13/02/2007
Erro histórico EUA  - Après moi, le déluge
Rubens Antonio Barbosa

Os EUA já vivem um clima pré-eleitoral. Apesar da disputa presidencial só acontecer em 2008, os potenciais candidatos dos dois partidos, democrata e republicano, começam a se posicionar em relação aos principais temas de interesse da sociedade norte-americana.

O tema dominante, desde agora e certamente durante a campanha política de 2008, é e será a guerra no Iraque. O debate se concentrará no que fazer para melhor defender o interesse nacional dos EUA. Manter a presença militar ou reduzir gradualmente os efetivos que sobem a mais de 140.000 até o desengajamento total? O que fazer com o país ocupado militarmente e dilacerado por uma guerra civil, cada vez mais violenta, entre shiitas e sunítas?

A invasão do Iraque em 2003 foi talvez o maior erro de política externa dos EUA desde a Guerra do Vietnã. Não cabe aqui discutir as causas e as consequências da ação militar norte-americana. O fato é que a situação é grave e está se deteriorando. Internamente, as pesquisas indicam que 71% da população está contra a guerra.

A decisão tomada por um governo dirigido majoritariamente por conservadores radicais, cujas posições ficaram reforçadas pelos ataques terroristas de 11 de setembro, dividiu o país. O resultado das eleições para o Congresso de novembro de 2006, recolocando os democratas no controle da Câmara e do Senado, foi uma clara afirmação de descontentamento da população. A pressão para uma mudança de posição do Governo no tocante ao envolvimento militar no Iraque aumenta na medida em que se delineia a luta política pela sucessão.

Nesse contexto, a divulgação do relatório da comissão bi-partidária criada para examinar a situação e para propor cursos de ação sobre a Guerra no Iraque oferece a oportunidade de algumas reflexões sobre as perspectivas dessa grave crise tanto nos EUA, quanto no Oriente Médio em geral.

O relatório foi desconsiderado por George Bush que, contra a opinião majoritária no Congresso e na sociedade, decidiu aumentar o número de militares e solicitar mais recursos financeiros para fazer face aos crescentes custos da ocupação. Os gastos com a guerra sobem a mais de 1 trilhão de dólares e representa gastos de 6.300 dólares por segundo.

Barbara Tuchman historiadora norte-americana, no livro March of Folly mostra como, em certos momentos históricos, desde a Guerra de Tróia até o Vietnã, os líderes políticos tomam decisões contra o conselho generalizado e contra o interesse de seu próprio país.

Parece que é isso o que está acontecendo nos EUA no tocante ao Iraque.

O atual governo em Washington tem uma visão particular do conflito, derivada da maneira como acredita estar defendendo o interesse nacional norte-americano. Combater o terrorismo, afastar a ameaça de ataques ao território norte-americano, garantir a segurança de Israel, disseminar a democracia e, sobretudo, manter uma presença militar no Oriente Médio, em função da necessidade estratégica de garantia de fornecimento de petróleo, são algumas das prioridades.

A visão da Europa, dos países do Oriente Médio e das outras regiões, é bem mais matizada e aponta para a necessidade de negociação mais ampla para buscar a paz e a segurança em todo o Oriente Médio e da sensível redução da presença bélica norte-americana, além de um diálogo mais efetivo com o mundo islâmico.

Não parece haver dúvida de que o fim do conflito no Iraque passa pela retirada da força militar norte-americana, vista como uma tropa de ocupação. Essa alternativa, contudo, está fora do cálculo dos formuladores de política na Casa Branca por considerações geopolíticas e geo-econômicas. Os EUA, apesar de toda a retórica pré-eleitoral, deverão continuar no Iraque pelos próximos cinco a dez anos. Os EUA não podem perder, nem sair do Oriente Médio.

Com isso, a partir de iniciativas de política externa de Washington, dificilmente a ameaça de atos terroristas em território norte-americano ficará diminuida e tornar-se-á mais difícil enfrentar os outros gravíssimos problemas da região. Como engajar a Síria e o Irã, diretamente envolvidos no Iraque? Como ficará o Irã sob ameaça de um ataque cirúrgico dos EUA para afastar a infiltração no Iraque, o apoio ao Hesbolah no Líbano e, em especial, o risco do país fabricar uma bomba nuclear, colocando em xeque Israel? Como retomar o processo de paz entre Israel e a Palestina ? Como afastar o risco de uma divisão do Iraque - imerso em uma guerra civil - entre os Curdos, os Sunitas e os Shiitas?  Como enfrentar o crescente ressentimento muçulmano contra o Ocidente, simbolizado pelos EUA.

Caso esse quadro se confirme nos próximos dois anos, o preço do petróleo continuará oscilando, aumentando a vulnerabilidade das economias médias e pequenas, a instabilidade e insegurança global persistirão, estimuladas pela reação da população islâmica. O terrorismo, que faz do Afeganistão e agora do Iraque sua base de ação, continuará cada vez mais a ameaçar a comunidade internacional.

O respaldo a Israel no conflito com a Palestina e a presença militar norte-americana no Oriente Médio, elementos essenciais na política de seguranca nacional dos EUA, são as principais causas da baixa perspectiva de paz e estabilidade política na área.  Realisticamente, a prolongada crise nessa região não encontrará uma solução negociada pela imposição militar, mas pela reavaliação da política de Washington para passar a pressionar todas as partes a buscar um entendimento.

Assim, o grande Oriente Médio continuará instável por muitos anos. Dificilmente, mesmo um eventual governo democrático terá condições de promover a retirada militar do Iraque, sem uma profunda transformação do cenário internacional na região.

Enquanto isso, a Europa e o resto do mundo, inclusive nós, assistimos perplexos e impotentes o crescimento da violência e da destruição.

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