07 a 11 de julho de 2008

Comércio Exterior

Resultados
Morgan Stanley vai investir em usina de álcool no Brasil
Alta do petróleo faz superávit comercial do Brasil com países árabes virar déficit
Produtos químicos acumulam déficit de US$ 10 bilhões
Saldo da balança do agronegócio atinge US$ 28 bi

Agronegócio

Maior safra de café elevará embarques
Disparada nas exportações em 2008
Preço de suíno na exportação aumenta 34% no 1º semestre

Mercosul

"Não venderei o Mercosul", diz presidente

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Brasil ataca novo texto da OMC para Doha
Com Mercosul dividido, OMC refaz propostas para Doha

Plano Internacional

Presidente faz primeira visita oficial ao Vietnã



Comércio Exterior

a) Resultados

A balança comercial registrou superávit de US$ 305 milhões na primeira semana de julho (entre os dias 1º e 6), segundo informou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O valor é 67,09% menor que o registrado no mesmo período do ano passado (US$ 927 milhões).

O saldo é resultado de exportações de US$ 3,187 bilhões, o equivalente a uma média por dia útil de US$ 796,8 milhões, e importações de US$ 2,882 bilhões, com uma média por dia útil de 720,5 milhões de dólares. Na comparação de 2007 para 2008, porém, a média das exportações cresceu 24,1%, enquanto a média das importações aumentou 47,1%.

No ano, a balança acumula um superávit de US$ 11,655 bilhões, com exportações de US$ 93,832 bilhões e importações de US$ 82,177 bilhões. O saldo no acumulado até a primeira semana de julho é 45,8% menor que o registrado no mesmo período do ano passado, quando o superávit estava em US$ 21,504 bilhões.

Do lado das exportações, na primeira semana de julho cresceram os embarques de produtos básicos (40,5%), semimanufaturados (20,9%) e manufaturados (10,4%). Entre as exportações de produtos básicos se destacaram soja em grão, carne suína, bovina e de frango, minério de cobre, minério de ferro e farelo de soja. Na categoria de semimanufaturados, os principais produtos embarcados foram óleo de soja em bruto, alumínio em bruto, ferro fundido em bruto e ferro-ligas. No segmento de manufaturados, as principais vendas foram tubos ferro fundido, tratores, suco de laranja, partes de motores para veículos, bombas e compressores, motores e geradores, celulares e álcool etílico.

Já em relação às importações da primeira semana de julho, o crescimento de 47,1% sobre o desempenho no mesmo mês do ano passado (US$ 489,8 milhões) foi influenciado pelo aumento nas compras de adubos e fertilizantes (276,2%), siderúrgicos (86%), combustíveis e lubrificantes (64%), equipamentos elétricos e eletrônicos (46,6%), cereais e produtos de moagem (42,1%) e veículos e automóveis (40,5%). Sobre o perfil da importação em junho de 2008, foi registrado decréscimo nos desembarques dos seguintes produtos: farmacêuticos (46%), químicos orgânicos e inorgânicos (18%), plásticos (13,2%), veículos automóveis e partes (11,4%), borracha (11%) e equipamentos mecânicos (10,8%).

b) Morgan Stanley vai investir em usina de álcool no Brasil

O grupo Morgan Stanley vai investir em um usina de álcool no Brasil e definirá até o fim do ano seu parceiro nesse novo empreendimento. O interesse de um dos três maiores bancos de investimento dos EUA no etanol brasileiro começou em setembro do ano passado, quando a divisão de commodities do grupo deu início no país à exportação do combustível.

Embora seja um negócio relativamente novo para a companhia, as exportações de etanol contratadas pela área de commodities do Morgan Stanley para 2008 deverão somar de 10% a 15% do total embarcado no país. A Unica (União das Indústrias de Cana-de-Açúcar) estima exportações totais de até 5 bilhões de litros para a safra 2008/09.

"O Morgan Stanley tem interesse em álcool à base de cana", disse ao Valor Irineu Meira, vice-presidente da divisão de commodities no Brasil e coordenador de energia, que inclui petróleo e derivados, braço controlado pelo Morgan Capital Group, que será responsável pelos investimentos em usinas no Brasil. Nos Estados Unidos, o grupo teve participação em uma usina de etanol à base de milho, mas se desfez do negócio para concentrar forças do álcool de cana.

Os investimentos do Morgan Stanley serão definidos nos próximos meses e não deverão ficar restritos a apenas uma unidade industrial. Neste primeiro momento, contudo, o grupo analisa uma participação em torno de 40% nessa primeira planta.

O que é certo é que essa primeira usina deverá ser próxima de um porto, de preferência o de Santos (SP). "A localização geográfica é muito importante por causa da logística de escoamento da produção até o porto", disse Meira, um dos três executivos contratados pelo grupo para tocar os negócios de etanol. Os outros dois executivos também já foram contratados e atuam em Nova York e em Londres.

No país, a divisão de commodities do grupo começou a negociar álcool a partir de setembro de 2007. Meira trabalhava na Noble Group, empresa de capital asiático que fez sua estréia na produção de álcool no país no ano passado. Ele foi chamado pelo Morgan Stanley para dar impulso aos negócios de etanol no país.

O Brasil já abastece mais de 50% do volume global de etanol negociado pelo Morgan Stanley, segundo Irineu Meira. O grupo tem empresas próprias de formulação de gasolina nos EUA e na Europa. Metade do volume exportado pelo Morgan Stanley é consumido pelas empresas do próprio grupo e o restante no mercado internacional.

Com tradição em commodities, essa divisão do Morgan Stanley opera desde o início dos anos 80 e emprega cerca de 370 pessoas no país, EUA, Canadá, Reino Unido, Rússia, China, Japão e Cingapura. "Operamos com todas as commodities, inclusive agrícolas, mas nossa atuação consiste, sobretudo, em hedge [fixação de preços]. Somente em álcool há movimentação física", afirmou o executivo.

Nos Estados Unidos, o Morgan Stanley tem terminais com áreas de armazenagem, docas para petroleiros, estrutura para formulação de gasolina e uma distribuidora, a Transmontaigne, adquirida em 2006 e com capacidade para armazenar 21 milhões de barris em 49 terminais. Essas empresas são controladas 100% pelo Morgan Capital Group.

Segundo Meira, parte do etanol exportado pelo grupo a partir do Brasil é enviado para Transmontaigne, que trabalha na formulação da gasolina que será distribuída para os postos de combustíveis americanos. Essa gasolina formulada tem uma mistura de cerca de 10% de álcool anidro brasileiro. O Morgan Stanley formula aproximadamente 20 bilhões de litros de gasolina por ano.

Na Europa, o álcool anidro do país chega pelo porto de Roterdã, na Holanda, e também é adicionado à gasolina antes de ser distribuído aos postos de combustíveis. Meira afirmou que o grupo também tem interesse em fazer o mesmo no mercado asiático, sobretudo Japão e Cingapura.

O interesse estrangeiro no setor sucroalcooleiro do país não é novo e reflete o potencial de demanda por etanol no mercado internacional. Grupos ligados ao mercado financeiro também passaram a olhar o segmento como forma de investimento. O primeiro foi o banco americano Goldman Sachs , que por meio de um fundo, negociou participação minoritária no grupo Santelisa Vale, de Sertãozinho (SP), em 2007.

c) Alta do petróleo faz superávit comercial do Brasil com países árabes virar déficit

A explosão dos preços do petróleo virou novamente o jogo na balança comercial entre o Brasil e os países árabes. Apesar do incremento das exportações - resultado de um esforço diplomático de aproximação das duas regiões -, o país voltou a registrar déficit nas trocas com os árabes.

O superávit de US$ 590 milhões entre o Brasil e os 22 países da Liga Árabe no primeiro semestre de 2007 foi revertido em déficit de US$ 1,15 bilhão de janeiro a junho deste ano, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), elaborados pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB).

O petróleo é o principal vilão. As importações de combustíveis vindas dos árabes atingiram US$ 4,3 bilhões no primeiro semestre, 87% acima de igual período de 2007. Boa parte é conseqüência da evolução dos preços, já que, em quantidade, a alta foi de apenas 12% no período.

Em compensação, o preço médio do petróleo tipo Brent saltou de US$ 66,64 no primeiro semestre de 2007 para US$ 109,75 no primeiro semestre de 2008, alta de 72,4%. Desde então, a cotação do petróleo subiu ainda mais. O barril fechou a US$ 136,43 ontem na Bolsa de Londres.

"A balança entre o Brasil e os árabes estava equilibrada. Este ano, por conta da extrema valorização do petróleo, o déficit vai voltar", disse Antônio Sarkis Jr., presidente da câmara árabe. Segundo o empresário, as exportações de produtos agrícolas brasileiros para os árabes devem aumentar no segundo semestre em função do feriado religioso do Ramadã, mas a tendência aponta para déficit em 2008.

O Brasil chegou a registrar superávit de US$ 1,3 bilhão com os árabes em 2006, por conta do bom desempenho das exportações e do enfraquecimento das importações. No ano passado, o saldo já havia encolhido para US$ 516 milhões. Com o aumento da produção nacional, o Brasil reduziu um pouco sua dependência do petróleo importado. No entanto, os árabes possuem um petróleo leve, que é mais adequado para as refinarias instaladas no Brasil do que o óleo pesado produzido no país.

No primeiro semestre do ano em relação a janeiro e junho de 2007, as importações brasileiras procedentes da Liga Árabe subiram quase 100%, atingindo US$ 5,3 bilhões, incentivadas pelos preços do petróleo. O valor é igual as compras externas de todo o ano de 2006 e já se aproxima dos US$ 6,45 bilhões de 2007. Em 2001, o volume de importações da região era bem menor: US$ 2,3 bilhões.

Por outro lado, as exportações brasileiras para os países árabes mais do que triplicaram nos últimos anos, saindo de US$ 2,2 bilhões em 2001 para quase US$ 7 bilhões no ano passado. Os principais destaque são os produtos agrícolas, como carnes ou açúcar, mas os manufaturados também conquistaram mercado, caso de aviões, móveis, materiais de construção, entre outros.

A aproximação entre as regiões - com o início de um vôo direto entre São Paulo e Dubai pela companhia Emirates Airlines - também colaborou para os negócios. O esforço diplomático culminou, em 2005, com a a primeira cúpula entre os chefes-de-Estado do países da América do Sul e da Liga Árabe, realizada em Brasília. Nessa reunião, o Mercosul iniciou negociações para um acordo de livre comércio com os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CGC).

Desde então, as relações esfriaram um pouco. Uma nova cúpula só deve acontecer, provavelmente, no primeiro trimestre de 2009, ou seja, quatro anos depois. As negociações entre o Mercosul e o CGC emperraram, devido à resistência da indústria petroquímica brasileira em abrir o mercado para os maiores produtores de petróleo do mundo.

Segundo o diretor do Departamento de Negociações Internacionais do Itamaraty, Evandro Didonet, o Brasil continua empenhado nas discussões com os países do Golfo, mas também abriu duas novas frentes de negociação de acordos de livre comércio com a Jordânia e o Marrocos.

Apesar das dimensões reduzidas da Jordânia, o embaixador avalia que há espaço para ganhos, pois é um mercado relativamente fechado. O país cobra, por exemplo, 21% de tarifa de importação para frutas, 70% para bebidas e tabaco, e 10% para equipamentos de transporte.

Enquanto a petroquímica resiste, outros setores empresariais brasileiros estão animados com um acordo de livre comércio com o CGC, caso de autopeças, siderurgia, material de construção e agronegócio. O países do Golfo são o segundo maior importador líquido de alimentos do mundo. Em 2007, o Brasil exportou US$ 1,5 bilhão para a Arábia Saudita e US$ 1,2 bilhão para os Emirados Árabes Unidos. Os outros mercados são menos significativos: Bahrein (US$ 113 milhões em exportações), Catar (US$ 135 milhões), Kuait (US$ 230 milhões) e Omã (US$ 93 milhões.

Para Sarkis, o comércio caminha para consolidação, porque "os árabes conhecem o potencial do Brasil" e vice-versa. Ele acredita que o maior potencial está nos investimentos. Com a alta do petróleo, os árabes dispõem de recursos abundantes. Em 2007, o superávit da Liga Árabe com o mundo chegou a US$ 250 bilhões. Ele informou que duas empresas visitaram recentemente o Brasil e confirmaram que vão abrir unidades: a Cofat, de cabos elétricos para automóveis da Tunísia, e a HTM, de produtos e higiene pessoal da Jordânia. Os árabes também estão interessados no setor de açúcar e álcool.

d) Produtos químicos acumulam déficit de US$ 10 bilhões

O déficit comercial de produtos químicos bateu novo recorde e chegou a US$ 10,5 bilhões no primeiro semestre deste ano, o que representou um crescimento de 85% sobre igual período do ano passado, segundo dado da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

O principal fator para o aumento no rombo da balança comercial de produtos químicos foi a alta nos preços dos intermediários para fertilizantes. Nestes primeiros seis meses, o volume de importação destes insumos para a agricultura cresceu 4%, chegando a 8,2 milhões de toneladas. No entanto, o valor das importações de intermediários subiu 122%, alcançando US$ 3,9 bilhões. Isso representou um quarto de todas as importações de produtos químicos.

"O que também surpreendeu foi o crescimento das importações de fertilizantes e defensivos agrícolas já formulados", disse o gerente de comércio exterior da Abiquim, Renato Endres. As compras do primeiro aumentaram 277%, para US$ 371 milhões; e do segundo, 69%, para US$ 388 milhões. "Isso demonstra um crescimento da demanda do setor agrícola." Segundo Endres, o real valorizado tem colaborado para elevar a importação e desestimular a exportação.

Os preços dos insumos usados para a elaboração de fertilizantes cresceram devido ao aumento de derivados de petróleo e gás natural, além de uma grande demanda por produtos minerais. Os preços médios dos intermediários para fertilizantes cresceram 113% ao passo que os preços para os produtos formulados aumentaram 76%.

O cenário de reversão do saldo comercial não é animador. A Abiquim projeta déficit para os produtos químicos entre US$ 20 bilhões e US$ 22 bilhões para 2008. As importações, que somaram US$ 15,6 bilhões no primeiro semestre, devem alcançar US$ 34 bilhões até o fim do ano. As exportações, que subiram 11% até junho e chegaram a US$ 5,6 bilhões, devem alcançar a cifra de US$ 12 bilhões, segundo a Abiquim.

Renato Endres lembra que um dos itens que mais pesaram nas importações foram as compras de cloreto de potássio, uma das matérias-primas para a formulação de fertilizantes. No primeiro semestre de 2008, as importações chegaram a US$ 1,37 bilhão, comparadas aos US$ 569 milhões do primeiro semestre de 2007. "Nossa dependência externa deste mineral é muito grande e não há perspectivas de mudança a curto prazo", disse.

e) Saldo da balança do agronegócio atinge US$ 28 bi

As exportações brasileiras do agronegócio somaram US$ 33,7 bilhões no primeiro semestre, 26,3% mais que em igual período de 2007, informou ontem o Ministério da Agricultura. As importações do setor nos primeiros seis meses do ano subiram 42,7% na mesma comparação, para cerca de US$ 5,6 bilhões. Com esse resultado, o saldo foi de US$ 28,154 bilhões no primeiro semestre de 2008 ante US$ 22,813 bilhões no mesmo período do ano passado.

No período de 12 meses - entre julho de 2007 e junho deste ano -, as exportações do agronegócio atingiram o recorde de US$ 65,446 bilhões,19,3% mais do que no intervalo de julho de 2006 e junho de 2007, quando somaram US$ 54,847 bilhões. As importações foram 35% superiores aos doze meses anteriores - US$ 10,404 bilhões, o que gerou um saldo comercial nos últimos 12 meses de US$ 55,041 bilhões.

De acordo com o ministério, os cinco principais setores responsáveis pela expansão das exportações no primeiro semestre do ano foram: complexo soja (+67,5%), carnes (+33,4%), cereais, farinhas e preparações (+77,7%), produtos florestais (+10,1%) e café (+15,4%).

Entre as importações, os setores com maior participação foram cereais, farinhas e preparações (+ 55,7%, para US$ 1,671 bilhão); produtos florestais (+37%, para US$ 1,160 bilhão). Já as importações de trigo aumentaram 42% em relação ao primeiro semestre de 2007, para US$ 1,031 bilhão para um volume de 3,2 milhões de toneladas.

Já entre julho de 2007 e junho de 2008, o complexo soja liderou o ranking das exportações do agronegócio com US$ 15,021 bilhões, aumento de 43,6% em relação mesmo período um ano antes. As exportações de carne avançaram 29% na mesma comparação, para US$ 13,038 bilhões; as de cereais, farinhas e preparações, 159,6%, para US$ 2,681 bilhões; as de produtos florestais, 10,8%, para US$ 9,248 bilhões); as vendas externas de fumo e seus produtos (28,4%, para US$ 2,451 bilhões) e as de café (11%, para US$ 4,174 bilhões), segundo o Ministério da Agricultura.

Agronegócio

a) Maior safra de café elevará embarques

As exportações brasileiras de café para a safra 2008/09, que tem início neste mês, devem ficar entre 28,5 milhões e 29,5 milhões de sacas, segundo levantamento preliminar do Conselho dos exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Se confirmadas as estimativas, será um crescimento médio de 5,5% sobre o ciclo 2007/08. "A colheita será maior nesta safra", diz Guilherme Braga, diretor-geral do Cecafé.

Levantamento do Cecafé divulgado na última sexta-feira mostra que os embarques do café verde e solúvel somaram 27,257 milhões de sacas de 60 quilos na safra 2007/08, encerrada em junho, com receita de US$ 4,114 milhões, 10,6% acima do ciclo passado. O aumento da receita reflete a alta dos preços internacionais da commodity.

No mês passado, as exportações do grão ficaram em 1,849 milhão de sacas, recuo de 11,8% sobre junho de 2007. A queda nas vendas externas em junho já era esperada. Primeiro, porque os estoques do setor estão mais apertados. Depois, porque a colheita de arábica em Minas Gerais e São Paulo está atrasada, como reflexo da maturação tardia dos grãos nos cafezais.

Mas, segundo Braga, havia uma expectativa de que os embarques de café nesse primeiro semestre ficassem muito abaixo das médias dos últimos anos por conta da redução dos estoques do setor privado e governo e da menor produção do grão, em função da bianualidade da cultura (produtividade menor a cada dois anos).

Contudo, as vendas externas ficaram em 12,8 milhões de sacas, volumes considerados satisfatórios para os exportadores para o período. No mercado, paira a dúvida: ou os estoques foram subestimados ou a produção passada foi maior que o anunciado. As projeções iniciais do Cecafé indicavam embarques de 26,5 milhões de sacas em 2007/08, mas finalizaram com quase 800 mil sacas a mais.

Tradicionalmente, a Alemanha e os Estados Unidos mantiveram-se, respectivamente, como os maiores importadores do café verde brasileiro. O Cecafé observa, contudo, que os volumes importados por esses países decresceram em relação ao mesmo período do ciclo passado, abrindo espaço para outros mercados.

Para esse atual ciclo, a colheita está estimada em 45,544 milhões de sacas de 60 quilos, volume 35% maior que em 2007/08, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No mercado, as projeções indicam volumes acima de 50 milhões de sacas.

b) Disparada nas exportações em 2008

A maior valorização do óleo em relação ao farelo, comprovada pela análise dos preços do grão e seus derivados na bolsa de Chicago, aparece nas estimativas da Associação das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) para as exportações do complexo soja neste ano. A entidade prevê preço médio da tonelada de grão exportada de US$ 420, 48,4% mais que em 2007. A cotação média da tonelada do óleo deverá subir 41,4%, para US$ 1.000, enquanto a previsão para o farelo é de alta de 35%, para US$ 320/tonelada.

Nas exportações totais projetadas pela Abiove para o ano, os volumes fazem diferença e o óleo retorna ao terceiro lugar. Os embarques deverão render US$ 17,808 bilhões, 57,3% mais que em 2007. Para as vendas externas de grão, o aumento previsto é de 70,9%, para US$ 11,466 bilhões; para o farelo, o salto estimado é de 41,8%, para US$ 4,192 bilhões, e no caso do óleo deverá haver incremento de 29,8%, para US$ 2,15 bilhão. Nas três frentes, os valores previstos para 2008 são recordes históricos.

Para o ciclo 2008/09, as exportações de soja devem atingir 45% do total da produção agrícola nacional, de acordo com projeção da Abiove. Com isso, a soja superará o recorde estabelecido em 2006/07, quando os embarques representaram 43% da produção.

A evolução do esmagamento, em contrapartida, fica aquém do ritmo de avanço da produção. O esmagamento deve chegar em 2008 a 29,7 milhões de toneladas. Esse volume é menor que as 30,7 milhões de toneladas esmagadas em 2007 e representa um avanço de apenas 48% em comparação com 1996 - nesse mesmo período, a produção avançou 150%.

Dados da Abiove e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram a perda de competitividade do esmagamento nacional em relação a EUA, China e Argentina, os outros gigantes mundiais do mercado de soja. O descompasso entre o avanço da produção e do esmagamento está relacionado com a alta carga tributária das indústria, que desestimula o esmagamento no mercado interno, diz César Borges, vice-presidente da Caramuru.

Na Argentina, entre 1996 e 2008, esmagamento e produção subiram 288% e 278%, respectivamente. Na China, que ampliou sua produção em 6% nesse intervalo, o esmagamento avançou 413%.

Em Chicago, de acordo com cálculos do Valor Data, os contratos futuros de segunda posição de entrega do grão acumulam valorização de 92,7% nos últimos 12 meses. No mesmo intervalo, o farelo apresenta ganho de 90,2% e o óleo de soja, de 84,9%.

c) Preço de suíno na exportação aumenta 34% no 1º semestre

O mercado aquecido para a carne suína fez os preços voltarem a subir na exportação em junho passado. Num mês em que os volumes exportados somaram 51.731 toneladas, 2,77% mais do que em igual período de 2007, a receita totalizou US$ 147,498 milhões, aumento de 39,14% ante junho do ano passado. Com isso, o preço alcançou US$ 2.851 por tonelada - havia sido de US$ 2.106 -, segundo a Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs).

No semestre, o preço da carne suína na exportação acumula valorização de 33,92% sobre os primeiros seis meses de 2007. A receita também é crescente no período - 28,99%, para US$ 707,866 milhões, mas o volume acumulado recuou 3,68%, para 270.674 toneladas.

A Rússia continua sendo o principal cliente da carne suína brasileira, mas os volumes no semestre recuaram 15,4%, o que explica a queda nos números totais. O país, que responde por quase 43% dos embarques brasileiros de carne suína, comprou 115,8 mil toneladas de janeiro a junho.

Enquanto a Rússia perde espaço, cresceram as vendas para Hong Kong, Ucrânia, Argentina e Cingapura, segundo a Abipecs.

Hong Kong, aliás, já é o segundo destino da carne suína brasileira, com compras de 59.140 toneladas no primeiro semestre, aumento de 38,45% em relação ao intervalo de janeiro a junho do ano passado. Na avaliação da Abipecs, o crescimento das vendas para Hong Kong compensa a redução de embarques para a Rússia.

Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs, disse, em nota, que a recente abertura do mercado chileno às exportações de carne suína de Santa Catarina, "embora com atraso, ajudará o setor a superar as vendas de 2007". Acrescentou, porém, que "novos frigoríficos de Santa Catarina precisam ser incluídos na lista dos habilitados". O Chile habilitou apenas uma unidade do Mabella e outra da Aurora.

O dirigente está na China, onde visitou a China International Foodstuff Exposition (CIFE), com o objetivo de desenvolver parcerias com o setor importador de carne suína do país. Recentemente, a China reduziu o imposto de importação de carne suína, o que, para Camargo Neto, é sinal do interesse de Pequim em facilitar as importações. "Precisamos destravar a questão sanitária junto à autoridade da área na China. Esperamos obter mais informações em reuniões em Pequim nesta semana", disse em nota.


Mercosul

a) "Não venderei o Mercosul", diz presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a seu colega George W. Bush que não vai "vender o Mercosul" para que seja possível fechar o acordo que desbloqueará a Rodada Doha de liberalização comercial.

É uma alusão ao fato de que um dos principais pontos em discussão se refere ao tratamento a ser dado ao Mercosul na redução de tarifas para a importação de bens industriais.

Se for tratado como um bloco, aumenta a margem de proteção que pode oferecer a setores industriais. Se for cada país isoladamente, cai a proteção. O Brasil se diz confortável com o nível de abertura que está em discussão em Genebra, mas a Argentina exige mais.

É por isso que Lula diz que não "venderá" o bloco dos países sul-americanos. Na verdade, não "venderá" a Argentina.

Bush, de seu lado, mostrou-se tão disposto a levar os Estados Unidos a fechar o acordo que comentou com Lula que vai vetar a "Farm Bill", a legislação que regula os subsídios aos agricultores norte-americanos, fortemente protecionista.

A disposição dos dois presidentes não é nova. Desde que tomaram posse, manifestam empenho em fechar a Rodada Doha, lançada em 2001.

Mas a boa vontade retórica esbarra sempre em dificuldades práticas.

A nova manifestação dos dois ganha relevo por ter se dado a 12 dias de uma reunião entre ministros dos principais atores do comércio global, que tende a ser a última chance de encaminhar um entendimento antes de que as férias de verão no hemisfério Norte, seguidas pela reta final das eleições norte-americanas, coloquem Doha em hibernação.

Um segundo empurrão político veio do encontro entre Lula e o primeiro-ministro britânico Gordon Brown.

Em nota conjunta, dizem que se "está mais perto do que nunca de um acordo", mas que "a janela de oportunidade para alcançar esse acordo é pequena e está se fechando". Termina com um tom grave: "O preço do fracasso seria grande demais".

Organização Mundial do Comércio (OMC)

a) Brasil ataca novo texto da OMC para Doha

As negociações ministeriais na Rodada Doha, marcadas para o dia 21, não serão destravadas se prevalecer o texto divulgado ontem pela Organização Mundial do Comércio (OMC), a partir do qual terá início o debate em Genebra com representantes de 30 grandes potências comerciais. Os negociadores brasileiros não ficaram satisfeitos com a versão que trata da redução dos subsídios agrícolas dos países industrializados - principal reivindicação dos países em desenvolvimento, como o Brasil.

"A postura dos países desenvolvidos vai determinar a possibilidade de êxito da Rodada. Se chegarem com uma postura protecionista, vão contaminar o resultado da reunião", afirmou o subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Tecnológicos do Itamaraty, embaixador Roberto Azevedo.

Para ele, o Brasil deu sinais de que está disposto a fazer aberturas importantes de seu mercado para produtos manufaturados. "Mas não vamos fazer essa abertura sozinhos. Não vamos pagar a fatura da Rodada Doha sozinhos", afirmou.

Na avaliação do Itamaraty, o texto deixou uma margem para que os países industrializados não façam a abertura do mercado agrícola em áreas consideradas sensíveis. O embaixador disse que o documento deixa "hiatos importantes".

Azevedo acredita que o texto deixa alternativas que podem levar a resultados bons ou ruins tanto na redução dos subsídios quanto na expansão de cotas para importação de produtos agrícolas. "É difícil dizer o que vai sair da reunião." Por outro lado, foi considerado uma vitória o reconhecimento por parte dos países da OMC da condição especial do Mercosul. O texto que trata da abertura dos setores industrial e de serviços propõe que o limite de volume de comércio que terá regras mais flexíveis na aplicação da fórmula de degravação tarifária (ou seja, que poderá continuar com proteção maior) será determinado pelo Brasil.

Esse mecanismo possibilitará que mais produtos fiquem fora da abertura total de comércio. Como os sócios do Mercosul têm comércio restrito, eles chegariam rapidamente ao limite de linhas tarifárias estabelecido pela OMC, o que reduziria os benefícios para o Brasil, que tem o compromisso de aplicar a Tarifa Externa Comum (TEC) do bloco.

A reunião em Genebra foi convocada com o objetivo de concluir as negociações de liberalização do comércio mundial da Rodada Doha, que começou em 2001 e deveria ter sido concluída em 2004. Os emergentes pedem mais acesso aos mercados agrícolas dos países desenvolvidos, que querem uma entrada maior para seus bens industriais no resto do mundo. Nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, que ajude a destravar as negociações.

Para o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, "os textos revisados preparam o cenário para um momento decisivo da Rodada Doha". "Um acordo para a abertura do comércio agrícola e de bens implica mais crescimento, melhores perspectivas de desenvolvimento e um sistema comercial mais estável e previsível. Não devemos deixar escapar essa oportunidade", afirmou.

A Comissão Européia, órgão executivo da União Européia, considerou positivas as mudanças nas propostas, mas acredita que ainda há "importantes diferenças" a serem resolvidas. "Estamos comprometidos com essas negociações, mas necessitamos de esforços sérios de nossos sócios para alcançar um acordo equilibrado", disse o porta-voz do comissário de Comércio da UE, Peter Mandelson.

b) Com Mercosul dividido, OMC refaz propostas para Doha

O Mercosul irá dividido à reunião ministerial do próximo dia 21 em Genebra (Suíça), que pode ser a última chance de destravar ainda neste ano a Rodada Doha, de liberalização comercial. Ontem, a OMC (Organização Mundial do Comércio) apresentou uma revisão das propostas que servirão de base para o encontro.

O mediador da negociação industrial, Don Stephenson, reconheceu que restam divergências entre os países do bloco sul-americano. Ele frisou que o parágrafo que trata do Mercosul no texto apresentado ontem está sem colchetes, o que na linguagem diplomática significa que foi aprovado. "Mas não diria que há consenso", admitiu o diplomata canadense.

A origem do desacordo está em Buenos Aires. A Argentina não concorda com a fórmula proposta pela OMC -e aceita pelo Brasil- para calcular flexibilidades para as indústrias de uniões aduaneiras. Exige mais.

A fórmula, que usa como base o valor do comércio exterior do Brasil, permitiria ao Mercosul proteger até 14% de suas linhas tarifárias dos cortes de tarifas de importação aplicados a outros produtos. Embora o Itamaraty considere a proposta boa para todos os países do bloco, a relutância argentina poderá criar um impasse na negociação. Anteontem, no Japão, o presidente Lula deixou claro que, entre Doha e o Mercosul, o Brasil escolherá o segundo.

O Mercosul será só um dos pontos de atrito que os negociadores tentarão eliminar. Tanto na proposta de Stephenson como na do mediador de agricultura, Crawford Falconer, há vários itens sem acordo.

A aproximação do encontro dos ministros aumentou a polarização entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Ontem, ao discursar no Parlamento Europeu, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, culpou Brasil e China pelas dificuldades de um acordo.

"A Europa não pode continuar fazendo esforços se as outras grandes regiões do mundo não estiverem decididas a avançar", afirmou Sarkozy, que no início do mês assumiu a presidência rotativa da UE. "O Brasil não fez nenhum esforço para baixar as tarifas alfandegárias na indústria, não há qualquer esforço nos serviços. E o que se pode dizer do fechamento do mercado chinês?"

O governo brasileiro e outros países emergentes dizem o contrário: as negociações não avançam devido à resistência de países ricos, como a França, em eliminar os subsídios bilionários que concedem a seus agricultores. Os EUA, por sua vez, jogaram ontem a responsabilidade nos emergentes. "É hora de os grandes países emergentes darem uma contribuição para a abertura de mercados", disse Gretchen Hamel, porta-voz da representante de Comércio dos EUA.

No Brasil, a equipe de negociadores do Itamaraty passou a tarde de ontem analisando os papéis da OMC e avaliam que os documentos permitem "avanços concretos", mas isso ainda depende da atuação dos países desenvolvidos nas próximas reuniões.

"O texto em si não garante que os países desenvolvidos vão avançar. Se chegarem à reunião com uma postura protecionista, muito rígida, vamos ter grandes dificuldades", disse o embaixador Roberto Azevedo, principal negociador brasileiro no Itamaraty.

Plano Internacional

a) Presidente faz primeira visita oficial ao Vietnã

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou em Hanói para a primeira visita de um chefe de Estado brasileiro ao Vietnã, na estratégia de transformar 2008 no "Ano da Ásia" das relações externas do país. Lula ficaria menos de 24 horas em solo vietnamita, seguindo para o Timor Leste e, depois, a Indonésia.

A programação do presidente inclui uma cerimônia de oferenda de flores no mausoléu de Ho Chi Minh (1890-1969), considerado herói no país, que liderou o movimento pela independência e a quem a população se refere como "tio Ho". À tarde, Lula visita o general Vo Nguyen Giap, de 97 anos, que foi o principal estrategista militar das guerras contra os franceses e contra os americanos, ambas vencidas pelos vietnamitas.

O secretário de Relações Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, disse, ao chegar a Hanói, que a visita tem caráter econômico e político, mas também sentimental. "Muitos de nós do governo vivemos estimulados pelos feitos vietnamitas na busca da independência nacional, nos anos 60 e 70."

Lula embarcou para Hanói no Japão, onde participou da reunião do G8. Depois de cinco horas e meia de vôo, chegou ao hotel visivelmente cansado. Segundo Garcia, o presidente teve dez reuniões bilaterais durante o dia, além das multilaterais.

A agenda de Lula inclui reuniões separadas com o presidente vietnamita, Nguyen Minh Triet, o presidente da Assembléia Nacional, Nguyen Phu Trong, e o primeiro-ministro, Nguyen Tan Dung. O presidente fará uma visita de cortesia ao secretário-geral do Partido Comunista, Nong Duc Manh.

Na hora do almoço, Lula falará no seminário Brasil-Vietnã: Construindo Novas Parcerias, que terá a participação de empresários brasileiros e vietnamitas. A visita terá como resultado a assinatura de uma série de atos de cooperação econômica, política e tecnológica. Brasil e Vietnã estabeleceram relações diplomáticas em 1989, mas o primeiro embaixador brasileiro em Hanói, Italo Zappa, só foi nomeado em 1995. A distância entre os países começou a encurtar com o aumento do comércio bilateral, que está longe de ser expressivo.

O volume de trocas passou de 47 milhões em 2003 para US$ 322 milhões no ano passado, com superávit de US$ 116 milhões para o Brasil. Nos primeiros cinco meses de 2008, a soma das exportações e importações já atinge US$ 230 milhões.

A economia do Vietnã cresce na média de 7% ao ano há duas décadas e experimenta um boom de investimentos. Apesar da alta da inflação, 27% em junho, a perspectiva de longo prazo dos investidores é positiva.

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