14/11/06
Avanço democrático ou neo-presidencialismo
Rubens Antonio Barbosa

A forma como se desenrolou a campanha da eleição presidencial mostrou que estamos vivendo uma experiência que pode ser considerada verdadeiro divisor de águas em termos da relação entre os partidos políticos e os eleitores.

A eleição de 2006 explicitou transformações sensíveis, já ocorridas e outras que estão se processando, na estrutura da sociedade brasileira e para a qual os partidos políticos e os políticos em geral, perplexos, demonstraram não estar sintonizados.

Enquanto os partidos políticos continuaram imobilizados, algo de muito profundo e significativo mudou a maneira como essas organizações deverão,daqui para frente, organizar-se para buscar apoio popular nas próximas eleições majoritárias, especialmente a de Presidente da República.

A sociedade brasileira de hoje é muito diferente daquela do período dos militares, do inicio dos 90 quando Collor foi eleito, e dos anos 90 com FHC e o plano real: o país se modernizou, a economia se estabilizou, a sociedade se sofisticou e se tornou mais complexa.

“O aparecimento de novas redes de entes intermediários, civilmente organizados, distintos do sindicalismo tradicional em seu modo interno de organização, de que são exemplos os sindicatos dos catadores de papéis, uma revisão do modelo tradicional, das ONGs ao condomínio: esses organismos estão mudando a natureza das relações políticas, invertendo pela primeira vez os processos tradicionais de formação de opinião.

A opinião afinal dominante não nasceu no cimo da pirâmide social, nem nas classes médias ilustradas ou não, mas na base delas”, observa apropriadamente Walder de Góes, em recente análise do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (IBEP).

Com a emergência silenciosa do povo como ator principal, sem que a classe politica compreendesse a extensão das transformações em curso, os fatores que passam a influir na formação da opinião publica estão se alternando rapidamente, forçando, via de conseqüência, uma modificação da relação da classe política com os eleitores.

As lideranças partidárias perderam seus canais de comunicação com o eleitorado e as formas tradicionais de fazer política estão ficando rapidamente superadas. Os chamados formadores de opinião estão perdendo espaço e emerge com todo o vigor a “força do povo”.

Há uma despolitização geral, no sentido de que os eleitores não se preocupam ou não prestam atenção a não ser em temas de seu interesse específico, passando à margem da agenda dos partidos políticos e de seus líderes.

Os partidos políticos ficaram sem discurso, como se viu na eleição presidencial. Os debates tiveram de tudo, menos uma discussão programática partidária.

Nenhum partido político, inclusive o PT, entendeu e está acompanhando essa mudança, nem está procurando se reciclar a partir da nova realidade e das novas demandas. As lideranças partidárias estão distantes das aspirações e dos anseios da sociedade.

Todos os partidos, sem exceção, terão de se ajustar e buscar suas próprias identidades, em especial o principal partido da oposição, o PSDB. Sem entender o que está acontecendo, e sem encontrar uma nova base social de apoio (redes, sindicatos, estudantes, ongs), dificilmente poderão enfrentar o utilitarismo ou o messianismo acima dos partidos.

Estamos entrando em uma nova etapa da vida política brasileira caracterizada, entre outros aspectos, pela mudança da agenda, pela mudança dos meios (internet, blogs) e pela necessidade de uma campanha política permanente, o que exigirá uma nova atitude dos partidos, seja no governo, seja na oposição.

Lula, no governo, responsável por essa mudança de agenda, talvez tenha sido o primeiro político a haver intuído essa mudança na sociedade brasileira.

A ampliação da rede de segurança social e a transformação dos programas sociais - herdados do governo anterior - nos programas assistencialistas, a política de salário mínimo e outras medidas de transferência de renda, efetivados nos últimos quatro anos, fizeram Lula – não o PT -se identificar com os anseios desses novos atores.

Não podem deixar de ser avaliados, atos de grande força simbólica, como o almoço oferecido aos catadores de papel do Palácio da Alvorada, e o reconhecimento explicito por Lula dessa grande mudança ao dizer, de maneira direta, na noite da reeleição, que “o resultado é a vitória dos de baixo contra os de cima”; “é o andar de baixo que ganhou do andar de cima” e que “continuaremos a governar para todos, mas continuaremos a dar mais atenção aos mais necessitados” e que “os pobres terão preferência em nosso governo”.

Mais do que uma afirmação demagógica e populista, essas declarações do presidente eleito mostram que o relacionamento com os eleitores na campanha vai continuar nas ações do governo por mais quatro anos.

Lula está muitos anos luz à frente de seus pares em termos de percepção das novas realidades políticas e sociais no país. Não se trata apenas de afirmar-se como o grande comunicador da politica brasileira, mas, sobretudo, de estar na dianteira em termos de sintonia fina com os anseios da maioria da população.

A grande interrogação que fica é a identificação das conseqüências dessas profundas transformações. Como reagirá o Congresso às reformas políticas anunciadas como prioridade para o novo mandato.

Qual seu conteúdo? Como se posicionarão os partidos políticos, diante de uma liderança alicerçada na compreensão de que o povo, os eleitores mais pobres, são a base de sua sustentação?

Estamos no umbral de um grande avanço democrático com o povo, representado por seus setores organizados, como ator principal, ou no estágio inicial de um neo-presidencialismo, com poderes presidenciais ampliados por novas regras, inclusive no tocante ao fim da reeleição, abrindo a porta para um terceiro mandato ?

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