22/07/2008
PLANO MARSHALL PARA A AMERICA DO SUL
Rubens Antonio Barbosa

A distância entre a retórica e a realidade nas declarações públicas sobre qualquer assunto de altos funcionários do atual governo e conhecida.

No tocante à política externa, em especial, esse descompasso está adquirindo características preocupantes, pois, a ele se soma uma superestimação de nossa capacidade e de nossos recursos na implementação do que o Presidente Lula denominou de “política da generosidade” para com nossos vizinhos do sub-continente.

“O Brasil tem que assumir definitivamente a responsabilidade pela integração da América do Sul. Não há concessões excessivas quando as diferenças de dimensão são tão extraordinárias e quando nossos interesses as exigem para a construção na América do Sul de um bloco que nos fortaleça a todos, o Brasil precisa assumir suas responsabilidades para como a região”, reza a doutrina oficial.

Se essa premissa – as assimetrias existentes entre os países sul-americanos – fosse obstáculo, nem o México e o Canadá teriam negociado acordos de livre comércio com os EUA. As assimetrias entre eles eram maiores do que aquelas existentes entre o Brasil e o Paraguai, por exemplo.

O mais novo desdobramento da política externa em relação à região foi a sugestão de que “o Brasil deveria promover um Plano Marshall sul-americano para superar a devastação diária causada pelo subdesenvolvimento”, no dizer de um dos proponentes da idéia.

Essa eventual iniciativa brasileira, segundo se anuncia, deveria imaginar um programa mais amplo, mais enérgico, mais generoso e mais ágil dos países mais ricos da região em favor daqueles mais pobres, a exemplo do Plano Marshall. Em termos de política externa, estamos entrando na fase do realismo mágico.

Na prática, a idéia começaria a ser implementada de forma bem menos ambiciosa, e pelo que se divulgou, englobaria um esforço maior de remoção dos obstáculos que dificultam a entrada de produtos dos vizinhos no mercado brasileiro; um maior esforço para melhorar as condições e volume de crédito para obras de infra-estrutura; para facilitar as transações comerciais, aperfeiçoando os sistemas de pagamento em moeda local; e para ampliar, em muito, os fundos para a redução de assimetrias, como o de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem).

Resta saber quem, na categoria dos mais ricos da região, se disporia a levar adiante a idéia junto com o Brasil. Argentina e Venezuela seriam os candidatos naturais. Parece mais realista, contudo, nas circunstâncias difíceis que enfrentam internamente, incluí-los hoje entre os que haverão de demandar recursos para suas respectivas reconstrução econômica....

O perdão de dívidas (Paraguai e Bolívia), o aumento da contribuição do Brasil à Corporacion Andina de Fomento (banco de desenvolvimento dos países andinos), a majoritária contribuição financeira do Brasil no Focem, as linhas de crédito abertas para esses países e os investimentos oficiais oferecidos sem qualquer garantia de pagamentos por países com tradição de descumprimento de contratos, como a Bolívia, tudo isso já comprometeu centenas de milhões de dólares dos cofres públicos. Agora, anuncia-se uma hidrelétrica binacional com a Bolívia (não bastam os problemas com o Paraguai em Itaipu) e a cessão, sem pagamento, de energia a Argentina e ao Uruguai (em troca de energia futura), como novos exemplos de generosidade.

Seria legitimo esperar que resultados concretos dessa política generosa tenham alguma contrapartida que possa ser contabilizada positivamente pelo governo brasileiro na defesa de nosso interesse nacional. Seria constrangedor, porém, elaborar aqui uma lista das contrapartidas que o Brasil recebeu, depois de todos os gestos políticos e econômico-financeiros em favor dos vizinhos nos últimos anos. Basta lembrar o último deles. A Argentina manifestou-se contrária à posição do Brasil/Mercosul nas negociações multilaterais de comércio da Rodada Doha, peça fundamental da estratégia de negociação comercial externa do atual governo.

Não está em questão o real e justificado interesse do Brasil em ter vizinhos com uma economia estável e em desenvolvimento. Na medida do possível, o Brasil deveria ajudá-los a caminhar nessa direção.

A liderança para um plano Marshall na região, contudo, é uma proposição totalmente diferente. Como atribuir prioridade a tal iniciativa quando se sabe que algumas regiões de nosso país, em especial o nordeste e o norte, são mais pobres do que a maioria de nossos vizinhos? Como concentrar esforços e grandes recursos financeiros para generosamente ajudar nossos ”hermanos”,quando os verdadeiros necessitados são nossos irmãos?

Não podemos ignorar que o Brasil nos últimos dez ou quinze anos, com a estabilidade da economia, e impulsionado pelo crescimento da economia mundial e do comércio exterior, vem se projetando de forma crescente no exterior. Pela internacionalização das muitas empresas brasileiras e por estar no centro das discussões de alguns temas que interessam a todos os países, em especial os desenvolvidos, como a questão energética (etanol e petróleo), de meio ambiente (mudança de clima) e alimentos (escassez de alguns produtos e alta cotação das commodities), a situação externa nos seus fundamentos se modificou para o Brasil. Para nós, o Mercosul se tornou pequeno. A médio prazo, se continuarmos nesse caminho, também a América do Sul ficará pequena para o Brasil.

Urge que o governo e as empresas brasileiras pensem globalmente. Nossos interesses imediatos estão no entorno geográfico, mas não devemos perder de vista as oportunidades que estão se abrindo e se abrirão nos próximos anos para o setor privado brasileiro em regiões onde se localizam os maiores e mais dinâmicos países do mundo.

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