24/03/2009
QUANDO LULA ENCONTRA OBAMA
Rubens Antonio Barbosa

Em 2002, quando, pela primeira vez, o recém eleito presidente Lula encontrou-se com Bush, o presidente norte-americano explicitou as diferenças ideológicas entre os dois, dizendo que, em Washington, muitos afirmavam que alguém como ele não poderia se dar bem com alguém como Lula, mas que eles estavam ali para mostrar que essas pessoas estavam erradas.

Menos de sete anos depois, no primeiro encontro do Presidente Lula com Obama, talvez numa excessiva manifestação retórica de confiança, o Itamaraty procurou ressaltar a “afinidade intelectual” entre os dois presidentes. “Obama parece com a gente”, comentou Lula.

A reunião de Washington foi certamente importante pelo seu simbolismo. Na prática, pouco vai mudar. O encontro foi o reconhecimento do novo protagonismo do Brasil - que se apresenta como um país com interesses globais - e mais um passo no sentido da gradual diferenciação do país no contexto sul-americano.

Esse tratamento diferenciado, ainda difuso na segunda metade dos anos 90 e nos primeiros anos deste século, e que se expressava pelo relacionamento pessoal dos presidentes FHC e Bill Clinton, começou a ganhar corpo na primeira visita oficial de Lula aos EUA em junho de 2003. Nessa oportunidade, o Brasil recebeu tratamento concedido apenas à União Européia, ao México e ao Canadá, com direito a um encontro presidencial privado e reunião ministerial ampliada com cerca de dez ministros de cada lado, concluída com a criação de mecanismos que institucionalizaram as relações bilaterais.

O reconhecimento da ascensão do Brasil no mundo é resultado da gradual projeção externa do Brasil e da relevância das posições brasileiras em temas de grande atualidade e prioridade na agenda global, como comércio, energia, meio ambiente e mudança de clima. A estabilidade da economia brasileira e o peso político do Brasil como potência regional, de crescente influência pelas posições moderadas que adota (comparadas com as da esquerda mais vocal da região), completam o pano de fundo que explica o tratamento que o Brasil passou a receber.

Na medida em que a participação brasileira se amplia e nossos interesses se tornam globais, as relações com os EUA vão tornar-se cruciais para nossos interesses. Essa convergência será facilitada, se preocupações político-ideológicas, que ainda perpassam algumas atitudes de nossa política externa, forem superadas, como fez publicamente o Presidente Lula em seu encontro com Obama. A percepção em Washington é de que o ex-líder sindical radical, como presidente, atua como uma liderança de esquerda, democrática e moderada. Por outro lado, os interesses e os valores defendidos pelo Brasil são coincidentes com as prioridades da política externa dos EUA para a região: democracia, estabilidade política e econômica, combate ao trafico de drogas e o livre comércio, entre outros. Na entrevista coletiva, os dois presidentes trataram basicamente de temas globais, como a crise econômica global, a reunião do G-20 no inicio de abril, o protecionismo e as questões energéticas, mencionando apenas de passagem assuntos bilaterais. Foi interessante observar a coincidência de pontos de vista nesses temas. Resta saber se as burocracias dos dois países saberão interpretar adequadamente o que foi dito pelos presidentes (houve observações restritivas logo em seguida pelo lado brasileiro).

A agenda nas reuniões privadas incluiu, como de praxe, temas bilaterais, regionais/hemisféricos e globais. Dentre os temas bilaterais, certamente estiveram presentes a queda nas trocas comerciais, as restrições ao etanol brasileiro, a cooperação em terceiros mercados, sobretudo no Haiti, em países africanos (energia e medicamentos) e o caso do garoto cujo pai americano reclama sua volta. Temas hemisféricos, como a Cúpula das Américas, em meados de abril, e regionais e como o relacionamento da Venezuela, da Bolivia e do Equador com os EUA também devem ter sido tratados. A reintegração de Cuba ao sistema interamericano com a suspensão do embargo norte-americano (“tema inevitável”) encontrou ouvidos pouco receptivos de Obama, que já flexibilizou restrições introduzidas por Bush no tocante a visitas à Ilha e à remessa de recursos financeiros a parentes que vivem em Cuba.

Quanto às negociações comerciais e ao protecionismo, foram claras as diferenças de posição. Enquanto Lula pedia a retomada dos entendimentos da Rodada de Doha, criticava o protecionismo, simbolizado pelo Buy America e pelas restrições ao etanol, Obama reconhecia que, em meio a uma crise tão grave, será difícil avançar as negociações multilaterais de comércio e suspender as restrições ao produto brasileiro. A segurança energética do continente e as questões relacionadas com meio ambiente e mudança de clima foram abordadas de maneira não conflitiva, tendo em vistas as correções feitas no inicio do governo democrata.

Dois aspectos foram pouco notados na visita. Em primeiro lugar, o tom professoral na entrevista coletiva em que – colocando-se como porta-voz da região - Lula aproveitou para didaticamente ensinar Obama que os EUA deveriam olhar a América Latina com a “ótica certa”, isto é, reconhecendo as mudanças políticas e sociais dos últimos anos e agir não como fiscais, impondo soluções, mas como parceiros. Em segundo lugar, Lula, falando para o público brasileiro, aproveitou para enfatizar a responsabilidade dos EUA pela crise econômica global, pela queda do crescimento da economia brasileira e pelo aumento do desemprego. Ao procurar distanciar seu governo dos resultados negativos, jogou, a culpa nos EUA e cobrou de Obama resultados para superar o “pepino” que herdara de Bush.

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