26/10/04
Eleições presidencias nos EUA


No próximo dia 2, provavelmente, o mundo conhecerá o 44º. Presidente norte-americano. Digo provavelmente, porque os vícios e os problemas na apuração dos votos, registrados na eleição na Flórida em 2000, poderão repetir-se nesse e em outros estados, o que significará de novo atraso para a divulgação dos resultados finais.

Essa perspectiva, apontada inclusive pelo ex-presidente Jimmy Carter, hoje guindado à condição de ombudsman eleitoral do mundo, tem motivado uma grande mobilização de advogados e lobistas dos dois partidos para enfrentar possíveis batalhas judiciais se, nesses estados, a vitória pender para um ou outro lado por margem apertada de votos.

A opinião pública, na quase totalidade dos países, tem uma percepção negativa do Presidente Bush e em pesquias de opinião tem manifestado clara preferência por Kerry. As exceções são a Russia e Israel, por circunstâncias especiais.

A eleição global virtual, porém, pouca influência tem sobre o comportamento do eleitor norte-americano. O país está dividido e a vitoria dos Repubicanos ou dos Democratas será por pequena margem, tanto na votação direta, quanto no colégio eleitoral.

Como explicar a reeleição do mais ideológico, mais conservador, mais polarizador dos presidentes norte-americanos dos tempos modernos, conforme parecem indicar as pesquisas de forma quase unânime? Como pode a classe média norte-americana aceitar meias verdades como explicações para justificar o crescente déficit público e nas contas correntes, resultado de uma política de aumento da despesa (guerra no Iraque e com segurança) e corte na receita (redução significativa do imposto de renda), de nítida conotação ideológica-partidária ?

Como pode significativa parcela da opinião pública, quase hipnotizada pelo discurso oficial, justificar e aprovar as razões de uma política externa unilateral, desgastante para a imagem do pais no exterior, baseada, na guerra do Iraque, em premissas que se provaram falsas ou equivocadas e cujos resultados proporcionaram o aumento e não a diminuição da ameaça terrorista e da insegurança para os EUA e para o mundo?

Dentre muitas explicações possiveis, duas me parecem as principais:

- a descoberta pelo povo norte-americano da vulnerabilidade dos EUA depois de 11 de setembro, explorada com maestria pelo Presidente Bush ao passar a mensagem de que colocar-se contra ou fazer restrições às ações para garantir a segurança do território norte-americano e combater o terrorismo é uma atitude impatriótica. Patriotismo e nacionalismo passaram a ser apresentados como quase monopólio do governo republicano, que não se cansa de repetir que os EUA hoje são um país em guerra.

- a transformação da política, como explicitada por Bush, em quase um dogma de fé, na qual a autoridade suprema é vista como infalível, como o timoneiro certo no momento de dificuldade. Se auto-atribuindo a missão de defensor e propugnador da liberdade e da democracia nos quatro cantos do mundo e da ortodoxia ética e moral, Bush prega uma doutrina quase teológica, messiânica, em que princípios religiosos e dogmáticos, passaram a ser aceitos sem espírito crítico pela maioria.

Sua imagem de um ator político simples, para não dizer simplório, que martela suas verdades, em muitos casos, totalmente descolados da realidade, transformando aspectos negativos em vitórias, fizeram com que a maioria da população da classe média, urbana e rural, pouco sofisticada em sua cultura política, mas afluente e temerosa da ameaça do terrorismo, tão acentuada por Bush, com ele se identifique.

Se a eleição fosse hoje, George W. Bush teria 50% de chance de ganhar. Eventos novos nesta última semana de campanha podem alterar esse resultado, porque aumentam as incertezas não detectáveis pelas pesquisas. A eleição vai depender de fatores imponderáveis, como o resultado nos estados da Flórida, Pensylvania e Ohio, decisivos para dar maioria a qualquer dos candidatos no colégio eleitoral, o número de republicanos e democratas que decidirão comparecer para votar, já que o voto não é obrigatório, o comportamento do grande número de novos eleitores recrutados por ambos os partidos e que pela primeira vez vão se manifestar, o voto dos jovens que também votam pela primeira vez, o voto feminino, dos negros e dos 7 milhões de latinos, decisivos em alguns estados de muito equilíbrio, como o Novo México, Nevada e a Flórida e Ralph Nader, cujos votos custaram a eleição de Al Gore em 2000.

A maneira como esses atores políticos se manifestarem será decisiva para o resultado eleitoral.
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