14 a 18 de janeiro de 2008

Comércio Exterior

Resultados
US$ 1 bi para chips no Brasil
Agrícolas evitam déficit da balança comercialI
Exportação para países árabes tem alta de 5%
VCP estuda reajuste de preço de celulose para Ásia

Agronegócio

Após recorde em 2007, exportação de carne pode cair
Soja volta a puxar as exportações do campo

Mercosul

Argentina vende mais carro que trigo ao Brasil

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO (OMC)

Agronegócio brasileiro abandona Doha

Plano Internacional

Para 'The Economist', Brasil está mais preparado para turbulências
Amorim cobra do Japão fábrica de chips para TV




Comércio Exterior

a) Resultados

A balança comercial apresentou um superávit de US$ 325 milhões na segunda semana de janeiro (dias 7 a 13). O resultado é a diferença entre as exportações de US$ 3,237 bilhões e as importações de US$ 2,912 bilhões. No ano, o superávit comercial está em US$ 395 milhões, queda de 84,3% ante o mesmo período do ano passado. As importações somam nas duas primeiras semanas do ano US$ 4,335 bilhões, o que dá uma média diária -movimento por dia útil- de US$ 541,9 milhões, valor 40,8% maior que a média de janeiro de 2007. Já as exportações totalizam US$ 4,730 bilhões, com média de US$ 591,3 milhões -crescimento de 18,4%.

b) US$ 1 bi para chips no Brasil

A Symetrix Corporation, empresa americana que tem entre seus donos um brasileiro anunciou em Brasília um projeto de fábrica de semicondutores, com investimentos que podem chegar a US$ 1 bilhão. "É um projeto de abrangência nacional", afirmou Carlos Paz de Araujo, diretor e co-fundador da Symetrix.

O investimento permitirá a produção de cartões inteligentes (com chip) para atender aos mercados internos e internos. Os cartões inteligentes, também chamados de smart cards, têm aplicação em setores como finanças, telecomunicações e indústria automobilística. Executivos da Symetrix se reunirão com o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Resende. Entre eles, estava Gota Kano, diretor do conselho e conselheiro do presidente mundial da Panasonic.

No ano passado, o Brasil importou US$ 3,45 bilhões em semicondutores, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). O setor de semicondutores foi eleito como uma das quatro prioridades da política industrial no começo do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo assim, houve pouco resultado concreto.

O governo chegou a anunciar que a decisão sobre o sistema de TV digital, em 2006, estava vinculada à atração de uma fábrica de semicondutores para o País, mas isto acabou não acontecendo. Empresas japonesas, como a Toshiba, demonstraram interesse em investir no País e chegaram a fazer estudos de viabilidade. Problemas de logística, estrutura tributária e mão-de-obra acabaram afastando os investidores.

A Symetrix foi criada em 1986 por Araújo e outros pesquisadores como uma empresa de pesquisa e desenvolvimento em semicondutores, em Colorado Springs, nos Estados Unidos. A empresa possui uma carteira de patentes que licencia para fabricantes no Japão, Coréia, Europa e Estados Unidos. Araújo é professor de Engenharia Elétrica na Universidade do Colorado e detém mais de 172 patentes. Ele é considerado o pai do chip para cartões que funciona sem a necessidade de contato, com tecnologia FeRAM (memória ferroelétrica).

No ano passado, a Symetrix anunciou a instalação de uma fábrica no Recife, em parceria com um empresário local, para fabricar cartões inteligentes. O investimento inicial previsto era de R$ 5 milhões. "Aquele era outro projeto", explicou Araújo. "Temos seis tecnologias, e aquele projeto usava somente uma." Segundo o executivo, São Paulo é candidato a receber a fábrica do novo projeto.

c) Agrícolas evitam déficit da balança comercial

Não fossem as exportações de produtos agrícolas, o Brasil teria fechado o ano de 2007 com déficit na balança comercial. Havia dois anos o fenômeno não ocorreria, basicamente pelo crescimento das exportações do país.

O alto preço das commodities impulsionou o agronegócio, que terminou o ano passado com superávit recorde de US$ 49,7 bilhões -valor suficiente para manter positivo o saldo de balança comercial brasileira, de US$ 40 bilhões no total. Foram US$ 58,4 bilhões de produtos agrícolas exportados, contra importações de US$ 8,7 bilhões.

Na estimativa do ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, o campo continuará auxiliando a balança comercial brasileira em 2008, com um superávit de "US$ 55 bilhões, provavelmente US$ 60 bilhões".

"Quem efetivamente mantém o superávit da balança comercial e ainda cobre o déficit dos demais setores é o setor agrícola", disse o ministro.

As vendas do agronegócio foram beneficiadas pelas cotações recordes das principais commodities agrícolas e pela ampliação de mercados para o complexo de carnes, fatores que compensaram a valorização do real ante o dólar no ano passado.

O complexo soja, por exemplo, apresentou crescimento de 22,3% nas exportações em 2007, apesar de uma queda de 2,9% no montante de toneladas embarcadas, compensada pelo aumento de 26% no preço.

Já o complexo de carnes registrou aumento de 30,7% nas vendas no ano passado, quando houve aumento de 13,2% no preço e 15,5% de crescimento na quantidade.

O maior aumento registrado na pauta de produtos foram os 309,1% do milho, que embarcou uma quantidade 178,1% superior ante um preço médio 47,1% acima do registrado em 2006. As vendas se beneficiaram da opção norte-americana de utilizar o cereal como matéria-prima para a produção de álcool.

Outra conseqüência dessa política de Washington foi a redução nas vendas de álcool brasileiro para os Estados Unidos, o que contribuiu decisivamente para uma queda de 8,7% na exportação do agronegócio para os norte-americanos. Outro fator que explica essa queda foi a redução nas vendas de produtos de madeira, como móveis e compensados, devido à crise imobiliária que afeta os EUA.

Segundo Stephanes, o governo brasileiro dedica esforços para abrir os mercados da Malásia, Filipinas, México, China às carnes produzidas no país. A expectativa da equipe do ministro é anunciar ainda a abertura do mercado japonês para a carne suína brasileira neste ano, quando se comemora o centenário da imigração japonesa.

O complexo de carnes também deve ultrapassar a soja e se tornar o principal produto do agronegócio brasileiro, com a carne de frango em primeiro lugar, à frente da de bovinos e da de suínos.

d) Exportação para países árabes tem alta de 5%

O comércio entre o Brasil e os países árabes cresceu 12% em 2007 comparado ao ano anterior, com volume total de US$ 13,5 bilhões negociados, de acordo com balanço divulgado pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, em São Paulo. As exportações do Brasil para as nações árabes aumentaram 5%, somando US$ 7 bilhões, e as importações chegaram a US$ 6,5 bilhões, 20,13% a mais do que no ano passado. Com isso, o Brasil fechou o ano com superávit de US$ 516,07 milhões no saldo comercial com as nações árabes.

Na avaliação do presidente da entidade, Antônio Sarkis Júnior, o crescimento deve-se ao aumento da dedicação das empresas brasileiras aos mercados árabes a cada ano. A pauta de produtos vendidos aos países árabes aumentou de 2.099 produtos, em 2006, para 2.253 itens em 2007, crescimento de 7,34%. As importações passaram de 654 produtos para 783 itens, 19,72% a mais do que o verificado em 2006.

"O ano passado poderia ter sido mais significativo. Só não foi porque o açúcar, mesmo com o volume exportado mantido, apresentou queda na receita", disse Sarkis. Em 2007, o açúcar foi responsável por US$ 1,6 bilhão no total exportado, mas teve queda de 24% com relação a 2006. Em 2007, foram exportados 6,28 milhões de toneladas contra 6,38 milhões de toneladas vendidas em 2006.

O balanço mostra que a carne lidera as vendas para o mercado árabe, com mais de US$ 2 bilhões negociados, aumento de 26% com relação ao ano passado. Em seguida, vêm açúcar, minério de ferro, aeronaves e veículos.

Sarkis prevê um aumento de 10% no comércio entre brasileiros e árabes em 2008, em comparação a 2007. "Estimamos esse número já com a retomada do açúcar e o acréscimo do milho, que deve ter bastante peso [no comércio com os árabes] neste ano devido à substituição internacional de fornecedores."

e) VCP estuda reajuste de preço de celulose para Ásia

Mal começou o ano, as empresas de celulose voltam a falar em reajustes de preços nos mercados internacionais. Depois de a fabricante chilena Arauco anunciar o aumento da tonelada da matéria-prima em US$ 30 por tonelada em fevereiro nas vendas à Ásia, a Votorantim Celulose e Papel (VCP) sugeriu ontem que poderá seguir o mesmo caminho. "Com essa indicação da Arauco, possivelmente iremos acompanhar o aumento", afirmou o diretor financeiro da VCP, Valdir Roque, dizendo que a definição exigirá ainda a decisão da diretoria da companhia.

As exportações brasileiras de celulose por parte das companhias brasileiras estão de vento em popa nos últimos anos devido ao grande crescimento da demanda da China. Os preços da matéria-prima foram reajustados quatro vezes ao longo do ano passado, surpreendendo boa parte dos analistas. Para este ano, a expectativa continua favorável. "É sabido que o mercado continua demandando celulose", disse Roque. O executivo não se abala diante da perspectiva de os EUA entrarem em recessão. "Não afeta a VCP", diz. A empresa, segundo ele, tem os maiores volumes vendidos aos mercados da Europa e da Ásia.

A VCP, segunda fabricante de celulose depois da Aracruz a divulgar seu balanço referente a 2007, teve lucro líquido R$ 838 milhões, alta de 27% acima do ano anterior. No quarto trimestre, o ganho subiu 10% para R$ 191 milhões. A receita líquida, porém, recuou 10%, para R$ 2,61 bilhões - a VCP fez desinvestimentos em ativos de produção de papel para focar na fabricação de celulose. Ela está erguendo a unidade de Três Lagoas (MS), que deve começar a operar 2009. As ações preferenciais da VCP despencaram 6,36%.

Agronegócio

a) Após recorde em 2007, exportação de carne pode cair

Depois de bater recorde no ano passado, as exportações brasileiras de carne bovina podem recuar em 2008, admitiu Pratini de Moraes, presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec). No ano passado, as vendas externas somaram 2,525 milhões de toneladas (equivalente-carcaça), alta de 5,1% sobre o ano anterior. A receita em 2007 foi de US$ 4,418 bilhões, um aumento de 12,6% ante 2006, segundo a Abiec. Os números se referem às carnes in natura e industrializada.

Pratini avalia que, neste ano, os volumes exportados podem ser até 3% menores ou 3% a 4% maiores que em 2007. A receita com os embarques, porém, deve seguir em alta. A perspectiva é de um avanço entre 8% e 10% sobre o ano passado, já que os preços devem seguir firmes.

Um recuo nos embarques é possível, segundo Pratini, por causa da melhora na demanda no mercado interno num momento de menor oferta de gado bovino. Além disso, as restrições européias à carne brasileira também devem afetar as vendas no primeiro trimestre deste ano. "Haverá um deslocamento das vendas para o mercado interno, há menor oferta de gado e as novas regras da UE (União Européia) podem provocar redução das exportações para lá", enumerou.

No fim de 2007, a UE determinou que o governo brasileiro faça uma lista das propriedades que estejam aptas a fornecer animais para abate e exportação ao bloco. Na avaliação do presidente da Abiec, vendas menores para a UE poderão ser compensadas pelo próprio mercado interno brasileiro e por vendas a outros países. "O próprio mercado interno absorve parte disso. Há outros mercados que estão comprando carne de melhor qualidade, como Rússia, Hong Kong e Cingapura", disse.

Pratini também aposta em novos mercados, como a China, que deve comprar carne brasileira ainda neste trimestre, segundo ele. Fábricas já estão habilitadas, agora faltam visitas técnicas e definição de cotas. Há ainda a Rússia, que em 2007 comprou 50% mais carne bovina do Brasil, e que deve habilitar novas plantas exportadoras, disse.

Ele voltou a criticar as restrições da UE à carne bovina brasileira, que já provocam alta de preço do produto em países europeus. "Na Europa, o consumidor vale pouco", alfinetou, destacando que as altas de preços começam a chegar às gôndolas do varejo naquele continente. Pratini reconheceu que deve faltar boi rastreado no Brasil para atender às exigências dos europeus, outro fator para elevar os preços.

Novamente, o presidente da Abiec acusou a UE de utilizar, de forma "abusiva", normas sanitárias para atender interesses comerciais de seus países. A Comissão Européia decidiu restringir o produto brasileiro após forte pressão de pecuaristas irlandeses e ingleses, que vinham reclamando da competição com a carne bovina brasileira.

b) Soja volta a puxar as exportações do campo

Impulsionadas por soja e carnes, as exportações brasileiras do agronegócio confirmaram as expectativas e alcançaram o recorde histórico de US$ 58,416 bilhões no ano passado, 18,2% mais que em 2006, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pelo Ministério da Agricultura. Com forte peso do trigo, as importações do setor aumentaram 30,2% na mesma comparação e atingiram US$ 8,719 bilhões. Apesar de o salto das importações ter sido maior que o das exportações, o superávit da balança cresceu 16,3%, para US$ 49,696 bilhões, também bateu recorde e foi vital para o saldo da balança comercial nacional, que encerrou 2007 em US$ 40,039 bilhões.

Com sua tradicional liderança nas exportações do campo "ameaçada" pelas carnes desde o início do ano, o chamado complexo soja - formado por grão, farelo e óleo - encontrou na recuperação das cotações internacionais a alavanca necessária para permanecer no topo do ranking. No total, os embarques do complexo renderam US$ 11,381 bilhões, 22,3% mais que em 2006, com destaque para os incrementos dos preços de venda. No caso do grão, a alta foi de 24%, superior a do farelo (21%) mas inferior a do óleo (45%), de acordo com o levantamento do ministério.

Mas as carnes (bovina, suína e de frango) nunca estiveram tão perto de se assumir a liderança nas exportações do agronegócio em 2007. Ao fim e ao cabo, os embarques do segmento chegaram a US$ 11,295 bilhões, 30,7% acima do resultado de 2006, e foram responsáveis pela "maior contribuição para a expansão das exportações" do setor, segundo análise oficial. As contas mostram que, com o desempenho observado, o grupo representou praticamente 30% do crescimento total da receita com os embarques. O volume de carnes vendido ao exterior subiu 15,5% e os valores negociados foram mais atraentes sobretudo para a carne bovina in natura (6% mais que no ano anterior), frango in natura (24%) e carne suína (2,9%).

As exportações do segmento sucroalcooleiro voltaram a ser superadas pelos embarques de produtos florestais - que aumentaram 11,9%, para US$ 8,819 bilhões - e tornaram-se a grande decepção da balança setorial em 2007. No total, as vendas de açúcar e álcool somaram US$ 6,578 bilhões, 15,4% menos que em 2006. Os embarques de açúcar recuaram 17,3%, para US$ 5,1 bilhões, e os de álcool caíram 7,9%, para US$ 1,5 bilhão. As cotações internacionais do primeiro até que voltaram a se recuperar, mas há pouco tempo, enquanto o etanol foi prejudicado pela ausência de mercados maduros para o uso do combustível no exterior.

O ministério também destacou, do lado das exportações, os avanços de milho e do grupo cereais, farinhas e preparações, estimulado justamente pelo milho. Foram embarcadas 10,9 milhões de toneladas do grão em 2007 (US$ 1,8 bilhão), 178% acima do volume do ano anterior, e as vendas do grupo passaram de US$ 722 milhões para US$ 2,2 bilhões. Ainda assim houve déficit (de quase US$ 114 milhões), porque o grupo inclui trigo e, no total, as importações subiram 43,1%, para US$ 2,334 bilhões. Sucos, café, fumo e frutas foram outros produtos que ajudaram as exportações, segundo o ministério.

Com influências decisivas de carnes e milho, as exportações brasileira de produtos do agronegócio para a União Européia aumentaram 31,1%, para US$ 20,892 bilhões no ano passado. A participação do bloco nas vendas totais do setor cresceram, com isso, de 32,3%, em 2006, para 35,8%. A Ásia permaneceu como o segundo principal destino das vendas do setor, mas sua fatia no bolo passou de 19,3% para 20,3%. Os embarques para os países do Nafta recuaram 7,6%, para US$ 7,360 bilhões, mas o bloco permaneceu na terceira colocação neste ranking.

Mercosul

a) Argentina vende mais carro que trigo ao Brasil

Os automóveis passaram à frente do trigo, pela primeira vez na história, como principal produto importado da Argentina pelo Brasil. O aquecimento dos mercados automobilísticos no Brasil e na Argentina estimula o governo brasileiro a reivindicar do sócio no Mercosul regras mais estáveis para o livre comércio de produtos do setor entre os dois país, hoje sujeito a um regime especial, com limites - confortáveis - para importações. O atual acordo automotivo Brasil-Argentina expira em julho.

"O fim do prazo do atual acordo automotivo nos preocupa bastante, queremos ter uma proposta de mais longo prazo", disse ao Valor o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho. O governo quer usar a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para negociar a abolição das travas no comércio automotivo. "O momento é bom para isso."

Em 2007, as exportações de automóveis de passageiros da Argentina ao Brasil chegaram a US$ 1,65 bilhão, dos quais US$ 434 milhões só em carros populares, com menos de 1 mil cilindradas. A venda de carros pequenos da Argentina ao Brasil cresceu quase 480% e é um forte sinal de mudança: antes, as exportações argentinas eram quase exclusivamente de modelos de maior luxo. As importações brasileiras de trigo foram prejudicadas pelas barreiras à exportação criadas como medida antiinflacionária pelo governo argentino, mas, ainda assim, cresceram 30% em relação a 2006 e ficaram em US$ 1,16 bilhão.

Essa estatística não inclui as vendas argentinas de motores, peças e componentes, nem de utilitários, como as camionetes movidas a diesel, que são usadas no Brasil como carros de passeio e que aumentaram 30% e superaram US$ 220 milhões. O saldo do comércio automotivo ainda é favorável ao Brasil: somadas apenas as exportações de veículos leves de passeio, as vendas brasileiras aos argentinos somaram US$ 1,81 bilhão no ano passado.

"A Argentina está recebendo muito investimento do setor automotivo e aumentando as exportações, o que deve facilitar um consenso sobre o tema", acredita o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider. A Anfavea mantém contatos regulares com a congênere argentina, Adefa, e as duas associações devem se reunir em fevereiro, para discutir o assunto.

Apesar do otimismo do dirigente da associação brasileira, é grande a resistência no governo e no setor privado argentino para liberalizar completamente o mercado automotivo nas transações entre os dois países, por medo de perder investimentos para o atraente mercado brasileiro.

Hoje, existe um sistema conhecido como "flex", que fixa um limite pelo qual as exportações de um país ao outro não podem superar o equivalente a 1,9 vezes o que é importado do parceiro. O fim desse limite permitiria negociar com Uruguai e Paraguai a incorporação do comércio de automóveis, peças e partes ao regime comum do Mercosul, extinguindo uma das maiores exceções à União Aduaneira entre os quatro países. "Nosso objetivo é ’mercosulizar’ o comércio automotivo, e isso pode ser feito de maneira gradual", sugere Ivan Ramalho.

"Já houve muita assimetria entre os setores automotivos do Brasil e argentina, mas agora a situação já permite uma convergência", concorda o diretor de assuntos institucionais da Fiat, Antônio Sérgio Martins Mello, vice-presidente da Anfavea. Ramalho afirma que o mínimo aceitável é a extensão dos prazos para as regras do regime automotivo, hoje limitadas a um ano, o que é considerado no Brasil prazo excessivamente curto. "Precisamos alongar os prazos e simplificar procedimentos. Um ano é muito pouco para assegurar tranqüilidade aos investidores", argumenta o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO (OMC)           

a) Agronegócio brasileiro abandona Doha

Questionados sobre as prioridades para a abertura de mercados externos, dez entre dez empresários do agronegócio encabeçariam a lista com a Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC). Durante os últimos meses, as negociações globais desapareceram da agenda dos executivos do setor, que desmobilizaram seu aparato de lobby a favor de Doha. Deixaram de apoiar o governo com pesquisas e é cada vez mais raro gastarem tempo e dinheiro em uma viagem a Genebra, sede da OMC.

Como potência agrícola, o Brasil é o país que mais pode ganhar com a Rodada do Desenvolvimento, criada em 2001 para reduzir as distorções do comércio global. Nesta lógica, o agronegócio brasileiro se tornou dos motores de impulsão, pressionando o governo por avanços. As negociações ainda são importantes para o setor, mas a falta de resultados gerou desânimo, frustração e desinteresse.

"A negociação de Doha é como enxugar gelo", compara Marcus Vinícius Pratini de Moraes, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). "Há um desânimo com a dificuldade de fechar algo ambicioso", diz Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). "Desistimos", resume Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs) e mentor do vitorioso painel do algodão contra os EUA.

Pragmáticos, os empresários voltaram esforços para temas que podem render resultados concretos, como sanidade, sustentabilidade ambiental ou barreiras não-tarifárias. Enquanto os frigoríficos de carne bovina estão às voltas com as restrições da União Européia, os criadores de carne suína querem abrir as fronteiras do Chile. Para os usineiros, criar um mercado global de etanol se tornou prioridade número um. Os plantadores de soja estão sendo cobrados pelo desmatamento da Amazônia. Nada disso está diretamente relacionado com a Rodada Doha.

"Não há a menor dúvida que tem sido uma perda de tempo", diz Pratini de Moraes, que, quando ocupava o cargo de ministro da Agricultura, participou do lançamento das negociações na capital do Catar. Ele explica que os países desenvolvidos não querem rever a política agrícola e que as eleições nos EUA reduzem as chances de êxito. Pratini insiste, porém, na importância do sistema multilateral. Como exporta para vários países, diz ele, o Brasil precisa de regras multilaterais e do direito de questionar barreiras na OMC.

Para pecuaristas e frigoríficos, restrições sanitárias se tornaram mais importantes do que a remota possibilidade de abrir mercados com Doha. "Abandonei a Rodada e a sanidade ocupou a prioridade", diz Camargo Neto. Ele ressalta que, por questões internas, o Brasil deixa de vender carne suína para Japão, Coréia ou Estados Unidos. Camargo Neto diz também que perdeu a "confiança na estratégia do Itamaraty". Ele está convencido que o governo errou ao desistir de utilizar a vitória no algodão para pressionar os americanos.

Christian Lobhauer, presidente-executivo da Associação Brasileira dos Exportadores de Frango (Abef) , diz que para o setor o que interessa em Doha é o acesso ao mercado europeu, fechado por meio de altas tarifas, salvaguardas e barreiras específicas. "As propostas apresentadas estão longe do mínimo aceitável", diz. Durante as negociações, os europeus ofereceram elevar a cota de importação mundial em 90 mil toneladas, enquanto o Brasil pedia 250 mil apenas para si. "Quando chega a esse nível de distância, pará tudo".

O coordenador do Centro de Estudos de Negociações Internacionais (Caeni), da Universidade de São Paulo (USP), Amâncio Jorge de Oliveira, é um estudioso do papel do setor privado nas negociações comerciais. Ele avalia que a mudança de foco da diplomacia corporativa foi provocada pela conjuntura, ou seja, uma associação de posturas defensivas de vários países resultou numa paralisia das negociações. "E o setor privado, que é mais pragmático, foi cuidar da vida", afirma.

O diagnóstico é o mesmo de André Nassar, diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone). Ele explica que o acordo esboçado hoje na OMC abre exceções e preserva os interesses protecionistas, como subsídios agrícolas nos EUA e acesso a mercados na UE. Nassar diz que o governo brasileiro também vai obter maneiras de proteger a indústria. "Para o país, pode até ficar balanceado, mas para a agricultura, não", diz.

Nos últimos anos, o setor privado brasileiro se organizou para influenciar as negociações comerciais, como OMC, Alca ou o acordo bilateral com a UE. Empresas, associações, federações e confederações criaram departamentos e contrataram especialistas para interferir no processo. Só que as negociações não caminharam e agora é preciso desmontar essa estrutura. O Icone, por exemplo, foi o braço direito do governo com estudos técnicos sobre as negociações. Agora mudou de foco. Segundo Nassar, o instituto se dedicará a outros temas relacionados com o comércio, como tendências de preços e demanda, políticas de certificação e sustentabilidade.

Jank, que hoje está na Unica e foi o fundador do Icone, diz o que setor agrícola não está "desinteressado" das negociações comerciais, mas, sim, "desanimado" com a falta de resultados. Ele pondera que a OMC é o único fórum no qual podem ser discutidos, por exemplo, a redução dos subsídios fornecidos aos produtores de açúcar ao redor do mundo. "Por isso, a Rodada Doha é fundamental", afirma.

Roberto Rodrigues - que coordena o centro de agronegócios da Fundação Getúlio Vargas e preside o Conselho Superior de Agricultura da Fiesp - era ministro da Agricultura quando a diplomacia brasileira, junto com Índia e China, fundou o G-20, grupo que se tornou em uma das forças da Rodada. Rodrigues diz que o setor agrícola brasileiro se deu conta de um fato: graças a maior produtividade, o Brasil ganhou mercado sem qualquer acordo comercial. "Os empresários entenderam que o fundamental é avançar em sanidade, logística, portos, impostos", diz.

Amâncio, do Caeni, diagnostica que a Rodada Doha pode estar num ciclo vicioso. Se a agricultura brasileira e outros setores interessados nos países envolvidos desanimam com a lentidão do processo e diminuem a pressão, os governos se esforçam menos para concluir as negociações, que vão se tornar ainda mais lentas. "Ninguém quer decretar a morte da Rodada Doha", diz o professor, mas a tendência é que seu estado de saúde vá de mal a pior este ano.

Plano Internacional

a) Para 'The Economist', Brasil está mais preparado para turbulências

A economia brasileira está mais preparada do que nunca para enfrentar sem grandes sobressaltos as turbulências que afligem o mercado americano, sustenta a revista The Economist, em reportagem publicada na edição desta semana. "A rajada de vento que aflige os Estados Unidos e ameaça a Europa parece como uma leve brisa se comparada aos freqüentes e violentos golpes que sujaram a história econômica do Brasil."

Citando os últimos eventos que inibiram o crescimento do País - crise asiática em 1998, moratória argentina em 2001 e alta inflacionária em 2005 -, a revista observa que, apesar de esses fatos aconselharem cautela, "há razões para acreditar que a economia agora deve lidar melhor com qualquer coisa que o mundo atire nela".

A revista argumenta que a economia está mais robusta por três razões: em primeiro lugar, um crescimento impulsionado por uma demanda interna vigorosa; em segundo, a integração do País aos mercados mundiais - "Não é superdependente dos EUA, destino de um quinto das exportações"; em terceiro, uma menor vulnerabilidade a crises financeiras, em grande parte graças a uma combinação de Banco Central independente e transparente e câmbio flutuante.

Apesar do otimismo, a The Economist observa que o Brasil está "longe de estar imune aos acontecimentos no resto do mundo". "Depois de anos de grandes saldos, a conta corrente caminha para um pequeno déficit este ano", diz a revista. "A inflação, apesar de estar dentro da meta, acelerou no fim do ano passado." Além disso, para a The Economist, o País ainda sofre de problemas estruturais que limitam um crescimento acima de 5%: dívida pública muito alta, baixa taxa de investimento, nível elevado de impostos e gastos governamentais substantivos em áreas com pouca condição de elevar o potencial de crescimento econômico. "Se o Brasil for capaz de sustentar um crescimento constante sem sofrer um golpe que o desvie desse caminho, em dez anos será bem diferente."

b) Amorim cobra do Japão fábrica de chips para TV

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, cobrou do Japão a instalação de uma fábrica de semicondutores no país para atender à demanda de produtos da TV digital no país, que segue o modelo japonês. Amorim fez o apelo na abertura das comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil, ontem, no Itamaraty.

"Confiamos que uma fábrica de semicondutores pode ser instalada no Brasil", disse Amorim, falando em nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apenas acompanhou o evento.

Em novembro, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, disse que um grupo formado por engenheiros dos dois países debate a instalação da indústria. O custo mínimo está estimado em US$ 500 milhões. Já o vice-ministro de Negócios Estrangeiros do Japão, Hitoshi Kimura, destacou a ajuda dos 300 mil brasileiros que vivem no Japão na revitalização da economia de seu país. Logo depois, Amorim disse que é bom ouvir que a comunidade brasileira "contará com as mesmas oportunidades de inserção social".

O presidente da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, Kokei Uehara, agradeceu o acolhimento dado à comunidade japonesa, que soma 1,5 milhão de pessoas. "Graças a esse país tive os melhores professores da minha vida. Fico bravo quando alguém diz que o Brasil não tem professor de qualidade", disse Uehara, que chegou ao país com nove anos de idade.

O ministro Amorim lembrou que o Japão já foi o segundo maior parceiro comercial do Brasil, mas perdeu posições devido à estagnação de sua economia há alguns anos e da instabilidade e inflação alta no mercado brasileiro. Porém, afirmou, as duas nações já superaram esses problemas e podem retomar as negociações para impulsionar o comércio bilateral.

Os investimentos japoneses no Brasil passaram de US$ 648 milhões, em 2006, para US$ 800 milhões, em 2007. A agência japonesa de promoção comercial prevê investimentos da ordem de US$ 1 bilhão em 2008.

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