10 a 14 de setembro de 2007

Comércio Exterior

Resultados
Acordo com a China
Exportador antecipa venda de US$ 27 bi
Contrato internacional de álcool sai do papel

Agronegócio

Hong Kong compra mais suíno do Brasil
Exportação recorde
No Brasil, produtos agrícolas deverão seguir firmes no atacado até outubro
Preços dos grãos voltam aos níveis de julho
Produção nacional de grãos será recorde em 2007, confirma IBGE

Mercosul

Lula quebra o gelo com Chávez
Mercosul quer negociar mais flexibilidade
Maior acesso do Mercosul ao mercado europeu exige pressão sobre governos

OMC

Apec faz apelo para destravar Doha
Mais grupos se formam para tentar salvar Doha

Plano Internacional

México quer intensificar as relações com a Índia
Onda de investimentos brasileiros já motiva insatisfação no Uruguai
Sarkozy ameaça vetar acordo
Missão Madri
UE ameaça barrar produtos da China




Comércio Exterior

a) Resultados

A balança comercial brasileira apresentou um saldo positivo de US$ 1,204 bilhão na primeira semana de setembro (entre os dias 1 a 9). Esse resultado é a diferença entre as exportações de US$ 3,482 bilhões e importações de US$ 2,278 bilhões. Pelo movimento da média diária, que é o total negociado por dia útil, tanto as exportações como as importações foram recordes.

As vendas tiveram um movimento diário de US$ 870,5 milhões e as compras, de US$ 569,5 milhões. Os recordes anteriores foram registrados, respectivamente, na primeira semana de junho (US$ 701 milhões) e na terceira semana de julho (US$ 534,2 milhões).

No ano, o superávit comercial (saldo positivo entre exportações e importações) é de US$ 28,717 bilhões, uma queda de 4,7% em relação ao mesmo período do ano passado (US$ 30,142 bilhões). O principal fator para essa queda é a compra de produtos importados. As importações têm subido em um ritmo muito superior ao das exportações, estimuladas pela baixa cotação do dólar.

b) Acordo com a China

Brasil e China assinaram ontem, em Xiamen, acordo para promover investimentos nos setores de biocombustíveis, infra-estrutura, transporte marítimo, recursos minerais, tecnologias de informação e telecomunicações, capital de investimento e fundos de gestão. O pacto foi assinado pelas agências estatais brasileira e chinesa de promoção de investimentos. O documento prevê a criação de um cronograma de trabalho com metas para captação de investimentos na iniciativa privada e no governo a partir de 2008.

c) Exportador antecipa venda de US$ 27 bi

As exportações contratadas superaram as exportações físicas em US$ 2,124 bilhões em agosto, elevando o total de câmbio antecipado pelo exportador neste ano a US$ 27 bilhões, segundo o Banco Central. No ano passado todo, foram antecipados US$ 11 bilhões por exportadores.

Os dados dos bancos líderes do mercado confirmam que agosto foi um mês forte para contratação de câmbio. No Bradesco, o total foi a US$ 3,45 bilhões, um aumento de 10% na comparação com os US$ 3,140 bilhões de julho. O grande destaque foi justamente a parcela financiada da contratação de câmbio, que chegou a US$ 1,130 bilhão em agosto, representando 33% do total, acima da média histórica de 30% no banco. No acumulado do ano até agosto, o Bradesco fechou um total de US$ 8,150 bilhões de Adiantamentos sobre Contratos de Câmbio (pré-embarque) e de Adiantamento sobre Cambiais Entregues (pós-embarque), na comparação com os US$ 11,1 bilhões de todo o ano passado. Já o fechamento de câmbio à vista no Bradesco totaliza US$ 17,750 bilhões até agosto, na comparação com os US$ 21,95 bilhões de todo o ano passado.

O movimento no mercado de crédito à exportação sindicalizado de prazo acima de um ano está fraco, com apenas uma operação no mercado, a da Gerdau, de US$ 2,75 bilhões. Mas, as transações entre um banco e uma empresa seguem a todo vapor. "Como efeito colateral da crise das hipotecas nos Estados Unidos, o custo de tomar linhas à exportação está atrativo e muitas empresas exportadoras de tamanho médio têm feito empréstimos bilaterais com os bancos ", diz Ernesto Meyer, coordenador de financiamento para aquisições e operações sindicalizadas para a América Latina do BNP Paribas.

d) Contrato internacional de álcool sai do papel

O contrato padrão internacional de álcool deverá ficar pronto até o fim da primeira quinzena deste mês. Segundo Paulo Siqueira Costa, secretário-executivo da Ietha (Associação Internacional de Comércio de Etanol), o contrato está em fase final de discussões entre os membros da entidade (total de 49 associados).

A padronização desse contrato está sob coordenação de Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro, especializada no setor sucroalcooleiro. De acordo com Siqueira Costa, os contratos de álcool serão parecidos com os de energia. A associação está utilizando modelos semelhantes aos adotados pela indústria do petróleo e pretende, ainda, desenvolver um contrato de frete específico para etanol. O contrato terá cotação FOB e deverá começar a ser negociado ainda este ano, atendendo especificações do Brasil, dos Estados Unidos e da União Européia. O objetivo é que o contrato padrão, específico para o chamado mercado físico, facilite o comércio internacional e transforme o etanol em uma commodity mundial.

O Brasil é o maior exportador mundial do combustível. A China é o segundo maior exportador, com 1,017 bilhão de litros em 2006, seguida pela França, com 319 milhões de litros no ano passado. Os Estados Unidos lideraram as importações, com 2,74 bilhões de litros, em 2006. O Japão veio em segundo lugar, com 502 milhões de litros de álcool importados, seguido pela Alemanha, com 429 milhões de litros também no ano passado.

Agronegócio

a) Hong Kong compra mais suíno do Brasil

A "doença da orelha azul", que afeta os plantéis de suínos na China, já tem efeitos sobre as exportações brasileiras de carne suína. Em agosto, os embarques para Hong Kong alcançaram 17.006 toneladas, 113,91% mais do que em igual mês de 2006, segundo a Associação Brasileira da Indústria Exportadora e Produtora de Carne Suína (Abipecs). Até julho, os embarques ao país acumulam alta de 37,81%, para 68.872 toneladas.

A explicação é que Hong Kong é cliente da China, um exportador de carne suína que vive restrições de oferta do produto por conta de sacrifícios de animais para conter a doença. Essa situação, segundo Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs, abre espaço para as vendas brasileiras. "Estamos crescendo em Hong Kong e devemos, no futuro, também exportar para a China", disse. Ele observou que os chineses já buscam o produto nos EUA e na Europa. Além disso, este mês o Brasil receberá a visita da delegação da autoridade quarentenária chinesa para a reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível e a carne suína está na pauta de discussões.

Com o avanço das exportações para Hong Kong, o Brasil fica menos dependente do mercado russo, desde sempre o principal cliente para a carne suína. Em agosto, as vendas à Rússia somaram 23.892 toneladas, 31,28% a menos que em igual mês de 2006. Até agosto, foram 184.150 toneladas, alta de 14,9% ante igual período de 2006.

b) Exportação recorde

O Ministério da Agricultura informou, na quinta-feira, que as exportações do agronegócio em agosto atingiram US$ 5,859 bilhões, 13% mais do que no mesmo mês de 2006. As importações somaram US$ 824 milhões, 35% mais que em agosto de 2006. Soja, cereais e carnes foram os que mais contribuíram para a alta dos embarques. As vendas externas de açúcar e álcool caíram 17,9%.

c) No Brasil, produtos agrícolas deverão seguir firmes no atacado até outubro

Em alta acentuada nos últimos dois meses, os preços agrícolas deverão permanecer firmes no atacado brasileiro pelo menos até o fim de outubro, quando termina a "entressafra" do boi nas principais regiões de pecuária e deverão ser mais nítidos os sinais que já apontam novo recorde na produção nacional de grãos no ciclo 2007/08.

A previsão é do economista Fabio Silveira, da RC Consultores, que lembra, contudo, que isso não significará refresco imediato sobre a atual pressão dos alimentos nos principais índices inflacionários do país. "Os efeitos desses fatores baixistas no IPCA [Índice de Preços ao Consumidor Amplo, pesquisado pelo IBGE e referência para as metas do governo], por exemplo, só deverão começar a ser percebidos no fim deste ano ou no início de 2008".

Neste início de setembro, o índice da RC para os preços agropecuários no atacado paulista, baseado em uma cesta de 17 produtos, já está 3,9% acima da média apurada no mês passado. Entre 31 de agosto e o último dia 6, a variação positiva em relação ao intervalo imediatamente anterior foi de 1,9%, puxada pelas altas do milho (7,7%), do frango abatido (6,4%) e do trigo (5,6%). Em relação a setembro de 2006, o indicador da consultoria mostra salto de 26,1%.

d) Preços dos grãos voltam aos níveis de julho

A forte valorização nos preços futuros do trigo ajudou a devolver as cotações da soja e do milho aos patamares verificados antes da crise imobiliária americana, que começou a afetar o mercado financeiro em 13 de julho e atingiu o seu ponto mais crítico em agosto. O contrato de segunda posição do trigo negociado na bolsa de Kansas, que em 13 de julho saía a US$ 6,09 por bushel, atingiu seu nível mais baixo em 17 de julho, chegando a US$ 6,01,50. Desde então, os preços subiram 37,8%. Ontem, o contrato para dezembro subiu 21,50 cents, para US$ 8,29.

Na bolsa de Chicago, o contrato para dezembro registrou alta de 17,50 centavos de dólar ontem, para US$ 8,61 por bushel. "O trigo exerceu uma influência muito maior que a crise imobiliária nos preços dos grãos e é o que tem ajudado a sustentar o mercado", afirmou Flávia Moura, analista da Fimat Futures. Ela observou que o contrato para dezembro negociado em Chicago subiu 90% desde abril. A valorização deve-se sobretudo aos problemas climáticos que afetaram as safras dos EUA, Canadá, Europa - e mais recentemente, Argentina e Austrália e Rússia.

"Os preços da soja caíram quase 100 pontos em Chicago e agora voltaram ao patamar pré-turbulência. Os fundos que investem em commodities agrícolas voltaram. O mercado praticamente voltou ao normal", afirmou Renato Sayeg, da Tetras Corretora. Conforme Sayeg, também contribuiu para a valorização da soja a recuperação nos preços do petróleo - que por sua vez também ajudou a dar suporte às cotações do óleo de soja, do etanol e do milho em Chicago. No caso do milho, o contrato de segunda posição, que era negociado a US$ 3,5475 por bushel em 13 de julho, atingiu o seu valor mais baixo no dia 26 do mesmo mês (US$ 3,33, queda de 6,1% desde o início da crise). Em 16 de agosto, registrou outro tombo, para US$ 3,39. Ontem, o contrato para dezembro recuou 1,50 centavo de dólar, para US$ 3,46. A queda, segundo os analistas, foi associada à expectativa de que o USDA elevará a projeção de safra americana, em função da boa produtividade.

e) Produção nacional de grãos será recorde em 2007, confirma IBGE

A safra brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas deverá alcançar o recorde de 133,8 milhões de toneladas em 2007, de acordo com estimativa divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O volume projetado é 0,3% superior ao divulgado pelo órgão no mês passado - que já seria um recorde histórico - e, se confirmado, será 14,3% maior que o total colhido no ano passado (117 milhões de toneladas). São considerados no cálculo do IBGE algodão em caroço, amendoim, arroz, feijão, mamona, milho, soja, aveia, centeio, cevada, girassol, sorgo, trigo e triticale.

No confronto com as previsões do mês anterior, o IBGE destacou três variações importantes: as quedas nos volumes da 2ª safra de feijão (2,7%) e do trigo (3,2%) e o aumento da safrinha de milho (1,6%). "A variação negativa na estimativa do feijão 2ª safra deveu-se aos ajustes praticados nos Estados do Ceará, Bahia e Mato Grosso do Sul , onde condições climáticas irregulares [estiagens prolongadas] prejudicaram seu desenvolvimento. Na Bahia e no Mato Grosso do Sul as perdas foram mais relevantes [9,9% e 14,7%, respectivamente]", afirma nota divulgada pelo IBGE.

Especialistas consultados pelo Valor nas últimas semanas acreditam que, tendo em vista os atuais preços dos grãos no mercado internacional, a área plantada no país tende a aumentar na próxima safra e, se o clima for favorável, um novo recorde de produção deverá ser quebrado. Este cenário estará mais claro no fim de novembro, quando as compras de insumos estarão a pleno vapor e as primeiras projeções começarão a ser divulgadas.

Mercosul

a) Lula quebra o gelo com Chávez

Fiel à tese de que, com Hugo Chávez, é melhor estar perto do que distante, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou a iniciativa de telefonar ao mandatário venezuelano, há poucas semanas, e convidá-lo para uma conversa, no Brasil. Lula queria fazer o encontro com Chávez no lançamento das obras de terraplanagem da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, na semana passada. Chávez alegou problemas de agenda, mas aceitou encontrar-se com Lula, depois. Será no dia 20, em Manaus.

A refinaria Abreu e Lima é a mesma que teve a pedra fundamental assentada por Lula e Chávez, há dois anos. Desde então, arrastaram-se as negociações entre PDVSA e Petrobras, em meio a desconfianças crescentes nas duas estatais e a medidas nacionalizantes de Chávez, que afetaram ativos da brasileira em território venezuelano. A disputa em torno da refinaria parece, porém, mais comercial que política. Como os venezuelanos limitam a 40% a participação da Petrobras no campo de Carabobo, na Venezuela, os brasileiros querem condições "simétricas", e, portanto, 60% da futura refinaria no Brasil. Está aí o principal impasse nas negociações, já que a PDVSA quer dividir meio a meio o empreendimento em Pernambuco.

A conversa de Chávez com Lula, em agosto, encerrou um silêncio de mais de dois meses entre os dois mandatários. A maior razão do esfriamento foram os comentários do venezuelano, que, em maio, chamou o Congresso brasileiro de "papagaio de Washington", após a divulgação de uma nota do Senado sobre a emissora venezuelana RCTV, a principal do país, cuja concessão não foi renovada por Chávez. A declaração teve como resposta uma dura nota do governo brasileiro, e, desde então, rompeu-se a comunicação entre os dois presidentes - Lula, diziam seus assessores, estava muito irritado com o colega venezuelano.

b) Mercosul quer negociar mais flexibilidade

O Brasil e a Argentina querem negociar uma flexibilidade adicional na área industrial para o Mercosul (como bloco) no acordo da Rodada Doha, em meio a crescente pressão dos países desenvolvidos para se comprometerem nessa negociação. As alternativas a serem levadas para a Organização Mundial de Comércio (OMC) incluem desde um maior número de produtos com corte tarifário menor até mais prazo para manter a proteção ao setor industrial. A idéia é acomodar melhor a sensibilidade específica das indústrias de cada um dos quatro sócios.

"Do mesmo jeito que foram gastos milhares de horas na OMC para atender sensibilidades dos agricultores de países ricos, o mesmo deve ser feito para países onde a indústria é sensível", disse ao Valor o secretário de Comércio Internacional da Argentina, Alfredo Chiaradia. Os Estados Unidos, a União Européia e outros desenvolvidos pressionam para os emergentes dizerem claramente que aceitam como base para a negociação final o texto industrial que OMC apresentou no fim de julho - e que foi contestado por grande parte dos países em desenvolvimento.

Pelo texto que a OMC quer usar como base da negociação, há duas opções de flexibilização para países em desenvolvimento na área industrial: um país pode escolher fazer cortes até 50% menores em 10% das linhas tarifárias que não ultrapassem 10% do valor total importado. Ou excluir 5% das linhas tarifárias da lista de cortes, desde que não ultrapassem 5% do valor importado. Os países do Mercosul escolheram a primeira opção, o que significaria proteger 880 produtos. Normalmente, a lista considera produtos dos setores mais sensíveis como automotivo, móveis, têxteis, calçados, máquinas, eletrônicos e químicos.

c) Maior acesso do Mercosul ao mercado europeu exige pressão sobre governos

Se quiserem incrementar o comércio entre Mercosul e União Européia, os empresários têm que pressionar os governos para avançar em temas específicos, independentemente das negociações. A discussão para um acordo de livre comércio entre os dois blocos está travada e os europeus já deixaram claro que vão priorizar a Ásia. Essas são as principais conclusões de uma série de estudos realizada pela Escola de Ciências Políticas de Paris (Sciences Po), com o apoio do Fórum Empresarial Mercosul - UE e financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

"Queremos descobrir o que os empresários podem propor para aumentar o comércio sem esperar pelas negociações formais", diz Alfredo Valadão, diretor da cátedra Mercosul da Sciences Po. Empresários, diplomatas e acadêmicos se reúnem na Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) para discutir o acesso ao mercado europeu e o setor de serviços. O objetivo é formular propostas a serem apresentadas aos governos durante a cúpula União Européia-Mercosul, que acontece no início de outubro, em Lisboa.

Para Valadão, a negociação entre os dois blocos aguarda o desfecho da Rodada Doha, da OMC, principalmente das questões agrícolas. Além do Mercosul, a UE está negociando acordos de livre comércio com Índia, Coréia do Sul e os países da Asean. "Os recursos humanos para cuidar dessas negociações são limitados", diz.

OMC           

a) Apec faz apelo para destravar Doha

Os líderes do Fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (Apec) fizeram ontem, na Austrália, um chamado urgente para que as nações envolvidas nas negociações da Rodada Doha, na Organização Mundial do Comércio (OMC), aumentem seus esforços para romper as barreiras comerciais. "Faço um pedido urgente a todos os países implicados nas negociações de Doha para que renovem os esforços a fim de obter resultados’, declarou o primeiro-ministro australiano, John Howard.

b) Mais grupos se formam para tentar salvar Doha

O Brasil integra agora o G-8, criado esta semana e que deverá se tornar o centro real da negociação agrícola na Organização Mundial do Comércio (OMC). Os outros membros são do antigo G-4 - Estados Unidos, União Européia e Índia -, além da Argentina, Austrália, Canadá (exportadores agrícolas) e Japão. Esse novo grupo está se reunindo com freqüência e convidando outros países para discutir soluções técnicas específicas que ajudem a negociação avançar. Como sempre ocorre, entre os que ficaram fora a ciumeira já começou. A Costa Rica teria sido vetada pelo Brasil para participar de discussão sobre tarifas. Um negociador brasileiro explicou que está sendo convidado quem mais pode contribuir tecnicamente.

Representantes de outros países emergentes indagam a jornalistas afinal que grupo é esse. Só que surgiu mais um, que está sendo chamado de "grupo dos amigos do mediador agrícola", no qual o Brasil também está dentro. Duas iniciativas paralelas, com reuniões restritas de países, também estão ocorrendo. Nessa proliferação de grupos e de reuniões, negociadores baixaram o pessimismo em relação a primeira das três semanas ditas cruciais. O mediador Crawford Falconer deve submeter novo texto de compromisso sobre cortes de tarifas e subsídios em outubro.

Só que há um detalhe: na questão maior, dos subsídios domésticos, tudo se reduz a saber quanto os Estados Unidos estão dispostos a cortar as ajudas que mais distorcem o comércio e as subvenções específicas por commodity. E Washington não dá sinal de se mover, participando de todos os grupos e reuniões.

Plano Internacional

a) México quer intensificar as relações com a Índia

Disposto a transformar o México no principal parceiro latino-americano da Índia, o presidente do México, Felipe Calderón, firmou ontem com o primeiro-ministro do gigante asiático, Manmohan Singh, um acordo para duplicar as importações e exportações nos próximos três anos e atrair empresas indianas para o país. Nos últimos seis anos, o comércio entre os países subiu de US$ 348 milhões para US$ 1,8 bilhão.

Calderón, primeiro presidente mexicano a visitar a Índia nos últimos 22 anos, declarou na reunião com Singh que sua intenção é "dar novo impulso em todas as áreas na relação bilateral e abrir um novo capítulo no comércio e investimento". Na disputa entre México e Brasil, está em jogo uma economia que cresce 9% ao ano, movida por mais de 1 bilhão de habitantes e uma classe média crescente, que já alcança 300 milhões de pessoas.

b) Onda de investimentos brasileiros já motiva insatisfação no Uruguai

Um imenso painel do Banco Itaú é a novidade na paisagem da Rambla Gran Bretaña, em Montevidéu, uma grande avenida que margeia o Rio da Prata, um dos cartões postais da capital uruguaia. O painel foi colocado ali no fim de março, quando o Itaú trocou todas as fachadas do BankBoston pela sua marca nas cores azul e laranja, um ano depois de ter comprado as operações do banco americano no Brasil, no Uruguai e no Chile. Não é um fato isolado. O surgimento da marca do banco por todo lado em Montevidéu (são 14 agências na capital e uma em Punta del Este), coincide com um inédito desembarque de várias empresas brasileiras que já começa a assustar os uruguaios. Eles gostaram quando a Petrobras e a AmBev chegaram entre 2003 e 2004 e se juntaram ao grupo Gerdau, que já estava no país desde o fim dos anos 90. Era mais um sinal de recuperação da economia depois da crise de 2002, uma das piores da história do país.

Mas os uruguaios começaram a ficar preocupados quando os frigoríficos brasileiros Marfrig e Bertin, que chegaram há cerca de dois anos, compraram, no último ano e meio, quatro frigoríficos locais e passaram a dominar um terço do abate e comercialização do carro-chefe da economia uruguaia, a carne bovina. Quando, no fim de agosto, foi anunciado que a arrozeira brasileira Camil estava comprando a Saman, criou-se um clima de comoção nacional. A Saman é a maior indústria de beneficiamento de arroz do país, responsável por 45% da produção e exportações deste produto que é o segundo principal produto da pauta de exportações do Uruguai.

O investimento brasileiro no Uruguai deu um salto nos últimos três anos, saindo de US$ 12 milhões em 2004 para US$ 20 milhões em 2005 e aproximadamente US$ 320 milhões em 2006, estima o economista Marcel Vaillant, chefe do Departamento de Economia da Universidade da República do Uruguai. Outras duas empresas brasileiras já manifestaram intenção de se instalar no país, o grupo de construção e infra-estrutura Odebrecht e a montadora de ônibus Marcopolo.

c) Sarkozy ameaça vetar acordo

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, ataca as posições de Brasil, Índia e China nas negociações comerciais e avisa que Paris vetará um acordo se não receber algo em troca na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou se os interesses da França não forem atendidos.

Demonstrando que não aceitará qualquer acordo, Sarkozy fala até mesmo em recolocar temas já rejeitados na OMC há anos e repensar o mandato da entidade. Para completar, o comissário de Comércio da Europa, Peter Mandelson, ainda criticou ontem os países emergentes por estarem bloqueando a abertura de seus mercados de bens industriais.

O tiroteio ocorre em um momento de crise na OMC, que precisa concluir um acordo até o próximo mês. ’Grandes países emergentes querem ter os mesmos direitos das grandes nações. Mas devem também aceitar os mesmos deveres’, afirmou Sarkozy. ’Eu disse a alguns de nossos grandes parceiros, como Índia, Brasil, China e Argentina, que a Europa não terá uma postura inocente.’ ’Os países emergentes consideram que eles só têm direitos e nenhum dever no sistema comercial. Mas o sucesso da rodada depende deles.’ A crítica dos europeus se refere à resistência dos emergentes em aceitar uma liberalização no setor industrial de suas economias.

d) Missão Madri

A Suécia decidiu extinguir a "taxa especial" sobre o etanol, introduzida em 1° de janeiro de 2006 (que deverá ser abolida até 1° de janeiro de 2009). A informação foi transmitida à comitiva do presidente Luiz Inácio da Silva, ontem. O presidente já tinha recebido uma proposta idêntica na Finlândia e deve receber outro apoio hoje na Dinamarca.

Com essa viagem, ele abriu o mercado de álcool do Norte da Europa para os produtores brasileiros. Hoje, na Dinamarca, a comitiva de 50 empresários vai conhecer também um novo processo de produção de álcool, chamado etanol da segunda geração, desenvolvido pelos dinamarqueses. A Dinamarca e a Noruega querem investir na produção e distribuição de álcool, produzindo o produto no Brasil e exportando-o para a Europa.

A principal missão dessa comitiva do presidente Lula, no entanto, não é a abertura do mercado de álcool para os produtores brasileiros. Esta é apenas uma parte da missão. No final, ele terá reunião com empresários espanhóis, em Madri, que querem investir em infra-estrutura no Brasil, principalmente na construção de hidrelétricas. Os espanhóis têm cerca de US$ 20 bilhões para investir, mas querem garantias do governo brasileiro de que não vão ocorrer mudanças bruscas nos contratos.

Os espanhóis querem participar das concorrências para a construção das hidrelétricas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, na Amazônia, em condições de igualdade com os brasileiros. Querem também participar da concorrência para a privatização de oito rodovias federais, marcada para o próximo mês.

e) UE ameaça barrar produtos da China

A União Européia (UE) poderá barrar a importação de produtos chineses que não atendam aos padrões do bloco caso as preocupações do europeus com questões de saúde e segurança não sejam resolvidas até o mês que vem. Pequim deve apresentar em outubro um relatório com respostas a temores do órgão de proteção ao consumidor da UE sobre produtos como brinquedos, cuja participação de importados da China no mercado europeu supera os 50%.

A UE já recebeu três relatórios do governo chinês sobre questões de saúde e segurança, mas nenhum deles foi considerado suficiente para responder às questões levantadas pelo bloco. A China se tornou o centro mundial da indústria de brinquedo, exportando o equivalente à 5,4 bilhões de unidades em 2006.

Mas nos últimos meses a qualidade dos brinquedos chineses começou a ser questionada - assim como a de alimentos e outros itens de exportação - após uma série de recalls e banimentos a produtos.

Para Meglena Kuneva, não há necessidade de uma nova legislação para proteger o mercado europeu dos bens fabricados na China, uma vez que, diz ela, as medidas atuais são suficientes. Ela exortou os países-membro da UE para explorar ao máximo as ferramentas atuais como, por exemplo, um sistema que alerta os governos sobre produtos com problemas. "A essa altura, não há necessidade de reações instantâneas exigindo uma nova legislação", disse ela.

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