02 a 06 de junho de 2008

Comércio Exterior

Resultados
Compra de máquinas cresce 40% no quadrimestre
Secretário vê retomada de exportações em maio
Brasil negocia com a Venezuela pacote de máquinas industriais
Lei nos EUA prevê taxa menor para importar etanol

Agronegócio

Trigo se descola e preço cai 11% em maio
Preços devem segurar a demanda por adubo

Mercosul

Uruguai quer ampliar bases do acordo automotivo com o Brasil
Cingapura quer fechar acordo de livre comércio com Mercosul ainda este ano

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Brasil precisa estar alerta para agenda "insidiosa" na OMC, diz Azevedo
País vence disputa por algodão e pode retaliar EUA
Negociações na Rodada Doha entram em crise. De novo.

Plano Internacional

Petróleo, imóveis e crédito vão preocupar os candidatos nos EUA
ONU ataca limitações impostas às exportações



Comércio Exterior

a) Resultados

Ajudadas pelo fim da greve dos auditores da Receita Federal, as exportações mostraram recuperação em maio e atingiram o maior valor mensal da história, de US$ 19,306 bilhões. Esse resultado elevou o superávit comercial que, pela primeira vez neste ano, teve desempenho mensal melhor na comparação com idêntico mês de 2007. O saldo atingiu US$ 4,077 bilhões, ante US$ 3,853 bilhões em maio de 2007. As importações também tiveram cifra mensal inédita, de US$ 15,229 bilhões.

Embora o resultado tenha sido influenciado pela regularização dos registros de exportação, que foram interrompidos pela greve de 54 dias dos auditores, encerrada em 12 de maio, o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, disse que há uma clara recuperação das exportações, sobretudo em razão dos preços internacionais das commodities.

Segundo ele, o impacto da greve nas exportações foi de US$ 1,2 bilhão. Esse valor foi registrado em maio, mas os embarques ocorreram em abril. Barral disse que, mesmo excluindo esse residual, as vendas externas em maio continuam recordes. "É uma retomada expressiva", disse.

No ano, as vendas externas somam US$ 72,05 bilhões, com alta de 22,2% ante o período de janeiro a maio de 2007. Até abril de 2008, a alta acumulada das exportações era de 13,6%. Os produtos que mais contribuíram para o aumento das exportações no ano foram soja, carne de frango, petróleo, aviões, óleo combustível, minério de ferro, farelo de soja, celulose e semimanufaturados de ferro e aço.

A greve da Receita represou o registro dos embarques de produtos básicos e semimanufaturados. Barral disse que, entre os produtos básicos, três foram responsáveis por 75% do aumento das vendas em maio nesta categoria: petróleo, minério de ferro e soja em grão. O efeito da greve fez com que o Brasil tivesse em maio um superávit comercial com a China de US$ 700 milhões, mas, no acumulado do ano, o Brasil ainda tem um déficit de US$ 1,45 bilhão.

O secretário avaliou que, em razão da recuperação das vendas externas, o superávit da balança comercial no ano pode melhorar. Até maio, o saldo comercial foi positivo em US$ 8,655 bilhões, mas esse valor representa uma queda de 47,3% em relação a 2007.

Para Barral, três fatores devem influenciar o aumento das exportações: políticas de estímulo da nova política industrial, aumento dos preços internacionais das commodities e início do embarque dos produtos agrícolas, que ocorre principalmente entre abril e outubro. Barral previu também que o Brasil deve retomar as exportações de petróleo, que caíram neste ano em razão da recomposição de estoques da Petrobrás.

Em junho, o Ministério do Desenvolvimento deve aumentar a meta de exportações para 2008, atualmente de US$ 180 bilhões. Barral admitiu, porém, que as importações continuam em ritmo forte, que desde o ano passado têm derrubado o superávit. Até maio, a alta é de 49,2% na comparação com 2007. Elas acumulam US$ 63,4 bilhões.

b) Compra de máquinas cresce 40% no quadrimestre

O consumo aparente (vendas internas, mais importações, menos exportações) do setor de máquinas e equipamentos subiu 40% no primeiro quadrimestre, comparado ao mesmo período do ano anterior, e chegou a R$ 28,2 milhões. O faturamento cresceu 30,3%, para R$ 23,5 milhões, segundo divulgou na semana passada a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos.

É o mercado doméstico que garante o crescimento da indústria, já que as importações de bens de capital para o Brasil, no acumulado de janeiro a abril, subiram 45,6%, chegando a US$ 6,2 bilhões, enquanto as exportações conseguiram avançar 8,4%, atingindo US$ 3,4 bilhões, de acordo com dados divulgados pela Abimaq.

A importação chinesa continua forte e já está entre as que mais avançaram, com alta de 88% no primeiro quadrimestre em comparação com o mesmo período de 2007. O número, no entanto, mostra uma desaceleração e já fez o país cair uma posição na lista de principais fornecedores este mês, para 4 lugar. Em 2007, as importações daquele país cresceram 120%.

"A China pode estar entrando em um processo parecido com o brasileiro, de brecar as exportações para segurar a produção para o mercado interno, bastante aquecido", analisou o presidente da Abimaq, Luiz Aubert Neto. Ele não acredita, no entanto, que isso indique uma tendência de queda e diz que as importações chinesas para o Brasil continuarão crescendo acima dos 80% este ano.

Enquanto as importações de bens de capital da China continuam quase dobrando no Brasil a cada ano, e as exportações do setor para os Estados Unidos, seu principal destino, vêm caindo na faixa dos 9%, os fabricantes nacionais apostam agora no potencial da América Latina para garantir competitividade no mercado internacional.

Para isso, a Abimaq já articula a criação de uma Associação dos Fabricantes de Máquinas e Equipamentos do Mercosul com os países vizinhos, unindo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

A aproximação da região é um plano recorrente na Abimaq, e ganhou novo impulso há três semanas, durante a 28ª Feira Internacional da Mecânica, realizada entre 13 e 17 de maio em São Paulo.

A criação da associação no Mercosul visa otimizar as relações entre os vizinhos, que têm um grande potencial, mas são pouco exploradas. "A América do Sul gastou US$ 20 bilhões em importações de máquinas e equipamentos no ano passado, sem contar o Brasil. O que nós vendemos para estes países não chega a 15% disso", afirmou Aubert.

Entre os dez principais destinos das exportações brasileiras de bens de capital, seis estão na América do Sul, e o crescimento das vendas para cada um desses países no primeiro quadrimestre variou entre 9,2% (na Venezuela) e 100,9% (Paraguai), comparados ao mesmo período do ano anterior.

c) Secretário vê retomada de exportações em maio

Os números da balança comercial, em maio, revelaram expressiva retomada do crescimento das exportações. Considerando as médias diárias, as vendas externas elevaram-se 22,2% de janeiro a maio. Nesse período, as importações aumentaram 49,2%, mantendo o forte ritmo das compras estimuladas pela cotação do dólar e pelo vigor do crescimento da economia. Nos últimos 12 meses (junho de 2007 a maio de 2008), as exportações cresceram 17,3%, ante 41,1% das importações.

O movimento dos embarques em maio fez com que as médias diárias dessem um salto. De janeiro a abril, elas foram 13,6% maiores que as do mesmo período em 2007. No caso das importações, o crescimento nos primeiros quatro meses do ano (43,6%) não foi muito menor que o do período janeiro-maio.

Na avaliação do secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, tem havido queda do saldo comercial devido ao aumento das importações, mas se espera a retomada do superávit porque as exportações vêm se recuperando e os preços das commodities subiram.

De janeiro a maio, a balança comercial registrou exportações de US$ 72,05 bilhões, importações de US$ 63,99 bilhões e saldo de US$ 8,65 bilhões. O diretor da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, prevê que, neste ano, o saldo será 45% menor que o do ano passado (US$ 40 bilhões). Sérgio Vale, economista da MB Associados, projeta queda ainda maior (47%) se forem mantidas as médias diárias de janeiro a maio.

Analisando apenas os números de maio, Barral alerta que eles têm grande influência da greve dos auditores da Receita Federal. Alguns embarques realizados em abril foram registrados em maio. No mês passado, as exportações foram de US$ 19,3 bilhões, as importações chegaram a US$ 15,23 bilhões e o saldo foi de US$ 4,07 bilhões.

Na comparação das médias diárias de maio, os crescimentos em relação a maio do ano passado foram de 55,6% (exportações), 71% (importações) e 16,4% (saldo). O secretário calcula em aproximadamente US$ 1,2 bilhão o "efeito greve". Mesmo descontando esse valor das vendas, os números da exportação foram "muito bons" na sua opinião, o que marca maio com recordes para todos os resultados mensais para exportações e importações.

Na análise dos nove produtos mais exportados de janeiro a maio, o governo informa que prevalece o aumento dos preços. Nos dois casos de queda das quantidades embarcadas - petróleo (28%) e farelo de soja (5%) - há expressivos saltos das cotações: 82% e 57%. Nos outros sete produtos, acumulam-se elevações de quantidades e preços: soja em grão (6%, 56%), carne de frango (15%, 29%), aviões (50%, 3%), óleos combustíveis (10%, 65%), minério de ferro (11%, 4%), celulose (21%, 23%) e semimanufaturados de ferro e aço (20%, 20%).

Segundo o governo, as exportações de produtos básicos, no ano, têm crescimento de 35,4% nas médias diárias. Pelo mesmo critério, as vendas de semimanufaturados elevam-se 22,3% e as de manufaturados são 13,2% maiores que as médias do mesmo período em 2007. Barral ressalta que, de janeiro a maio, os embarques para a China aumentaram 51,9%.

O crescimento das importações continua forte. Os bens de capital tiveram o maior aumento no período janeiro-maio: 47,6%, variação justificada por Barral pelo ritmo dos investimentos públicos em infra-estrutura e modernização do parque industrial. Seguem-se matérias-primas e bens intermediários (44,9%) e bens de consumo (40,5%). Entre os bens de consumo importados, os duráveis têm salto de 64,6% e as compras de automóveis são 117,2% maiores.

d) Brasil negocia com a Venezuela pacote de máquinas industriais

A pedido do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o Brasil já negocia com o país vizinho a venda de máquinas e equipamentos e consultoria técnica para um ambicioso programa, que prevê a construção, no país, de 200 fábricas estatais, de alimentos e bens de consumo. Reunidos na Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), empresários brasileiros que visitaram recentemente o país, para discutir com autoridades venezuelanas, estimam que os negócios a serem fechados devem somar entre US$ 100 milhões a US$ 150 milhões.

Os investimentos previstos nas fábricas em discussão com o Brasil somam cerca de US$ 200 milhões, segundo uma fonte diplomática. A articulação entre o setor privado brasileiro e o governo da Venezuela é feita pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento brasileiro, que abriu um escritório em Caracas, onde também se instalou um escritório da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária (Embrapa), que negocia com os venezuelanos assistência técnica e fornecimento de tecnologia e sementes.

"Um dos principais itens de exportação brasileira à América Latina sempre foi o de bens de capital (máquinas e equipamentos para a indústria)", comenta o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Reginaldo Arcuri. "O que estamos fazendo agora é um esforço mais coordenado", define.

Os venezuelanos já decidiram que querem a cooperação do Brasil para até 73 fábricas, e, desde março, discutem sete tipos de projetos para 11 unidades produtivas. Os projetos discutidos entre brasileiros e venezuelanos incluem fábricas de equipamentos para processamento de alimentos e de refrigeração industrial, de embalagens de vidro e metal, de tubos de PVC, de cartões de circuitos impressos e fundições e minissiderúrgicas.

Arcuri defende que "laços econômicos mais firmes" com os países vizinhos facilitarão a produção e troca de bens e serviços entre os países da região, que trariam vantagens para o Brasil. "No caso da Venezuela, interessa profundamente à região Norte", argumenta.

Pelo menos três empresas brasileiras estabeleceram contatos firmes com os venezuelanos para fornecimento de máquinas de processamento de frutas e beneficiamento de sardinhas, segundo relatório do último encontro da comissão criada pelos dois países para discutir a cooperação. Na próxima semana, representantes da ABDI encontram-se em Caracas, com integrantes do Ministério do Poder Popular para as Indústrias Leves e Comércio Exterior, encarregado por Chávez de criar a infra-estrutura industrial para produção estatal de bens de consumo.

Os empresários e técnicos trabalham para que, em 27 de junho, durante o encontro semestral dos presidentes da Venezuela e do Brasil, eles possam receber o relatório final das discussões e lançar um plano conjunto dedicado à construção das fábricas com apoio brasileiro. "Não estamos apenas tratando da venda de máquinas. É importante articular o conjunto: assistência técnica, treinamento de mão-de-obra, treinamento gerencial", acrescenta Arcuri. "A lógica do programa é ter algo mais completo que apenas a venda de máquinas, leite ou carne."

A indústria de alimentos é uma das prioridades da Venezuela, que hoje importa mais de 70% do que consome, principalmente da Colômbia. Os contatos até agora mantidos pelos empresários e o governo se dedicaram a sanar dúvidas para elaborar os projetos, cujos esboços deverão ser analisados na próxima reunião, segundo Mugnaini. As conversas com o governo já levaram a adaptações nos tamanhos de frigoríficos planejados pelas autoridades venezuelanas e a definições sobre futuras fábricas de latas em território da Venezuela. Até sondagens para importação de balanças rodoviárias, destinadas à fiscalização em estradas foram feitas, segundo o diretor da Abimaq. "São discussões que só avançam no contato pessoal, que é o que estamos fazendo", comenta.

Nos contatos com os venezuelanos, os dois governos identificaram "potencial de cooperação" na produção de leite e criação de gado leiteiro, produção de alimentos, medicamentos e tecnologia médica, e projetos industriais de base - os venezuelanos estão especialmente interessados nas indústrias de aço, alumínio e autopeças. Pelo plano desenvolvido na ABDI, no segundo semestre devem estar definidos os requisitos técnicos para os projetos industriais e as empresa candidatas às associações com os venezuelanos.

A ABDI vai contratar um instituto de tecnologia para dar suporte técnico à primeira fase do plano de cooperação, que começou com visitas de uma equipe técnica venezuelana para conhecer a política industrial e as empresas brasileiras, em maio, e deve ser concluída em 1º de agosto, com as decisão sobre as empresas brasileiras e a definição das fábricas de interesse da Venezuela. Para a segunda fase, de desenho dos projetos industriais e realização dos investimentos, o governo brasileiro sugeriu à Venezuela que contrate uma empresa de prestação de serviços especializados de integração de engenharia, para garantir a eficiência da construção e operação das novas indústrias.

e) Lei nos EUA prevê taxa menor para importar etanol

Dois senadores americanos introduziram lei que prevê redução na tarifa de importação sobre o etanol brasileiro de US$ 0,54 para US$ 0,45 por galão. A legislação da democrata Dianne Feinstein e do republicano Judd Gregg busca desfazer o estrago da Lei Agrícola americana, que reduz o subsídio sobre etanol (recebido pelas refinarias tanto para o etanol dos EUA como o importado do Brasil), de US$ 0,51 por galão para US$ 0,45. Mas a lei mantém a tarifa sobre etanol importado em US$ 0,54, tornando-o menos competitivo diante do etanol de milho.

A proposta dos senadores eliminaria o desincentivo da Lei Agrícola. "Acho que a legislação tem boas chances de passar, dado os preços recordes da gasolina e o fato de o etanol misturado ajudar a reduzir custos", disse Joel Velasco, representante da Única nos EUA. Não há previsão de quando a legislação entrará na pauta do Senado. Os senadores querem assegurar etanol mais barato e menos poluente que o de milho para as refinarias. "O petróleo chegou a US$ 130 e sobe todos os dias. Precisamos de combustíveis mais baratos e menos poluentes; no entanto, as refinarias pagam tarifa de US$ 0,54 por galão de etanol importado do Brasil e de outros países. Isso não faz sentido, dado o preço do petróleo e nossa oferta limitada de etanol", disse a senadora Dianne.

Agronegócio

a) Trigo se descola e preço cai 11% em maio

Praticamente na mesma sintonia de milho e soja desde o fim de 2006, o trigo se descolou em maio e encerrou o mês com a mais expressiva queda de preços no mercado internacional entre as oito principais commodities agrícolas negociadas pelo Brasil no exterior, segundo cálculos do Valor Data baseados nas médias mensais dos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) transacionados nas bolsas de Chicago e Nova York.

Pressionada sobretudo por sinais de recuperação da oferta no Hemisfério Norte, onde a colheita começa a ganhar fôlego em junho, a cotação média do trigo caiu 11,69% em Chicago em maio em relação a abril. Com o tombo, talvez amenizado pelas incertezas que cercam as exportações argentinas, o cereal deixou de acumular a maior valorização nos últimos doze meses entre as commodities pesquisadas - uma constante ao longo de quase todo o ano passado -, mas a alta ainda chega a 58,67%. Em relação à máxima histórica de 12 de março passado, o preço de sexta-feira foi quase 40% menor.

Em abril, quando todo o universo pesquisado perdeu sustentação, a maior baixa em relação às médias março já havia sido a do trigo (18,49%). "Houve um descolamento, e com isso as relações entre as cotações de soja, trigo e milho ficaram mais próximas de seu comportamento histórico. Nos últimos meses o trigo quase superou a soja em Chicago, o que não é normal", diz Élcio Bento, analista da Safras & Mercado.

Bento ressalva que a relação entre estoques finais e consumo globais continua muito baixa, o que reforça nele a crença de que há pouco espaço para novas retrações expressivas e que "o mercado encontrou um novo patamar de equilíbrio". Mas isso se as perspectivas de recuperação no Hemisfério Norte de fato se concretizarem, e isso depende, entre outros fatores, do clima na Austrália, onde a agricultura vem sendo prejudicada há anos por estiagens recorrentes.

Como não poderia deixar de ser, milho e soja também sofrem a influência do andamento das safras do Hemisfério Norte, principalmente a americana, mas em maio voltaram a "colar" no petróleo. Este esteve bastante volátil no mês passado, mas continuou estabelecendo novas máximas e carregando os grãos por sua influência nos preços dos biocombustíveis - etanol e biodiesel.

Daí porque o preço médio do milho, matéria-prima para a produção de etanol nos Estados Unidos, subiu 0,49% em Chicago na comparação entre maio e abril. Isso apesar dos baixos estoques globais do grão, cuja redução de mais de 10 milhões de toneladas na temporada 2008/09 foi confirmada pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) no início do mês. Incertezas climáticas americanas também colaboraram para oferecer suporte, mas o "nome do jogo" em maio foi petróleo.

Em Nova York, onde as "soft" commodities ainda se ressentem mais do aumento da participação de fundos de investimentos até pouco tempo atrás alheios ao mundo agrícola, o algodão caiu 1,14%, também sob a influência da safra americana, e o cacau subiu 3,15%, "dirigido" também pelo desenvolvimento das safras intermediárias africanas. Para açúcar, café e suco de laranja, também negociados em Nova York, o que se passou no Brasil esteve na mira dos traders no mês passado.

Na relação dos preços médios mensais, o açúcar recuou 4,27% em maio. "O mercado absorveu que existe pressão de oferta no curto prazo, alimentada por estoques elevados, inclusive no Brasil, o que é incomum", diz Julio Maria Martins Borges, da Job Economia e Planejamento. No médio prazo, acredita Borges, a tendência é de valorização, uma vez que a nova safra brasileira de cana será mais alcooleira e as pouco atraentes cotações do açúcar em 2007 desestimularam a produção em outros países, inclusive a Índia.

No café, o resultado da "disputa" entre especulação e fundamentos - nesta frente a safra brasileira concentrou atenções - foi uma discreta valorização de 0,46% em Nova York em maio, enquanto no suco de laranja o choque entre essas mesmas forças provocou queda de 2,15% em relação ao preço médio verificado em abril pelo Valor Data. E o suco segue como a única das oito commodities pesquisadas a registrar baixa nos últimos doze meses até maio.

Maurício Mendes, presidente da consultoria AgraFNP, expõe que, apenas pelo que apontam os fundamentos, não há muito espaço para recuperação no curto prazo. A produção americana de laranja continua em recuperação, os estoques estão maiores depois que o consumo naquele país arrefeceu após a disparada de preços entre 2004 e 2006 e mesmo no Brasil os sinais são de ampliação da oferta.

b) Preços devem segurar a demanda por adubo

Ainda superaquecida em abril, a demanda brasileira por fertilizantes começou a dar sinais de perda de fôlego em maio, em grande parte em virtude dos elevados preços praticados no mercado. Executivos do segmento admitem o efeito, mas reiteram que o encarecimento interno reflete uma tendência internacional que não deverá arrefecer nos próximos anos. Enquanto isso, o governo segue tentando facilitar importações e estimular um incremento da oferta no país.

Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), as entregas das misturadoras (as empresa que fazem o produto final) às revendas superaram as expectativas e atingiram 1,679 milhão de toneladas em abril, 28,5% mais que no mês de 2007. Parte do volume é destinado ao plantio de inverno, mas uma boa fatia já está reservada para a próxima safra de verão (2008/09). Prevaleceu em abril, conforme especialistas, a lógica de que os preços poderiam subir mais e o temor com a eventual escassez de nutrientes nos próximos meses.

No primeiro quadrimestre, as entregas alcançaram 7,106 milhões de toneladas, segundo a Anda, 20,3% mais que em igual perído de 2007. A indústria não espera que a elevação anual supere 10%, o que corrobora a tendência de arrefecimento. Até abril, a produção nacional subiu 5,9%, para 3,081 milhões de toneladas, e as importações cresceram 14,9%, para 5,261 milhões.

Mercosul

a) Uruguai quer ampliar bases do acordo automotivo com o Brasil

Após fechar o novo acordo automotivo com a Argentina, o Brasil entra na reta final de negociação de um entendimento semelhante com o Uruguai. As discussões passam pela renovação do acordo atual, que expira em 30 de junho, por um período de cinco ou seis anos. Sobre a mesa, também está a manutenção das cotas de exportação de veículos hoje em vigor e a inclusão de um sistema "flex", regime usado para administrar o comércio bilateral do setor, como existe com os os argentinos.

O Uruguai também quer incluir no acordo uma cota de exportação de carros blindados para o Brasil. Negociadores dos dois países têm reunião prevista para a próxima segunda-feira. Apesar de não ter a relevância comercial do acordo com a Argentina, a negociação com o Uruguai é importante em termos de integração da cadeia produtiva no Mercosul, segundo fontes do governo brasileiro.

Antonio Sérgio Martins Mello, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), disse que a entidade concorda com a renovação do acordo com o Uruguai por um período mais longo: "O importante é dar previsibilidade ao Mercosul e criar regras claras, o que é o melhor sinal para os investidores que querem se instalar na região", disse Mello.

Armando Meziat, secretário de desenvolvimento da produção do Ministério do Desenvolvimento (Mdic), disse que a negociação com o Uruguai busca chegar a um acordo que permita melhor equilibrar o comércio bilateral no setor automotivo. "Querermos dar condições para que o Uruguai possa exportar para cá (o Brasil)", disse. Ele entende que a inclusão no acordo de mecanismos de compensação pode atrair investidores brasileiros interessados em investir no Uruguai.

De janeiro a abril deste ano, o Brasil exportou US$ 116,3 milhões para o Uruguai, incluindo veículos (ônibus, automóveis e caminhões), autopeças, máquinas agrícolas e rodoviárias e outros itens do segmento - alta de 80% em relação a igual período de 2007. Só de automóveis foram 3.286 unidades no primeiro quadrimestre de 2008 por US$ 29,6 milhões - aumento de 48,5% na comparação com janeiro-abril de 2007. Em contrapartida, as importações brasileiras do Uruguai, na mesma comparação somaram US$ 5,5 milhões, com crescimento de 11,6% sobre 2007. Em automóveis, o Uruguai não vem exportando um veículo sequer para o Brasil.

Na visão de empresários e de fontes do governo uruguaio, o acordo com o Brasil permitiria equilibrar um pouco a balança comercial bilateral do setor e incentivar investimentos de longo prazo no país, que viu desaparecer a sua incipiente indústria automotiva após a crise de 2002. Só com um acordo válido por cinco ou seis anos seria possível atrair investimentos privados, inclusive do Brasil e Argentina, dizem as fontes.

Os uruguaios querem estabelecer no acordo o sistema flex, número que se aplica sobre o comércio automotivo para definir o limite das importações que podem ser feitas sem pagar imposto de importação. Hoje ele não existe no acordo com o Uruguai, mas no acordo renovado entre Brasil e Argentina, para cada dólar que o Brasil exportar para o vizinho poderá importar até US$ 2,5 sem imposto de importação. No caso argentino, o valor é de US$ 1,95.

Pelo acordo vigente, o Uruguai tem uma cota de exportação para o Brasil de 20 mil unidades por ano livre da Tarifa Externa Comum (TEC), entre automóveis e comerciais leves. Esta cota é virtual já que só agora o Uruguai está vendo renascer a produção de carros por meio da joint-venture sino-argentina Chery-Socma, que produzirá o modelo Tiggo, um esportivo-utilitário, para a exportação. O Brasil, por sua vez, tem uma cota de exportação de 6,5 mil unidades por ano sem a TEC. O que exceder o volume tem preferência tarifária e paga 6% para entrar no Uruguai enquanto um automóvel produzido na Europa é taxado em 23%.

A Chery-Socma utiliza as instalações da empresa Oferol, na grande Montevidéu, para produzir o veículo. Emprega 140 pessoas e tem capacidade para 25 mil carros por ano, segundo Oscar Ramos, responsável por assuntos institucionais da Chery-Socma. O primeiro embarque do Tiggo para a Argentina (45 unidades) será esta semana. O objetivo é também exportá-lo para o Brasil. A empresa também tem interesse em utilizar parte de sua capacidade para produzir carros blindados, por isso o Uruguai tenta incluir no acordo uma cota de exportação de 2 mil blindados por ano.

Os dirigentes dessa indústria não vêem com tão bons olhos uma relação com o Uruguai nas mesmas regras do entendimento com os argentinos. Essas empresas não têm fábricas em território uruguaio, e por isso a idéia de um flex não têm apoio das montadoras que estão no Brasil e na Argentina.

O pequeno mercado uruguaio nunca atraiu investimento industrial das montadoras que atuam no Mercosul há mais tempo. Até que, numa tentativa de "ajudar o vizinho mais pobre", um acordo no Mercosul fixou para o Uruguai conteúdo de peças locais menor do que nos demais países do bloco.

b) Cingapura quer fechar acordo de livre comércio com Mercosul ainda este ano

Cingapura é um país pequeno, mas com metas ambiciosas. O governo do país asiático, que ocupa um território de 707 quilômetros quadrados (pouco menor que Campinas, em São Paulo) e tem uma população de 4,59 milhões de habitantes, visita os países do Mercosul para costurar um acordo de livre comércio, que poderá ser selado ainda neste ano. Outro objetivo, mais ousado e difícil, é a assinatura de um acordo de livre comércio entre dez países do Sudeste Asiático e Mercosul, em encontro que será realizado com governantes dos 14 países envolvidos em novembro, em Brasília.

O plano foi divulgado em encontro entre o governo de Cingapura e empresários brasileiros. O ministro de Indústria e Comércio de Cingapura, Lim Hng Kiang, demonstrou descontentamento com a demora nas decisões da Rodada Doha. "Doha está parada. A alternativa encontrada para avançar nas relações internacionais foi fechar acordos de comércio, fechados com países da Ásia e com Austrália."

Cingapura mantém 13 acordos de comércio com países da Ásia e oferece essa facilidade de transação como atrativo aos países sul-americanos. "Essas são as regras do jogo. Os países se beneficiam dos acordos que Cingapura mantém com os parceiros da Ásia", afirmou o ministro. Da América do Sul, especialmente Brasil, o governo cingapuriano quer facilidades para o comércio de commodities agrícolas, produtos têxteis e energia, sobretudo etanol. O assunto foi discutido nessa semana em reunião com Lim Hng Kiang, o ministro do Desenvolvimento do Brasil, Miguel Jorge, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, e representantes da Secretaria Especial de Portos e da Receita Federal. Segundo o embaixador brasileiro em Cingapura, Paulo Alberto Soares, o governo brasileiro concordou em avaliar a adoção de um sistema tributário mais flexível para o país.

Lim Hng Kiang também informou que as empresas do seu país planejam investir no Brasil, sobretudo nas áreas de infra-estrutura, indústria farmacêutica e serviços voltados ao setor de tecnologia da informação. Cingapura tem um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 243 bilhões. Mas os acordos que mantém com países vizinhos (incluindo China e Índia) facilitam a abertura do Mercosul para um mercado potencial com PIB de US$ 8,78 trilhões - isso porque o país é uma das principais portas de entrada e saída de produtos na Ásia.

Em 2007, as importações de Cingapura alcançaram US$ 396 bilhões, mais que seu PIB. Desse total, US$ 110 bilhões foram com a Malásia, US$ 92 bilhões com a China, US$ 66 bilhões com Indonésia e US$ 54 bilhões com Japão. Os negócios com o Brasil foram bem mais modestos. Conforme dados da Secex, o Brasil exportou à Cingapura o equivalente a US$ 1,379 bilhão, 46% mais que em 2006. As importações aumentaram 1,75%, para US$ 1,209 bilhão. Neste ano, até abril, os embarques recuaram 9,7% em comparação com o primeiro quadrimestre do ano passado, para US$ 483,2 milhões. As importações aumentaram 34,5%, para US$ 460,5 milhões.

Entre os principais itens exportados estão petróleo, máquinas, carnes de frango, bovina e suína, café solúvel, barcos e equipamentos navais, catodos de níquel e ferronióbio. Na lista de importados estão circuitos integrados, partes e aparelhos de telefonia, óleos diesel, microprocessadores e outros produtos da área eletroeletrônica.

A balança comercial entre os dois países totalizou US$ 2,59 bilhões em 2007 e a perspectiva para este ano, segundo Lim Hng Kiang, é de que o comércio bilateral atinja US$ 3 bilhões, o que significaria um incremento de 16%. "O Brasil, como um dos Bric, tem um potencial imenso de negócios. Hoje o país é o 28º no ranking da nossa balança comercial, mas caminha rapidamente para se tornar o 25º", afirmou o ministro.

Organização Mundial do Comércio (OMC)           

a) Brasil precisa estar alerta para agenda "insidiosa" na OMC, diz Azevedo

O Brasil vai precisar estar cada vez mais está alerta para evitar a ampliação "insidiosa" da agenda da Organização Mundial do Comércio (OMC) que possa afetar a competitividade industrial brasileira, em meio ao reordenamento da produção global. É o que afirma Roberto Azevedo, subsecretário-geral de assuntos econômicos e tecnológicos do Itamaraty, que será sabatinado esta semana pelo Senado para ser o próximo embaixador do Brasil junto à OMC e outras organizações econômicas situadas em Genebra. O atual embaixador na OMC, Clodoaldo Hugueney, será embaixador brasileiro na China.

A tendência é de as regras da OMC terem impacto crescente sobre a competitividade, produção, emprego e renda do brasileiro, estima o embaixador. Ele prevê que uma das polêmicas futuras pode envolver mudanças climáticas, sobre custos da "descarbonizaçao" das economias - como as indústrias vão produzir com menor emissão de gases de efeito-estufa.

"Os países que mais poluem são os desenvolvidos, e descarbonizar suas economias tem um preço. Esses países não vão, provavelmente, aceitar que isso retire a competição deles. E vão procurar encarecer a produção dos outros países também", avalia o representante brasileiro.

"Embora aparentemente não tenha viés comercial, a questão climática tende a parar na OMC. Porque vão querer colocar taxas sobre os outros para equalizar o custo da descarbonizacao deles. Se sua indústria siderúrgica tem que pagar uma taxa adicional, vão certamente pressionar para que a indústria do Brasil e da China pague a mesma coisa, alegando que do contrário o aço deles vai sair mais caro. Como calcular essa taxa? Depende da qualidade da matriz energética. No Brasil, temos energia hidrelétrica, mais limpa, o que não é o caso de todo mundo", diz Azevedo.

O embaixador nota que a agenda sempre começa a ser delineada nos foros dos países desenvolvidos, como OCDE e G-8. "Depois do entendimento de como eles querem tratar o assunto, e como não pagarem a fatura, tentam levar o tema para a OMC de maneira meio camuflada", afirmou. Ele dá como exemplo o crédito à exportação na área industrial. Uma regra da OMC diz que o que for acertado na OCDE é automaticamente aplicado a todos os membros da OMC.

"A OMC talvez seja a única organização internacional que tem dentes, porque se o país entrar numa disputa, perder e não cumprir as determinações, está sujeito a retaliações", afirmou. "Muitas das questões polêmicas vão parar na OMC, sob pretexto de que estão relacionadas ao comércio".

Azevedo exemplificou que nos últimos tempos a OMC agiu em questões ambientais, como uso de pneu usado e uso de organismos geneticamente modificados; em questões de direito do consumidor, como rotulagem; em saúde animal e humana, em questões de propriedade intelectual etc. Além disso, países industrializados têm pressionado para incluir padrões trabalhistas no comércio.

Para o futuro embaixador em Genebra, o Brasil está preparado para enfrentar os desafios e não é a toa que faz parte hoje do núcleo central do processo decisório na OMC, mas será chamado a fazer mais. Estima que o país tenha capacidade de resposta rápida, em coordenação com o setor privado. "Agora, também há riscos, porque quando se está no centro das decisões tem que prestar contas para muita gente", alertou. "Não só dentro do país, para também para outros parceiros comerciais. A liderança vai ser questionada a todo o momento. É preciso reforçar o dialogo interno e externo. Não podemos apenas reagir bem. Precisamos propor bem, ser firmes na definição da agenda, como estamos fazendo em biocombustíveis".

Nesse cenário, Azevedo vê a Rodada Doha como essencial para corrigir distorções na estrutura produtiva global. "As rodadas sempre têm seu impacto. No passado, permitiram imensa produção de excedentes e isso concentrou a produção de alimentos numa meia dúzia de países desenvolvidos e nos emergentes mais extraordinariamente competitivos, que tem de competir com o tesouro americano, europeu, japonês."

O improvável é que ocorra também uma abertura significativa dos mercados dos países ricos, admite Azevedo. Mas ele avisou que o Brasil está "cobrando mais caro" para fechar um acordo agrícola em Doha. Brasília quer que os EUA se comprometam com corte maior dos subsídios. Na negociação de bens industriais, Azevedo lembra que os países ricos durante décadas desenvolveram sua indústria com proteção tarifária brutal, e considera "descabida" a pressão para os emergentes reduzirem suas tarifas ao nível dos ricos "da noite para o dia".

b) País vence disputa por algodão e pode retaliar EUA

O Brasil ganhou definitivamente na Organização Mundial do Comércio (OMC) o direito de retaliar os Estados Unidos devido aos subsídios americanos ilegais aos produtores de algodão. Ainda neste ano, a OMC decide que tipo de retaliação será permitida ao Brasil, que reservou o direito de aplicar até inéditas represálias contra direitos de propriedade intelectual de empresas dos EUA. Tanto o governo quanto os produtores brasileiros de algodão dizem preferir, em lugar de sanções, que os EUA aceitem acabar com os subsídios ao algodão, na Rodada Doha de negociações comerciais na OMC.

"Não há mais espaço para questionamento dos EUA: ganhamos mesmo o contencioso", resumiu o subsecretário-geral para assuntos econômicos e tecnológicos do Itamaraty, Roberto Azevedo. "A decisão nos respalda nas negociações de Doha", comemorou o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Haroldo Rodrigues da Cunha, que financiou os custos de US$ 3,5 milhões do processo na OMC. O setor privado lamenta, porém, que a recém-aprovada lei agrícola dos EUA mantenha os subsídios proibidos ao algodão (os congressistas cortaram em 1,6% o preço mínimo garantido pelos subsídios, mas criaram um "incentivo" de US$ 0,04 por libra para os fabricantes).

A manutenção dos subsídios, pelos americanos viola as regras internacionais de comércio, como assegurou o órgão de apelação da OMC, na decisão divulgada ontem - saudada "com grande satisfação" pelo Brasil segundo nota oficial do governo. Os Estados Unidos, devido às queixas do Brasil, chegaram a eliminar um dos programas, conhecido como Step 2, e fizeram mudanças administrativas em outros, mas, para a OMC, os subsídios à exportação continuam desrespeitando as regras da organização e o apoio interno aos produtores dos EUA causa graves prejuízos ao Brasil.

O governo brasileiro espera que a OMC adote a decisão do órgão de apelação até 22 de junho, quando o Brasil deverá entrar com um pedido para que os árbitros da organização definam o valor e as modalidades de retaliação permitidas, o que deverá acontecer em até 90 dias. Os cálculos iniciais dos produtores e do governo brasileiros apontavam para retaliações próximas a US$ 4,1 bilhões, que podem ser aplicadas sob a forma de elevação de tarifas para produtos importados dos EUA ou suspensão de direitos de propriedade intelectual. Os ministérios das Relações Exteriores e da Agricultura concordam que as retaliações devem, de preferência, trazer benefícios ao setor têxtil.

Segundo Cunha, da Abrapa, os produtores imaginam que o governo poderia retirar o pagamento de royalties sobre variedades de algodão (cultivares), sobre insumos ou tecnologias de produção. Ele comenta que há diferentes pontos de vista, no próprio governo, sobre as retaliações aos EUA. Enquanto o Itamaraty pesa com maior preocupação os possíveis efeitos negativos das retaliações, o Ministério da Agricultura é favorável a medidas mais severas, inclusive com a quebra de patentes.

Roberto Azevedo garantiu que o governo tomará todas as ações necessárias para cobrar dos EUA o cumprimento da decisão da OMC. A concordância com o fim dos subsídios, na Rodada Doha, poderia pôr fim ao contencioso, disse. Não há decisão ainda sobre as medidas de retaliação ou a data para serem aplicadas, informou.

Azevedo rejeitou as alegações, nos EUA, de que os altos preços atuais no mercado de algodão tornam inócua a condenação aos subsídios, que não têm sido acionados pelo governo. "O que interessa é o funcionamento do programa, que distorce as condições de produção e os preços internacionais", argumenta.

c) Negociações na Rodada Doha entram em crise. De novo.

A Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) voltou a entrar em crise profunda. O mediador das negociações para a liberação de produtos industriais, Don Stephenson, jogou a toalha dizendo que seria inútil continuar o processo por falta de entendimento.

De um lado, americanos e europeus querem amplo acesso aos mercados industriais e de serviços dos países emergentes para abrir seus mercados agrícolas. O países emergentes, entre eles Brasil, Argentina, África do Sul e Índia, se recusam a aceitar a liberação de mais de 50% sugerida pela OMC. Para esses governos, o que há sobre a mesa na agricultura não justifica a abertura de seus mercados industriais e de serviços.

"É hora de os países assumirem a responsabilidade e trabalharem para aproximar posições", disse Stephanson. "Enquanto não chegarem nesse ponto, me parece inútil convocar reuniões de negociações."

No fim de maio, o mediador apresentou o rascunho de uma proposta com a esperança de que uma reunião ministerial pudesse ocorrer em junho ou julho para fechar um acordo. Mas o processo caminhou para um lado indesejado e já não há nenhuma certeza.

"Durante a última semana de negociação, as coisas se degradaram. Ainda estamos muito distantes de poder apresentar um texto aos ministros", disse ele. As negociações começaram em 2001.

Plano Internacional

a) Petróleo, imóveis e crédito vão preocupar os candidatos nos EUA

É compreensível que John McCain e Barack Obama estejam focados em como vencer a eleição para presidente dos Estados Unidos, em novembro. Mas não é cedo demais para os candidatos e seus assessores analisarem a economia que o novo presidente herdará em janeiro de 2009.

O cenário feliz: a força das exportações americanas e o consumo incentivado pelos restituições extras de imposto de renda ajudam a economia, atualmente em marcha lenta, a evitar a recessão nos próximos meses. Quando o efeito do estímulo se esvai, a economia volta a se retrair no fim do ano. Mas se recupera em 2009, à medida que o valor dos imóveis e do petróleo se estabiliza. A ressaca dos consumidores continua; o sentimento do público sempre está um pouco atrasado em relação ao desempenho da economia. Mas, no fim do seu primeiro ano na Presidência, o vencedor da eleição poderá colher os louros de uma economia em recuperação. Ele não merecerá muito crédito, mas os presidentes sempre recebem mais crédito ou culpa pelo desempenho da economia do que realmente merecem.

A economia americana mostrou uma resistência impressionante nos últimos anos, e dados recentes levaram os analistas a diminuir as chances de uma recessão geral e passarem a prever um crescimento lento, mas positivo. Mas contar com um desfecho feliz quase sempre é imprudente, ainda mais diante da natureza incomum das atuais ameaças.

Então o pessoal de McCain e de Obama deve ficar atento. Aqui estão alguns dos fatores mais preocupantes:

1. Habitação. A economia não pode se recuperar enquanto o valor dos imóveis, as vendas e construção de novas casas continuarem a cair, puxando consigo o resto da economia. "Até que o mercado imobiliário, particularmente o valor das casas, dê sinais mais claros de estabilização, continuarão os riscos negativos para o crescimento", disse esta semana Ben Bernanke, presidente do Fed, o banco central americano. Há poucos indícios dessa "estabilização".

Uma nova ameaça surgiu: a elevação dos juros dos financiamentos imobiliários, um sintoma da ansiedade do mercado em relação à inflação crescente. A taxa média para um empréstimo de 30 anos e juros fixos que pode ser garantido pelas financeiras Fannie Mae e Freddie Mac, avalizadas pelo governo, era terça-feira de 6,19%, ante 5,99% um mês atrás, segundo a HSH Associates, firma de pesquisa econômica. Para empréstimos grandes demais para serem garantidos pela Fannie e a Freddie, os juros eram de 7,4%, ante 7,28% no período citado.

Juros altos sufocam os refinanciamentos, dificultam que os candidatos a compradores fechem negócio e, no âmbito geral, prejudicam o valor dos imóveis e desencorajam a construção de novas unidades.

2. Petróleo. Já sufocada pelo estouro da bolha imobiliária e os problemas de liquidez no mercado de crédito, a última coisa de que a economia americana precisa é de uma alta persistente no petróleo. Sim, a economia dos EUA usa os recursos energéticos de maneira muito mais eficiente do que na década de 70. Mas o barril a mais de US$ 120 e a gasolina acima de US$ 4 o galão (US$ 1,06 por litro) estão achatando os lucros e retraindo o consumo em outras áreas. É simplesmente muito difícil ficar otimista com a economia se o petróleo continuar subindo.

A alta do petróleo - especialmente numa era de inflação nos alimentos - também contribui para a psicologia inflacionária, ou seja, a expectativa de que os preços subirão ainda mais rapidamente. O Fed espera que o crescimento do desemprego e outros fatores negativos aliviem a pressão por reajustes nos salários e nos preços, antes que a credibilidade do banco central no combate à inflação seja desmoralizada. Mas, até agora, isso ainda é uma esperança e não uma realidade. Se a inflação piorar, o Fed pode ser forçado a ponderar um aumento dos juros antes do que preferiria e mesmo se a economia não estiver melhorando.

Um fim para o declínio do dólar poderia ajudar a conter os reajustes nas importações e facilitar o trabalho de equilibrar a inflação com o crescimento; é por isso que Bernanke rompeu com a tradição e ofereceu nesta semana uma mãozinha para o dólar.

3. O aperto de crédito. Por um momento, parecia que Wall Street estava se recuperando da febre do início do ano. Mas a forte queda na ação do Lehman Brothers - o banco de investimento que parecia ser o próximo dominó a cair quando o Bear Stearns entrou em colapso, em março - é um recado de que nem tudo vai bem. O resultado é que ainda é cedo para decretar que o pior já passou no aperto de crédito.

A relutância ou a simples incapacidade dos bancos de emprestar prontamente é uma grande ameaça à economia, que depende dos financiamentos para alimentar o consumo. A crise do financiamento atingiu em cheio o setor imobiliário, mas o resto da economia não parecia dar sinais de retração do crédito - até pouco tempo atrás. As vendas de automóveis agora estão muito menores e, nas entranhas dos dados oficiais, é possível notar demanda menor por produtos mais caros, que as pessoas só compram quanto têm acesso ao crédito.

O cenário otimista demanda que esses três pesos sejam retirados da economia para que seu vigor natural possa sobressair. "O principal risco é que esses pesos não sejam retirados e a economia volte ao estágio em que estava antes do pacote de estímulo - estagnada e à beira da recessão", diz Laurence Meyer, economista focado em previsões e ex-diretor do Fed, que rebaixou sua estimativa para 2008 mas continua otimista em relação a 2009.

Talvez o novo presidente seja sortudo e todos os três pesos se dissipem no início de 2009. Mas contar com isso não seria uma jogada muito sagaz.

b) ONU ataca limitações impostas às exportações

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu durante seu discurso na reunião da FAO que a produção de alimentos seja duplicada até o ano de 2030 para superar a atual crise mundial.

Durante a abertura do evento, Ki-moon rejeitou as limitações impostas às exportações por alguns países, que podem "distorcer os mercados e aumentar os preços" e defendeu a suspensão dessas restrições às exportações a todas as nações que as impuseram.

Também pediu que o ajuste do comércio e das políticas fiscais sobre a agricultura esteja ligado a uma rápida resolução das negociações na Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), e a um maior investimento na agricultura de todo o mundo.

O secretário-geral da ONU calculou em entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões o esforço anual que deverá ser realizado pelos países em desenvolvimento e pelos doadores para poder dobrar a produção mundial de alimentos.

O principal diretor da ONU lembrou que existem 850 milhões de pessoas famintas no mundo, e que o Bird (Banco Mundial) previu que esse número pode aumentar em cem milhões nos próximos anos caso não sejam tomadas as medidas necessárias conter o problema.

– Todos os senhores conhecem a severidade e a escala da atual crise mundial. As ameaças são óbvias – disse o secretário-geral aos delegados dos 191 países que participam da cúpula.

O secretário ressaltou que a reunião é uma oportunidade para revisar as políticas, que devem tanto "responder imediatamente aos altos preços" quanto "aumentar a segurança alimentar mundial a longo prazo".

O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), Jacques Diouf, anunciou que são necessários US$ 3 bilhões anuais para garantir a alimentação de 862 milhões de pobres e reiterou as críticas à política protecionista de alguns países.

Diouf advertiu que, se "as decisões valentes que as circunstâncias atuais exigem" não forem tomadas rapidamente, as medidas restritivas à exportação adotadas por alguns países produtores, as repercussões da mudança climática e a especulação no mercado futuro "colocarão o mundo em situação perigosa".

– É importante entender que hoje não é mais o momento de apenas falar, mas de agir – recomendou Diouf ao calcular em US$ 3 bilhões anuais os recursos "que permitirão descartar definitivamente os conflitos que surgem no horizonte devido à crise alimentícia".

O problema da segurança alimentar é "de caráter político". Trata-se de uma "questão de prioridades diante das necessidades humanas mais essenciais" e a distribuição dos recursos dependerá de decisões dos governos, disse.

Diouf convidou todos a um "diálogo franco", que vá além dos "interesses a curto prazo das partes". Segundo ele, essa é a única forma de abordar os desafios da mudança climática, da bioenergia, das doenças, da fauna e flora, dos produtos e bens agrícolas.

O diretor-geral da FAO criticou o fato de, no auge da luta contra o aquecimento global, os países desenvolvidos terem disponibilizado US$ 64 bilhões para tentar conter as emissões de carbono, mas, por outro lado, não concederam financiamentos para evitar o desmatamento.

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