preço dos alimentos", disse o chanceler do Brasil.

c) Bolívia e Chile firmam acordo

Bolívia e Chile firmaram um histórico acordo de defesa - o primeiro desde o fim da Guerra do Pacífico (1879-1883). O acordo foi discutido num encontro entre o ministro de Defesa chileno, José Goñi, e seu colega boliviano, Walker San Miguel, em La Paz. Num memorando de entendimento, os representantes dos dois países se comprometeram a ’trocar informações em matéria de defesa e de operações de paz’, desenvolver uma cooperação ’de interesse mútuo’ na indústria bélica e manter de canais oficiais de diálogo sobre o tema.

’Esse é um acontecimento histórico’, afirmou o ministro boliviano após o encontro. ’Esperamos que neste século haja uma melhora (nas relações) entre nossos países.’ Na Guerra do Pacífico, a Bolívia perdeu para o Chile a sua saída para o mar, o que aumentou a rivalidade entre La Paz e Santiago. Em 2003, a decisão do então presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada de exportar gás para o Chile desatou uma onda de protestos violentos que deixou mais de 60 mortos e terminou com a renúncia dele.

Os dois países romperam relações diplomáticas em 1978, quando fracassaram as negociações sobre a demanda boliviana de uma saída para o mar. As relações, porém, melhoraram muito entre os governos de Evo e da presidente do Chile, Michelle Bachelet.

Agora, ambos negociam uma agenda de 13 pontos, entre os quais está a demanda marítima da Bolívia.

Ontem mesmo, o vice-chanceler chileno, Alberto Van Klaveren, viajou a La Paz para tratar de temas ligados a essa agenda de cooperação. No ano passado, os dois Ministérios de Defesa negociaram um intercâmbio acadêmico-militar, além de apoio mútuo em caso de catástrofes naturais, como enchentes e terremotos.

No fim de semana, Evo encontrou-se com o presidente eleito do Paraguai, o ex-bispo Fernando Lugo. Ambos participaram - juntamente com o atual presidente paraguaio, Nicanor Duarte - das comemorações dos 73 anos do fim da Guerra do Chaco (1932-1935), travada entre Paraguai e Bolívia, que deixou quase 100 mil mortos.

d) Bird tacha Brasil de protecionista

Relatório do Banco Mundial (Bird) publicado avalia que o Brasil ainda é um dos países mais protecionistas e, mesmo com a diversidade das exportações, considerada exemplar, a integração com o mercado externo é uma das menores. Ainda assim, as exportações do Brasil estão entre as 32 que mais crescem. O Bird também diz que os produtos agrícolas brasileiros ainda sofrem altas tarifas para serem exportados.

O texto surge em um momento crítico da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), quando o presidente americano, George W. Bush, cobra mais concessões do Brasil para se chegar a um acordo.

No ranking das barreiras às importações, o Brasil ocupa a posição 92, entre 125 países, atrás de China, Paraguai, Chile, Uruguai, Rússia, Bolívia e Venezuela. A Argentina é a 96ª. Hong Kong e Cingapura têm as menores tarifas. A Suíça é a 4ª. Os EUA estão na 11ª posição é a União Européia, na 21ª.

"O regime tarifário brasileiro é mais protecionista que o da média da América Latina ou dos países de renda média", diz o texto. O Bird defende a abertura como forma de reforçar a competitividade, apontando que os países que mais se abriram foram os que mais cresceram nos últimos anos.

Segundo a instituição, a média tarifária brasileira é de 8,7% e a tarifa mais alta, de 35%, considerada baixa. Mas, no que se refere à média da tarifa aplicada, a taxa chega a 12,2%, acima da média regional. Outro problema são as barreiras não tarifárias, que afetam 46,1% das linhas tarifárias. Na América Latina, essas medidas afetam 35% dos produtos. Para o Bird, portanto, a constatação é que há setores que ainda contam com a proteção do Estado.

O Bird admite que o País vem abrindo o setor de serviços, como telecomunicações, financeiros, portos e aeroportos. Mas o ambiente de negócios ainda é complicado. Por isso, o Brasil caiu no ranking de facilidades para se abrir e fechar empresas. Foi da 113ª posição em 2006 para a 122ª neste ano, entre 178 avaliados. "Isso reflete o ambiente complicado", observa o texto.

Em termos de eficiência administrativa, a entidade aponta que a situação do País hoje é pior que há dez anos. Já em termos de logística, o Brasil não se saiu tão mal. Ficou em 61º lugar entre 151 países, melhor resultado em toda a América Latina e acima da média dos países de renda média.

O País também se saiu bem no quesito rapidez nas entregas, mas a eficiência das aduanas é baixa. Está apenas na 93ª posição nesse item, 23 posições abaixo da obtida em 2006. Motivo: "lentidão nos processos de exportação". Por container exportado, o custo administrativo pode ser superior a US$ 1 mil. Já uma importação leva em média 22 dias para ser liberada.

Ainda assim, o Brasil ficou na 32ª posição entre os países com maior aumento das exportações. Em 2007, a taxa chegou a 11,3%, acima da média regional, de 7,5%. A pesquisa aponta ainda que o Brasil tem a 11ª pauta de exportação mais diversificada do mundo, superado por Coréia do Sul, EUA e Itália. A concentração nas exportações chega a ser menor que a de Japão, Canadá, China e tradicionais potências comerciais.

Para o Banco Mundial, o desempenho brasileiro nesse item é comparável ao dos países ricos e é importante em momentos de volatilidade dos mercados. África e Oriente Médio estão entre as regiões mais concentradas. No Oriente Médio, por exemplo, os cinco primeiros produtos de exportação representam 80% do total, incluindo petróleo. Angola, Iraque, Venezuela, Guine Equatorial e Sudão - todos exportadores de petróleo - estão entre os países com a pauta de exportação mais concretadas do mundo.

A entidade ainda aponta que, no Brasil, o setor industrial é responsável por metade das exportações. Mas as exportações agrícolas têm barreiras significativas. No ranking de acesso a mercados, o Brasil ocupa a 63ª posição entre 125 economias. Em média, o Brasil tem barreiras de cerca de 12,8% para produtos agrícolas, ante 6,2% no restante da América Latina e 8,1% nos países de renda média.

No setor industrial, o Banco Mundial aponta que 37,9% das exportações brasileiras contam com algum tipo de preferência, que acaba eliminando barreiras.

Apesar de se destacar no quesito diversificação, o Brasil não vai bem na integração comercial com o mundo. O comércio na Europa Central, por exemplo, equivale a 105% do PIB da região. Os mais integrados são Cingapura, Hong Kong e Malásia. A integração é calculada com base no peso do comércio externo em relação ao PIB.

Países com grandes mercados domésticos, como Brasil, Índia, Austrália e Estados Unidos, contam com taxas mais baixas. Japão, Estados Unidos e Brasil estariam entre as três economias menos integradas. O comércio representa apenas 25,9% do PIB brasileiro.

A América Latina é ainda a região que teve o menor crescimento do peso do comércio no PIB na última década, com alta de apenas 6%. Já o Oriente Médio teve uma alta de 39% nesse índice, contra 21% nos países ricos.
©2017 rbarbosaconsult.com.br – Todos os direitos reservados. Av. Brig Faria Lima, 2413 Sobreloja Conj. B - São Paulo - SP | Fone: (5511) 3039 6330