11/01/2005
Os EUA e o Oriente Médio
Rubens Antonio Barbosa

Plenamente legitimado pelas urnas, George W. Bush assume seu segundo mandato, no dia 20 de janeiro.
Fortalecer um amplo consenso internacional em torno de tres grandes objetivos - construir instituições multinacionais e multilaterais efetivas, combater o terrorismo e promover a democracia - é o que o Presidente norte-americano, em pronunciamentos públicos, vem indicando como prioridades de sua política externa nos próximos quatro anos.

Para a comunidade internacional o problema é que Bush quer avançar essa importante agenda em seus próprios termos.

No novo mandato, o presidente norte-americano enfrentará grandes desafios na política externa. O mundo está muito mais complicado do que no momento em que assumiu seu primeiro mandato. Os EUA encontram-se sobrecarregados em virtude do difuso e nem sempre efetivo combate ao terrorismo e das custosas guerras (inclusive em termos de vidas humanas) no Afeganistão e no Iraque, tres conflitos que se desenvolvem ao mesmo tempo.

Apesar dessas grandes dificuldades e pressões, Bush e a nova Secretaria de Estado, Condoleezza Rice, deverão dar sequência ao ambicioso projeto de promover a democracia e a liberdade no Oriente Médio, anunciado pelo governo norte-americano há cerca de dois anos.

A “Iniciativa Grande Oriente Médio” inclui 22 países árabes, a Turquia, Israel, Paquistão e Afeganistão. A iniciativa compreende uma variada gama de ações nas áreas diplomática, cultural, educacional, econômica e financeira. Prevê a cooperação e a realização de eleições diretas, criação de imprensa independente, a assistência para educação de base, criação de Banco de Desenvolvimento para o Oriente Médio e a doação de US$ 500 milhões para pequenos empresários, especialmente mulheres.

Como seria possível antecipar, a Iniciativa foi recebida com ceticismo e reação negativa pela quase totalidade dos paises árabes e não árabes da região.

Os países viram na iniativa um ato unilateral dos EUA, que, sem levar em conta suas peculiaridades políticas, econômicas, sociais e culturais, visaria a estabelecer, de fora para dentro, segundo modelos e padrões ocidentais, um tipo de democracia formal pouco fundamentada nas realidades locais, inclusive religiosas.

Essa Iniciativa, na prática, já vem sendo implementada no Afeganistão e no Iraque, onde, pela força das armas norte-americanas, os EUA buscam instalar regimes democráticos a partir de eleições fictícias e não representativas.

Se eleições livres forem realizadas na Árabia Saudita, nos Emirados Arabes, no Irã e nos demais países do Oriente Médio seria fácil prever a derrota dos atuais governantes que, ironicamente, apoiam quase incondicionalmente os EUA e a vitoria de grupos ou partidos violentamente anti-americanos.

O Reino Unido – como vem acontecendo rotineiramente nos últimos anos, sobretudo no que diz respeito aos assuntos do conflito Israel-Palestina, da guerra do Iraque e agora do grande Oriente Médio - veio em apoio dos EUA.

Buscando apresentar a “Iniciativa Grande Oriente Médio” aos demais países europeus de forma mais palatável e diminuir as resistências dos países da região, o governo Tony Blair lançou, há alguns meses, a versão britânica do projeto de reforma democratica para a região.

O Reino Unido insistiu em dois aspectos muito significativos e importantes. Primeiro, levar em consideração as peculiaridades do mundo árabe, visto que o respeito a esses países pressupõe o entendimento de que as soluções para os desafios políticos que a região enfrenta não devem ser ditadas de fora, mas em parceria; segundo, desfazer mitos presentes sempre que se discute democracia no mundo árabe, sobretudo o de que o islamismo é incompatível com a democracia e o de que a evolução no sentido de uma sociedade democrática pluralista não significa o sacrifício da religião e dos valores tradicionais. Os valores que se busca promover (boa governança, direitos humanos, primado da lei, tolerância, pluralismo) estão definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujas fontes estão nas tradições e valores de todos os países e são compatíveis com todas as fés religiosas.

Caso bem sucedida, será uma transformação lenta, em alguns casos traumática, e que seja sustentável nos paises em que estejam ocorrendo.

Essa iniciativa, no entanto, corre serio risco de enfrentar forte oposição especialmente por ser vista como mais uma ingerência unilateral dos EUA, cujo objetivo último seria o de combater o terrorismo pela transformação de práticas e valores secularmente exisitentes nessas sociedades e manter uma presença efetiva em uma região vital para os interesses energéticos norte-americanos em decorrência da dependência do petróleo.

A previsível reação a essas transformações será ainda maior se dois outros fatores não forem igualmente enfrentados pelos EUA: a solução negociada para o conflito Israel-Palestina, com a criação do Estado palestino e o reconhecimento do Estado de Israel e a segurança de suas fronteiras, de um lado, e, de outro, a estabilização do Iraque com a retirada das tropas dos EUA.

A ausência de avanços políticos nessas áreas poderá atropelar a Iniciativa Grande Oriente Médio e tornar ainda mais difíceis os desafios da política externa do segundo mandato de Bush.

Os EUA lançaram unilateralmente e informaram o G-7 um processo de transformação dos países da região, mas o exemplo do Iraque e o dos planos de paz para o conflito Israel-Palestina mostram que no Oriente Médio a imposição negociada de modelos pode acarretar resultados exatamente opostos aos desejados.

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