23/05/2005
As Nações Unidas e os Estados Unidos
Rubens Antonio Barbosa


O Senado dos EUA deverá votar, nesta semana, a polêmica indicação feita pelo Presidente George W. Bush de John Bolton para Embaixador norte-americano nas Nações Unidas. O resultado é incerto devido à oposição do Partido Democrata e de alguns republicanos que tentaram desqualificá-lo por conduta inapropriada e por seu dogmatismo.

Ao anunciar sua nomeação, a Secretária de Estado, Condoleezza Rice, qualificou Bolton de “diplomata duro” e com “comprovada experiência de multilateralismo”. De fato, Bolton tem a sua história de dedicação ao multilateralismo, até aqui, porém, sempre para rebaixá-lo ou subordiná-lo aos interesses norte-americanos.

Ativo membro dos “neo-conservadores”, grupo republicano ultra-radical, defendeu sistematicamente posições confrontacionistas com instituições multilaterais e tratados internacionais, entre eles o Tribunal Penal Internacional.

Conheci John Bolton em Washington, antes mesmo de ser nomeado Subsecretário no Departamento de Estado. Depois, mantive algumas reuniões de trabalho com ele naquilo que talvez tenha sido a primeira manifestação explícita do unilateralismo norte americano na política externa e o primeiro golpe de força em uma organização internacional.

Em reunião em seu gabinete no Departamento de Estado, tomei conhecimento das primeiras cargas, injustas e infundadas, contra o Diretor Geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas, o Embaixador brasileiro José Bustani. O episódio, que enfraqueceu a Organização, terminou com a saída de Bustani por pressão dos EUA, comandada por Bolton, para constrangimento dos países membros.

Em relação às Nações Unidas, Bolton, nos últimos anos, desqualificou a legitimidade da ONU como forum com regras criadas pela comunidade internacional para garantir a paz e a segurança coletiva. Em discurso público em 1994, declarou que “se o prédio do secretariado da ONU em New York perdesse dez andares não faria a menor diferença”. Defendeu a suspensão da contribuição dos EUA à instituição e foi um dos formuladores da posição neoconservadora da supremacia militar dos EUA em relação à carta das Nações Unidas, que os “neo-cons” consideram como ultrapassada.

Na defesa dessa visão, Bolton mostrou ser um defensor intransigente da Doutrina de Segurança Nacional dos EUA, que defende a filosofia da “paz através da força nas relações internaiconais”, com ataques preventivos e mudança de regime em países que ameaçem a segurança nacional norte-americana.

O que estaria por trás da indicação de alguém tão antagônico às praticas, as ações e a filosofia das Nações Unidas para ser justamente o representante dos EUA, o país de maior peso político, financeiro e militar naquela instituição.

Uma interpretação benevolente poderia levar à convicção de que no seu segundo mandato o Presidente Bush pretenderia gradualmente livrar-se da linha dura, neoconservadora, militarista e radical representada, entre outros, por Bolton (e também por Paul Wolfowitz que deixou o Pentágono para ser Presidente do Banco Mundial) e iniciar com Condoleezza Rice uma politica menos unilateral nas relações internacionais.

A realidade é outra. A defesa intransigente que Bush fez publicamente, ao insistir que Bolton é a pessoa necessária nas Nações Unidas no momento em que se discute a roforma da instituição, por ser firme e direto, mostra uma clara estratégia da Casa Branca: ocupar uma tribuna de grande visibilidade e repercussão para a divulgação e defesa da agenda neo-conservadora.

Parece dificil que uma personalidade como a de John Bolton possa aceitar, para citar apenas um exemplo, a ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, dando maior representatividade e eficiência aos trabalhos daquele orgão, quando isso tornaria mais complexo o processo decisório para os EUA, mesmo que sem o direito de veto.

Não me esqueço da reunião na sala de Bolton. Ao entrar em seu gabinete, ao lado da memorabilia usual, reparei, não sem um misto de surpresa e de apreensão, que, sobre sua mesa de trabalho, bem visivel, repousava um tanto ameaçador, uma granada de mão, objeto de decoração não muito usual em gabinetes de diplomatas.
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