13/07/2004
Eleição Global 
Rubens Antonio Barbosa

De um amigo ouvi que gostaria de poder votar nas próximas eleições para presidente dos EUA, pela simples razão de se sentir diretamente afetado por seu resultado. Essa observação reflete a importância e a repercussão que as eleições norte-americanas têm sobre o mundo globalizado.

Os EUA, por sua condição de única superpotência e pela significativa influência derivada de seu poderio imperial, são o único país do mundo em que a sucessão democrática a cada quatro anos é acompanhada, nos seus menores detalhes, por analistas, pela mídia e pela opinião pública mundial.

Isso ocorre porque, como se viu de forma dramática com George W. Bush, os EUA, ao expressarem sua opinião ou decisão, influenciam o curso dos acontecimentos e alteram, sem maior cerimônia, as agendas dos atores.

A vontade do governante máximo de Washington exerce forte influência não apenas sobre esses temas. Direitos humanos, meio ambiente, comércio exterior e sanções comerciais, democracia, dívida externa, política econômica, taxas de juros são alguns exemplos de áreas em que decisões de governo dos EUA afetam a vida de indivíduos e empresas nos quatro quadrantes do mundo.

Tal é o interesse pelo tema que já existem sites como o www.theworldvotes.org onde qualquer pessoa pode votar e assegurar que sua voz seja ouvida. Como os resultados dessa votação virtual são divulgados nos EUA, poderão até exercer alguma influência sobre o eleitor e os formuladores de política americanos.

Os EUA estão divididos como talvez nunca antes em passado recente. Segundo as últimas pesquisas, ao redor de 90% dos republicanos votarão em Bush e os democratas, na mesma proporção, em John Kerry. Os cerca de 10% de votos independentes serão os decisivos nesta eleição.

Por isso, será crucial o comportamento dos eleitores nos Estados onde, na última eleição, o resultado apresentou pequena margem de diferença. Qualquer oscilação de 1% a 3% em Iowa, Novo México, Missouri, Flórida e Delaware, entre outros, poderá modificar completamente o resultado em novembro.

Outro fator de crescente importância no campo político norte-americano é o voto latino. Dos cerca de 36 milhões de imigrantes de origem latina, ainda é pequena a proporção dos votantes; em alguns Estados, contudo, como Novo México, Califórnia e Flórida, poderão ter um peso significativo. Os latinos são tradicionais eleitores do Partido Republicano e qualquer variação na tendência de seu voto será um fator significativo a ser levado em conta.

As últimas pesquisas mostram que, pela primeira vez, o candidato democrata, John Kerry, passa a ter chance real de vitória. Tecnicamente empatado com Bush até aqui, Kerry, nas últimas semanas, se beneficiou da crescente perda da popularidade de seu oponente e da dúvida quanto ao acerto do governo de Washington no tocante à invasão do Iraque. Com isso conseguiu ampliar significativamente os recursos financeiros para a campanha mais cara da História política norte-americana, para a qual Bush dispõe de mais de US$ 210 milhões.

Dois temas sobressaem como determinantes para o resultado da eleição: a evolução da situação no Iraque e o comportamento da economia norte-americana.

A tradução em termos políticos desses dois fatores é contraditória: enquanto aumentam as críticas e a rejeição da política em relação ao Iraque, melhora a percepção em relação à economia.

"É a economia, estúpido", esse era o lema dos marqueteiros de Clinton quando se elegeu em 1992. Em 2004, Bush talvez possa repetir a frase, desmentindo os que apostam no desgaste militar no Iraque.

Hoje, levando em conta todos esses fatores, Bush é o candidato a ser derrotado. A situação continua bastante fluida e assim deverá continuar até início de setembro, quando o povo norte-americano, de volta das férias, passará a concentrar suas atenções nas eleições.

A eleição de novembro de 2004 poderá ser decidida por algum acontecimento imprevisível, nos EUA ou no exterior. E aqui reside a grande ironia. Se o mundo acompanha de perto a eleição, mesmo sem votar, o mundo também poderá afetar o resultado.

Um atentado terrorista contra o território dos EUA, a deterioração da situação no Iraque com o número crescente de mortes, o julgamento de Saddam Hussein poderão modificar a percepção dos eleitores sobre Bush, para melhor ou para pior, e decidir a eleição em seu favor ou não.

Um fato político que poderá influir no resultado da eleição será o desempenho dos candidatos a vice-presidente. John Edwards, jovem e dinâmico senador da Carolina do Norte, já parece estar sendo um elemento positivo na campanha, não só por seu carisma e influência sobre o voto mais conservador do sul do país, como também por ser comparado com Dick Cheney, velha (literalmente) raposa política, desgastado pelas acusações de favorecimento à empresas petrolíferas e empreiteiras no Iraque. A primeira - ainda dentro da margem de erro - pesquisa logo após a escolha de Edwards ampliou a vantagem de Kerry (49% a 41%), O mundo aguarda os desdobramentos do drama político-eleitoral norte-americano.

Sabendo que, qualquer que seja o resultado da primeira eleição depois do 11 de Setembro, as mudanças serão mais de ênfase e nuance do que de substância. A prioridade atribuída à segurança e ao combate ao terrorismo continuará absoluta. No caso de vitória democrata, essas mudanças de ênfase serão percebidas mais rapidamente na economia, pela maior austeridade fiscal, redução do déficit público e, possivelmente, pelo aumento de impostos, e na política internacional, pelo abrandamento do unilateralismo e maior importância a ser atribuída às Nações Unidas.

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