07 a 11 de janeiro de 2008

Comércio Exterior

Resultados
Ministério identifica prioridades externas
Déficit comercial de têxteis cresce 1.864%

Agronegócio

Clima preocupa, mas safra de grãos deve confirmar recorde
Cotações do café têm forte alta mesmo com projeção de maior oferta no Brasil

Mercosul

Paraguai pode assinar acordo de residência
Dólar fraco afeta exportação de máquinas

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Governo recua e desiste de tarifa para importados

Plano Internacional

NY torce por ação enérgica do Fed
Crise no Quênia ameaça negócios de brasileiros




Comércio Exterior

a) Resultados

A balança comercial registrou um superávit de US$ 70 milhões na primeira semana do ano, com três dias úteis (dias 1º a 6 de janeiro). O resultado é a diferença das exportações de US$ 1,493 bilhão e das importações de US$ 1,423 bilhão. No período, as exportações tiveram, uma média diária de US$ 497,7 milhões, com queda de 0,3% em relação a janeiro de 2007, e as importações, de US$ 474,3 milhões, média diária 23,23% maior que janeiro do ano passado.

b) Ministério identifica prioridades externas

O Ministério da Agricultura concluiu um mapa que aponta as prioridades para melhorar a ação institucional do governo na abertura e consolidação de novos mercados para o agronegócio brasileiro.

O levantamento recomenda total prioridade a cinco países e regiões, além de sugerir apoio aos três complexos de produtos - carnes, sucroalcooleiro e soja - que registraram os maiores avanços do comércio internacional entre 2000 e 2006.

Realizado por três diretorias da Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio, o estudo mostra um forte crescimento nas vendas do agronegócio brasileiro para os 25 países da União Européia, China (com Hong Kong), Europa Oriental (inclusive Rússia) e Oriente Médio (16 países, mais Egito e Turquia). Os destinos foram agrupados por similaridades de hábitos de consumo e pela logística de transporte.

Prioridade absoluta, segundo os especialistas em comércio exterior, deve ser a consolidação do mercado europeu. Muito exigente com produtos brasileiros, a UE elevou as compras em US$ 6,6 bilhões, ou 85%, nos últimos seis anos, revela o estudo. Mesmo com a ameaça de barrar a importação de cargas nacionais sob a alegação de problemas sanitários, a UE comprou US$ 14,35 bilhões do agronegócio brasileiro em 2006.

Outro mercado fundamental, segunda a análise oficial, é a China, que, somada a Hong Kong, elevou em US$ 3,7 bilhões (422%) as compras do Brasil no mesmo intervalo. As aquisições saltaram de US$ 887 milhões para US$ 4,6 bilhões.

Uma das surpresas no comércio agrícola internacional para as empresas nacionais no período foi a Europa Oriental. A região, onde incluiu-se a Rússia, aumentou suas compras em US$ 3,4 bilhões (534%) de 2000 a 2006, chegando a um total de US$ 4 bilhões.

Os 16 países do Oriente Médio, além de Egito e Turquia, também se destacaram na análise do Ministério da Agricultura: elevaram as compras de US$ 920 milhões para US$ 4 bilhões (342%).

Também merece atenção especial o mercado dos Estados Unidos, segundo os especialistas. Sozinho, o país comprou US$ 3 bilhões do agronegócio nacional em seis anos, passando a responder por US$ 5,2 bilhões em importações - alta de 130% de 2000 a 2006.

Ao mesmo tempo em que realiza o mapeamento dos principais clientes do agronegócio nacional, a Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio prepara um ranking completo, dividido por países e produtos, com as barreiras tarifárias aplicadas aos produtos brasileiros e o ritmo de crescimento de consumo e qualidade de vida em cada mercado pesquisado.

O resultado preliminar do novo levantamento detectou a inexistência e a precariedade de alguns acordos comerciais e sanitários assinados pelo Brasil com mercados importantes. Os problemas impedem a venda de alguns dos principais produtos nacionais ao exterior.

O estudo também revela a feroz competição com o Brasil de outros fornecedores mundiais de produtos agropecuários. Relata, por exemplo, as dificuldades das empresas brasileiras em vender ao Japão, Coréia do Sul e Arábia Saudita por causa de acordos comerciais e sanitários firmados por esses importadores com EUA, Austrália e União Européia.

Os estudos, que serão apresentados a empresários para auxiliar o posicionamento estratégico das vendas mostram a necessidade de aumentar as ações de promoção, prospecção e marketing comercial no exterior.

c) Déficit comercial de têxteis cresce 1.864%

A indústria têxtil registrou déficit na balança comercial de US$ 648 milhões em 2007 - um crescimento de 1.864% em relação ao ano anterior, quando o saldo negativo ficou em US$ 33 milhões. As exportações cresceram de US$ 2,1 bilhões para US$ 2,4 bilhões, mas foram em muito superadas pelas importações, que passaram de US$$ 2,1 bilhões para US$ 3 bilhões. Os dados foram divulgados ontem pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), na semana de moda outono/inverno carioca, o Fashion Rio.

Para o presidente da Abit, Aguinaldo Diniz, o crescimento do déficit comercial se deu basicamente por causa das importações, principalmente, da China. "Esse crescimento nos preocupa, é um número relevante, mas temos um setor sólido e vamos reverter essa curva."

O acordo bilateral Brasil-China vigora desde 2006 e se encerra este ano. O setor têxtil quer garantias, como a desoneração fiscal da cadeia produtiva e o aumento da fiscalização alfandegária, para que o produto brasileiro possa competir em condições de igualdade. "Precisamos ter tratativas e métodos de controle para evitar subfaturamento, falsas classificações e triangulações na importação, que fazem o produto brasileiro ficar em desvantagem", ressaltou o diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel.

Gestor do Programa Estratégico da Cadeia Têxtil Brasileira (TexBrasil), Rafael Cervone, afirmou que a indústria têxtil brasileira não quer "competir com a China com produtos de massa". "Eles fazem isso bem. Queremos é negociar lotes menores, praticamente exclusivos, uma moda mais rápida, mais curta, e com a criatividade brasileira que eles não têm."

O setor têxtil brasileiro é formado por 30 mil empresas, gera 1,65 milhão de empregos no País e é responsável por 17,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da Indústria de Transformação.

Agronegócio

a) Clima preocupa, mas safra de grãos deve confirmar recorde

O risco de queda da produtividade em alguns pólos por conta da ocorrência do fenômeno climático La Niña e a queda da área de cultivo na região Sul levaram Conab e IBGE a ajustarem as projeções para a colheita de grãos no país nesta safra 2007/08, que começará este mês no Centro-Oeste.

Ainda que tenham divergências em relação aos números apresentados ontem, sobretudo no caso da soja, os analistas consideraram que até agora não há no horizonte motivos para "quebradeiras climáticas" generalizadas e, com os preços atuais das principais culturas - nos mercados externo e doméstico -, voltaram a prever uma safra em geral rentável.

Depois dos últimos levantamentos de campo, os números de Conab e IBGE para 2007/08 convergiram. Segundo a pesquisa da Conab, a produção brasileira de grãos alcançará o recorde de 135,8 milhões de toneladas, 0,8% mais que o previsto em dezembro e 3,1% acima do volume colhido em 2006/07 (131,7 milhões).

Já o IBGE passou a prever produção nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas de 135,7 milhões de toneladas em 2008, volume 1,2% menor que o estimado no mês passado mas 2,1% superior ao obtido em 2007 (133,2 milhões).

Apesar de acusar o "efeito La Niña" contido nos levantamentos, a soja continuará a ser o carro-chefe da safra nacional. O país deverá produzir, segundo os dados de ontem, 58,2 milhões de toneladas do grão, 0,4% menos que em 2006/07 mas 0,1% acima do previsto em dezembro, neste caso de acordo com as comparações da Conab.

Esta previsão, entretanto, é considerada moderada demais por muitos analistas. Renato Sayeg, da Tetras Corretora, acredita que a produção brasileira de soja não será inferior a 61 milhões de toneladas e que a colheita poderá alcançar as 62 milhões de toneladas hoje previstas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Destaca-se nas projeções de Conab e IBGE o bom avanço previsto para a produção brasileira de milho, que ganhou status no país depois que os Estados Unidos passaram a deslocar parte de sua imensa produção para a fabricação de etanol. Na safra 2007/08, o Brasil deverá produzir 53,4 milhões de toneladas, um aumento de 3,9% em relação ao volume de 2006/07.

As exportações brasileiras de milho, estimadas pela Conab em 10,8 milhões de toneladas no ano passado, um recorde histórico, deverão recuar para 9,5 milhões - 1,5 milhão de toneladas a mais que o estimado em dezembro para este ano. É um volume ainda distante do que se prevê para a soja em grão (25,5 milhões em 2007/08), mas já é superior às apostas dos analistas na virada do ano (8 milhões).

Entre todos os produtos pesquisados, o maior aumento relativo da produção está previsto para o trigo. Conforme a Conab, a colheita brasileira do cereal atingirá 3,831 milhões de toneladas, 71,5% mais que em 2006/07. Nas bolsas internacionais, o trigo subiu mais do que soja e milho e praticamente dobrou de preço em 2007, estimulando o plantio no Brasil - que permanecerá, mesmo assim, como um dos maiores importadores do mundo neste ano.

b) Cotações do café têm forte alta mesmo com projeção de maior oferta no Brasil

A produção brasileira de café para a safra 2008 deve ficar entre 41,3 milhões e 44,2 milhões de sacas de 60 quilos, de acordo com o primeiro levantamento feito pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em parceria com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No estimativa mais conservadora, o crescimento é de 22,4%; e na mais otimista, 30,9%, em relação ao ciclo 2007.

Do total a ser colhido no país, 76% dos grãos são do tipo arábica e 24% do robusta. Entre 5% e 10% do café colhido são considerados grãos de alta qualidade. Mas apenas cerca de 1,5 milhão de sacas são comercializadas como grãos especiais, com preços diferenciados, segundo Nathan Herszkowicz, diretor da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic).

Mesmo com o crescimento da produção no Brasil, maior produtor e exportador mundial, os preços tiveram forte alta nas bolsas ontem, puxados por compras de fundos. Em Nova York, os contratos para maio fecharam a US$ 1,3815 a libra-peso, alta de 410 pontos. Em Londres, os contratos para março fecharam a US$ 1.966 a tonelada, elevação de US$ 15.

Analistas internacionais são céticos em relação às estimativas feitas pelo governo brasileiro sobre. "Claro que o levantamento do governo serve como referência, mas sempre acrescentamos 10% a mais sobre a estimativa mais otimista", disse um trader. No mercado internacional, os analistas trabalham com uma produção brasileira entre 46 milhões e 48 milhões de sacas.

No mercado interno, as previsões ficaram dentro das expectativas. Segundo Sérgio Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, de Santos (SP), os números da nova safra devem passar por uma correção nos próximos meses.

"Hoje o cenário global para café está apertado. O mercado global cresce a uma taxa média anual de 1,5%. No Brasil, em média 5% por ano. Os estoques mundiais estão baixos. E o mercado também leva em consideração que a partir de 2009 o Brasil terá novamente um ciclo de baixa", afirma Carvalhaes, justificando o movimento de alta dos preços da commodity no mercado internacional. Contudo, a forte desvalorização do dólar sobre o real não tem estimulado os cafeicultores brasileiros a escoar sua produção.

Neste ano de 2008, a área de café em produção está estimada em 2,13 milhões de hectares, o que representa 92,6% da área total cultivada de 2,30 milhões hectares. Isso equivale a um crescimento de 1,68% em relação à safra anterior.

Minas Gerais mantém-se como maior Estado produtor de café do país, respondendo por 50,1% da produção nacional. O Espírito Santo segue na vice-liderança, com 23% do total. Minas é o maior produtor de café arábica no país e os capixabas são os maiores produtores de robusta.

No segundo semestre de 2007, o mercado esteve atento ao clima no Brasil. Um forte período de estiagem sobre as lavouras brasileiras, justamente no período de floração desses cafezais, gerou especulação de que a colheita poderia ser comprometida. Em Minas, a estiagem começou em março e se estendeu até meados de setembro e início de outubro. Mas as chuvas a partir de outubro ajudaram a reduzir o impacto negativo sobre os cafezais, sobretudo na região do Cerrado mineiro, onde o déficit hídrico foi compensado pelas áreas irrigadas.

Mercosul

a) Paraguai pode assinar acordo de residência

Acordos de residência semelhantes ao fechado entre o Brasil e Argentina podem ser ampliados em breve no âmbito do Mercosul. A idéia inicial, apresentada em 2002, era de que o acordo fosse válido em todos os países-membros. "Todos os países mostraram disposição de ratificar o acordo, só o Paraguai que não", diz a diretora do Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça, Marcilândia Araújo. "Mas, na semana passada, autoridades paraguaias disseram que poderiam aceitar o acordo. Deram seis meses para uma resposta."

b) Dólar fraco afeta exportação de máquinas

A taxa de câmbio tem inibido as exportações de máquinas agrícolas, o que deve aumentar a dependência que as vendas externas do setor têm dos países do Mercosul. Hoje, cerca de 50% dos embarques são feitos para países da América do Sul. A maior fatia é destinada à Argentina.

As compras feitas por países das Américas Central e do Norte, por exemplo, tendem a ser feitas nas fábricas que as multinacionais que atuam no Brasil têm na Europa ou na própria América do Norte. "A competitividade é mais baixa nas exportações feitas para fora da América do Sul. Não é apenas o câmbio que pesa, mas toda a cadeia: os portos, a tributação, a burocracia", diz Milton Rego, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Em 2007, foram exportadas 27 mil máquinas, número que pouco deve mudar neste ano. Por conta da crise no campo, o segmento registrou, em 2005, pela primeira vez na história, exportações superiores às vendas no mercado interno. Naquele ano, os embarques somaram 30,7 mil unidade e vendas internas de 23,2 mil. "No geral, o setor andou bem, mas a competitividade das exportações continua ruim", afirma o dirigente.

Entre 2006 e 2007, as exportações de máquinas agrícolas subiram 20,6%. Em volume financeiro, os embarques passaram de US$ 2,1 bilhões para US$ 2,4 bilhões, uma alta de 13,8%. No mesmo intervalo, a produção nacional de máquinas cresceu 41%, de 46 mil para 64,9 mil unidades. As vendas no mercado interno avançaram 49,2% de um ano a outro, passando de 25,6 mil para 38,2 mil máquinas.

O avanço dos preços dos grãos no mercado internacional também reforça a tendência de que os vizinhos do Mercosul ganhem ainda maior relevância nas exportações brasileiras do setor, afirma Rego. A Argentina, grande produtora de soja e trigo, compra cerca de 40% do que as fábricas brasileiras vendem ao exterior.

O mercado de colheitadeiras de cana ganhou impulso extra com a antecipação, de 2021 para 2014, do programa de eliminação da queimada nas lavouras de cana-de-açúcar de São Paulo. Ainda assim, parte da produção nacional dessas colheitadeiras deve continuar sendo vendida ao exterior. "O Brasil vai permanecer exportador e isso não deve mudar no curto ou no médio prazo. A capacidade instalada dá conta da demanda interna e muitos projetos de usinas acabaram sendo engavetados", diz Rego. América Central e Ásia são os principais compradores.

A capacidade instalada de colheitadeiras de cana é de pouco menos de mil unidades anuais. Somadas todas as categorias, foram produzidas 5,1 mil colheitadeiras em 2007, volume 120% superior ao do ano anterior. Mais da metade, ou 2,7 mil unidades, foi vendida ao exterior.

Para o setor de máquinas, mais do que atestar a recuperação da renda agrícola, o ano de 2008 servirá para para mensurar a recuperação da capacidade de investimento dos produtores, avalia o dirigente. Ainda que em 2007 o número de unidades produzidas no Brasil tenha subido na comparação com os dois anos anteriores, ainda está aquém do desempenho registrado em 2004, de 66,9 mil.

No momento, a perspectiva é otimista. A Anfavea projeta crescimento de 9,5% na produção, para 71,2 mil máquinas. O mercado interno deve absorver 44 mil unidades, uma alta de 14,9%.

Organização Mundial do Comércio (OMC)           

a) Governo recua e desiste de tarifa para importados

O governo recuou da decisão de adotar tarifas específicas, sobre a quantidade importada, para 11 tipos de produtos da pauta de Comércio Exterior. Fontes oficiais informaram que a Casa Civil assumiu ontem a missão de consertar a trapalhada do Ministério da Fazenda, que aproveitou o pacote de medidas para compensar o fim da Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF) para mudar a forma de aplicar o Imposto de Importação.

A iniciativa provocou fortes reações do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, além de setores empresariais. A Fazenda foi advertida que a medida desrespeita compromissos internacionais assumidos pelo governo brasileiro na área de comércio.

Nos próximos dias, a Casa Civil deverá apresentar a solução para anular a iniciativa, que ainda não entrou em vigor porque depende de regulamentação. Duas saídas estão em estudos. Uma delas seria a edição de nova medida provisória para anular o artigo 2º da MP 413, que muda a tributação, ou mesmo o texto integral. O problema dessa alternativa é que, desde sua publicação no Diário Oficial, no último dia 3, a MP 413 começou a tramitar no Congresso.

A outra solução seria resguardar o texto da MP 413 e enviar ao Congresso um projeto de lei anulando a aplicação das tarifas específicas. Dessa forma, não haveria problemas no restante da MP 413 - a mesma que aumenta a alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para instituições financeiras. O Ministério da Fazenda já havia prometido abortar a regulamentação do artigo 2º.

O imbróglio começou com a decisão precipitada do Ministério da Fazenda de anunciar o pacote sem consultar a Câmara de Comércio Exterior (Camex), que reúne os órgãos governamentais da área. A adoção de tarifas de até R$ 10 por quilo dos produtos de 11 capítulos da pauta importadora caiu como uma bigorna no Itamaraty e no Ministério do Desenvolvimento, que viram na mudança quebra de compromissos do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) e no Mercosul.

Em reunião, o chanceler Celso Amorim e o ministro interino do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, pressionaram o ministro interino da Fazenda, Nelson Machado, a anular a medida. O argumento da Receita de que a iniciativa era necessária para coibir o subfaturamento de importações foi derrubado pelo Itamaraty, que ponderou haver outros instrumentos para isso.

Do ponto de vista do Itamaraty, a iniciativa não passou de uma tentativa de adotar uma barreira tarifária para bens industriais, em um momento delicado para o Brasil nas negociações da Rodada Doha. Em algumas das categorias de produtos importados, a aplicação da tarifa de R$ 10 por quilo equivaleria a uma tarifa ad-valorem (porcentual sobre o preço) superior a 35% - o máximo que o Brasil pode cobrar, conforme compromisso assumido na OMC.

A Receita e a Fazenda tiveram de aceitar o fato de que não adiantaria calibrar o valor da tarifa para que não ultrapassasse os 35% nem a alíquota prevista na Tarifa Externa Comum (TEC), adotada pelo Mercosul. O Brasil não tem autorização para adotar tarifas específicas nem da OMC nem do bloco.

Plano Internacional

a) NY torce por ação enérgica do Fed

O Federal Reserve (Fed) poderá ser obrigado a acelerar o ritmo de queda do juro básico americano para evitar que a economia dos EUA entre em recessão. Em sua mais recente comunicação com o mercado - a ata da última reunião do Fomc, realizada em 11 de dezembro -, o Fed causou polêmica e alguma aflição ao argumentar que permaneceria "aberto" aos sinais vindos do lado real. A "abertura" oficial, ou seja, a dependência do quadro pintado pelos indicadores, ampliou a volatilidade dos pregões. Se de fato o Fed está "aberto", o relatório de emprego (payroll) divulgado na sexta-feira sugere a premência de o Fomc aumentar, já em sua primeira reunião do ano, marcada para o dia 30, o corte da taxa de 0,25 para 0,50 ponto. Mesmo a visão de um juro de 3,75% no final do mês não aliviou as apreensões despertadas pelo payroll.

Ao contrário da criação de 70 mil postos de trabalho prevista pelos bancos, a economia só conseguiu gerar novas 18 mil vagas, com a taxa de desemprego subindo de 4,7% para 5%. Para os grandes investidores, não há sinal de recessão mais eloqüente do que este. Como eles não sabem se o Fed estará, ao reduzir a taxa para 3,75%, reagindo tarde demais, trataram de vender ativos de risco e se refugiar nos títulos do Tesouro americano. As bolsas de Wall Street tombaram e os juros dos papéis de 10 anos caíram de 3,8947% para 3,8623%. O payroll é o principal indicador de atividade econômica observado pelo Fed. E, para azar dos mercados, nesta semana não haverá a divulgação de nenhum índice relevante de inflação. O que mais se quer saber agora é se a inflação já acusa a desaceleração econômica. Se os índices vierem dentro das expectativas dos economista, ou abaixo delas, o Fed pode com segurança aumentar a magnitude do corte do juro. Caso contrário, o Fed terá de permanecer "aberto", aguardando que os fatos decidam por ele, rezando para o ponto de não retorno não ter sido transposto.

Com exceção da Bovespa, que caiu 2,95% no dia 04 de janeiro, acumulando perda de 4,46% em três pregões, os demais segmentos do mercado interno não pioraram dramaticamente por causa das inquietações americanas. Os juros não subiram muito no mercado futuro da BM&F porque as projeções de CDI já estão excessivamente gordas. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, subiu de 12,67% para 12,74%. As taxas longas avançaram menos ainda. O CDI previsto para 2011 passou de 12,83% para 12,87%. O DI futuro dará esta semana total atenção à divulgação, na sexta-feira, do IPCA de dezembro, para o qual a mediana do Boletim Focus aponta alta de 0,66%. Confirmada essa expectativa, o IPCA terá acumulado em 2007 variação de 4,37%, ainda abaixo do centro da meta de inflação, de 4,5%.

A maior parte da alta registrada pelo dólar na sexta-feira - avançou 0,11%, cotado a R$ 1,7550 - pode ser atribuída à incerteza acerca da incidência de IOF sobre as operações fechadas no interbancário de Câmbio. Na dúvida sobre a necessidade legal de recolher 0,38% sobre cada operação de compra e venda de moeda feita no interbancário, o mercado literalmente travou. Normalmente, o giro diário de negócios costuma superar os US$ 3 bilhões, mas na sexta-feira não passou de US$ 200 milhões. Alguns bancos que fecharam negócios resolveram pagar o imposto, repassando o seu custo à cotação da moeda, o que explica a valorização da moeda. Outras instituições afastaram-se do mercado sob o argumento de que tal recolhimento iria caracterizar uma dupla tributação, já que se os exportadores e os importadores, clientes dos bancos, pagam o IOF, a operação não poderia ser alvo de nova cobrança no agente financeiro intermediário.

b) Crise no Quênia ameaça negócios de brasileiros

Os conflitos que já provocaram mais de 500 mortes nas últimas duas semanas no Quênia ameaçam enfraquecer o fluxo comercial do país com o Brasil e frear o crescimento acelerado das exportações brasileiras que quintuplicaram entre 2000 e 2007.

"O Quênia é um mercado estrategicamente importante para nós e evidentemente que as turbulências políticas podem afetar a atividade econômica, o que é preocupante", disse o diretor corporativo e da Randon, Astor Milton Schmitt. A empresa, de Caxias do Sul (RS), exportou em 2007 entre US$ 7 milhões e US$ 7,5 milhões, principalmente reboques e semi-reboques.

A Randon vende para o país há mais 15 anos e mantém uma unidade de montagem terceirizada em Nairóbi. Segundo Schmitt, os distúrbios não afetaram os funcionários da empresa local e, pelo menos por enquanto, não há indicações claras de que as vendas cairão. "Estamos acompanhado atentamente a situação e ainda vamos ter de medir as consequências".

Outra empresa que segue os desdobramentos da crise com especial preocupação é a CNH Latin America, com sede em Contagem (MG), e que tem no Quênia um de seus principais mercados do continente africano.

Em 2007, a empresa exportou 220 tratores para o país, 70 a mais que do ano anterior. O volume, segundo a empresa, representou algo em torno de US$ 5 milhões - ou 10% das exportações brasileiras no ano passado para o país.

Até outubro de 2007, as exportações brasileiras tinham somado US$ 47,2 milhões e devem ultrapassar os US$ 50 milhões. Durante 2006, as vendas foram de US$ 47,7 milhões - valores significativamente maiores que os do início da década. Em 2000 as exportações eram de apenas US$ 9,7 milhões.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio as cinco maiores exportadoras para o país em 2006 foram Scania, Randon, CNH, Olam Brasil e Souza Cruz.

Um porta-voz da CNH ouvido disse que a preocupação da empresa, em relação aos negócios, é que os conflitos que já forçaram 255 mil pessoas a deixarem suas casas pelo país leve a uma diminuição no ritmo da atividade agrícola, e consequentemente da demanda por máquinas e implementos. Entre os principais itens de exportação do Brasil estão tratores, reboques, chassis para ônibus, fumo e açúcar.

O setor agrícola responde por um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do Quênia - a maior economia do leste africano -, que foi de US$ 21,2 bilhões em 2006.

"A crise já afeta os negócios brasileiros", disse o encarregado de negócios da Embaixada do Brasil em Nairóbi, Henrique Jenné. A razão é que as perspectivas de que a economia do país cresça 8% este ano começam a ser duvidosas e uma desaceleração refletiria no apetite queniano por importados. O ministro das Finanças, Amos Kimunyam, estimou que o impacto da crise passe de U$ 1 bilhão. Em 2007, o país deve ter crescido entre 6,9% e 7%, ante 6,1% e 5,7% em 2006 e 2005, respectivamente.

Os distúrbios tiveram início logo após a eleição presidencial de 27 de dezembro, quando opositores do governo acusaram o presidente Mwai Kibaki de ter manipulado os resultados do pleito que deram a ele um segundo mandato, contrariando diversas projeções de vitória do oposicionista Raila Odinga. O resultado destravou sangrentas conflitos étnicas e provocou um êxodo de refugiados internos, atirando o país - cuja reputação era de estabilidade - num clima de incertezas e ameças institucionais e humanitárias.

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