14/08/04
Mercado De Grupos Etnicos
Rubens Antonio Barbosa e José Estanislau do Amaral Souza


Mercado De Grupos Etnicos Tenho me referido, com frequência, à ausência de uma estratégia do setor privado e do governo para tentar expandir as relações econômicas com os EUA e para aumentar as exportações do Brasil para aquele mercado.

Evidentemente, muita coisa já vem sendo feito, como a organização de missões comerciais setoriais e a participação em feiras, o que deve ser reconhecido e apoiado. Quando me refiro à necessidade de uma atitude mais agressiva do setor privado e uma definição de prioridades para certos mercados de grande potencial para os produtos brasileiros, estou pensando em algo mais sofisticado e com perspectivas de resultados mais rápidos e significativos. O mercado norte-americano é o maior, o mais dinâmico e um dos mais abertos do mundo. Com um PIB de US$11,5 trilhões e importações de mais de US$ 1,5 trilhões, os EUA oferecem muitas oportunidades para o exportador atento e interessado em descobrir e explorar nichos nesse mercado.

Dois desses nichos se enquadram nessa visão estratégica de médio e longo prazo, e se destacam imediatamente pelo potencial que podem representar para o exportador brasileiro: o latino e o negro. O mercado latino de cerca de 38 milhões de pessoas, das quais perto de um milhão são brasileiros, começa a ser pesquisado e buscado por algumas companhias brasileiras.

Muito mais poderia ser feito, combinando iniciativas nesse mercado étnico com ações especificas nos principais estados onde os latinos se concentam. Vou focalizar, contudo, apenas o negro (outro grupo de aproximadamente 36 milhões de pessoas) pelo seu potencial e pelas oportunidades que oferece para o comércio exterior e turismo no Brasil. A minoria negra ou afro-americana representará, em termos de disponibilidade de renda, cerca de US$ 921 bilhões em 2008. Com relação à distribuição geográfica, os dez estados que apresentaram maior poder de compra da comunidade negra dos EUA em 2003 foram: Nova York (US$ 65 bilhões), California (US$ 53 bi), Texas (US$ 50 bi), Georgia (US$ 46bi), Florida (US$ 41 BI), Maryland (US$ 38 bi), Illinois (US$ 37 bi), Carolina do Norte (US$31 bi), Virginia (US$ 29 bi) e Michigan (US$ 28bi) Apesar de ser ligeiramente menos dinâmico que o mercado latino, o afro-americano continua sendo o maior mercado étnico do país.

Se fosse uma nação, o mercado afro-americano seria a 11ª. economia do mundo, maior, portanto, do que a do Brasil. De acordo com o estudo “Buying Power of Black America”, seu poder de compra chegou a US$ 631 bilhões em 2002, com um aumento de 4,8% em relação a 2001. O significativo crescimento do mercado afro-americano e de outros mercados étnicos, em tamanho e em poder de compra, tem levado as empresas norte-americanas a desenhar campanhas publicitárias de alcance nacional, especificamente dirigidas a esses segmentos. Foram realizados negócios nos EUA entre as grandes empresas e as empresas definidas como de minorias raciais um volume de negócios superior a US$ 70 bi, no ano de 2003.

A titulo de comparação, o Brasil tem uma expectativa de exportações para 2004 na ordem de US$ 80 bi. Isto indica uma economia empresarial muito forte no mercado combinado de latinos e negros norte-americanos. No tocante ao turismo, segundo a publicação “Black Meetings and Turism” (BM&T), a comunidade afro-americana gasta US$ 35 bilhões em viagem de lazer e de negócios.

O setor reflete o crescente poder de compra desse segmento da população norte-americana. Segundo, a BM&T, o mercado de turistas afro-americanos é o mais dinâmico do setor, tendo crescido 16% nos últimos dois anos, enquanto o setor como um todo cresceu apenas 1%. A população negra norte-americana tem representado nos últimos anos cerca de 17% das viagens de lazer, enquanto sua participação relativa no total da população é de 13%.

As estatísticas recentes daquele mercado consumidor, e em particular a forte influência em nossa cultura por parte dos descendentes dos negros potencializam as possibilidades de exploração comercial deste diferencial mercadológico único no mundo, dadas as similitudes dos matizes das populações brasileiras e norte-americanas. Tenho acompanhado a movimentação de empresários negros norte-americanos e brasileiros e posso registrar uma tímida evolução, talvez um primeiro passo, com o início de voô charter de Nova Iorque para Salvador no início do próximo ano. Isto, creio, será uma “ponte” pioneira que servirá para encurtar as distâncias entre o empresariado brasileiro e este enorme mercado étnico que se disponibiliza para o crescimento favorável da balança comercial brasileira em um mercado altamente sofisticado, com elevado nível de poder de compra e muito pouco explorado pelo empresariado brasileiro.

O esforço para a identificação de oportunidades de negócios na área comercial e de turismo entre as comunidades negras brasileira e norte-americana poderá beneficiar-se do bom relacionamento mantido com o ”National Minority Supplier Development Council (NMSDC)” e com a “Congressional Black Caucus Foundation” (CBCF), cujos representantes vieram diversas vêzes ao Brasil e ajudaram a constituir entidade congênere no Brasil, o Integrare - Centro de Integração de Negócios. Em junho, importante missão empresarial negra norte-americana visitou o Brasil para buscar oportunidades de negocios nas áreas de energia, telecomunicações, informática e componentes eletrônicos.

Esses dados indicam um enorne potencial que o Brasil, através do setor privado – sem prescindir das políticas e ações de governo - deve explorar de forma mais agressiva.
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