11/10/05
O norte é o nosso interesse nacional
Rubens Antonio Barbosa


Na expectativa de obter resultados positivos na área da negociação comercial externa, onde as dificuldades são crescentes, nas últimas semanas, o Governo tentou reverter o quadro negativo, mas teve de enfrentar duas novas situações embaraçosas. Primeiro, a negociação com a China com vistas a um acordo de restrição voluntária em setores, como têxteis e calçados, esbarrou na intransigência de Beijing e deixou o Governo sem alternativa, senão regulamentar, relutantemente, o mecanismo de defesa comercial contra o rápido crescimento das exportações chinesas.

A politização das negociações impediu uma visão clara das possibilidades concretas de cooperação com a China e a melhor forma de defesa de nossos interesses comerciais. O não cumprimento pela China das intenções declaradas quando o Governo brasileiro concedeu-lhe o status de economia de mercado prejudicou esses interesses porque a burocracia adiou, por vários meses, a tomada de medidas contra a concorrência desleal de produtos chineses no mercado brasileiro.

Em seguida, a reunião de Presidentes da recém criada Comunidade Sul-Americana de Nações (CSAN) - cujo lema bem poderia ser Nosso Norte é o Sul, como sugerem Hugo Chaves e Tabaré Vasquez - terminou com cenas explícitas de indelicadezas (ausência de Tabaré, Kirchner e Uribe) e discordância pública para aprovar um documento final mais retórico do que efetivo.

A idéia da integração sul-americana, desde o momento em que foi lançada no início da década dos 90, na linha de nossos melhores interesses, ainda não está suficientemente amadurecida e encontra resistências públicas e privadas dos países da região.

A formalização da Comunidade, por iniciativa e pressão do Brasil, em dezembro de 2004, na reunião Presidencial em Cuzco, no Peru, foi, sem dúvida, um avanço conceitual. Sensibilidades personalistas aguçadas pelo protagonismo brasileiro, receio de hegemonia política e de dominação comercial, presentes naquela ocasião, contudo, reapareceram mais uma vez.

É bom recordar que os países andinos, Colômbia, Equador e Peru estão mais interessados em negociar um acordo de livre comércio com os EUA, do que integrar-se com o Brasil.

O Brasil deve continuar a liderar ações concretas para avançar, de forma objetiva, nas tres áreas definidas como prioritárias: a integração fisica, a integração energética e a financeira. As demais áreas, inclusive a institucionalização da comunidade, e outras aspirações simbólicas, serão alcançadas a médio e a longo prazo, na medida em que o Brasil possa oferecer apoio e assistência aos seus vizinhos, passe efetivamente a representar um mercado atrativo para empresas e produtos dos países da região e seja eliminada a percepção de protagonismo e de hegemonismo brasileiros, que, certo ou errado, está, explícita ou implicitamente, na raíz das resistências contra a iniciativa do Governo brasileiro.

A integração fisica e a energética dependem fundamentalmente de escassos recursos financeiros e é nessa área que o Brasil poderia dar uma significativa contribuição para promover a efetiva integração entre os países da região.

O grande desafio será o melhor aproveitamento da rede de instituições financeiras existentes na região. Tomada como base para a construção de mecanismos de financiamento, essa rede poderia ser uma primeira etapa para a criação de um Banco de Desenvolvimento do Mercosul - ou melhor ainda da América do Sul – com o objetivo de estimular a integração regional e especialmente projetos de grande porte.

O Governo brasileiro estaria estudando aumentar para US$200 milhões sua participação na Corporación Andina de Fomento (CAF). Talvez fôsse mais conveniente, segundo nosso interesse, utilizar esses recursos, no contexto da Comunidade de Nações, para a criação do Banco de Desenvolvimento da América do Sul.

É preciso fazer política de sua geografia, como dizia De Gaule. O Brasil, porém, não pode deixar de ampliar seus horizontes para além das fronteiras sul-americanas, como estão fazendo em suas regiões, a China e a India, para aproveitar o potencial do mercado global, em um mundo crescentemente interdependente.
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