23/09/2008
Visão Estratégica
Rubens Antonio Barbosa

No século IV Antes de Cristo, o general chinês, Sun Tzu, em A Arte da Guerra, já ensinava que em matéria de estratégia não pode haver movimento inútil e, na tática, jamais um passo em falso.

Veio-me a lembrança esse milenar ensinamento, ao analisar o atual panorama político nacional, em especial a eleição para prefeito na cidade de São Paulo, pelas implicações e desdobramentos que poderá vir a ter no quadro sucessório em 2010.

As eleições do próximo dia 5 de outubro representam um primeiro movimento no tabuleiro da eleição presidencial. Os principais partidos ensaiam as táticas e estratégias com as quais poderão melhor negociar suas respectivas participações, para quando for dada a largada para o jogo sucessório, no início do ano que vem.

Que implicações estratégicas podemos identificar a partir dos resultados nas urnas em outubro próximo?

O principal objetivo estratégico do PT é o de buscar, sem medir esforços, a vitória em São Paulo. A percepção de ampla vitória do PT nas eleições nas capitais depende do resultado de São Paulo. Se vencer, o Partido poderá proclamar-se como o grande vencedor nos principais estados (São Paulo e Minas) e estará quebrada a hegemonia do PSDB na capital. Em consequência, ficará fortalecida uma candidatura petista, com poder de voto comprovado, para pavimentar o caminho em 2010, seja para o Governo estadual, seja para o federal. Para a execução dessa estratégia, não faltam nem recursos, nem o emprenho total do Partido e do Presidente Lula. Se perder aqui, o PT terá vencido apenas algumas das capitais do nordeste.

No caso de vitória em São Paulo, uma candidatura do PT à presidência sairá enormemente fortalecida. A tentação de um terceiro mandato ganhará um impulso significativo, reforçada pelo nível cada vez mais elevado da popularidade presidencial. Desengavetando a reforma política, o governo parece querer aprová-la logo depois das eleições municipais para que fiquem bem definidas as regras eleitorais de 2010. Diante da situação de imobilismo e aparente falta de objetivos claros por parte das oposições, porquê não haveria o PT de tentar alterar as regras sobre a reeleição, na esteira dos resultados eleitorais de outubro próximo? Afinal, se até o Presidente Uribe da Colômbia está buscando o terceiro mandato, seguindo os passos de Chaves, Morales e outros.

Por outro lado, a candidata do PT, se eleita para a prefeitura de São Paulo, se projetará como uma alternativa viável a presidência, pois estaria representando a grande máquina de votos no partido. Nenhum outro nome no PT parece dispor dessa credencial. Além disso, a capacidade de transferir votos tem suas limitações, como se verá em uma série de resultados eleitorais. Assim, a candidata petista ficaria em uma posição de força para ser a escolhida em 2010, pela militância e pela maquina partidária. Isso, apesar das resistências de Lula, que já teria informado o Partido que a candidatura a presidente terá de vir de fora de São Paulo.

Do ponto de vista do PT, existe uma estratégia, que, se bem sucedida, poderá ter resultados concretos quando começarem as movimentações políticas visando à eleição de 2010.

Do ângulo do PSDB, fica a dúvida sobre a eficácia da estratégia em São Paulo com vistas à sucessão presidencial. Qual o objetivo real definido pelos formuladores da política do partido para vencer as eleições de outubro? Afinal, trata-se de manter o controle da maior cidade do país, do maior colégio eleitoral dentre todas as capitais brasileiras e do terceiro maior orçamento da união. Para o partido chegar com sucesso a Brasília, antes há que ganhar em São Paulo.

O PSDB, que domina a cena paulista há 14 anos e a paulistana há quatro, sairá enfraquecido, caso se confirme a perda da capital do estado mais importante da federação, e onde o partido tem sua principal base política.

É difícil imaginar o sucesso de uma estratégia para a eleição presidencial que passe por uma improvável concertação petista-pessedebista, na qual um candidato do PSDB venha a ser apoiado (mesmo informal e indiretamente) pelo PT. Apesar de alguns acreditarem nessa hipótese e na possibilidade de uma sucessão tranqüila nos quatro anos a partir de 2010, os desafios para essa hipótese são enormes. Além da dificuldade de convencer o PT, fortalecido com o eventual sucesso eleitoral em São Paulo, como reagiriam as militâncias do PT e do PSDB, que lutarão por uma candidatura própria dentro de um projeto de poder distinto?

Há algumas coisas que não se deve perder nunca. A face, por exemplo, é uma delas.

Dificilmente, o PSDB em São Paulo deixaria de perder a face diante de um resultado negativo nas urnas na eleição municipal. Como justificar o racha partidário e a dualidade de candidaturas? Como explicar a divisão das forças políticas que, somadas, teriam grandes chances de vencer a eleição? Como ficaria a correlação de forças dentro do próprio partido, paralisado por um fracionamento autodestrutivo?

Os resultados das últimas pesquisas parecem indicar que a eleição deverá ser muito equilibrada e que deverá haver segundo turno. Nessa hipótese, seriam grandes as chances do PSDB, em coligação, com qualquer dos dois candidatos, vencer a disputa pela Prefeitura.

No caso de vitoria do PSDB, o PT, fragilizado, deverá repensar seu planejamento para a eleição ao governo de São Paulo e à Presidente da República. O PSDB, dividido, terá ultrapassado a etapa inicial do projeto político de 2010. Sem perda de tempo, contudo, deverá começar a pensar seriamente na estratégia para a eleição não só para o Palácio Bandeirantes, onde enfrentará de novo uma candidatura forte do PT, como para o Palácio do Planalto.

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