01 a 05 de dezembro de 2008

Comércio Exterior

Resultados
Ritmo na compra de máquinas cai de 48% para 10%
Negociação entre Brasil e UE pode render bilhões de dólares a mais a exportadores
Brasil vira alvo de exportadoras de aço
Queda da moeda brasileira segue desvalorização das commodities

Agronegócio

Exportador de frango está mais preocupado
Despenca prêmio do boi certificado para a UE
Horizonte pessimista para o algodão
China reabre mercado para frango brasileiro
Exportação agrícola sente os efeitos da crise mundial

Mercosul

Na OMC, Argentina rejeita proteção apenas temporária para sua indústria
Brasil acredita em acordo entre sócios do Mercosul
Negociação acirra debates no Mercosul
Argentina lança pacote de US$ 3,8 bi

Organização Mundial do Comércio (OMC)

Amorim vê risco de novo fracasso em Doha
Índia avisa que não fará concessões na negociação da Rodada Doha

Plano Internacional

Camex dá aval federal para Mectron vender mísseis ao Paquistão
Para ex-presidente do México, retomada da economia ocorrerá no início de 2010



Comércio Exterior

a) Resultados

A crise financeira internacional, seus efeitos sobre o câmbio e o petróleo, além das chuvas que castigam o estado de Santa Catarina (porto de Itajaí), atrapalharam o fluxo de comércio do Brasil com o resto do mundo em novembro. Na comparação com outubro, exportações e importações caíram. O saldo da balança comercial sentiu o baque e registrou superávit de apenas US$ 1,613 bilhão — 20,14% menor do que novembro de 2007 (US$ 2,020 bilhões). No acumulado de janeiro a novembro, o saldo é de US$ 22,433 bilhões — 38,36% menor do que o registrado em igual período do ano passado (US$ 36,395 bilhões).

As exportações amargaram queda de 12,3% em relação a outubro, chegando a US$ 14,753 bilhões. Já as importações recuaram no mês passado 16,5%, totalizando US$ 13,140 bilhões. Os dados, divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, indicam que o Brasil perde fôlego mês a mês e que dificilmente conseguirá cumprir a meta de exportar US$ 202 bilhões em 2008. “Se não alcançarmos, vamos chegar muito perto. Acredito em pelo menos US$ 200 bilhões” disse Welber Barral, secretário de Comércio Exterior. Até agora, o resultado parcial ponta para um saldo (em 12 meses) de US$ 198,356 bilhões. Em 2007 as vendas externas chegaram a US$ 160,6 bilhões.

Com as turbulências nos mercados, muitas das previsões feitas pelo governo acabaram não se confirmando. No caso das exportações, a expectativa inicial era vender US$ 16,493 bilhões, mas o resultado efetivo ficou em US$ 14,753 bilhões — diferença de US$ 1,740 bilhões. Com as importações ocorreu fenômeno semelhante. A previsão oficial era de que o país comprasse US$ 17,305 bilhões em mercadorias ao longo de novembro, mas o montante final foi de US$ 13,140 bilhões — desequilíbrio de US$ 4,165 bilhões.

Entre as principais causas que ajudam a explicar esse descompasso nas expectativas, o secretário Welber Barral destacou a queda livre do preço do barril do petróleo como a mais decisiva. “Foi a principal razão, sem dúvida,” resumiu. A cotação em baixa prejudicou as exportações brasileiras e deverá ser responsável por uma redução nas vendas do produto em dezembro entre US$ 600 milhões e US$ 1 bilhão. Em novembro, a desvalorização do petróleo frustrou exportações da ordem de US$ 600 milhões.

A escassez de crédito e a retração da demanda em determinadas regiões do planeta tendem a contribuir para a piora do cenário econômico internacional no curto prazo, reforçou o secretário Welber Barral. O sobe-e-desce do câmbio também é um fator que preocupa o governo. “Instabilidade do dólar causa efeitos nas exportações e nas importações?, completou Barral. O câmbio, em particular, repercutiu mal sobre as importações de matérias-primas e bens intermediários em novembro. Só em bens de capital, houve uma queda das importações da ordem de 12,3% — fruto da substituição desses itens por produtos nacionais. Em novembro de 2007, quando o câmbio estava baixo, as compras de máquinas e equipamentos registraram um aumento de 11% em relação a outubro daquele ano.

b) Ritmo na compra de máquinas cai de 48% para 10%

As importações brasileiras de bens de capital tiveram uma desaceleração brusca em novembro. Depois de crescer 48,6% no acumulado de janeiro a outubro, as compras externas desses produtos avançaram apenas 10% no mês passado sobre novembro de 2007, na comparação da média diária, segundo números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Para os economistas, é um indicador de que as empresas brasileiras reduziram o ritmo de seus investimentos, preocupadas com a crise internacional. Em relação a outubro deste ano, as importações de bens de capital chegaram a cair 12% em novembro também pelo valor da média diária das importações.

Três fatores atuando em conjunto explicam o mau desempenho das importações de bens de capital no mês passado: a desconfiança do empresariado em relação ao crescimento da economia brasileira, a retração do crédito provocada pela crise e a desvalorização do real. A compra de máquinas e equipamentos é muito sensível à disponibilidade de crédito, porque se trata de um investimento vultoso para as empresas. A instabilidade do câmbio também prejudica esse tipo de negócio. Se o empresário acredita que o real pode voltar a se valorizar, prefere adiar a importação de uma máquina.

Houve um colapso nas expectativas do empresariado, disse Júlio Sérgio de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), ressaltando que esse é o fator preponderante para a redução da importação de bens de capital e, consequentemente, dos investimentos. Na sexta-feira, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgou que o Índice de Confiança da Indústria (ICI) caiu 19,4% entre outubro e novembro de 2008, ao passar de 104,4 para 84,1 pontos, o nível mais baixo desde julho de 2003, na série com ajuste sazonal. Para Almeida, esse indicador e a desaceleração da importação de bens de capital se complementam.

A economista Thaís Marzola Zara, da Rosenberg & Associados, nota que as empresas estavam investindo com força por conta da perspectiva de continuidade do crescimento a taxas mais robustas. Com a expectativa de que a expansão em 2009 será bem mais modesta, devido aos efeitos da crise global, o principal motivo para a expansão ficou comprometido, afirma ela.

A importação de bens de capital é um dos principais motores da formação bruta de capital fixo (FBCF, que mede o que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos). Thaís também ressalta o papel da retração do crédito e da desvalorização do câmbio na desaceleração das compras de bens de capital em novembro. Para ela, os investimentos já em curso devem continuar a ser feitos, mas novos projetos de expansão da capacidade produtiva podem ser postergados num cenário de incerteza em relação ao futuro da economia.

Para o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, a desaceleração no ritmo das importações de bens de capital indica a tendência de arrefecimento do investimento no país. Para o terceiro trimestre, a consultoria estima que a formação bruta de capital fixo tenha crescido 18,2% em relação ao mesmo intervalo de 2007 e 5,5% em comparação com o segundo trimestre deste ano. Já para o quarto trimestre, a expectativa é que o ritmo de expansão caia pela metade, com incremento de 9% sobre o mesmo período do ano passado - a menor taxa desde o segundo trimestre de 2006 - e queda de 3% na comparação com o terceiro trimestre.

Thaís considera difícil que haja recuo na comparação do quarto com o terceiro trimestre, devido à perspectiva de continuidade dos investimentos que estavam em curso. Mesmo assim, diz que haverá uma desaceleração contundente da formação bruta de capital fixo entre outubro e dezembro deste ano.

A confiança do empresário despencou e essa redução nos investimentos é generalizada, é percebida no setor de bens de capital, bens intermediários e de consumo, afirma Borges. Para o ano, ele estima que a formação bruta de capital fixo cresça 14,7%, dado o bom desempenho nos trimestres anteriores, que cresceram na casa de 16%. Mas para 2009 a expectativa é que o investimento tenha incremento de 3%. O ritmo deve se manter bem lento, podendo haver uma recuperação só no fim do primeiro semestre. Thaís estima alta de 13,5% para a FBCF neste ano e de 3% em 2009.

c) Negociação entre Brasil e UE pode render bilhões de dólares a mais a exportadores

A barganha entre o Brasil e a União Européia (UE) sobre cotas para produtos agrícolas brasileiros está praticamente definida, a partir de um acordo de liberalização pela Rodada Doha, podendo render alguns bilhões de dólares adicionais de exportações para o mercado europeu. Com este cenário bem encaminhado, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e a nova comissária européia de Comércio, Catherine Ashton, tiveram um almoço de trabalho em Genebra e enfatizaram a determinação de negociar um acordo agrícola e industrial até o fim do ano, o que julgam bom para a humanidade.

Em entrevista coletiva, Amorim e a comissária indicaram convergências de vistas e demonstraram um prudente otimismo. Estamos no mesmo barco, disse Amorim. Sem renunciar a nossos interesses e dos grupos que representamos, o Brasil e a UE podem contribuir numa ampla medida para a conclusão de um acordo. Até recentemente era mais fácil ver uma coletiva do Brasil e da Índia juntos, aliados no G-20, atacando a União Européia e os Estados Unidos. Amorim disse esperar que logo o ministro indiano, Kamal Nath, e a americana, Susan Schwab, se juntem no mesmo esforço.

A grande barganha entre o Brasil e a UE foi delineada em julho, na tentativa de conclusão de um acordo em Doha. A UE e outros importadores desenvolvidos encaminham para designar 4% de suas linhas tarifarias agrícolas como sensíveis, que terão menor corte. Em contrapartida, terão de compensar os exportadores oferecendo pelo menos 4% de expansão das cotas desses produtos, ou seja, com tarifa menor.

Nesse caso, a cota para frango congelado na UE ficará por volta de 200 mil toneladas e a de frango processado em 70 mil. O Brasil pode abocanhar grande parte desse mercado, o que representa cerca de 900 milhões de euros em valores atuais. Além disso, o Brasil já tem uma cota específica na UE para frango salgado, de 170 mil toneladas, com taxa de 15,4%. Por acordo na OMC, as tarifas serão homogeneizadas, declinando para menos de 10%.

Quanto à carne bovina, as cotas podem chegar a 135 mil toneladas para a refrigerada e 165 mil toneladas para a congelada. Por valores atuais, significa um comércio de pelo menos 1,3 bilhão de euros. A tarifa intracota declinará de 20% para 10%. O Brasil tem uma cota pequena de carne bovina para industrialização, que paga 20% mais 2.138 euros por tonelada, mas isso deverá ser reduzido igualmente. Também será importante a nova cota para carne suína, de 200 mil toneladas, que pode representar 600 milhões de euros de negócios. O país quer obter uma fatia importante.

No caso de açúcar, o volume pela cota será de apenas 600 mil toneladas globalmente, rendendo 180 milhões de euros. Os principais beneficiários serão países pobres. Daí porque o Brasil coloca força na cota para seu etanol. A barganha também está definida. Como o Jornal Valor já revelou, a discussão ficou numa cota progressiva, de 4% a 10% do consumo doméstico europeu em sete anos, rendendo negócios não inferiores a 1 bilhão de euros.

Como a UE criará nova cota no caso do etanol, a tarifa deverá ser zero, pelo que se deduz da negociação na OMC. Na coletiva em Genebra, a comissária Catherine Ashton disse que as negociações prosseguem entre o Brasil e a UE sobre etanol. Na verdade, a discussão voltará a ocorrer envolvendo também países como os Estados Unidos e o Japão, mercados nos quais o Brasil quer uma fatia.

Na área industrial, a posição da UE é bem mais moderada que a dos EUA sobre acordos setoriais, para acelerar eliminação tarifária. Bruxelas parece demandar mais para apoiar o parceiro americano.

Na entrevista, Amorim conclamou os parceiros a impulsionarem por um entendimento, porque, disse, estamos chegando a um ponto em que não podemos ficar medindo ganho de 1% aqui ou lá e de US$ 10 ganhos aqui ou lá, temos que comparar com a grande perda que seria para toda a humanidade no caso de um fracasso.

A comissária Ashtom insistiu que a liberalização comercial é parte da solução e não dos problemas provocados pela crise atual. E como há países que persistem com seus problemas específicos, sinalizou a disposição européia de buscar soluções para Índia, Argentina e outros, para se juntarem a um acordo.

Amorim repetiu que o Brasil apoiará uma solução específica para a Argentina na OMC, indicando que eventual proteção maior para os argentinos deveria ser depois acomodada no bloco.

d) Brasil vira alvo de exportadoras de aço

A China, maior produtor mundial de aço, almeja entrar com mais apetite no mercado brasileiro de produtos siderúrgicos. Depois de ver suas exportações crescerem 72% de janeiro a outubro deste ano comparado com igual período em 2007, as usinas chinesas fazem planos para ocupar mais espaço no próximo ano, informou Zhu Bingwei, consultor e especialista do setor da Steel Business Briefing na China.

De acordo com o especialista, os preços no Brasil, principalmente de aços planos de maior valor agregado, como chapas galvanizadas para construção civil, eletrodomésticos e outras aplicações, são bem mais atrativos do que os existentes no mercado chinês. Das 723 mil toneladas importadas pelo país até outubro, 104 mil foram desse tipo de material. Laminados a frio lideraram as cargas, com 123 mil toneladas. Avalia-se que se não fosse a crise mundial, a invasão de material chinês, com o câmbio totalmente favorável, poderia alcançar 1 milhão de toneladas.

Os embarques chineses para o Brasil saltaram de 130 mil toneladas em 2006 para 600 mil toneladas no ano passado. Alguns produtos, como trilhos para ferrovias (86 mil toneladas neste ano), a siderurgia local não fabrica. Em outros casos, como chapas grossas, a Usiminas não vinha conseguindo atender todos os pedidos locais e teve até de importar.

As usinas chinesas, afirmou Bingwei, que estão operando a 70% da capacidade por conta da retração local da demanda e queda das exportações para EUA, Europa e Ásia, vão buscar novos mercados, como o latino-americano, para desovar excedentes em 2009.

É justamente esse cenário que apavora as usinas locais e até os distribuidores de aço, com receio de uma desova que faria desabar os preços no país. O Inda, entidade das distribuidoras, enviou esta semana carta ao governo (Camex, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) pedindo medidas preventivas de proteção. Uma delas é que uma lista de dez produtos de aços planos retornem suas tarifas de importação a 12% depois que foram zeradas em 2005. Todos no mundo estão se protegendo, disse Christiano Freire, presidente do Inda.

e) Queda da moeda brasileira segue desvalorização das commodities

O dólar subiu pelo sexto dia seguido e superou, pela primeira vez em três anos e meio, a marca de R$ 2,50. A alta de 1,78% levou a moeda americana para R$ 2,519, maior cotação desde 29 de abril de 2005. Em 2008, o ganho é de 41,9%.

Diferentemente do que ocorreu na quarta-feira, o Banco Central (BC) não interveio no mercado. A única operação realizada pela autoridade monetária ocorreu após o encerramento dos negócios, o que não é usual e surpreendeu analistas. O BC vendeu o equivalente a US$ 314,6 milhões em contratos de swap cambial, um tipo de papel no qual a instituição é remunerada pela variação da taxa de juros e a contraparte (mercado), pela trajetória do dólar.

Desde que o banco de investimentos americano Lehman Brothers pediu concordata, no dia 15 de setembro (o que agravou a crise global), o dólar avançou 40% em relação ao real. É um porcentual superior ao de países que, como o Brasil, são exportadores de commodities.

O ganho da moeda americana é de 28% ante o dólar australiano e de 26% ante o peso chileno e o dólar neozelandês. Em relação à lira da Turquia - país emergente que não é exportador de commodity, mas costuma ser usado para comparações com o Brasil -, a valorização do dólar também é de 26%.

O vice-presidente da mesa de operações do Banco WestLB, Alexandre Ferreira, explicou que o real tem acompanhado de perto o índice que mede a evolução dos preços das commodities, conhecido como CRB.

De 15 de setembro até ontem, o indicador perdeu 65%. Um índice derivado do principal, que exclui commodities do setor energético, desvalorizou 43% no período. Portanto, explicou Ferreira, a queda das commodities é um dos fatores que explicam a expressiva desvalorização do real.

O presidente BC, Henrique Meirelles, disse que a autoridade monetária já vendeu US$ 6,7 bilhões em dinheiro vivo entre outubro e o fim de novembro. A instituição, afirmou ele, também colocou US$ 11,7 bilhões em operações de compra com compromisso de revenda, nas quais o dólar volta para os cofres do governo. O total vendido em swaps cambiais chegou a US$ 31,1 bilhões.

Outro fator que tem pressionado para baixo a moeda brasileira é o calendário. Normalmente, nos meses de dezembro, multinacionais enviam dólares ao exterior por causa do fechamento do caixa anual. Além disso, explicou Alexandre Póvoa, diretor da Modal Asset, companhias brasileiras que fizeram operações no mercado futuro de câmbio (os chamados derivativos cambiais) estão tentando limpar seus balanços.

Aliás, o fantasma dos derivativos tóxicos sempre volta a rondar o mercado quando o dólar engata uma tendência de forte alta, como agora. A exposição total das companhias a esse tipo de operação caiu em relação ao nível original - estima-se que hoje sejam US$ 55 bilhões, ante US$ 98 bilhões no dia 30 de setembro. Mesmo assim, a elevação da moeda americana produz uma corrida ao mercado daqueles que estão expostos à variação cambial.

Na avaliação de Póvoa, o mercado está buscando um novo nível para o dólar. O problema, tanto para ele quanto para a maioria dos especialistas, é que ninguém ainda tem uma idéia de qual seria. Há uma nova realidade no balanço de pagamentos brasileiro (que mede as transações do País com o exterior e inclui, entre outros pontos, as balanças comercial e de serviços) , observou. Hoje, a (perspectiva para a) balança comercial é um grande ponto de interrogação.

O principal efeito do dólar na vida das pessoas se dá nos índices de inflação. Estima-se que cada 10% de valorização da moeda americana provoque alta de um ponto porcentual nos preços ao consumidor. Se essa regra se confirmar agora, os IPCs poderiam ter elevação de até quatro pontos porcentuais nos próximos meses.

Alguns analistas ponderam, no entanto, que dificilmente essa alta será repassada de forma integral, por causa da queda das commodities no exterior e da desaceleração da atividade econômica no Brasil.

Agronegócio

a) Exportador de frango está mais preocupado

As exportações brasileiras de carne de frango sofreram um duro golpe em novembro, desferido pela combinação entre os reflexos do aprofundamento da crise financeira irradiada a partir dos Estados Unidos e da tragédia em Santa Catarina, que travou o porto de Itajaí, em Santa Catarina, já desde a semana passada.

De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos (Abef), o volume embarcado foi 220 mil toneladas, 30,2% menos que em outubro e 26,4% abaixo do resultado de novembro do ano passado.

De acordo com o ex-ministro Francisco Turra, presidente da Abef, foi a primeira queda em relação ao mesmo mês de 2007 registrada em 2008. O dirigente está relativamente tranquilo em relação aos resultados das exportações no acumulado deste ano, mas não disfarça a preocupação em relação ao desempenho das vendas externas do segmento no ano que vem.

Apesar do tombo de novembro e das perspectivas pouco otimistas para dezembro, Turra confia que a receita proveniente dos embarques brasileiros de carne de frango chegarão aos US$ 7 bilhões previstos há um mês, em parte graças ao aumento dos preços dos produtos exportados pelas empresas do segmento.

Isso apesar de os importadores de países como Japão, Rússia e Venezuela continuarem retraídos, por motivos diferentes. Conforme Turra, os japoneses estão bem estocados, enquanto russos e venezuelanos sofrem mesmo é com o estrangulamento do crédito em virtude do recrudescimento da crise financeira mundial.

O problema ficará mesmo para 2009, um ano que, segundo Turra, no mínimo exigirá muita cautela. Em sua avaliação, as companhias terão no mercado doméstico - que está bem abastecido, mas que ainda não apresentou sinais de retração do consumo - uma importante frente de negócios, mas será preciso reduzir a produção (entre 15% e 20%) para que os estoques não cresçam demais com o ambiente menos propício às exportações previsto pela Abef. O mercado interno absorve pouco menos de dois terços da produção nacional.

O mercado doméstico hoje está tão bem abastecido que o presidente da União Brasileira da Avicultura (UBA), Ariel antonio Mendes, prevê inclusive queda de preços da carne de frango nos supermercados mesmo com as festas de fim de ano. Esta redução, para ele, será de 10% a 15%.

É uma faca de dois gumes. O consumidor gostaria de ter um frango barato, mas isso é insustentável. Tem que haver equilíbrio, disse ele em comunicado.

b) Despenca prêmio do boi certificado para a UE

A menor demanda da Europa por carne bovina brasileira, já reflexo da crise financeira internacional e de fatores sazonais, fez os frigoríficos exportadores derrubarem o valor do ágio pago pela arroba do boi rastreado. De acordo com Ricardo Merola, presidente da Assocon (associação que reúne 50 confinadores em seis Estados), no máximo, as empresas têm pago 3% sobre a arroba do boi gordo, o que hoje em Goiás, por exemplo, significaria R$ 2,50. Mas há casos de frigoríficos que não estão pagando nenhum prêmio pelo animal certificado para abate e exportação da carne à União Européia.

Tem gente que não paga nada, afirmou. É quase impossível com esse prêmio [investir na certificação], observou Merola em entrevista para falar das perspectivas em 2009 para o confinamento. Juan Lebrón, diretor da Assocon, considera que o pecuarista ficou sem estímulo para investir em rastreabilidade. Assim, segundo a associação, o número de fazendas no país certificadas para fornecer animais para abate e venda da carne à UE - hoje cerca de 600 - pode diminuir. A razão é que, com o prêmio baixo ou inexistente, alguns produtores podem desistir no caso de as auditorias periódicas do Ministério da Agricultura indicarem inconformidades.

Em abril deste ano - quando apenas 96 fazendas eram certificadas - , empresas chegaram a pagar entre 10% e 17% de prêmio pela arroba. O número de propriedades cresceu, o mercado foi se adequando e o ágio caiu para uma média entre 7% e 10%.

De acordo com o diretor-comercial do Independência, André Skirmunt, esse era o quadro até quatro semanas atrás. Agora, no caso do Independência, o prêmio varia entre 3% e 5%, segundo ele. O preço [para a Europa] caiu com a demanda menor e isso foi revertido para a matéria-prima, disse Skirmunt, para explicar o recuo dos prêmios.

Uma fonte do setor disse que os frigoríficos têm pago bônus entre R$ 5,00 e R$ 10,00 por arroba para o animal certificado. Outro executivo de frigorífico que exporta para a UE reconheceu que há empresas que deixaram de pagar o prêmio, mas disse que a situação é sazonal e com certeza, em janeiro, vão voltar a pagar. Segundo ele, nesta época do ano a Europa não compra nada, por isso os preços recuam e com eles os prêmios. Na avaliação desse executivo, um ágio de 3% está abaixo da realidade, assim como o de 15%. Ele considera adequado um percentual entre 5% e 10%.

Mesmo com o cenário incerto para o prêmio, o pecuarista João Paulo Canto Porto não pretende desistir da certificação de sua propriedade em Jussara (GO), onde confina 4 mil bois. O investimento é grande. Se desistir, perco três de trabalho, disse o criador cuja fazenda está sendo auditada pelo Ministério da Agricultura para fornecer animais para abate e exportação à UE.

c) Horizonte pessimista para o algodão

A colheita brasileira de algodão em pluma deverá alcançar 1,245 milhão de toneladas em 2009, conforme projeção divulgada pela Anea, a associação nacional dos exportadores do produto.

Se a estimativa for confirmada, a queda em relação ao volume de 2008 (1,585 milhão de toneladas) será de 21,5%, confirmando uma tendência apontada há meses por especialistas e já ratificada por levantamentos de safra da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Desestimulam o plantio os baixos preços praticados nos mercados externo e doméstico e os elevados custos de produção.

Na bolsa de Nova York, os contratos futuros para março fecharam a 46,60 centavos de dólar por libra-peso. Houve alta de 27 pontos em relação à véspera, mas nos dois pregões anteriores a queda acumulada foi de 158 pontos. Em Rondonópolis (MT), um dos pólos mais importantes do país, a arroba saiu, em média, por R$ 35, R$ 0,10 a menos que na terça-feira, segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato). Em 15 de outubro, a arroba valia R$ 38,10.

Em seu quadro de oferta e demanda, a Anea prevê para 2009 aumento de 21,7% nos estoques iniciais, para 840 mil toneladas e quedas de 1,6% no consumo interno (930 mil toneladas), de 3,8% nas exportações (510 mil) e de 18,5% nos estoques finais (685 mil).

d) China reabre mercado para frango brasileiro

Um acordo fechado esta semana permitirá a retomada imediata das exportações de carne de frango in natura do Brasil para a China. As vendas foram suspensas em meados de 2007, poucos meses depois da abertura do mercado chinês ao produto brasileiro, por causa de questionamentos sobre questões sanitárias. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, divulgou nota para comemorar a decisão e lembrou da capacidade de consumo do mercado chinês.

Governo e iniciativa privada não divulgaram estimativas do potencial comprador da China, mas a Associação Brasileira dos Produtores e exportadores de Frango (Abef) informou que as vendas indiretas de frango para a China somam aproximadamente 350 mil toneladas por ano. Sem produção suficiente para atender à demanda externa, Hong Kong importa frango brasileiro, processa as cargas e revende os lotes para a China. A expectativa é que a reabertura do mercado chinês resulte em incremento do comércio.

A Sadia, uma das maiores exportadoras de frango in natura do País, disse estar otimista com a notícia. Desde 2006, as vendas para a China ocorriam em pequeno volume, pois apenas dois abatedouros da empresa tinham autorização dos chineses para a comercialização. Ganhamos o passaporte para o maior mercado populacional do mundo , diz o diretor de relações internacionais da Sadia, José Augusto Lima de Sá. Segundo ele, a companhia está pronta para começar as vendas já este mês. Já temos todos os produtos registrados, embalagens em chinês e contatos com clientes. É só vender e embarcar.

Os chineses farão, inicialmente, negócios com 24 abatedouros localizados em oito Estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. A China é o principal destino dos produtos agrícolas brasileiros. No acumulado do ano até outubro, a China absorveu 12% da receita total de US$ 61,9 bilhões obtida com os embarques de produtos agrícolas do País.

O presidente executivo da Abef, Francisco Turra, comemorou a reabertura do mercado chinês para o frango brasileiro. Essa é uma excelente notícia para o setor exportador de carne de frango, principalmente diante da conjuntura internacional adversa , destacou.

Nesta semana, a Abef revisou a projeção para as exportações de frango no ano que vem por causa do cenário internacional. As previsões estão mantidas, apesar da decisão do governo da China. A associação estima um crescimento de 5% nas vendas externas, ante os 15% esperados anteriormente. Além da China, os exportadores de frango querem intensificar as negociações de venda para Indonésia, Malásia, México e Nigéria.

e) Exportação agrícola sente os efeitos da crise mundial

Os efeitos da crise financeira mundial, que está provocando recessão nas principais economias do mundo, começam a aparecer fortemente sobre as exportações brasileiras do agronegócio. Além da crise mundial, a paralisação do porto de Itajaí, devido às chuvas em Santa Catarina, também foi um fator de queda nas exportações, principalmente nas de carnes. Apenas três produtos conseguiram elevar as receitas com as exportações no mês passado, em relação a outubro: milho, açúcar bruto e álcool.

A valorização do dólar, que tornou esses produtos mais competitivos no mercado externo, permitiu esse aumento.

A principal elevação de receitas veio do milho, que, ao somar US$ 157 milhões no mês passado, superou em 82% as receitas de outubro. As exportações desse produto, devido à apreciação do real, não estavam competitivas, o que passou a mudar em setembro com a desvalorização do câmbio.

Já as receitas com as exportações de açúcar bruto aumentaram 5% no período, mas as do produto refinado caíram 12%. As estimativas de déficit no mercado mundial têm dado suporte maior para os preços.

Uma das principais retrações foi a das carnes. O setor de carne suína previa exportações de pelo menos 35 mil toneladas em novembro, já considerando os efeitos da crise mundial, segundo Pedro de Camargo Neto, da Abipecs (associação do setor). Os dados preliminares da Secex indicam apenas 23 mil toneladas, uma queda de 52% sobre as 48 mil de outubro. Os recuos das carnes bovina e de frango, considerando as receitas, foram de 37% e 27%, respectivamente, no mês passado. As exportações do complexo soja também perderam força. As receitas com soja recuaram 35%; as com óleo de soja, 50%, e as com farelo de soja, 2%.

Mercosul

a) Na OMC, Argentina rejeita proteção apenas temporária para sua indústria

A Argentina rejeita soluções temporárias para proteger sua industria de uma liberalização comercial. Esta é uma das idéias com que os parceiros acenaram para tentar convencer Buenos Aires a aceitar um eventual acordo até o fim do ano na Rodada Doha. O diretor-geral da Organização Mundial do Comercio (OMC), Pascal Lamy, planeja fazer uma reunião de ministros de 13 a 15 de dezembro, se até o fim desta semana constatar avanços nas negociações agrícola e industrial.

A tensão e as dúvidas, porém, aumentam também com o racha no Mercosul sobre liberalização industrial. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, se encontrou em Genebra com a comissária européia de comércio, Catherine Ashton, e uma das questões será o estado do bloco, além do etanol.

O Brasil e outros parceiros passaram a indagar aos argentinos se dava para explorar alternativas a sua proposta na negociação industrial para pavimentar o terreno na OMC. Uma possibilidade seria dar mais prazo para a Argentina cortar as tarifas industriais, desde que provocasse perfuração apenas temporária na TEC. Mas mesmo isso depende do grau de tolerância do setor industrial brasileiro. A estrutura da TEC não seria irremediavelmente afetada, pois seria reparada depois do fôlego adicional para Buenos Aires.

Os representantes argentinos, contudo, recusam uma solução temporária. Avisaram que estão pedindo o que sua industria precisa, para crescer e para que haja um acordo justo e equilibrado. A proposta, porém, é qualificada de loucura por vários países. Um embaixador reclamou que Buenos Aires não quer abertura e ponto. Outro indagou até quando a Argentina vai pedir proteção para sua indústria, porque isso vem desde 1992 e não pára.

Buenos Aires avisou que só corta em 42% as tarifas industriais e quer até 24% de suas linhas tarifárias protegidas de cortes integrais. Em comparação, o máximo que Brasil e outros emergentes conseguiram, na negociação com nações industrializadas, foi corte de 52% na média e 14% de linhas tarifárias protegidas. Em reunião na quinta-feira em Brasília, Brasil e Uruguai demonstraram que querem negociar liberalização, e o Paraguai, com novo governo, mostrou duvidas, enquanto a Argentina recusou.

O subsecretário de comércio internacional, Nestor Stancanelli, argumentou ontem que o Mercosul terminará 2008 com importações de US$ 240 bilhões, comparados a US$ 60 bilhões em 2002, ou seja, a liberalização continua, mas é preciso moderação na demanda dos ricos. Temos a maior elasticidade ao comércio. Quando a economia cresce 1% no Mercosul, o comércio aumenta 6%. O que queremos são cortes moderados e espaço para países em desenvolvimento continuarem a desenvolver e diversificar sua industria, afirmou. Para certos negociadores, o problema é que a Argentina é o único país que diz que não está pronta a negociar o que vem pedindo em Doha. A África do Sul tem demanda idêntica, mas avisou que está pronta a fazer barganhas. Seu ministro de comércio estará esta semana em Buenos Aires. Assim, a questão entre parceiros é se o governo de Cristina Kirchner tem algo na manga ou se manterá sua posição - o que implicaria explodir um eventual acordo de Doha.

No bloco, a divergência ocorre tambem sobre tentativas de Argentina e Brasil de elevar tarifas de importação de vários produtos. A Câmara de Comercio Exterior (Camex) já aprovou proposta para aumentar a alíquota sobre brinquedos, pêssegos da Grécia, certos tipos de têxteis. Mas aí é o Uruguai que recusa a medida e sugere a aplicação de sobretaxa por outro instrumento de defesa comercial, como salvaguarda.

Após três horas de reunião ontem no final da tarde, o ambiente entre os principais países na OMC era de prudência. O principal problema envolve a exigência americana de acordos setoriais para acelerar corte de tarifas, mas também há o problema da Argentina. Os negociadores vêem progressos, mas insuficientes para chamar os ministros a Genebra para fechar um acordo. A expectativa é de que isso mude esta semana.

b) Brasil acredita em acordo entre sócios do Mercosul

Os representantes do governo brasileiro, mobilizados pela retomada das negociações da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), interpretaram como blefe de seus colegas argentinos a recente ameaça de crise no Mercosul se for tolerada maior redução das tarifas de importação sobre bens industriais. A avaliação que prevalece para justificar essa tranquilidade, apesar das duras palavras que estão sendo usadas, considera a enorme dificuldade política que a presidente Cristina Kirchner enfrenta. Seu governo é praticamente refém dos industriais porque afastou-se dos produtores rurais. Essa situação levou o lobby protecionista da Unión Industrial Argentina (UIA) diretamente às negociações multilaterais, mas para o governo brasileiro, o governo argentino tem consciência dos limites desta posição.

Uma fonte que participa diretamente das conversas disse que os dois principais negociadores argentinos - Nestor Stancanelli e Alfredo Chiaradia - são muito duros e vão manter essa postura até o fim. O objetivo deles é obter o máximo de proteção e exceções à liberalização comercial que voltou a fazer parte da agenda global depois da grave crise financeira mundial que tornou-se mais aguda a partir de 15 de setembro. Depois que a Argentina quebrou, a indústria vem se recuperando, mas ainda não pode ser chamada de competitiva em nível mundial, comentou um negociador brasileiro.

Na quinta-feira passada, a imprensa argentina publicou o seguinte recado de uma alta fonte do governo: Se o Brasil propicia uma fórmula [de redução tarifária] inaceitável para a Argentina, vamos ter uma crise no Mercosul.

O Jornal Valor ouviu o secretário de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, que não endossa a tese do blefe dos negociadores argentinos. Ele prefere apostar nos grandes interesses comuns que aproximam os dois maiores sócios do Mercosul. Sabemos das dificuldades da Argentina nas negociações, mas procuramos convencê-los que um avanço na Rodada Doha tem compensações importantes para os exportadores agrícolas. Além disso, as exceções propostas são suficientes para atender às sensibilidades da indústria argentina, disse.

Barral revelou que, recentemente, encontrou-se com representantes da União Européia e conseguiu convencê-los que o Brasil não está seguindo uma postura protecionista. Explicou que, nas negociações bilaterais com a Argentina, as propostas de elevação da Tarifa Externa Comum (TEC) endossadas envolvem 0,2% do comércio exterior brasileiro. Eles sabem que o Brasil trabalha para uniformizar a TEC, acabar com suas perfurações e abandonar a lista de exceções.

Para o secretário, o desfecho da reunião bilateral realizada em 17 de novembro, em Buenos Aires, foi mal explicado à imprensa pelas autoridades argentinas. Na sua versão, a proposta de aumento da TEC para vinhos e lácteos nada mais é que manter as tarifas praticadas no Brasil porque ambos os produtos estão na lista de exceções que, atualmente, tem 99 produtos. Há uma norma no Mercosul que prevê o fim da lista de exceções à TEC até 2011.

No caso do pêssego, Barral disse que a tarifa deverá cair dos atuais 55% para 35%. Na reunião do G-20 Financeiro, realizada recentemente em Washington, o Brasil comprometeu-se a lutar contra a elevação das tarifas de importação para não agravar a crise econômica.

c) Negociação acirra debates no Mercosul

Em plena negociação da Rodada Doha, Brasil e Argentina continuam em desacordo. Ainda não conseguimos ter uma só voz (nas negociações conjuntas), e pode haver divergências nas posições, alertou o secretário de Relações Internacionais da chancelaria argentina, Alfredo Chiaradia. A mensagem foi dada durante uma conferência, na Embaixada do Brasil em Buenos Aires, sobre o Sistema de Pagamentos em Moeda Local.

Conforme noticiou o Jornal Valor relatou segunda-feira, Brasil e Argentina expuseram o racha no Mercosul sobre os rumos da Rodada Doha durante as reuniões do fim-de-semana. Um dos principais representantes da Argentina nas negociações, Chiaradia tem sido o porta-voz da insatisfação de seu país e ontem repetiu a queixa que vem fazendo desde a última vez em que foi decretado oficialmente o fracasso da Rodada Doha de negociações multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC), em julho.

Naquela ocasião, em entrevista à imprensa na sede do Ministério de Relações Exteriores, ele já havia dito a mesma frase: Infelizmente fomos à OMC sem uma única voz. Do outro lado da mesa, a União Européia tem uma só voz. Do lado brasileiro, o ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, chegou a concordar com a crítica e dizer que o fracassado desfecho da Rodada Doha havia sido uma lição e que os sócios do Mercosul deveriam afinar as posições. Tudo indica que a lição não foi aprendida.

A Argentina não aceita as propostas de abertura do comércio de produtos industrializados pedida pelos países ricos aos países emergentes, e se alinhou com a Índia na crítica à contrapartida em abertura para produtos agrícolas oferecida por Estados Unidos, Europa e Japão, considerada excessivamente baixa e desproporcional à demanda do lado industrial.

Os negociadores argentinos vêm se queixando da falta de receptividade por parte do Brasil às demandas do sócio. Na semana passada, Chiaradia chegou a dizer à imprensa local que se o Brasil insistir em suas posições de abertura ao setor industrial, poderá causar danos ao Mercosul.

Ontem, na embaixada brasileira, Chiaradia disse que entre sócios é preciso conversar até chegar a um entendimento profundo, em um tom de crítica e uma referência velada à falta de diálogo. Também justificou a posição argentina contrária à abertura, dizendo que o país não pode ser classificado de protecionista só porque está cumprindo com seu dever de apoiar setores afetados pela crise financeira internacional.

O secretário rebateu as críticas ao protecionismo argentino, dizendo que o país tem obrigação de atuar em defesa de seus setores produtivos, cuidando para não prejudicar os sócios comerciais. Tenho certeza de que o que estamos fazendo é compatível com nossos compromissos com a OMC e o Mercosul.

Devemos compreender nossas posições mútuas. Esses tempos de crise trazem turbulências, há setores afetados e medidas que têm que ser adotadas. A partir daí, dizer que um país é protecionista é um exagero, afirmou o secretário.

d) Argentina lança pacote de US$ 3,8 bi

A presidente Cristina Kirchner anunciou ontem um pacote de socorro para os setores automotivo e agrícola, intensamente atingidos pela crise internacional, que também estão sofrendo o desaquecimento que a própria economia argentina registra desde o primeiro semestre deste ano.

Por este motivo, para driblar os efeitos da crise, a presidente anunciou que o governo destinará US$ 3,8 bilhões para incentivar a produção, investimento e consumo. O dinheiro será destinado ao financiamento de exportações de produtos agrícolas, a empréstimos para a indústria, a compra de automóveis e eletrodomésticos, e a pequenas e médias empresas exportadoras.

Segundo a presidente o governo financiará parte deste plano de estímulo com os fundos obtidos por meio da recentemente aprovada reestatização das aposentadorias privadas. Cristina destacou que as empresas terão que manter seu atual número de trabalhadores. Aquelas que não respeitarem essa norma, não terão acesso a este plano de financiamento.

Do total do pacote de estímulo, US$ 911 milhões serão destinados para o setor automotivo. O Plano Zero Quilômetro do governo é o de colaborar na venda de 100 mil veículos para pessoas que nunca antes possuíram um automóvel. Outros US$ 191 milhões serão colocados para financiar a compra de utilitários e caminhões. Este acordo será discutido com cada montadora , explicou Cristina Kirchner.

A presidente anunciou que concederá US$ 500 milhões para o financiamento do setor agrícola. Além disso, ordenou uma redução cinco pontos porcentuais nos impostos aplicados sobre as exportações de milho e trigo. Desta forma, os tributos são reduzidos para 23% para o trigo e para 20% para o milho. Cristina explicou que, por cada milhão de tonelada de aumento na produção de cada um desses dois produtos, o governo reduzirá os impostos de exportação em um ponto percentual.

Outros US$ 882 milhões serão destinados para pequenas e médias empresas que exportam. O setor industrial receberá US$ 367 milhões para financiar exportações e capital de giro.

Além disso, o governo colocará US$ 1,02 bilhão em empréstimos para o consumo, orientado para produtos de linha branca. A idéia, segundo a presidente, é conceder um total de 700 mil créditos - de no máximo US$ 1.470 cada um - para os consumidores.

Cristina - perante um auditório coalhado de governadores das províncias, parlamentares, altos executivos das empresas instaladas na Argentina, líderes sindicalistas - elogiou seu próprio governo e o de seu marido e antecessor e ex-presidente Néstor Kirchner, ao ressaltar o crescimento da última meia década. Mas, lamentou que essa prosperidade foi atrapalhada pela crise internacional: O mundo complicou a vida dos argentinos!

A presidente criticou as lideranças da oposição e economistas que afirmam que na Argentina a crise é pior que em outros países. Que coisa, hein! Os argentinos sempre querem ser os primeiros nos rankings...agora, tem uns que querem que a maior crise seja aqui! , ironizou.

Os industriais elogiaram as medidas do governo. Mas, os agricultores ressaltaram que este pacote não é suficiente para o setor ruralista.

Há uma semana o governo argentino anunciou uma série de medidas que incluiu, entre outros pontos, um plano de estímulo à repatriação de capitais, anistia tributária, além de vantagens trabalhistas para empresários.

Organização Mundial do Comércio (OMC)

a) Amorim vê risco de novo fracasso em Doha

O chanceler Celso Amorim manifesta "otimismo moderado" sobre as chances de um acordo na Rodada Doha ainda neste ano, mas alerta: a insistência dos países ricos em abrir alguns setores industriais das economias emergentes pode levar a mais um fracasso.

As negociações em torno de um acordo global de comércio ganharam novo impulso após a cúpula do G20 em Washington, onde os líderes pediram a conclusão dos principais temas antes do fim do ano.

Amorim calcula que as chances de uma nova reunião ministerial em dezembro estão em 70%. Caso o encontro seja convocado, há 60% de chances de acordo, diz o chanceler. A retomada deve ser decidida até sexta-feira.

O chanceler disse que "demandas excessivas" dos países desenvolvidos em obter acordos para reduzir tarifas e facilitar a entrada de seus produtos manufaturados nos mercados em desenvolvimento ameaçam a retomada de Doha.

"O maior obstáculo é se houver ambições excessivas em relação aos produtos industriais", disse Amorim. "Não é o conceito de haver negociação setorial, porque esse princípio foi aceito. Mas, se houver insistência em antecipar essa fórmula e colocar números e setores específicos, aí não conseguiremos uma conclusão."

Amorim se refere ao endurecimento de posições como a dos EUA, que exigem uma lista de países e produtos que seriam incluídos nos chamados "acordos setoriais". Para o Brasil, é melhor deixar tais detalhes para depois.

Em relação à Argentina, que na semana passada apresentou na OMC uma proposta exigindo mais proteção a sua indústria, Amorim acha que não chega a ser uma ameaça às negociações. Mas o chanceler admite que a iniciativa isolada de Buenos Aires não contribui para a coesão do Mercosul.

Amorim observou que o Mercosul já tem várias exceções em sua tarifa externa comum, e que mais uma poderia ser estudada para acomodar as reivindicações da Argentina.

b) Índia avisa que não fará concessões na negociação da Rodada Doha

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, quer um acordo na Rodada Doha no fim do ano porque acha que isso será bom para a humanidade, mas há parceiros do G-20 que têm dúvidas sobre se será bom para eles. O ministro de Comércio da Índia, Kamal Nath, avisou que seu país não tem a menor intenção de mostrar flexibilidade na reunião de ministros que deve ocorrer na próxima semana.

Kamal soltou as baterias inclusive contra a reunião ministerial da semana que vem, alegando que está mais preocupado com questões de segurança em seu país. Ele diz que não quer vir a Genebra para aumentar o sofrimento de milhões de agricultores indianos com um acordo de liberalização e se queixa de que os países ricos não fizeram concessões para levar a nova tentativa de acordo.

Reunidos os 152 países membros da OMC constataram o impasse na área industrial, sobre a demanda dos EUA de acordos setoriais específicos para eliminar rapidamente as tarifas.

Negociadores acham que a questão de setoriais será na semana que vem o mesmo problema que foram as salvaguardas agrícolas na fracassada negociação de julho. Foi destruída por consenso uma proposta mexicana para dar compensação a países que participassem de setoriais, por exemplo podendo cortar menos as tarifas no geral. A pressão de alguns países por um acordo até o fim do ano tem aumentado também sobre Pascal Lamy, o diretor-geral da OMC. Lamy é candidato a permanecer no cargo por mais quatro anos e quer fazer o mínimo possível de descontentes, o que em todo caso ocorrerá com ou sem acordo.

A comissária européia de Comércio, Catherine Ashton, fez um balanço ao Parlamento Europeu, onde, em síntese deixou claro que a UE vai pagar pouco e ganhar muito. Na área agrícola, o pacote de Doha estará em linha com a reforma da Política Agrícola Comum (PAC) de 2003. De outro lado, espera ganhar bastante no setor de serviços, onde já é o maior exportador mundial.

Também calcula que a facilitação de comércio, com menos problemas burocráticos nas aduanas, representará ganho equivalente a 3% das exportações européias.

Menos esperançosos estão seis ministros africanos dependentes de exportações de algodão - Benin, Chade, Mali, Senegal, Costa do Marfin e Zimbábue -, que vieram ontem a Genebra pedir mais uma vez pela completa eliminação dos subsídios ao produto nos países ricos e por compensação financeira enquanto as subvenções dos industrializados não forem removidas. Os EUA não querem chegar a esse ponto.

Ao mesmo tempo, um estudo publicado em Genebra destaca que um novo acordo de Doha pode ampliar as exportações agrícolas brasileiras, especialmente de produtos como algodão, soja e açúcar. O estudo tem como autores André Nassar, Cinthia Cabral da Costa e Luciane Chiodi, e é publicado pelo Centro Internacional para Comércio e Desenvolvimento Sustentável, pelo Food and Agricultural Trade e pelo International Food Policy Research Institute.

Plano Internacional

a) Camex dá aval federal para Mectron vender mísseis ao Paquistão

A Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou a concessão de garantia da União que viabiliza a Exportação de 100 mísseis anti-radiação, fabricados pela Mectron, para o governo do Paquistão. O negócio, fechado em abril, vale 85 milhões de euros.

A decisão foi tomada em reunião extraordinária da Camex. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, revelou que a negociação foi feita entre a Força Aérea Brasileira (FAB) e o comando da aviação militar paquistanesa. Segundo Jobim, a Mectron, com sede em São José dos Campos (SP), tem capacidade de produzir um míssil por mês. A partir do negócio com o Paquistão, vai passar a fabricar cinco unidades por mês. Nossa tendência é estimular o desenvolvimento de defesa, afirmou.

O BNDES é sócio da Mectron, empresa de alta tecnologia criada por cinco engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Jobim espera que a empresa, a partir deste contrato, tenha consolidado seu crescimento no mercado de defesa. O ministro ressaltou que os recentes atos terroristas na Índia, atribuídos a paquistaneses, nada tem a ver com essa Exportação porque seu destino é o governo daquele país. Problema haveria se nós cancelássemos o negócio, justificou.

De acordo com as explicações do ministro da Defesa, os mísseis anti-radiação, conhecidos pela sigla NARI, são acoplados em aviões e plataformas para identificar radares. O sistema pode destruir o radar, mas a principal função é o monitoramento.

A proposta que beneficia a Mectron, aprovada pela Camex, foi apresentada pelo Comitê de Financiamento e Garantia das Exportações (Cofig).

O governo deve publicar hoje medida provisória (MP) que, entre outros temas, vai beneficiar a Avibrás. A idéia é autorizar a União a transformar seu crédito de aproximadamente R$ 400 milhões na companhia em participação acionária minoritária. O interesse é reestruturar dívidas das empresas que atuam na pesquisa e na produção de material bélico porque os governos são seus únicos clientes e elas operam com tecnologia de ponta num mercado dominado por concorrentes americanas.

A Avibrás está em recuperação judicial e mais da metade da sua dívida com a União não é de natureza tributária. A empresa fabrica o lançador de mísseis Astros e tem ativos, principalmente marcas, cujo valor chega perto de R$ 1 bilhão.

b) Para ex-presidente do México, retomada da economia ocorrerá no início de 2010

Dois anos de vacas magras, mas que não chegam a ser uma notícia tão ruim após dez anos de vacas gordas. Essa é a visão da crise de Vicente Fox, presidente do México entre os anos de 2000 e 2006. São dois anos de vacas magras, mas o que vimos nos últimos dez anos foi o período mais positivo da economia mundial. Acredito que no começo de 2010 já poderemos ver muitos países em fase de recuperação e crescimento, disse.

Ele e outros líderes globais, como Mike Moore, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), debateram no Rio os efeitos e desafios da crise financeira, na abertura da conferência da Associação Mundial das Agências de Promoção de Investimento (Waipa, na sigla em inglês).

Fox e Moore, assim como outros conferencistas, demonstraram menos preocupação com as questões objetivas da crise - os instrumentos financeiros que a geraram e os mecanismos que serão usados para debelar o problema. Isso porque hoje, ao contrário do que ocorreu na década de 30, existem, segundo eles, instituições fortes, como organismos multilaterais e bancos centrais. A preocupação ficou mais no campo político e psicológico. Me preocupa mais a questão política, se observarmos que, após grandes crises, surgiram fenômenos como populismo e fascismo, disse o ex-presidente polonês Aleksander Kwasniewski.

Para os especialistas, será um desafio para as lideranças globais lidar com questões políticas em meio à crise. Não é simples para a sociedade entender o que está ocorrendo, e o fato de o sistema financeiro estar recebendo ajuda. É é muito comum que se queiram encontrar bodes expiatórios, disse Moore, que também foi primeiro-ministro da Nova Zelândia.

Para o ex-presidente da Polônia, a questão psicológica será crucial para determinar como se desenrolará a crise. Glen Hubbard, que presidiu o conselho consultivo econômico do governo dos EUA entre 2001 e 2003, concorda. Não são os fundamentos que fazem os preços oscilarem 7% para cima ou para baixo num dia, como temos visto. Para ele, o medo pode ser um mal pior que os fatores reais que causaram a crise, por isso é preciso priorizar ações para o restabelecimento da confiança.

O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, ressaltou que a questão da confiança é importante. Existe pânico entre as pessoas comuns e os empresários, isso é o que pode prejudicar o país, disse . As pessoas são movidas por emoções, é preciso ter confiança para que elas comprem e não há razão nenhuma, por enquanto, para que não tenhamos confiança na economia do país. Lembrou que este ano o volume de investimento externo direto no país deve ficar em torno de US$ 36 bilhões. Segundo ele, qualquer projeção mais precisa para o próximo ano seria um chute, mas avalia que o resultado pode ser semelhante ao de 2008.

Para os participantes do encontro da Waipa, um outro aspecto que está gerando esperanças nos EUA e no mundo é a eleição de Barack Obama. Embora concordem que pesa sobre ele uma expectativa excessiva, acreditam na capacidade de articulação do presidente eleito. Moore disse que é difícil fazer previsões, mas que está esperançoso também com relação às questões de comércio exterior. Ele se cercou de uma boa equipe e há na América interesse em que o Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte) progrida, e que se chegue a um acordo na OMC.

O presidente da Waipa e da Agência de Promoção de Exportações (Apex), Alessandro Teixeira, afirmou estar convicto que o governo Obama não será protecionista. Já Fox pondera que o jogo de forças mundiais fica mais equilibrado com a crise. A situação é favorável para que os EUA se comprometam com a América Latina. Creio que rapidamente Obama verá que terá mais sucesso abrindo mercados e fazendo comércio do que adotando idéias antiquadas.

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