12/10/04
Conferência das Américas 2004


Como em todos os anos, no final de setembro, em Miami, aconteceu mais uma Conferência das Américas, talvez o mais importante encontro continental para examinar os problemas e os anseios da América Latina em sua relação com os EUA. Promovida pelo importante diário Miami Herald, a Conferência reuniu Presidentes, Ministros, empresários, economistas, representantes de governos e do meio acadêmico. O primeiro pronuncimento da Conferência foi de um alto funcionário do Ministério da Justiça dos EUA que se estendeu sobre a ameaça do terrorismo e as medidas de segurança que o Governo de Washingnton tomou e irá tomar para defender o território e o povo norte-americano. Nesse contexto, defendeu vigorosamente o controvertido Patriotic Act, legislação aprovada logo depois dos ataques de 11 de setembro, que suspende garantias constitucionais no capítulo dos direitos civís, um dos pilares da sociedade norte-americana. Foi mais um exemplo da obcessiva importância que o governo Bush e o povo norte-americano atribuem a esses temas. As eleições presidenciais nos EUA e seus eventuais efeitos sobre a América Latina foram amplamente examinados. Houve consenso em que, dadas as atuais prioridades da política externa norte-americana, dificilmente a América Latina deixará de ocupar um lugar secundário nos radares dos centros de decisão de Washington. Como evidência disso, no debate pela TV sobre política externa, nenhuma referência à região.

O Instituto Latinobarômetro, por outro lado, apresentou números de pesquisa realizada em 18 países latino-americanos sobre a perceção a respeito das relações com os EUA. A pesquisa mostrou que, com exceção de Colômbia, Paraguai e Chile, todos os países tem uma visão crescentemente negativa das dificuldades de relacionamento com Washington.

Outro foco de debate foi o grau de preparo e a capacidade de resposta da América Latina para entrentar os desafios do mercado global. Além de ressaltar as vulnerabilidades e a falta de competitividade da região para enfrentar os desafios que a inserção no mercado global desperta, foi observado que umas das consequências da globalização e dos acordos de livre comércio é a maior dependência dos países da região da economia norte-americana, inclusive pelo crescente volume de remessas de imigrantes residentes nos EUA para seus países, que ultraspassam hoje US$35 bi.

Um dos painéis mais interessantes tratou da crescente presença da China na América Latina e o desafio para os países da região de competir com a mais nova potência comercial do mundo. Vale a pena ressaltar tres informações examinadas durante as discussões desse tema. Com mais de US$ 140 bilhões, a China já está exportando mais para os EUA do que o México, em algumas áreas deslocando produtos mexicanos. Nos próximos anos, se essa tendência continuar, a política de maquiladoras poderá ser colocada em cheque, criando um enorme problema estratégico para a indústria do México. Cerca de 300 maquiladoras deixaram o México e foram instalar-se na China. A China busca abrir entrepostos na América Central para poder competir nos mercados da região. Do ponto de vista político, a China, no contexto da ajuda ao Haiti, coordenada pelas Nações Unidas, está enviando 120 policiais, mostrando pela primeira vez sua presença política no continente americano.

O Mercosul foi outro destaque da Conferência. Unico brasileiro participante da Conferência, junto com a ex-Embaixadora dos EUA no Brasil, Donna Hrinak, Peter Hakim, do Inter-American Dialogue de Washington, Richard Feinberg, da Universidade de San Diego e James Bocchus, ex-representante dos EUA na comissão de apelação da OMC, discutimos quais as chances de o Mercosul superar suas constantes crises. Todos concordaram que o Mercosul, como personalidade jurídica, em decorrência da vontade política dos quatro membros fundadores, vai continuar a existir. Houve igualmente consenso de que as sucessivas crises e descumprimentos das regras comerciais colocam em risco o projeto de integração econômica e comercial. Em minha apresentação, reafirmei esse entendimento e disse que, se até o fim do ano, o Brasil, na qualidade de presidente rotativo, não conseguisse avançar com um programa de trabalho para restaurar a credibilidade do Mercosul, nem resolvesse o crescente contencioso com a Argentina, o governo brasileiro deveria propor o reexame do Tratado de Assunção, que criou o gropo sub-regional.

O Presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, um dos quatro Chefes de Estado presentes, apesar de ser um dos mais próximos aliados dos EUA na região, em virtude do apoio que vem recebendo de Washington na luta contra a guerrilha e o narcotráfico, via plano Colômbia, que canaliza mais de $1,2 bi para o governo de Bogotá, alertou para as dificuldades dos países latino-americanos nas negociações comerciais com os EUA. Referindo-se às negociações de um acordo de livre comércio EUA-Grupo andino repetiu, de maneira significativa, a mesma posição defendida pelo Mercosul, e especialmente pelo Brasil, nas negociações da ALCA, ao pedir que os resultados sejam “equitativos”, isto é equilibrados, com ganhos para todos. Essa manifestação pública do Presidente colombiano reflete certamente a dureza das negociações em curso, nas quais os EUA devem estar buscando extrair vantagens em termos de acesso a mercado e de regras, com muito poucas concessões para os produtos de interesse para os países andinos. Resta saber como o novo governo de Washington reagirá a esse quadro, a partir de janeiro de 2005.
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