22/01/2008
O Brasil e a América do Sul 
Rubens Antonio Barbosa

Nos últimos 10 anos, depois de alcançar a estabilização da economia, o Brasil viu crescer sua projeção no cenário internacional, com a natural ampliação de sua agenda externa, tanto econômica, como política.

O fato de se estar tornando um ator global não deve fazer com que o Brasil descuide do seu entorno geográfico. Por mais poderoso que seja o país e mais globalizada sua economia, a vizinhança mais próxima deve merecer atenção não só do ponto de vista da parceria comercial, mas, sobretudo, do ângulo político para poder acompanhar e entender as transformações regionais que podem afetar seus interesses. É o que mostram os exemplos dos EUA em relação ao México e ao Canadá, na America do Norte, e o da China, com sua vizinhança asiática.

No caso da América do Sul, o mapa político e o cenário econômico estão sofrendo profundas transformações. A emergência de movimentos sociais, do poder indígena e de novas lideranças fez ressurgir como foco principal, na área externa, um forte apelo popular nacionalista, anti-globalizante e anti-americano.
Como o Governo brasileiro está reagindo a essas transformações e qual a política que tem desenvolvido em relação a seus vizinhos geográficos?

O discurso oficial considera a América do Sul a primeira prioridade da política externa e não se cansa de repetir que nunca na história do Brasil o relacionamento com os países da região esteve tão próximo e tão positivo, não só em termos da relação bilateral, como em termos de integração regional (Mercosul). A política atual insiste em que o Brasil, como o maior pais da região, deve tomar a dianteira nas políticas de integração, faça concessões aos países menores e assuma a responsabilidade de reduzir as assimetrias existentes. Em declarações recentes, Lula observou que falta vontade política para avançar o processo de integração regional e que as decisões políticas deveriam prevalecer sobre as considerações técnicas.

Já os críticos da política externa para a região consideram que o Brasil não está captando corretamente o sentido das transformações políticas que estão ocorrendo, que nossos interesses estão sendo crescentemente afetados sem uma resposta adequada e que, na realidade, uma agenda que não é a nossa está sendo executada. O Brasil estaria a reboque dos acontecimentos e com dificuldade para conseguir apoio quando estão em jogo candidaturas ou políticas propostas por Brasília, apesar de algumas afinidades político-partidárias e ideológicas. Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai implementam políticas claramente contrárias aos interesses nacionais sob o olhar complacente de Brasilia.

Limitações internas e regionais reduzem as possibilidades de sucesso de propostas muito ambiciosas da política brasileira para a America do Sul.

No plano doméstico, a superficialidade do debate, a dificuldade em delegar ou compartilhar soberania em instituições internacionais e, como observou o Presidente Lula, a existência de políticas publicas com viés anti-integração dificultam a consolidação de uma visão brasileira para a America do Sul.

No plano externo, a crise dos projetos de integração na America do Sul, o retorno do nacionalismo econômico em alguns países, a divergência de visões sobre o papel do Estado na economia e a prioridade da inserção internacional, bem como a politização das divergências nas relações entre os países da região, impõem limites ao grau de ambição para a integração regional e para a própria revisão da política brasileira para a America do Sul.

Em trabalho recente (O Brasil e a América do Sul), em que colaborei e com cujas conclusões estou de acordo, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) procura aprofundar a analise das percepções brasileiras e de política externa em relação à região.

O trabalho toca em três questões que me parecem básicas: quais os objetivos políticos e econômicos do Brasil na região; quais deles devem ser melhor identificados e aprofundados na agenda brasileira para a região em função dos objetivos definidos; e como esses objetivos afetam o posicionamento brasileiro nas relações bilaterais e diante da integração regional.

Para responder a essas perguntas o trabalho indica algumas características do relacionamento do Brasil com a região
- a percepção de que os interesses brasileiros na região vem se diversificando e que há um processo de adensamento das relações do Brasil com os países da região que não pode ser gerenciado nos marcos da política reativa que tem caracterizado a política regional do Brasil

- o reconhecimento de que os mecanismos desenvolvidos nos anos 90 são insuficientes para lidar com a complexidade de interesses do Brasil na região

- a constatação das dificuldades por que passam os projetos de integração sub regionais leva alguns segmentos a defender maior prioridade ao tratamento de temas não comerciais e não econômicos na agenda da região.

- o reconhecimento de que se explicita nos últimos anos a existência de uma agenda regional com características e temática própria, associada a proximidade geográfica e as oportunidades e riscos por ela gerados. Energia e infra estrutura são dois temas dessa agenda cuja dimensão regional não precisa ser ressaltada.

Não será fácil chegar a um consenso sobre a melhor estratégia para a America do Sul.

Qualquer que seja a visão que venha a prevalecer, a criação de um espaço comercial ampliado na região e a defesa intransigente do interesse nacional no relacionamento bilateral deveriam ser, nos próximos anos, os principais fundamentos de uma política criativa e pró ativa do Brasil para a região.

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